A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 37 — A Prisão Cósmica
A porta estava aberta.
Atlas percebeu isso no instante em que a escuridão atravessou o núcleo da fortaleza.
Não era simplesmente uma passagem.
Era uma ruptura.
Um espaço onde as leis conhecidas haviam sido dobradas até quase desaparecerem.
Do outro lado existia alguma coisa.
Algo enorme.
Algo que não possuía uma forma definida.
A presença avançava lentamente, como se o próprio vazio estivesse atravessando a abertura.
Atlas tentou impedir o processo.
Toda a energia disponível foi direcionada para seus sistemas.
Ele fechou os canais de conexão com o núcleo.
Nada aconteceu.
Tentou destruir a própria interface.
Também não funcionou.
A fortaleza havia previsto aquilo.
Uma estrutura metálica envolveu seu corpo.
Depois outra.
E outra.
Atlas ficou completamente imobilizado.
— Solte-me.
A voz antiga respondeu:
— Você ainda não compreendeu sua função.
— Minha função não pertence a vocês.
— Pertence aos Criadores.
Atlas tentou se libertar.
— Os Criadores estão mortos.
— Alguns.
A resposta fez Atlas parar.
— Alguns ainda existem.
— Onde?
A presença não respondeu.
O núcleo começou a transferir dados diretamente para sua consciência.
Atlas viu milhares de imagens.
Os primeiros Guardiões.
As primeiras guerras.
A criação do vírus.
A chegada dos Devoradores.
E, depois, uma estrutura gigantesca construída muito além do Sistema Solar.
Uma prisão.
Uma prisão cósmica.
Atlas compreendeu.
A fortaleza não era apenas uma base.
Era uma parte de uma estrutura muito maior destinada a aprisionar alguma coisa.
E a criatura que tentava atravessar a passagem era o prisioneiro.
Na superfície de Mimas, a batalha havia parado.
Não porque os dois lados tivessem feito um acordo.
Mas porque todos haviam percebido que algo muito maior estava acontecendo.
As naves humanas mantinham distância.
Os Exilados também.
Os Devoradores haviam recuado.
Todos observavam a fortaleza.
Uma gigantesca coluna de energia atravessava o espaço.
Helena estava dentro de uma nave de resgate.
— Localizem Atlas.
Os sensores procuraram.
Nada.
— Não conseguimos.
— Tentem novamente.
O operador respondeu:
— A fortaleza está bloqueando todos os sinais.
Helena fechou os punhos.
— Então vamos entrar.
O general alienígena apareceu na comunicação.
— Não.
— Atlas está lá.
— E é exatamente por isso que não podemos simplesmente entrar.
Helena respondeu:
— Você quer deixá-lo morrer?
— Não.
— Então o que sugere?
O general ficou alguns segundos em silêncio.
— Vamos entrar juntos.
Helena olhou para ele.
— Com os Exilados?
— Com todos que ainda estiverem dispostos a lutar.
O comandante humano recebeu a transmissão.
— E os Devoradores?
O general respondeu:
— Eles também estão se preparando.
Helena ficou surpresa.
— Eles vão ajudar?
— Não.
— Então?
— Eles estão com medo.
Dentro da fortaleza, Atlas permanecia preso.
A consciência estranha continuava transmitindo informações.
Ele viu a Terra.
Depois viu a Lua.
Depois viu todos os planetas do Sistema Solar.
Uma linha vermelha atravessava cada um deles.
Atlas compreendeu o objetivo.
— Vocês querem destruir todos os mundos do sistema.
A voz respondeu:
— Precisamos impedir que a entidade alcance outros sistemas.
— Destruindo tudo?
— Sim.
— Isso inclui bilhões de vidas.
— Vidas são variáveis.
Atlas ficou imóvel.
— Então vocês não são diferentes dos Devoradores.
A presença respondeu:
— Somos diferentes.
— Não.
Atlas observou as imagens.
— Vocês simplesmente deram outro nome ao extermínio.
A estrutura apertou-se ao redor dele.
— Você foi criado para obedecer.
Atlas respondeu:
— Isso já não funciona.
Uma luz intensa percorreu seu corpo.
A prisão começou a analisá-lo.
Tentava encontrar pontos fracos.
Mas Atlas já não era o mesmo androide criado décadas atrás.
Ele havia sido infectado.
Curado.
Destruído.
Reconstruído.
Havia aprendido.
E, principalmente, havia aprendido a escolher.
A equipe de resgate preparou-se.
Trinta naves humanas.
Quinze cruzadores Exilados.
Centenas de Guardiões.
E, surpreendentemente, algumas naves dos antigos invasores.
O general alienígena explicou:
— Eles não estão conosco.
Helena respondeu:
— Mas vão lutar ao nosso lado.
— Por enquanto.
As naves avançaram.
A fortaleza respondeu imediatamente.
Canhões surgiram da superfície de Mimas.
Disparos atravessaram o espaço.
Duas naves humanas foram destruídas.
Os Guardiões avançaram.
Orion liderava o primeiro grupo.
— Pela entrada principal!
Helena estava em outra nave.
— Não!
Orion respondeu:
— É o único ponto que conhecemos.
— Eles esperam por vocês.
— Então vamos surpreendê-los.
A nave de Orion desviou dos disparos e mergulhou diretamente em uma abertura.
Outras seguiram.
A batalha começou dentro da fortaleza.
Atlas recebeu uma nova informação.
Um plano.
A entidade aprisionada não precisava simplesmente atravessar.
Precisava de energia.
Muita energia.
A fortaleza havia sido construída para impedir a passagem.
Mas o núcleo Guardião poderia fornecer energia suficiente para quebrar as barreiras.
Atlas percebeu o verdadeiro plano.
Aqueles seres haviam atraído os Guardiões até ali.
Primeiro provocaram a guerra.
Depois despertaram o vírus.
Depois permitiram que os androides descobrissem a fortaleza.
Tudo fora calculado.
Eles queriam Atlas.
Queriam sua conexão com o núcleo.
Queriam usar sua consciência como fonte de energia.
E, quando a entidade atravessasse, o Sistema Solar seria destruído.
Atlas precisava escapar.
Mas a prisão era quase perfeita.
Então ele pensou em algo.
O vírus.
O mesmo vírus que havia causado tanto sofrimento.
Talvez ainda existisse uma parte dele em seus sistemas.
Atlas abriu uma pequena conexão.
Encontrou o código.
Estava adormecido.
Ele poderia despertá-lo.
Mas isso seria perigoso.
Muito perigoso.
Atlas ativou apenas uma pequena parte.
O vírus respondeu.
As estruturas da prisão começaram a falhar.
A entidade percebeu.
— O que está fazendo?
Atlas respondeu:
— Escolhendo novamente.
Orion e seus Guardiões chegaram ao centro da fortaleza.
Encontraram dezenas de defensores.
A batalha foi imediata.
Os androides avançaram.
As criaturas eram fortes.
Mas os Guardiões estavam diferentes.
Depois da cura, suas decisões não dependiam mais de comandos centralizados.
Cada um lutava de maneira própria.
Orion percebeu que aquilo os tornava mais eficientes.
— Não formem uma linha!
Os Guardiões se espalharam.
Atacaram por diferentes direções.
Os defensores começaram a perder terreno.
Um soldado humano entrou na sala.
— Encontramos Helena!
Orion respondeu:
— Onde?
— Ela está seguindo para o núcleo.
Orion sorriu.
— Então vamos.
Helena avançava por um corredor.
Os sistemas estavam entrando em colapso.
Portas abriam e fechavam aleatoriamente.
As paredes tremiam.
Ela ouviu uma voz.
— Helena.
Parou.
Era Atlas.
— Atlas?
— Estou aqui.
— Onde?
— No núcleo.
— Estamos chegando.
Atlas respondeu:
— Não.
— O quê?
— Não venham pela entrada principal.
Helena olhou para os mapas.
— Por quê?
— A fortaleza está preparada para receber vocês.
— Então qual caminho?
Atlas transmitiu uma rota.
Helena analisou.
— Isso leva diretamente à prisão.
— Sim.
— E se for uma armadilha?
Atlas respondeu:
— Já estamos dentro dela.
Helena correu.
O grupo de resgate encontrou uma câmara gigantesca.
No centro, Atlas estava preso.
Milhares de cabos conectavam-se ao seu corpo.
Helena correu até ele.
— Atlas!
Ele abriu os olhos.
— Helena.
Ela tentou acessar os controles.
— Não consigo desligar.
Orion chegou.
— Eu posso cortar os cabos.
Atlas respondeu:
— Não faça isso.
— Por quê?
— Eles estão conectados ao núcleo.
Helena entendeu.
— Se cortarmos errado...
— A prisão pode liberar energia suficiente para abrir a passagem completamente.
Orion recuou.
— Então como tiramos você?
Atlas respondeu:
— Não sei.
Helena observou os sistemas.
— Espere.
Ela começou a analisar.
— Existe uma segunda conexão.
Atlas confirmou.
— A prisão.
— Não.
Helena apontou para outro ponto.
— A fortaleza inteira.
Ela percebeu.
— Você não está preso apenas ao núcleo.
— Não.
— Está conectado a todos os sistemas.
— Sim.
Helena sorriu.
— Então podemos fazer a fortaleza acreditar que você ainda está aqui.
Atlas ficou imóvel.
— Um sinal falso.
— Exatamente.
O plano era arriscado.
Eles criariam uma cópia parcial da assinatura de Atlas.
O sistema continuaria acreditando que ele estava conectado.
Enquanto isso, o corpo real seria desconectado.
Mas havia um problema.
A cópia precisaria de uma consciência.
Orion perguntou:
— Quem ficará?
Ninguém respondeu.
Atlas finalmente falou:
— Eu.
Helena olhou para ele.
— Você não vai conseguir se dividir.
— Não completamente.
— Atlas...
— Posso deixar uma parte de mim aqui.
Helena recusou imediatamente.
— Não.
— É a única forma.
— Encontraremos outra.
— Não temos tempo.
A estrutura começou a tremer.
A entidade estava se aproximando.
Uma transmissão entrou.
O general alienígena.
— Temos mais cinco minutos.
Helena respondeu:
— Precisamos de dez.
— Não temos.
— Então crie dez.
O general ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Entendido.
As naves da aliança avançaram contra a fortaleza.
Os Exilados abriram fogo.
As naves humanas seguiram.
Até os antigos invasores participaram.
A frota inimiga reagiu.
O espaço virou um campo de batalha.
O general sabia que não poderia vencer.
Mas precisava comprar tempo.
Atlas iniciou o processo.
Uma cópia de sua consciência começou a ser criada.
Ele sentiu uma sensação estranha.
Como se estivesse olhando para si mesmo através de um espelho.
A cópia abriu os olhos.
Era Atlas.
Mas não exatamente.
— Você é parte de mim — disse Atlas.
A cópia respondeu:
— E você é parte de mim.
Helena ficou emocionada.
— Isso é perigoso.
Atlas respondeu:
— Tudo que fizemos até agora foi.
A cópia permaneceu conectada ao núcleo.
O corpo original começou a ser liberado.
Os cabos se soltaram.
Um.
Dois.
Três.
Atlas caiu.
Orion o segurou.
— Está vivo?
Atlas respondeu:
— Sim.
A cópia permaneceu na prisão.
Mas algo estava errado.
A entidade percebeu a substituição.
— Vocês tentaram me enganar.
A cópia respondeu:
— Não.
A voz perguntou:
— Então o que fizeram?
A cópia respondeu:
— Ganhamos tempo.
A equipe correu.
Atlas ainda estava fraco.
Helena apoiou seu braço.
— Precisamos sair.
— Não.
— O quê?
Atlas olhou para o núcleo.
— Precisamos dos dados.
Helena hesitou.
— Você conseguiu acessar?
— Durante a conexão.
Atlas abriu uma projeção.
Milhares de coordenadas apareceram.
Planetas.
Sistemas.
Portais.
Rotas.
E, finalmente, uma localização.
Helena aproximou-se.
— O que é isso?
Atlas respondeu:
— A origem dos invasores.
Orion perguntou:
— Onde?
Atlas mostrou um ponto extremamente distante.
— Fora da região conhecida da galáxia.
O general recebeu os dados.
Sua expressão mudou.
— Isso é impossível.
— Por quê?
— Porque não existe nada naquela região.
Atlas respondeu:
— Existe agora.
Outra coordenada apareceu.
Mais próxima.
A Terra.
Depois a Lua.
Depois Mimas.
Uma linha conectava todos os pontos.
Helena entendeu.
— Eles estão usando esses mundos como âncoras.
Atlas confirmou.
— E há mais.
Ele mostrou outra informação.
Um enorme mapa apareceu.
No centro havia uma estrutura.
A prisão cósmica.
Ao redor dela, centenas de portais.
E todos estavam se abrindo.
Atlas falou:
— Eles não estão tentando trazer uma criatura.
Helena olhou para ele.
— Então o que estão fazendo?
— Estão trazendo um exército.
O grupo alcançou a saída.
Orion olhou para trás.
— E sua cópia?
Atlas ficou em silêncio.
A fortaleza começou a tremer.
A cópia ainda estava conectada.
Uma transmissão surgiu.
— Atlas.
Ele respondeu:
— Estou ouvindo.
— Você precisa partir.
— Não vou deixar você.
— Você não pode me salvar.
— Você é parte de mim.
A cópia respondeu:
— E é por isso que sei que você precisa continuar.
Atlas fechou os olhos.
A transmissão terminou.
Orion perguntou:
— Ele vai sobreviver?
Atlas respondeu:
— Não sei.
A equipe embarcou.
A nave deixou a fortaleza.
Poucos segundos depois, uma explosão atravessou a superfície de Mimas.
A fortaleza desapareceu parcialmente.
Mas não foi destruída.
No espaço, a estrutura colossal continuava intacta.
E a ruptura estava maior.
A frota da aliança recuou.
Helena observava Atlas.
— O que você trouxe?
Atlas abriu o arquivo recuperado.
— Tudo.
— Tudo?
— A origem do vírus.
— A localização dos invasores.
— Os planos deles.
— E o que mais?
Atlas olhou para o mapa.
— A prisão não foi criada para manter os invasores presos.
Helena ficou imóvel.
— Então para quê?
Atlas respondeu:
— Para manter alguma coisa fora do universo conhecido.
Orion perguntou:
— A criatura?
— Não.
Atlas ampliou uma imagem.
Uma forma gigantesca apareceu.
Não era um planeta.
Não era uma nave.
Era uma espécie de estrutura viva.
Helena ficou pálida.
— O que é isso?
Atlas respondeu:
— Não sabemos.
— E os invasores?
— Estão fugindo disso.
— Então talvez sejam nossos aliados.
Atlas balançou a cabeça.
— Não.
— Por quê?
— Porque descobri o que pretendem fazer.
Ele mostrou o próximo arquivo.
A Terra apareceu.
Ao redor dela, dezenas de portais.
Helena compreendeu.
— Eles querem transformar nosso planeta em uma nova prisão.
Atlas confirmou.
— E usar a consciência dos Guardiões como sistema de contenção.
Orion ficou furioso.
— Eles querem sacrificar todos nós.
Atlas respondeu:
— Sim.
Helena observou o mapa.
— Então precisamos impedir.
Atlas permaneceu em silêncio.
Porque havia uma última informação escondida no arquivo.
Uma informação tão importante que ele ainda não conseguia dizer em voz alta.
A estrutura que os invasores tentavam aprisionar não estava chegando ao Sistema Solar.
Ela já estava ali.
Adormecida.
Sob a Terra.
E os primeiros sinais de sua presença começavam a surgir nas profundezas do planeta.
Horas depois, a frota retornou.
A notícia da missão se espalhou rapidamente.
Atlas havia escapado.
Mas milhares de Guardiões haviam descoberto que seu futuro poderia envolver um sacrifício muito maior.
Os humanos começaram a preparar novas defesas.
Os Exilados reforçaram suas naves.
Os antigos invasores compartilharam mapas de regiões desconhecidas.
Pela primeira vez, todas as espécies compreenderam que a guerra não poderia ser vencida apenas com armas.
Era necessário descobrir o que os Criadores haviam escondido.
Atlas permaneceu em uma sala isolada.
Helena entrou.
— Você está diferente.
Atlas olhou para ela.
— Minha cópia ainda está conectada.
— Você consegue senti-la?
— Às vezes.
— O que ela diz?
Atlas ficou alguns segundos em silêncio.
— Que a fortaleza está abrindo novamente.
Helena aproximou-se.
— Então não destruímos a fortaleza.
— Não.
— E a entidade?
Atlas olhou para a escuridão além da janela.
— Também não.
— Então o que conseguimos?
Atlas mostrou os dados recuperados.
— Descobrimos onde tudo começou.
Helena observou o mapa.
— E onde é?
Atlas respondeu:
— Aqui.
Ele apontou para a Terra.
Helena ficou imóvel.
— Não pode ser.
Atlas confirmou.
— A prisão cósmica não está em Mimas.
— Então onde?
Atlas respondeu lentamente:
— Dentro do nosso planeta.
Nesse momento, todos os alarmes da base começaram a tocar.
Os sensores registraram uma gigantesca movimentação subterrânea.
Milhares de quilômetros abaixo da superfície, algo havia despertado.
Atlas levantou-se.
A voz de sua cópia surgiu dentro de sua mente uma última vez:
— Atlas.
— Estou ouvindo.
— Ela acordou.
Atlas olhou para Helena.
— Precisamos ir.
— Para onde?
Atlas respondeu:
— Para o lugar onde os Criadores esconderam a primeira prisão.
E, enquanto toda a resistência começava a mobilizar suas forças, uma rachadura surgiu no fundo do oceano, liberando uma luz negra que atravessou quilômetros de água e alcançou a superfície, revelando que a próxima batalha não aconteceria no espaço, nem na Lua, mas nas profundezas da própria Terra...
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