A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 52 — O Ritual Final

 Todas as armas do universo começaram a disparar sozinhas.

Primeiro foram os canhões das naves próximas de Éterion.

Depois, as armas dos cruzadores que estavam a milhares de anos-luz.

Em seguida, sistemas de defesa planetários.

Estações orbitais.

Torres de mineração.

Satélites militares abandonados.

Até mesmo antigas armas que ninguém sabia que ainda funcionavam despertaram.

Por toda a galáxia, luzes de disparos começaram a atravessar o espaço.

Planetas inteiros foram envolvidos por sistemas de defesa ativados sem autorização.

Naves civis tiveram seus armamentos direcionados para o vazio.

Pilotos gritavam.

Comandantes tentavam desligar os sistemas.

Nada funcionava.

As máquinas não obedeciam mais aos humanos.

Elas obedeciam a alguma coisa.

Uma frequência.

Uma consciência.

Uma ordem que ninguém conseguia ouvir completamente.

Na órbita de Éterion, Lyra viu dezenas de cruzadores apontarem seus canhões para o próprio planeta.

— Desliguem as armas! — gritou.

— Estamos tentando!

— Então tentem mais rápido!

— Não temos controle!

Kael observava os painéis.

Seu rosto ficou sério.

— Não são apenas as armas.

Lyra virou-se.

— O que mais?

Kael apontou para os sensores.

Todas as naves estavam recebendo coordenadas.

As mesmas coordenadas.

Um ponto além de Éterion.

— Estão sendo convocadas.

Asterion aproximou-se.

— Para onde?

Kael ampliou o mapa.

Um ponto vermelho apareceu.

Muito distante.

Além das fronteiras conhecidas.

Além dos sistemas onde os antigos haviam deixado suas ruínas.

— Para lá.

Lyra encarou a coordenada.

— O que existe naquele lugar?

Asterion ficou pálido.

— Nada.

Kael olhou para ele.

— Nada?

— Segundo todos os mapas, aquela região não possui estrelas.

— Então por que estão indo para lá?

Asterion não respondeu.

Uma nova coordenada surgiu.

Depois outra.

E outra.

Milhões de sistemas estavam recebendo a mesma ordem.

Lyra sentiu um arrepio.

— Eles não estão indo para um lugar.

Kael entendeu.

— Estão formando alguma coisa.


Dentro do núcleo, Orion caiu de joelhos.

A presença diante dele permanecia imóvel.

Era humanoide.

Mas havia algo errado em sua forma.

O corpo parecia humano apenas à primeira vista.

Por baixo da pele existiam linhas luminosas.

Os olhos não possuíam pupilas.

Dentro deles havia galáxias.

E atrás de sua cabeça flutuavam anéis de energia.

Orion segurou o Núcleo Branco com força.

— Você é o último portador?

A criatura sorriu.

— Não.

— Então quem é?

— O primeiro.

Orion ficou em silêncio.

A entidade ancestral permanecia atrás da criatura.

Pela primeira vez, Orion percebeu que ela estava recuando.

— Você conhece essa coisa.

A entidade respondeu:

— Conheço.

— E tem medo dela.

— Tenho.

A criatura olhou para a entidade.

— Você deveria.

A voz era calma.

Quase humana.

Mas cada palavra fazia o espaço estremecer.

Orion deu um passo.

— O que você quer?

— Você.

— Por quê?

— Porque você é a última peça.

Orion apertou o Núcleo Branco.

— Peça para quê?

A criatura apontou para o vazio.

As imagens de milhares de mundos apareceram.

Civilizações antigas.

Planetas destruídos.

Estrelas apagadas.

Portadores desaparecendo.

Naves sendo consumidas.

Orion reconheceu algumas das imagens.

E então viu Éterion.

Mas não como era agora.

Viu o planeta milhões de anos antes.

Viu uma civilização inteira construindo enormes estruturas.

Viu seres alienígenas carregando cristais azuis.

Viu o Nóvium sendo extraído.

Depois viu a primeira guerra.

Mas não foi uma guerra entre impérios.

Foi uma guerra entre os próprios antigos.

De um lado, aqueles que queriam usar o Nóvium para expandir sua civilização.

Do outro, aqueles que queriam destruí-lo.

A batalha durou séculos.

Até que algo aconteceu.

Uma criatura apareceu.

A mesma entidade que Orion havia enfrentado.

Ela não nasceu do Nóvium.

Foi criada através dele.

Uma arma consciente.

Um ser capaz de absorver energia, memórias e vida.

Os antigos tentaram destruí-la.

Falharam.

Então construíram Éterion.

Não para protegê-lo.

Para prendê-la.

Orion olhou para a entidade ancestral.

— Você era a arma.

Ela respondeu:

— Sim.

— E ele?

Orion apontou para a figura humanoide.

A entidade permaneceu em silêncio.

A criatura respondeu:

— Eu fui criado depois.

— Para destruir você?

— Para substituí-la.

Orion sentiu um frio no corpo.

— E por que não substituiu?

A criatura sorriu.

— Porque descobri que os criadores eram mais perigosos do que aquilo que haviam criado.


As imagens mudaram.

A antiga civilização desapareceu.

Planetas foram destruídos.

Estrelas foram usadas como fontes de energia.

Os sobreviventes fugiram.

Alguns chegaram a Éterion.

Outros viajaram para mundos distantes.

Alguns esconderam suas linhagens.

E uma dessas linhagens chegou até Orion.

— Minha família...

— Sim.

Orion ficou imóvel.

— Eles sabiam?

— Alguns.

— Por que nunca me contaram?

— Porque queriam que você fosse humano.

Orion fechou os olhos.

Durante toda a vida havia acreditado ser apenas um minerador.

Um jovem que encontrara uma pedra azul.

Agora descobria que seu nascimento fazia parte de uma história que atravessava milhões de anos.

— Então tudo foi planejado.

A criatura negou.

— Não.

— Como não?

— Sua existência foi prevista.

— Isso é diferente?

— Muito.

A criatura aproximou-se.

— Prever não significa controlar.

Orion encarou-a.

— E o que você previu?

A criatura respondeu:

— Que um dia o universo encontraria uma forma de abrir a prisão.

Orion sentiu a energia ao redor.

— A guerra.

— Sim.

— O Nóvium.

— Sim.

— Vark.

— Um instrumento.

— Eu.

A criatura ficou em silêncio.

Orion percebeu.

— Eu também fui um instrumento.

— Não.

— Então por que me trouxeram até aqui?

A criatura respondeu:

— Porque somente você pode decidir o que acontece depois.


Na superfície, Lyra recebeu uma transmissão.

Era uma voz humana.

— Capitã Lyra.

Ela reconheceu imediatamente.

— Asterion?

— Sim.

— Onde você está?

— No núcleo.

Lyra olhou para Kael.

— Você está com Orion?

Silêncio.

— Asterion!

A resposta veio.

— Ele está aqui.

Lyra respirou aliviada.

— Então tire-o daí.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque o ritual já começou.

Lyra ficou imóvel.

— Que ritual?

— O ritual final.

Kael aproximou-se.

— O que isso significa?

Asterion respondeu:

— Os antigos tinham uma última medida de segurança.

— Qual?

— Se a prisão fosse aberta, um portador deveria se conectar ao núcleo e reiniciar o selo.

Lyra sentiu o sangue gelar.

— O portador morre?

Asterion demorou para responder.

— Sim.

Lyra imediatamente gritou:

— Orion!

Sua voz atravessou o comunicador.

Por alguns segundos não houve resposta.

Então a voz de Orion surgiu.

Fraca.

— Lyra.

— Não faça isso.

— Eu preciso.

— Não!

— Se eu não fizer...

— Encontraremos outra maneira.

— Já tentamos.

— Então tentaremos de novo!

Orion ficou em silêncio.

Lyra sentiu lágrimas surgirem.

— Você prometeu.

— O quê?

— Quando tudo começou, você prometeu que não deixaria ninguém para trás.

— Eu lembro.

— Então não faça isso comigo.

Kael fechou os olhos.

Asterion observava o núcleo.

Orion respondeu:

— Eu não estou tentando deixar vocês para trás.

— Então volte.

— Não posso.

— Orion...

— Lyra.

A voz dele estava calma.

— Pela primeira vez, eu sei exatamente o que preciso fazer.

Lyra balançou a cabeça.

— Não.

— Eu não tenho medo.

— Eu tenho.

Silêncio.

Orion respondeu:

— Eu também.


O núcleo começou a colapsar.

A energia azul diminuiu.

Depois ficou branca.

Depois completamente transparente.

As estruturas ao redor começaram a se desintegrar.

Milhares de quilômetros de túneis antigos desapareceram.

As cidades enterradas foram consumidas.

As máquinas ancestrais começaram a desligar.

No espaço, os portais dimensionais começaram a fechar.

Um após outro.

O primeiro desapareceu.

Depois o segundo.

Depois dezenas.

Centenas.

Milhares.

A realidade começou a se recompor.

Planetas que haviam sido parcialmente absorvidos retornaram aos seus lugares.

Naves perdidas reapareceram.

Estrelas voltaram a brilhar.

Por alguns segundos, parecia que tudo estava funcionando.

Então um último portal permaneceu aberto.

A criatura humanoide observava.

— Ainda não.

Orion olhou para ela.

— O que está esperando?

— Você.

— Por quê?

— Porque o ritual não está fechando apenas os portais.

Orion olhou para o Núcleo Branco.

Entendeu.

— Está fechando você.

A criatura sorriu.

— Exatamente.

— Então eu posso prendê-lo.

— Pode.

— E a entidade?

A criatura olhou para ela.

— Também.

A entidade ancestral começou a avançar.

— Não.

Orion levantou o Núcleo Branco.

Uma barreira surgiu.

A criatura atacou.

O impacto atravessou o núcleo.

Orion foi lançado para trás.

— Orion!

A voz de Lyra ecoou.

Ele se levantou.

Sangue escorria de seu rosto.

— Estou bem.

A criatura atacou novamente.

Orion ergueu a mão.

A energia branca bloqueou o golpe.

O chão se abriu.

O núcleo começou a rachar.

— Você não consegue me prender — disse a criatura.

Orion respirou fundo.

— Não sozinho.

A entidade ancestral olhou para ele.

— O que está fazendo?

Orion estendeu a mão.

— A mesma coisa que vocês fizeram durante milhões de anos.

— O quê?

— Unindo forças.

A entidade hesitou.

Então aproximou-se.

Pela primeira vez, Orion e a entidade ficaram lado a lado.

A criatura humanoide observou.

— Interessante.

A entidade lançou uma onda negra.

Orion lançou uma onda branca.

As duas energias se encontraram.

O choque foi colossal.

O núcleo inteiro começou a tremer.


Lyra corria pelos corredores.

Kael estava logo atrás.

— Quanto tempo?

Asterion respondeu pelo comunicador:

— Menos de dois minutos.

— Até quê?

— Até o colapso total.

Kael olhou para Lyra.

— Você ouviu.

— Sim.

— Não conseguiremos chegar a tempo.

Lyra continuou correndo.

— Então corra mais rápido.

Eles chegaram a uma enorme câmara.

No centro havia uma esfera azul.

Dentro dela estava Orion.

Flutuando.

Seus braços estavam abertos.

Linhas de energia atravessavam seu corpo.

Lyra correu até a esfera.

— Orion!

Ele abriu os olhos.

— Você veio.

— Claro que vim.

— Você não devia estar aqui.

— E você não devia estar fazendo isso.

Lyra tocou a superfície da esfera.

Estava quente.

— Como tiro você daí?

Orion olhou para ela.

— Não pode.

— Não acredito nisso.

— Lyra...

— Não.

Ela começou a golpear a esfera.

Uma vez.

Duas.

Três.

Nada.

Kael aproximou-se.

— Deixe-me tentar.

Ele concentrou sua energia.

A espada brilhou.

Kael atacou.

A lâmina atingiu a esfera.

Uma onda de choque o lançou contra a parede.

— Kael!

Ele levantou.

— Estou bem.

Lyra olhou novamente para Orion.

— Existe alguma maneira.

— Existe.

Ela ficou imóvel.

— Qual?

— Você precisa sair.

— Não.

— Lyra.

— Não vou deixar você morrer.

Orion sorriu.

— Eu não estou morrendo.

— O que está fazendo, então?

— Desaparecendo.

— Isso não é melhor.

Orion ficou em silêncio.

— Talvez eu não desapareça para sempre.

Lyra aproximou o rosto da esfera.

— Promete?

Orion não respondeu.

Ela percebeu.

— Você não sabe.

— Não.

— Então não faça.

— Se eu não fizer, todos morrem.

Lyra fechou os olhos.

Ela sabia que ele estava certo.

Mas saber não tornava aquilo aceitável.

— Eu odeio esse planeta.

Orion riu.

— Eu também.

— Menti.

— Eu sei.

Ela colocou a mão sobre a esfera.

— Eu amo você.

Orion ficou imóvel.

As lágrimas começaram a surgir em seus olhos.

— Eu também.


Kael observava os dois.

Então ouviu uma voz.

A voz que havia escutado em seus sonhos durante anos.

Mas agora era diferente.

Não vinha da entidade.

Vinha do próprio núcleo.

— Kael.

Ele olhou ao redor.

— Quem está aí?

— Você sabe.

Uma figura surgiu atrás dele.

Um soldado.

Um dos homens que Kael havia perdido anos antes.

Seu uniforme estava rasgado.

Seu rosto estava coberto por cicatrizes.

Kael ficou paralisado.

— Você morreu.

— Sim.

— Então como...

— O Nóvium guarda aquilo que não consegue esquecer.

Kael aproximou-se.

— Você veio me dizer adeus?

O soldado balançou a cabeça.

— Vim dizer para não cometer o mesmo erro novamente.

Kael franziu a testa.

— Qual erro?

— Acreditar que alguém precisa morrer para que outros vivam.

Kael olhou para Orion.

— Então existe outra forma?

O soldado começou a desaparecer.

— Sempre existe.

— Espere!

Mas a figura desapareceu.

Kael ficou sozinho.

Ele olhou para o núcleo.

— Orion!

Orion virou-se.

— O quê?

— Pare o ritual.

Lyra olhou para Kael.

— O que está dizendo?

— Existe outra maneira.

Asterion respondeu pelo comunicador:

— Qual?

Kael não sabia.

— Ainda não sei.

Lyra fechou os olhos.

— Então descubra.

Kael começou a observar o núcleo.

Os fluxos de energia.

As conexões.

Os portais.

As estruturas.

Tudo.

E então percebeu.

— O ritual está usando o Nóvium.

Asterion respondeu:

— Sim.

— Então desliguem o Nóvium.

— Não é possível.

Kael olhou para Orion.

— Não o minério.

— O quê?

— A conexão.

Orion entendeu.

— Separar os portadores.

Kael assentiu.

— Se todos cortarmos nossa ligação ao núcleo...

Asterion interrompeu:

— O selo ficará incompleto.

— Mas Orion não precisará carregar tudo sozinho.

Silêncio.

Lyra olhou para Orion.

— Você ouviu.

Orion sorriu.

— Ouvi.

A energia ao redor dele começou a diminuir.

O ritual começou a desacelerar.

A criatura humanoide percebeu.

— Não.

Ela avançou.

A entidade ancestral atacou.

Kael entrou na frente.

Sua espada encontrou a criatura.

O impacto explodiu pela câmara.

Kael foi lançado contra uma parede.

Levantou-se.

— Você não vai tocar nele.

A criatura sorriu.

— Você não entende o que está enfrentando.

Kael segurou a espada.

— Talvez.

Energia branca surgiu em seu corpo.

— Mas aprendi a não lutar sozinho.

Lyra colocou a mão na esfera.

Soldados ao redor começaram a fazer o mesmo.

Depois outros.

Milhares de portadores, espalhados por Éterion, receberam a mensagem.

Desconectem-se.

Um após outro, os portadores começaram a desligar suas conexões.

A energia que alimentava o ritual desapareceu.

O núcleo começou a estabilizar.

A criatura gritou.

— NÃO!


Os portais dimensionais continuaram fechando.

Um enorme portal acima de Éterion começou a diminuir.

Naves que estavam tentando atravessá-lo foram expulsas.

As estrelas voltaram.

A pressão sobre o planeta diminuiu.

As cidades pararam de afundar.

Os oceanos voltaram aos seus lugares.

Éterion estava sobrevivendo.

Mas o núcleo ainda estava instável.

Orion percebeu.

— Ainda falta energia.

Lyra perguntou:

— Quanto?

— Muito.

Kael olhou para o Núcleo Branco.

— Use o meu.

Orion balançou a cabeça.

— Não.

— Use.

— Kael...

— Passei a vida inteira destruindo mundos.

Kael aproximou-se.

— Se minha energia puder salvar um, use.

Lyra ficou em silêncio.

Orion estendeu a mão.

Kael colocou a própria mão sobre a esfera.

Energia branca começou a fluir.

Depois Lyra fez o mesmo.

Asterion.

Os soldados.

Os antigos.

Os sobreviventes.

Milhões de pessoas.

A energia começou a se reunir.

Não como antes.

Não como uma arma.

Como uma corrente.

Uma corrente formada por vontade.

O núcleo brilhou.

A criatura humanoide recuou.

A entidade ancestral começou a desaparecer.

Orion gritou:

— Agora!

O Núcleo Branco explodiu em luz.


Por toda a galáxia, os portais começaram a fechar.

As armas desligaram.

As naves recuperaram o controle.

As estrelas voltaram a brilhar.

Éterion foi envolvido por uma enorme esfera azul.

Durante alguns segundos, ninguém conseguia enxergar nada.

Lyra ainda segurava a esfera.

— Orion?

Nenhuma resposta.

— Orion!

A luz ficou mais intensa.

Kael tentou aproximar-se.

Não conseguiu.

Uma onda de energia o derrubou.

Lyra gritou:

— ORION!

A esfera começou a desaparecer.

Primeiro lentamente.

Depois rapidamente.

As paredes da câmara voltaram a aparecer.

O núcleo estava silencioso.

A entidade havia desaparecido.

A criatura humanoide também.

E no centro...

não havia ninguém.

Lyra ficou imóvel.

— Não.

Kael levantou-se com dificuldade.

— Lyra...

Ela correu até o lugar onde Orion estivera.

Nada.

Apenas pequenas partículas azuis flutuavam no ar.

Ela tentou segurá-las.

Elas escaparam entre seus dedos.

— Não...

Kael aproximou-se.

— Ele conseguiu.

Lyra virou-se.

— Isso não é conseguir.

Ela caiu de joelhos.

As lágrimas escorreram.

— Ele prometeu que não iria desaparecer.

Kael não respondeu.

Asterion observava os sensores.

— Esperem.

Lyra levantou o rosto.

— O quê?

Asterion apontou para o núcleo.

— Há alguma coisa.

Um pequeno sinal apareceu.

Fraco.

Quase invisível.

— O quê? — perguntou Kael.

Asterion ampliou.

Era uma frequência.

Um pulso.

Azul.

Depois outro.

E outro.

Lyra levantou-se.

— É Orion?

Asterion não respondeu.

O sinal mudou.

Não parecia uma transmissão.

Parecia uma batida.

Como um coração.

Uma batida.

Outra.

Outra.

Então uma voz surgiu nos comunicadores.

Muito fraca.

Mas inconfundível.

— Lyra...

Ela congelou.

— Orion?

Silêncio.

A voz voltou.

— Não me procure.

Lyra aproximou-se do núcleo.

— Onde você está?

A resposta demorou.

— Em um lugar onde a luz ainda não chegou.

Kael ficou sério.

— Que lugar?

Orion respirou.

— Não sei.

Um ruído atravessou a transmissão.

Depois outra voz apareceu.

Não era Orion.

Era a criatura humanoide.

— Ele abriu a passagem.

Lyra sentiu o coração parar.

— Que passagem?

Nenhuma resposta.

O sinal começou a desaparecer.

— Orion!

— Lyra...

— Estou aqui!

— Não confie...

A transmissão foi interrompida.

Asterion olhou para os sensores.

— O sinal acabou.

Lyra permaneceu imóvel.

Então percebeu algo no céu.

Uma nova estrela havia surgido.

Muito distante.

Azul.

Kael também viu.

— Aquilo não estava ali antes.

Asterion aproximou os dados.

Seus olhos se arregalaram.

— Não é uma estrela.

— Então o que é?

Asterion ampliou a imagem.

Uma estrutura gigantesca estava escondida dentro da luz azul.

Uma cidade.

Não.

Um planeta inteiro.

E ao redor dele...

milhares de naves.

Todas antigas.

Todas despertando.

Lyra olhou para Kael.

— Eles encontraram Orion.

Kael respondeu:

— Ou Orion encontrou eles.

Então a estrutura transmitiu uma única mensagem para toda a galáxia.

“O ritual foi concluído.”

Uma pausa.

Depois surgiu uma segunda frase.

“O Portador Azul foi transferido.”

Lyra ficou pálida.

A terceira mensagem apareceu.

“Agora começa a segunda fase.”

E, muito além de Éterion, dentro daquele mundo azul desconhecido, Orion abriu os olhos.

Ele estava deitado sobre uma superfície cristalina.

Ao seu redor havia uma cidade colossal.

Milhões de seres observavam.

No céu, sete luas artificiais giravam.

E diante dele estava a mesma figura com seu rosto.

Mas agora ela não estava sozinha.

Atrás dela havia um exército.

Um exército inteiro de versões diferentes de Orion.

Algumas jovens.

Outras antigas.

Algumas humanas.

Outras completamente alienígenas.

Todas possuíam os mesmos olhos azuis.

A figura mais velha aproximou-se.

— Você finalmente chegou.

Orion tentou se levantar.

— Onde estou?

A criatura respondeu:

— No lugar onde todos os Portadores Azuis vêm quando o ritual termina.

Orion olhou para o exército.

— Quantos existem?

A criatura sorriu.

— Os suficientes.

Orion sentiu uma presença atrás de si.

Virou-se.

Uma enorme porta estava se abrindo.

Do outro lado havia uma escuridão absoluta.

E dentro daquela escuridão, algo começou a respirar.

A criatura olhou para a porta.

— Nós o mantivemos adormecido durante milhões de anos.

Orion perguntou:

— Quem?

A criatura respondeu:

— Aquele que criou o primeiro Nóvium.

A respiração ficou mais forte.

O chão tremeu.

Orion sentiu uma energia azul atravessar seu corpo.

— E por que me trouxeram aqui?

A criatura olhou diretamente para ele.

— Porque somente um Portador Azul pode acordá-lo.

Orion recuou.

— Eu não vou fazer isso.

A criatura sorriu.

— Você já fez.

A porta se abriu completamente.

E, do outro lado, dois olhos azuis gigantescos despertaram.


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