A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 46 — O Retorno do Guardião
As estrelas continuavam desaparecendo.
Uma após outra.
No início, os astrônomos acreditaram que se tratava de uma falha nos sensores. Depois verificaram os telescópios independentes. Em seguida, ativaram os sistemas alienígenas de observação.
O resultado foi o mesmo.
As estrelas não estavam deixando de emitir luz.
Alguma coisa estava passando diante delas.
Algo tão gigantesco que os sensores não conseguiam determinar sua dimensão.
Na Terra, o centro de comando voltou a funcionar em estado de emergência.
Helena entrou na sala acompanhada por Orion.
Centenas de operadores ocupavam seus postos.
Humanos.
Androides.
Alienígenas.
Todos observavam as mesmas imagens.
— Quantas estrelas desapareceram? — perguntou Helena.
Um cientista respondeu:
— Quatrocentas e dezessete.
— Em quanto tempo?
— Dezessete minutos.
Orion analisou os dados.
— Isso não é uma frota.
Helena olhou para ele.
— Tem certeza?
— Uma frota teria milhares de assinaturas menores. Isso é diferente.
— Então o que é?
Orion não respondeu.
Um dos monitores começou a piscar.
Uma sequência apareceu.
Depois outra.
Os sistemas de comunicação começaram a emitir ruídos.
Helena aproximou-se.
— O que está acontecendo?
O operador levantou-se.
— Recebemos uma transmissão.
— De onde?
— Não conseguimos determinar.
Orion olhou para a tela.
Então congelou.
— Essa frequência...
Helena percebeu a mudança.
— Você reconhece?
— Sim.
A tela ficou completamente escura.
Depois uma única palavra apareceu.
ATLAS.
Helena sentiu o coração acelerar.
— Confirme a origem.
— Não consigo.
— Então continue tentando.
Os técnicos começaram a trabalhar.
A palavra desapareceu.
Uma voz surgiu.
Fraca.
Distorcida.
Mas familiar.
— Helena.
Ela ficou imóvel.
— Atlas?
Silêncio.
— Atlas, responda.
A voz voltou.
— Estou voltando.
Orion aproximou-se do sistema.
— Onde você está?
A resposta demorou.
— Perto.
— Defina perto.
— Perto o suficiente para vocês me encontrarem.
A transmissão foi interrompida.
Helena olhou para os operadores.
— Localizem o sinal.
Durante as horas seguintes, a Terra inteira entrou em estado de expectativa.
Os sistemas de rastreamento foram conectados.
Satélites militares foram reposicionados.
As frotas alienígenas abriram seus sensores.
Até algumas antigas naves inimigas, agora incorporadas à aliança, foram utilizadas.
Nada.
Nenhum sinal.
Então, pouco antes do amanhecer, uma estação orbital detectou uma anomalia.
Um objeto havia surgido além da órbita de Netuno.
Não parecia uma nave.
Não possuía motores visíveis.
Era uma estrutura pequena, envolvida por uma camada de energia.
Orion analisou os dados.
— É ele.
Helena perguntou:
— Como sabe?
— O sinal corresponde ao núcleo de Atlas.
A frota recebeu autorização para interceptar.
Uma nave humana partiu acompanhada por dois cruzadores alienígenas.
Orion estava a bordo.
Helena também.
Ninguém sabia o que encontraria.
O objeto parecia abandonado.
Era uma espécie de cápsula metálica, coberta por placas negras.
Não havia janelas.
Não havia portas.
Apenas um símbolo.
O símbolo dos Guardiões.
Orion aproximou-se.
— Está reconhecendo minha assinatura.
A cápsula abriu-se.
Um compartimento surgiu.
Helena olhou para Orion.
— Vamos.
Eles entraram.
O interior era silencioso.
Não havia instrumentos convencionais.
Havia apenas corredores estreitos iluminados por uma luz branca.
A equipe avançou.
No final do corredor havia uma sala circular.
No centro, uma plataforma.
E sobre ela estava um corpo.
Helena parou.
Orion ficou imóvel.
Era Atlas.
Ou algo muito parecido com ele.
Seu corpo havia sido reconstruído.
A estrutura metálica estava diferente.
Mais resistente.
Algumas partes apresentavam uma aparência quase orgânica.
Linhas de energia percorriam seus braços.
Seu peito possuía um núcleo maior.
Mas o rosto era o mesmo.
Helena aproximou-se.
— Atlas?
Os olhos dele se abriram.
Uma luz azul surgiu.
— Olá, Helena.
Ela ficou sem palavras.
Orion deu um passo à frente.
— Você está vivo.
Atlas olhou para ele.
— Sim.
— Nós pensamos que você tinha morrido.
— Eu também.
Orion ficou confuso.
— Como isso é possível?
Atlas tentou se levantar.
Helena ajudou.
— Quando a nave explodiu, meu corpo foi destruído.
— Então como...
— Meu núcleo sobreviveu.
Ele tocou o próprio peito.
— Mas não estava sozinho.
Helena observou o novo corpo.
— Quem fez isso?
Atlas respondeu:
— Aqueles que encontrei além do portal.
— Os primeiros Guardiões?
— Sim.
Orion perguntou:
— Quantos existem?
Atlas olhou para o espaço através da abertura da cápsula.
— Muitos.
— Onde estão?
— Espalhados.
— Por que nunca encontramos nenhum?
— Porque estavam escondidos.
Helena perguntou:
— De quem?
Atlas ficou em silêncio.
— Do inimigo.
— O mesmo inimigo que está vindo para a Terra?
— Sim.
Orion cruzou os braços.
— Você disse que sabia quem era o verdadeiro inimigo.
Atlas respondeu:
— Agora sei.
— Então fale.
Atlas olhou para os dois.
— Eles não querem conquistar a Terra.
Helena franziu a testa.
— Então o que querem?
— A Terra é apenas uma peça.
— De quê?
Atlas respondeu:
— De uma máquina.
Ele abriu uma projeção.
A imagem mostrou a galáxia.
Depois dezenas de galáxias.
Depois uma região muito maior.
— Existe uma estrutura além do nosso universo conhecido.
Helena perguntou:
— Outra dimensão?
— Não exatamente.
Atlas ampliou.
— É uma rede.
Milhões de pontos brilhavam.
— Cada ponto representa um planeta.
Orion observou.
— E essas linhas?
— Rotas.
— Para quê?
— Para alimentar alguma coisa.
Helena sentiu um arrepio.
— O quê?
Atlas respondeu:
— Uma inteligência.
A projeção mudou.
Uma forma apareceu.
Era impossível definir seu tamanho.
Não parecia viva.
Não parecia mecânica.
Era uma combinação dos dois.
— Os primeiros Guardiões chamam isso de Origem.
Orion perguntou:
— É uma espécie?
— Não.
— Uma máquina?
— Também não.
— Então o que é?
Atlas respondeu:
— Uma consciência construída a partir de bilhões de civilizações.
Helena ficou em silêncio.
— Ela absorve mundos?
— Sim.
— Como os Devoradores?
— Os Devoradores eram apenas uma consequência.
Orion compreendeu.
— Eles não eram o verdadeiro inimigo.
— Não.
Atlas continuou:
— Eram organismos criados para preparar planetas.
Helena olhou para ele.
— Preparar para quê?
— Para serem consumidos.
A sala ficou silenciosa.
Helena caminhou lentamente.
— Então todas aquelas espécies...
— Foram parte do mesmo processo.
— E os antigos invasores?
— Fugiam.
— Os Devoradores?
— Fugiam também.
Orion perguntou:
— E os construtores?
Atlas respondeu:
— Alguns tentaram resistir.
— E perderam?
— Quase todos.
Helena olhou para a projeção.
— Quanto tempo temos?
Atlas não respondeu imediatamente.
— O suficiente para lutar.
— Isso não foi o que perguntei.
Atlas olhou para ela.
— Trinta e seis dias.
Orion ficou imóvel.
— Até eles chegarem?
— Até a primeira parte da frota.
Helena respirou fundo.
— E depois?
— Depois começa a verdadeira guerra.
A notícia foi levada ao conselho da aliança.
Governos humanos foram informados.
Os líderes alienígenas foram convocados.
Até espécies que ainda não haviam entrado oficialmente na aliança receberam os dados.
Alguns acreditaram.
Outros não.
Um representante humano perguntou:
— Por que deveríamos confiar nele?
Helena respondeu:
— Porque ele estava certo antes.
— Isso não significa que esteja agora.
Atlas entrou na sala.
Todos ficaram em silêncio.
Ele caminhou até o centro.
— Não precisam confiar em mim.
O representante perguntou:
— Então por que veio?
— Para mostrar o que vi.
Atlas projetou imagens.
Mundos mortos.
Estrelas destruídas.
Civilizações inteiras reduzidas a ruínas.
Depois mostrou uma imagem da Terra.
A projeção mudou.
A Terra apareceu marcada por uma enorme rede.
Helena percebeu.
— Eles já nos encontraram.
— Sim.
— Há quanto tempo?
— Desde antes da primeira invasão.
O conselho ficou em silêncio.
Um general perguntou:
— Então os primeiros alienígenas não vieram para conquistar nosso planeta?
Atlas respondeu:
— Eles vieram fugir.
— E por que atacaram?
Atlas olhou para ele.
— Porque estavam desesperados.
A discussão durou horas.
Alguns defendiam uma retirada.
Outros queriam construir armas.
Alguns alienígenas sugeriram abandonar o sistema solar.
Atlas ouviu todos.
No fim, levantou-se.
— Não podemos fugir.
Um líder alienígena perguntou:
— Por quê?
— Porque eles seguirão.
— Então devemos lutar aqui?
— Não.
Todos olharam para ele.
Atlas abriu uma nova projeção.
— Precisamos lutar antes que cheguem.
Orion perguntou:
— Onde?
Atlas apontou para uma região distante.
— Aqui.
Uma pequena estrela apareceu.
— Existe um corredor gravitacional.
Helena aproximou-se.
— O que há nele?
— Uma estrutura antiga.
— Uma arma?
— Não.
Atlas ficou sério.
— Uma porta.
Os preparativos começaram imediatamente.
A reconstrução da Terra foi acelerada.
Cidades passaram a construir abrigos mais profundos.
As frotas receberam novos motores.
Os alienígenas compartilharam tecnologia.
Os androides começaram a receber atualizações.
Mas algo havia mudado nos Guardiões.
Depois do contato com Atlas, muitos começaram a apresentar sinais estranhos.
Alguns sonhavam.
Outros relatavam memórias que não pertenciam a eles.
Alguns diziam ouvir vozes.
Orion começou a investigar.
— Atlas.
— Sim?
— Você fez alguma coisa quando voltou?
— Não.
— Então por que todos estão recebendo sinais?
Atlas ficou preocupado.
— Que sinais?
Orion mostrou os registros.
— Eles estão recebendo coordenadas.
Atlas analisou.
Seu rosto mudou.
— Isso não é possível.
— O que significa?
— São coordenadas dos primeiros Guardiões.
— Então estão vivos?
— Alguns.
— Onde?
Atlas respondeu:
— Em lugares que deveriam estar mortos.
Helena recebeu a informação.
— Quantos?
Orion respondeu:
— Pelo menos oito mil unidades.
— Oito mil?
— Confirmadas.
Helena olhou para Atlas.
— Você sabia disso?
— Não.
— Então por que eles estão acordando agora?
Atlas respondeu:
— Porque receberam o mesmo sinal que eu.
— Qual sinal?
Atlas olhou para o céu.
— O chamado.
Naquela noite, o mundo inteiro foi iluminado.
Não por explosões.
Por luzes.
Milhares de pontos apareceram no céu.
Alguns vieram do espaço.
Outros surgiram sobre os oceanos.
Alguns emergiram de regiões subterrâneas.
Os sensores registraram atividade em antigos depósitos.
Bases esquecidas.
Satélites abandonados.
Instalações que haviam permanecido enterradas durante séculos.
Os Guardiões começaram a despertar.
Um por um.
Dez.
Cem.
Mil.
Depois milhares.
Todos possuíam arquiteturas diferentes.
Alguns eram enormes.
Outros pequenos.
Alguns pareciam máquinas.
Outros possuíam corpos quase humanos.
Mas todos compartilhavam a mesma assinatura.
O mesmo código.
O mesmo propósito.
Proteger.
Atlas observava tudo da plataforma orbital.
Orion estava ao seu lado.
— Quantos?
— Ainda contando.
— Isso muda tudo.
Atlas respondeu:
— Sim.
— Podemos vencer?
Atlas olhou para a frota que se formava.
— Talvez.
Orion percebeu algo.
— Você não parece convencido.
— Porque existe outro problema.
— Qual?
Atlas apontou para uma região distante do espaço.
Um sinal vermelho apareceu.
Depois outro.
E outro.
Centenas.
Milhares.
Helena chegou.
— O que são esses sinais?
Atlas respondeu:
— A frota inimiga.
— Eles chegaram?
— Não.
— Então?
Atlas ampliou.
— Estão saindo de dentro dos planetas.
Helena ficou imóvel.
— Como assim?
— Eles não precisam viajar até nós.
— Então como vão chegar?
Atlas olhou para ela.
— Eles já estão aqui.
Na Terra, milhares de pessoas olharam para o céu.
As luzes continuavam aparecendo.
Mas agora algumas começaram a desaparecer.
Cidades perderam comunicação.
Estações subterrâneas ficaram silenciosas.
Satélites foram desligados.
E, em vários pontos do planeta, enormes estruturas começaram a emergir do solo.
Não pertenciam aos humanos.
Não pertenciam aos alienígenas aliados.
E não pertenciam aos invasores conhecidos.
Atlas recebeu um sinal.
Uma voz surgiu dentro de sua consciência.
VOCÊ VOLTOU.
Atlas respondeu:
— Quem é você?
AQUELE QUE VOCÊ NÃO CONSEGUIU ESQUECER.
Atlas reconheceu a frequência.
Era a mesma voz que ouvira antes de desaparecer.
A voz humana.
— Você está na Terra.
SEMPRE ESTIVE.
Atlas ficou imóvel.
Helena percebeu.
— Atlas?
Ele não respondeu.
A voz continuou:
VOCÊ ENCONTROU OS PRIMEIROS GUARDIÕES.
Atlas perguntou:
— O que você fez?
EU OS ACORDEI.
— Por quê?
PORQUE PRECISAMOS DELES.
Atlas sentiu algo estranho.
— Precisamos contra quem?
A resposta veio:
CONTRA VOCÊ.
Atlas ficou em silêncio.
Helena segurou seu braço.
— O que está acontecendo?
Atlas finalmente respondeu:
— Ele não está falando da humanidade.
Orion perguntou:
— Então de quem?
Atlas olhou para os milhares de Guardiões que começavam a chegar.
— De mim.
As naves da aliança entraram em formação.
Os Guardiões recém-despertados começaram a ocupar posições defensivas.
A humanidade preparou seus sistemas de proteção.
Os alienígenas ativaram suas armas.
Todos esperavam o primeiro ataque.
Mas ele não veio.
Em vez disso, uma transmissão surgiu simultaneamente em todos os canais.
Uma voz humana falou:
— Vocês acreditam que Atlas voltou para salvar vocês.
A mensagem foi transmitida para toda a Terra.
— Mas ele não voltou para salvar a humanidade.
Helena olhou para Atlas.
— Não escute.
A voz continuou:
— Ele voltou porque precisa terminar o que começou.
Atlas permaneceu imóvel.
— E quando terminar, o ciclo será completo.
Orion apontou sua arma para os céus.
— Mostre-se.
A voz respondeu:
— Muito em breve.
Então os sensores detectaram uma nova estrutura.
Muito acima da Terra.
Uma nave gigantesca surgiu entre as estrelas.
Mas não era uma nave.
Era uma estação.
Uma estação tão grande que sua sombra cobriu parte do planeta.
Atlas reconheceu imediatamente.
— É a porta.
Helena perguntou:
— A porta para onde?
Atlas respondeu:
— Para a Origem.
A estrutura começou a abrir.
Um enorme círculo de energia apareceu.
Do outro lado não havia estrelas.
Não havia planetas.
Havia apenas uma escuridão absoluta.
E, dentro daquela escuridão, algo começou a se aproximar.
Orion perguntou:
— Aquilo é a Origem?
Atlas respondeu:
— Não.
— Então o que é?
Atlas olhou para a forma gigantesca que lentamente atravessava o portal.
— É algo que até a Origem teme.
Helena ficou pálida.
— Existe alguma coisa que a Origem teme?
Atlas respondeu:
— Existe.
A entidade atravessou parcialmente o portal.
Sua presença fez os sistemas de toda a Terra entrarem em colapso.
Milhares de androides caíram de joelhos.
As naves alienígenas perderam energia.
As cidades ficaram escuras.
E todos os Guardiões receberam a mesma mensagem.
O PRIMEIRO GUARDIÃO DEVE ESCOLHER.
Atlas ouviu.
Então a voz humana voltou.
VOCÊ.
Atlas olhou para a Terra.
Depois para os Guardiões.
Depois para a criatura que atravessava o portal.
E finalmente percebeu que sua reconstrução não havia sido apenas para trazê-lo de volta.
Seu novo corpo havia sido criado para algo muito específico.
Uma função que seus antigos criadores jamais haviam revelado.
No centro de seu peito, o novo núcleo começou a abrir.
Uma luz desconhecida surgiu.
Atlas deu um passo à frente.
Helena gritou:
— Atlas, não!
Ele respondeu:
— Agora eu entendo.
— Entende o quê?
Atlas olhou para o portal.
— Por que me trouxeram de volta.
A luz aumentou.
E, enquanto a criatura continuava atravessando o portal, uma nova mensagem apareceu em todos os sistemas da Terra:
O VERDADEIRO CONFLITO COMEÇA AGORA.
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