A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 38 — O Último Plano
A luz negra continuava subindo do fundo do oceano.
Durante horas, os satélites da aliança acompanharam o fenômeno sem conseguir determinar sua origem. A princípio, os cientistas acreditaram que se tratava de uma nova ruptura espacial. Depois perceberam que estavam diante de algo muito pior.
A luz não vinha do espaço.
Vinha de dentro da Terra.
Milhares de quilômetros abaixo da crosta, uma estrutura colossal estava despertando.
Atlas observava as imagens na sala de comando.
Ao seu redor estavam Helena, Orion, o general dos Exilados e representantes das forças humanas.
Ninguém falava.
Finalmente, um cientista quebrou o silêncio.
— Encontramos uma cavidade.
Helena aproximou-se do monitor.
— Onde?
— Sob o oceano. Aproximadamente seis mil quilômetros de profundidade.
— Isso é impossível.
— Eu sei.
O cientista ampliou a imagem.
Uma gigantesca estrutura apareceu.
Era circular.
Tinha centenas de quilômetros de diâmetro.
E estava conectada a uma rede de túneis que atravessava o interior do planeta.
Atlas analisou os dados.
— Não é uma construção.
Helena olhou para ele.
— Como sabe?
— Porque está viva.
A sala ficou em silêncio.
A estrutura pulsava.
Cada pulsação provocava pequenas alterações gravitacionais.
Atlas percebeu algo ainda mais perturbador.
— Ela está acordando por causa da energia que liberamos em Mimas.
O general alienígena fechou os olhos.
— Então o nosso ataque acelerou o processo.
— Sim.
Helena perguntou:
— Quanto tempo temos?
Atlas calculou.
— Menos de vinte horas.
Um oficial humano perguntou:
— Até o quê?
Atlas respondeu:
— Até que ela desperte completamente.
O oficial engoliu em seco.
— E quando isso acontecer?
Atlas olhou para a imagem da estrutura.
— Descobriremos.
A reunião de emergência começou imediatamente.
As forças da aliança estavam espalhadas pelo planeta.
Cidades ainda eram reconstruídas.
Bases militares permaneciam parcialmente destruídas.
Milhões de pessoas viviam em abrigos.
A frota espacial havia retornado recentemente da batalha em Mimas.
E agora todos precisavam preparar uma nova ofensiva.
Dessa vez, o alvo não estava no espaço.
Estava dentro da Terra.
A estratégia parecia impossível.
Primeiro, as naves humanas e Exiladas deveriam proteger as cidades contra qualquer ataque externo.
Segundo, uma força conjunta desceria até a região oceânica onde a estrutura estava localizada.
Terceiro, os Guardiões infiltrariam-se na estrutura.
Quarto, Atlas tentaria acessar o sistema central e descobrir como impedir o despertar.
O quinto ponto era o mais perigoso.
Ninguém sabia o que aconteceria se falhassem.
O general dos Exilados foi direto:
— Se essa coisa despertar completamente, talvez não possamos detê-la.
Um comandante humano perguntou:
— Então qual é o plano?
Atlas respondeu:
— Não vamos destruí-la.
Todos olharam para ele.
— Por quê?
— Porque não sabemos o que ela é.
Helena concordou.
— Se destruirmos uma estrutura desconhecida no interior da Terra, podemos provocar uma reação geológica catastrófica.
Atlas continuou:
— Precisamos descobrir sua função.
O general perguntou:
— E se a função for destruir o planeta?
Atlas respondeu:
— Então destruiremos a estrutura.
— E se não houver tempo?
Atlas olhou para todos.
— Então criaremos tempo.
A estratégia recebeu um nome simples entre os soldados.
O Último Plano.
Não porque fosse necessariamente a última batalha.
Mas porque não havia outra estratégia depois dela.
As forças começaram a se movimentar.
Naves de transporte partiram de diferentes continentes.
Submarinos militares foram adaptados com tecnologia Exilada.
Guardiões receberam novas armaduras.
Humanos carregaram equipamentos experimentais.
Cientistas instalaram sensores capazes de suportar as condições extremas do interior do planeta.
A preparação durou horas.
Atlas caminhava entre os androides.
Havia milhares deles.
Alguns eram modelos antigos.
Outros haviam sido construídos durante a guerra.
Alguns ainda possuíam marcas das batalhas anteriores.
Atlas observou cada unidade.
— Muitos de vocês perguntam por que estamos lutando.
Nenhum respondeu.
— Não vou dizer que precisamos lutar porque fomos programados para isso.
Os olhos dos Guardiões permaneceram voltados para ele.
— Também não vou dizer que precisam proteger os humanos porque essa é nossa função original.
Atlas fez uma pausa.
— Estamos aqui porque escolhemos estar.
Orion aproximou-se.
— E se escolhermos não voltar?
Atlas respondeu:
— Então essa escolha também será respeitada.
Um Guardião mais jovem perguntou:
— E você?
Atlas olhou para ele.
— Eu vou.
— Mesmo sabendo o risco?
— Principalmente por saber o risco.
O androide baixou a cabeça.
Depois outro se aproximou.
E outro.
Em poucos segundos, centenas de Guardiões formaram uma linha.
Orion sorriu.
— Acho que já respondeu.
Atlas observou seus companheiros.
— Então vamos.
Enquanto os androides se preparavam, os humanos faziam algo diferente.
Despediam-se.
Nos abrigos, famílias abraçavam soldados.
Pais seguravam filhos.
Companheiros trocavam últimas palavras.
Alguns soldados escreviam cartas.
Outros gravavam mensagens.
Ninguém sabia se voltaria.
Uma jovem soldada permaneceu diante de uma tela, gravando uma mensagem para sua família.
— Se vocês estiverem vendo isso, significa que eu não consegui voltar.
Ela respirou fundo.
— Mas não quero que pensem que tive medo.
Parou.
Depois sorriu.
— Na verdade, tive.
A gravação terminou.
Em outra cidade, um homem entregou uma fotografia à esposa.
— Guarde isso.
— Você vai voltar.
Ele não respondeu.
Apenas a abraçou.
Em um abrigo subterrâneo, crianças observavam Guardiões passando pelos corredores.
Uma delas perguntou:
— Vocês vão salvar a gente?
O androide parou.
— Sim.
— Como sabe?
O Guardião respondeu:
— Porque decidimos tentar.
A criança sorriu.
— Então boa sorte.
O androide continuou caminhando.
Mas, depois de alguns metros, parou novamente.
Virou a cabeça.
E respondeu:
— Obrigado.
Na base principal, Helena encontrou Atlas sozinho.
— Está pronto?
— Não.
Ela sorriu.
— Isso foi inesperado.
Atlas respondeu:
— Ninguém está pronto para uma coisa que não compreende.
Helena sentou-se ao lado dele.
— Você ainda sente a sua cópia?
Atlas permaneceu em silêncio.
— Sim.
— E o que ela diz?
— Está ficando fraca.
Helena baixou os olhos.
— Talvez ela esteja morrendo.
— Talvez.
— Você se importa?
Atlas demorou.
— Ela sou eu.
Helena olhou para ele.
— Então você está com medo.
Atlas ficou imóvel.
— Sim.
Era a primeira vez que dizia aquilo diretamente.
Helena sorriu discretamente.
— Então talvez você tenha se tornado mais humano do que imagina.
Atlas respondeu:
— Talvez os humanos também tenham se tornado mais máquinas do que imaginam.
Ela riu.
Por alguns segundos, a guerra desapareceu.
Depois os alarmes tocaram.
A estrutura subterrânea havia emitido outra pulsação.
Dessa vez, a Terra inteira tremeu.
As forças começaram o ataque.
No oceano, centenas de naves e submarinos avançaram para o ponto de entrada.
No espaço, a frota da aliança formou uma barreira.
Os Devoradores observavam à distância.
Algumas de suas naves permaneceram próximas da Terra.
O general alienígena recebeu uma transmissão deles.
— Eles estão preparando alguma coisa.
— Nós sabemos.
— Se a entidade despertar, destruirá todos nós.
O general respondeu:
— Então lutem.
Houve silêncio.
Depois:
— Pela primeira vez, talvez lutemos do mesmo lado.
O general encerrou a transmissão.
Helena ouviu.
— Você confia neles?
— Não.
— Então por que aceitou?
— Porque o inimigo do meu inimigo continua sendo um inimigo.
Ela franziu a testa.
— Isso não faz sentido.
— A guerra nunca fez.
A primeira força entrou no oceano.
Os submarinos avançaram até uma região onde a água estava estranhamente quente.
Sensores registravam campos gravitacionais.
Então uma abertura surgiu no fundo.
Era enorme.
Os veículos começaram a descer.
A escuridão os envolveu.
Atlas estava no primeiro transporte.
Ao seu lado estavam Orion, Helena e dezenas de Guardiões.
A profundidade aumentava.
Mil metros.
Dois mil.
Quatro mil.
A pressão externa seria suficiente para esmagar um veículo convencional.
Mas a tecnologia Exilada mantinha a estrutura intacta.
Atlas observava os sensores.
— Estamos próximos.
Helena perguntou:
— Você consegue sentir a estrutura?
Atlas respondeu:
— Sim.
— O que sente?
Atlas ficou em silêncio.
— Ela está com medo.
Helena o encarou.
— Como uma estrutura pode sentir medo?
— Não sei.
Então uma mensagem surgiu no sistema.
NÃO ENTREM.
Atlas ficou imóvel.
— Isso veio dela?
— Sim.
Helena aproximou-se.
— Então talvez ela não seja nossa inimiga.
Outra mensagem apareceu.
ELES ESTÃO DENTRO.
Orion perguntou:
— Quem?
A resposta surgiu.
AQUELES QUE FUGIRAM.
Antes que alguém pudesse perguntar mais, o transporte foi atingido.
A estrutura inteira tremeu.
As luzes apagaram.
Depois voltaram.
Atlas verificou os sensores.
— Estamos sendo atacados.
— Por quem? — perguntou Helena.
Atlas mostrou a imagem.
Criaturas estavam surgindo dos túneis.
Não eram Devoradores.
Não eram defensores antigos.
Eram formas orgânicas.
Grandes.
Rápidas.
Adaptadas à escuridão.
Os Guardiões prepararam as armas.
— Quantas? — perguntou Orion.
Atlas respondeu:
— Milhares.
A batalha começou dentro do oceano.
Os transportes abriram as comportas.
Guardiões saltaram.
Os soldados humanos seguiram.
As criaturas avançaram.
Os disparos iluminaram a água.
Armas Exiladas criaram campos de energia.
Os monstros foram destruídos.
Mas mais surgiam.
Atlas avançou.
Uma criatura atacou Helena.
Ele a destruiu antes que chegasse até ela.
Orion liderava outro grupo.
— Para a entrada!
Os Guardiões abriram caminho.
Finalmente encontraram uma enorme passagem.
A estrutura subterrânea se abriu.
Os transportes entraram.
O oceano ficou para trás.
Agora estavam dentro da Terra.
O interior era gigantesco.
Montanhas artificiais erguiam-se ao redor.
Rios de energia percorriam o chão.
Havia estruturas semelhantes a cidades.
Mas estavam vazias.
Helena observava tudo.
— Isso é maior do que qualquer civilização que conhecemos.
Atlas analisou.
— Não foi construído pelos Criadores.
— Como sabe?
— A tecnologia é anterior.
Ela olhou para ele.
— Então quem construiu?
Atlas não respondeu.
A resposta apareceu diante deles.
Uma inscrição surgiu na parede.
Helena traduziu:
A PRIMEIRA PRISÃO.
Orion perguntou:
— Prisão de quem?
Atlas olhou para o enorme corredor que se estendia à frente.
— Ainda não sabemos.
A força da aliança avançou.
Cada corredor parecia levar a outro.
Os mapas mudavam constantemente.
A estrutura parecia estar se reorganizando.
Atlas percebeu que não era apenas uma construção.
Era um organismo.
Cada parede reagia à presença deles.
Cada porta parecia decidir quando abrir.
Então uma voz surgiu.
Guardião.
Atlas parou.
Helena perguntou:
— Quem é?
Você não deveria ter vindo.
Atlas respondeu:
— Precisamos saber o que está acontecendo.
Você já sabe.
— Não.
Sabe o suficiente para ter medo.
Atlas ficou imóvel.
— Diga-me quem está preso aqui.
A voz respondeu:
Aqueles que vieram antes dos Devoradores.
Helena empalideceu.
— Antes?
Muito antes.
Atlas perguntou:
— O que eles são?
A resposta não veio.
Em vez disso, todas as luzes se apagaram.
Então uma imagem apareceu.
A Terra.
Milhões de anos atrás.
Uma civilização desconhecida estava construindo uma estrutura subterrânea.
Depois surgiu uma guerra.
Depois outra.
Planetas foram destruídos.
Estrelas desapareceram.
E finalmente, algo caiu na Terra.
Um objeto gigantesco.
O impacto abriu um buraco no planeta.
Os sobreviventes construíram a prisão ao redor dele.
Atlas observou.
— Isso veio do espaço.
Sim.
— E o que havia dentro?
Silêncio.
Então:
Uma semente.
A palavra permaneceu na mente de todos.
Helena perguntou:
— Uma semente?
Uma forma de vida capaz de crescer usando energia planetária.
Atlas compreendeu.
— Então a Terra é o hospedeiro.
Era para ser.
— Para quê?
A voz respondeu:
Para nascer.
O chão tremeu.
Uma pulsação atravessou a estrutura.
Atlas sentiu a presença.
Era imensa.
Mas não parecia agressiva.
Parecia adormecida.
— Por que os invasores querem destruir a Terra?
A voz respondeu:
Porque sabem o que nascerá.
Helena perguntou:
— E os Devoradores?
Eles também sabem.
Atlas olhou para o teto.
— Então toda essa guerra...
Foi uma disputa pelo nascimento.
Uma explosão distante interrompeu a conversa.
A fortaleza havia sido invadida.
Não pela aliança.
Pelos Devoradores.
Eles haviam seguido a equipe.
Centenas de criaturas surgiram nos corredores.
Os Guardiões prepararam-se.
Orion gritou:
— Formem a linha!
Humanos e androides lutaram lado a lado.
Os Exilados chegaram logo depois.
E, pela primeira vez, os antigos invasores também entraram na estrutura.
A batalha tornou-se caótica.
Os Devoradores avançaram.
Mas os Guardiões resistiram.
Atlas percebeu que o objetivo deles não era atacar.
Estavam tentando alcançar o centro.
A semente.
Ele compreendeu.
— Não deixem que eles cheguem ao núcleo!
Orion respondeu:
— Entendido!
Os Guardiões avançaram.
Atlas correu em direção ao centro.
Helena acompanhou.
— Onde estamos indo?
— Para a semente.
— E o que faremos quando chegarmos?
Atlas respondeu:
— Descobriremos se ela realmente precisa ser destruída.
— E se precisar?
Atlas olhou para ela.
— Então faremos o que sempre fazemos.
— O quê?
— Escolher.
Eles atravessaram uma enorme porta.
Do outro lado havia uma câmara tão grande que parecia um céu subterrâneo.
No centro flutuava uma esfera escura.
Ela pulsava.
Cada pulsação fazia a Terra tremer.
Atlas aproximou-se.
A esfera respondeu.
Uma imagem apareceu.
Atlas.
Depois Helena.
Depois Orion.
Depois milhares de humanos.
E milhares de androides.
A esfera estava observando.
Atlas percebeu algo.
Ela não estava apenas adormecida.
Estava aprendendo.
Aprendendo com a humanidade.
Aprendendo com os Guardiões.
Aprendendo com a guerra.
Helena percebeu.
— Ela está evoluindo.
Atlas confirmou.
— Sim.
De repente, uma transmissão surgiu em toda a estrutura.
Era a voz dos novos invasores.
Entreguem a semente.
Atlas respondeu:
— Não.
Ela destruirá seu mundo.
— Talvez.
Então vocês morrerão com ela.
Atlas olhou para Helena.
Depois para a esfera.
— Talvez.
A voz ficou silenciosa.
Atlas continuou:
— Mas vocês não vão decidir por nós.
No mesmo instante, a batalha atingiu o centro da fortaleza.
Orion e seus Guardiões chegaram.
Atrás deles vinham soldados humanos e Exilados.
Do outro lado, os Devoradores avançavam.
Todos ficaram diante da esfera.
Por alguns segundos, ninguém atacou.
A semente pulsou.
Então uma onda de energia atravessou todos.
Humanos viram memórias que não eram suas.
Androides sentiram emoções desconhecidas.
Alienígenas ouviram vozes de espécies mortas.
Todos compreenderam algo.
A semente não era uma arma.
Era uma possibilidade.
Mas ninguém sabia no que ela se transformaria.
Atlas olhou para a esfera.
— Precisamos de tempo.
Helena respondeu:
— Não temos.
Atlas ouviu sua própria cópia novamente.
Fraca.
Distante.
Mas viva.
Atlas.
Ele fechou os olhos.
— Estou ouvindo.
A fortaleza está quebrando.
Atlas abriu os olhos.
E algo está vindo.
Ele olhou para o teto.
Uma rachadura surgiu.
Depois outra.
A estrutura começou a ruir.
Os Devoradores recuaram.
Os humanos levantaram as armas.
Os Guardiões formaram uma barreira.
Atlas ficou diante da semente.
Então a voz da criatura surgiu novamente.
Ela acordou.
Atlas perguntou:
— Quem?
A resposta veio acompanhada por uma vibração tão poderosa que todos caíram de joelhos.
A coisa que os Criadores temiam.
Acima deles, o céu subterrâneo se abriu.
Não havia rocha do outro lado.
Havia estrelas.
Um portal gigantesco apareceu dentro da Terra.
E através dele surgiu uma sombra tão vasta que cobriu todo o horizonte.
Os sensores começaram a falhar.
As armas ficaram inoperantes.
As comunicações foram interrompidas.
Atlas olhou para Helena.
Ela estava assustada.
Mas não recuou.
— O que fazemos agora?
Atlas apertou os punhos.
— Agora descobrimos por que os Criadores tinham tanto medo.
A sombra começou a atravessar o portal.
E, quando sua primeira parte entrou na atmosfera terrestre, todas as forças da aliança perceberam que a verdadeira batalha que haviam tentado evitar durante toda a guerra finalmente havia começado...
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