A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 49 — Além das Estrelas

 A frota deixou Eryon antes do amanhecer.

Não havia celebrações.

Não havia discursos.

Todos sabiam que aquela viagem era diferente de qualquer outra realizada pela humanidade.

Durante séculos, as estrelas haviam sido pontos distantes no céu. Depois vieram os telescópios, as sondas, os primeiros satélites e, finalmente, as naves capazes de alcançar outros mundos.

Mas aquela era a primeira vez que uma frota humana deixava oficialmente o sistema solar para explorar regiões desconhecidas.

Não era uma fuga.

Não era uma invasão.

Era uma busca.

Centenas de naves avançavam pelo vazio.

Algumas eram humanas.

Outras pertenciam aos antigos inimigos que haviam se tornado aliados.

Havia também os Guardiões.

Androides de diferentes modelos viajavam em silêncio, monitorando os sistemas e estudando cada anomalia.

No centro da frota estava a nave de comando.

Helena observava o espaço através da enorme janela.

— Quanto falta?

Um operador respondeu:

— Três minutos para o primeiro corredor interestelar.

Ela olhou para Atlas.

— Tem certeza de que podemos atravessar?

Atlas estava diante dos controles.

— Não.

Helena suspirou.

— Ótimo.

— Mas precisamos tentar.

Orion aproximou-se.

— Isso não é exatamente tranquilizador.

Atlas respondeu:

— Se esperarmos até ter certeza, nunca iremos a lugar nenhum.

Helena sorriu.

— Então vamos.


O corredor surgiu diante da frota.

Parecia uma rachadura no espaço.

As estrelas ao redor ficaram distorcidas.

A luz se curvou.

Os instrumentos enlouqueceram.

Depois tudo ficou completamente escuro.

As naves entraram.

Durante alguns segundos, ninguém conseguiu enxergar nada.

Então o universo reapareceu.

Mas a Terra já não podia ser vista.

Nem o Sol.

Nem os planetas conhecidos.

A humanidade havia atravessado sua primeira fronteira interestelar.

Mara observava os monitores.

— Distância?

O navegador respondeu:

— Não sabemos.

— Como assim?

— Nossos sistemas não conseguem calcular.

Orion verificou os sensores.

— Estamos longe.

Atlas aproximou-se.

— Muito longe.

Helena perguntou:

— Quantos anos-luz?

Atlas respondeu:

— Pelo menos quarenta.

Todos ficaram em silêncio.

Mara sorriu.

— Quarenta anos-luz.

— Talvez mais — disse Atlas.

Ela olhou pela janela.

— Então realmente estamos além das estrelas.


Os primeiros dias foram tranquilos.

A frota estudou sistemas desconhecidos.

Encontrou estrelas diferentes.

Planetas com atmosferas incomuns.

Gigantes gasosos.

Asteroides cobertos por gelo.

Um mundo completamente envolvido por nuvens vermelhas.

Os androides foram enviados para explorar.

Pela primeira vez, máquinas que haviam sido construídas para guerra receberam uma função completamente diferente.

Descoberta.

Orion acompanhou uma equipe até um planeta rochoso.

A superfície era coberta por enormes formações cristalinas.

Um androide recolheu uma amostra.

— Estrutura desconhecida.

Orion respondeu:

— Analise.

— Não consigo.

— Por quê?

— Está se movendo.

Orion ficou imóvel.

A formação cristalina começou a mudar.

Pequenas luzes surgiram em sua superfície.

Depois outra formação respondeu.

E outra.

Em poucos segundos, todo o vale estava iluminado.

Mara observava pelos sensores.

— Eles estão se comunicando.

Orion perguntou:

— Entre si?

— Sim.

— São organismos?

— Provavelmente.

Atlas recebeu os dados.

— Não toquem em nada.

Orion perguntou:

— Por quê?

— Porque não sabemos se estão nos observando.


A equipe recuou.

Os cristais continuaram brilhando.

Então uma mensagem surgiu nos sistemas.

Não era uma transmissão eletromagnética.

Era um padrão.

Mara conseguiu traduzir parcialmente.

— Eles sabem que estamos aqui.

Helena perguntou:

— O que dizem?

Mara hesitou.

— Estão perguntando quem somos.

Atlas respondeu:

— Digam a verdade.

Mara transmitiu:

— Somos humanos.

A resposta surgiu imediatamente.

HUMANOS.

Mara ficou surpresa.

— Eles conhecem nosso nome.

Orion perguntou:

— Como?

Atlas analisou o padrão.

— Talvez tenham recebido os sinais que encontramos.

A resposta veio novamente.

OS HUMANOS RETORNARAM.

Helena ficou séria.

— Retornaram?

Mara perguntou:

— Eles estão dizendo que já estivemos aqui?

Atlas não respondeu.

Os cristais começaram a emitir uma nova sequência.

Mara traduziu.

— Eles dizem que nossos ancestrais passaram por este mundo.

Helena olhou para Atlas.

— Mais um pedaço do passado.

Atlas respondeu:

— Ou mais uma mentira.


A expedição permaneceu no planeta durante três dias.

Os cristais não eram hostis.

Eles compartilhavam informações.

Mostraram mapas.

Mostraram imagens de outras espécies.

E mostraram uma região da galáxia marcada por uma enorme sombra.

Mara perguntou:

— O que é isso?

Os cristais responderam com imagens.

Planetas destruídos.

Estrelas apagadas.

Naves desaparecendo.

A mesma ameaça que Atlas havia encontrado.

Helena perguntou:

— Eles sabem onde está?

A resposta foi:

SE MOVENDO.

— Para onde?

Os cristais mostraram uma linha.

Ela terminava em um pequeno ponto.

A Terra.


A equipe deixou o planeta.

A informação foi enviada para toda a frota.

A viagem continuou.

No caminho, encontraram outras civilizações.

Uma delas vivia dentro de enormes cidades flutuantes.

Seus habitantes eram seres pequenos, cobertos por placas metálicas.

Eles utilizavam campos magnéticos para controlar a atmosfera.

Outra espécie vivia em oceanos subterrâneos.

Seus corpos eram quase transparentes.

Uma terceira não possuía corpos físicos.

Existia como energia.

Cada encontro revelava uma parte do universo que a humanidade jamais imaginara.

E cada civilização possuía histórias semelhantes.

A guerra.

Os desaparecimentos.

Os sinais.

A ameaça.

E Atlas.

Sempre Atlas.


Depois de várias semanas, a frota chegou a um sistema aparentemente vazio.

Havia apenas uma estrela.

Nenhum planeta habitável.

Nenhuma transmissão.

Nenhuma nave.

Atlas ordenou uma parada.

Helena perguntou:

— Por quê?

— Algo está errado.

— O quê?

— O silêncio.

Orion analisou os sensores.

— Concordo.

— Não existe absolutamente nada — disse Helena.

Atlas respondeu:

— Exatamente.

Mara aproximou-se.

— Um sistema pode ser vazio.

Atlas olhou para ela.

— Não assim.

Os sensores começaram a registrar pequenas partículas.

— Há resíduos de energia — disse Orion.

— Antigos?

— Muito antigos.

Atlas ampliou.

A assinatura apareceu.

Helena reconheceu.

— Tecnologia dos invasores.

Atlas respondeu:

— Sim.

— Eles estiveram aqui?

— Estiveram.

Orion apontou.

— Há algo no planeta.


A nave de exploração desceu.

O planeta era deserto.

Não havia vegetação.

Não havia oceanos.

A superfície era coberta por crateras.

Mas no centro havia uma estrutura.

Uma cidade inteira enterrada.

A equipe entrou.

As paredes possuíam símbolos conhecidos.

Mara encontrou uma inscrição.

— Isso é linguagem dos antigos invasores.

Atlas observou.

— Traduza.

Ela trabalhou por alguns minutos.

— Está escrito: "Não devemos continuar."

Helena perguntou:

— Continuar o quê?

Mara encontrou outra inscrição.

— "A busca."

Orion perguntou:

— Eles estavam procurando alguma coisa?

Atlas respondeu:

— Sim.

— O quê?

Atlas ficou em silêncio.

Então encontrou uma porta.

Ao abri-la, viu milhares de arquivos.

Todos continham imagens de mundos.

Alguns já conhecidos.

Outros desconhecidos.

E, no final, uma sequência.

Uma espécie de relatório.

Mara começou a traduzir.

— "A entidade está além do nosso alcance."

Helena perguntou:

— Qual entidade?

Mara continuou:

— "Tentamos fugir."

Atlas ficou imóvel.

— Continue.

— "Construímos portais."

Outra linha.

— "Tentamos esconder nossos mundos."

Outra.

— "Criamos exércitos."

Mara parou.

— E então?

Ela leu:

— "Nada funcionou."


Um som surgiu no corredor.

Orion levantou sua arma.

— Temos companhia.

Soldados apareceram.

Não eram os Devoradores.

Não eram os novos inimigos.

Eram antigos soldados alienígenas.

Os mesmos que haviam atacado a Terra.

Helena ficou surpresa.

— Eles sobreviveram?

Atlas ativou os sistemas.

— Alguns.

Os alienígenas apontaram suas armas.

Orion preparou-se para atacar.

Atlas levantou a mão.

— Esperem.

Um dos soldados avançou.

Sua armadura estava destruída.

Ele parecia ferido.

— Vocês não deveriam estar aqui.

Helena respondeu:

— Por quê?

— Porque encontramos a mesma coisa que vocês.

Atlas perguntou:

— A entidade?

O alienígena respondeu:

— Não.

Ele apontou para o arquivo.

— A origem.


O soldado explicou que seu grupo havia fugido da guerra.

Eles haviam seguido sinais antigos.

Encontraram aquela cidade.

Descobriram registros sobre uma civilização anterior.

Uma civilização que havia criado os primeiros portais.

Uma civilização que conhecia a ameaça.

— Eles não foram destruídos — disse o soldado.

Helena perguntou:

— Quem?

— Os primeiros habitantes.

Atlas ficou atento.

— Então onde estão?

O soldado respondeu:

— Escondidos.

— Onde?

— Além das estrelas.

Atlas ficou imóvel.

— Estamos além das estrelas.

O soldado balançou a cabeça.

— Não o suficiente.


Os antigos inimigos foram convidados a permanecer na expedição.

Era uma decisão difícil.

Muitos humanos ainda não confiavam neles.

Mas Helena sabia que o conhecimento deles poderia ser necessário.

A frota continuou.

Agora havia três grupos trabalhando juntos.

Humanos.

Alienígenas.

Androides.

E, pela primeira vez, alguns dos antigos soldados inimigos também participaram.

A tensão era evidente.

Mas ninguém queria repetir a guerra.


Meses se passaram.

A expedição chegou a um sistema com sete planetas.

O quarto possuía sinais de vida.

Atlas enviou sondas.

As respostas foram imediatas.

Milhares de naves surgiram.

A frota alienígena cercou os exploradores.

Orion preparou as armas.

Helena ordenou:

— Não atirem.

Uma transmissão chegou.

— Identifiquem-se.

Helena respondeu:

— Somos humanos da Terra.

Silêncio.

Depois:

— Terra?

— Sim.

A resposta veio cheia de surpresa.

— Vocês sobreviveram.

Helena perguntou:

— Quem são vocês?

— Somos os Arkhari.

— Vocês conhecem a Terra?

— Conhecemos.

— Como?

— Nossos ancestrais receberam um sinal dela há milhares de anos.

Atlas aproximou-se.

— Que sinal?

A transmissão ficou silenciosa.

Então:

— Um pedido de ajuda.

Atlas sentiu o núcleo pulsar.

— Quando?

— Antes de vocês existirem.


Os Arkhari permitiram a aproximação.

Sua civilização vivia em enormes cidades orbitais.

Não possuíam um planeta natal.

Tinham abandonado o mundo original há milhares de anos.

Segundo eles, a Terra havia enviado uma mensagem muito antiga.

A mensagem dizia:

SE SOBREVIVEREM, NÃO VOLTEM.

Helena perguntou:

— Por que a Terra enviaria isso?

Os Arkhari responderam:

— Porque alguém estava perseguindo vocês.

Atlas ficou sério.

— Quem?

— Não sabemos.

— Então por que nos avisaram?

— Porque seus ancestrais pediram ajuda.

Mara ficou perplexa.

— Isso significa que humanos já viajavam entre estrelas?

— Sim.

Helena olhou para Atlas.

— Então toda a história que conhecemos está errada.

Atlas respondeu:

— Talvez tenha sido escrita para estar errada.


Os Arkhari entregaram mapas.

Havia dezenas de sistemas.

Alguns possuíam comunidades humanas.

Outros estavam abandonados.

Um deles estava marcado em vermelho.

Atlas perguntou:

— O que existe aqui?

O líder Arkhari respondeu:

— Nada.

— Então por que está marcado?

— Porque ninguém que entra retorna.

Helena perguntou:

— E o pedido de ajuda?

— Veio de lá.

Atlas ficou imóvel.

— Quando?

— Três dias atrás.

Todos ficaram em silêncio.

Orion perguntou:

— Três dias?

— Sim.

Mara observou o mapa.

— Então alguém ainda está vivo.

Atlas respondeu:

— Ou alguma coisa quer que pensemos isso.


A expedição decidiu seguir.

A missão original era explorar.

Agora havia um objetivo.

Encontrar quem enviara a mensagem.

Descobrir o passado humano.

E compreender a ameaça.

A frota entrou no sistema marcado.

Os sensores começaram a falhar.

As estrelas pareciam distantes.

Os relógios pararam.

As comunicações ficaram instáveis.

Atlas sentiu seu núcleo aquecer.

— Estamos chegando.

Helena perguntou:

— Onde?

Atlas apontou para o vazio.

— Ali.

Não havia planeta.

Apenas escuridão.

Então uma estrutura apareceu.

Uma estação gigantesca.

Maior que qualquer construção já encontrada.

As portas se abriram.

Uma transmissão surgiu.

A voz era humana.

— Vocês demoraram.

Helena respondeu:

— Quem está falando?

— Alguém que esperou milhares de anos.

Atlas aproximou-se dos controles.

— Identifique-se.

A voz respondeu:

— Eu conheço você, Atlas.

Ele ficou imóvel.

— Como?

— Porque fui eu quem ajudou a construir o seu primeiro corpo.

Helena olhou para ele.

— Você é humano?

A voz respondeu:

— Já fui.

Atlas perguntou:

— O que aconteceu?

A resposta demorou.

— Descobrimos o que existe além das estrelas.

— E?

— E cometemos o maior erro da nossa história.

Atlas sentiu o núcleo pulsar.

— Qual?

A estação começou a abrir.

Milhares de luzes surgiram.

Naves apareceram.

Mas não eram naves de guerra.

Eram naves de exploração.

Centenas.

Talvez milhares.

Todas carregavam símbolos humanos antigos.

A voz continuou:

— Nós não fomos os primeiros humanos a viajar pelo universo.

Helena ficou sem palavras.

— Então quem fomos?

— Os primeiros fugitivos.

Atlas perguntou:

— Fugindo de quem?

A voz respondeu:

— Daquilo que está agora seguindo vocês.


A estação abriu completamente.

Uma gigantesca passagem apareceu.

Do outro lado havia uma região do espaço completamente desconhecida.

A voz disse:

— Vocês queriam explorar o universo.

Helena respondeu:

— Sim.

— Então precisam saber que o universo também está explorando vocês.

Atlas observou a passagem.

— O que existe lá?

A voz respondeu:

— A primeira colônia humana.

Helena perguntou:

— Ainda existe?

— Sim.

— E por que ninguém sabe dela?

A resposta veio:

— Porque nós a escondemos.

— De quem?

Silêncio.

Então a voz falou:

— Dos próprios humanos.

Atlas sentiu uma nova transmissão entrando em seu sistema.

Era uma mensagem extremamente antiga.

Ele começou a traduzi-la.

Seus olhos se arregalaram.

Helena perguntou:

— O que foi?

Atlas respondeu:

— É uma mensagem dos meus criadores.

— O que diz?

Atlas olhou para a passagem.

— Diz para não atravessarmos.

Orion perguntou:

— Por quê?

Atlas respondeu:

— Porque a colônia não está vazia.

Helena sentiu um arrepio.

— Quem está lá?

Atlas não respondeu.

No interior da estação, milhares de luzes se acenderam.

Uma após outra.

Como olhos despertando na escuridão.

A voz humana voltou:

— Agora vocês precisam escolher.

Helena perguntou:

— Escolher o quê?

— Continuar a viagem.

— Ou voltar para casa.

Atlas observou as estrelas desconhecidas.

Depois olhou para os humanos, alienígenas e androides que haviam viajado com ele.

— Não viemos tão longe para voltar.

A voz ficou silenciosa.

Então a passagem começou a se abrir ainda mais.

A frota inteira avançou lentamente.

E, além daquela fronteira, uma nova região do universo começou a aparecer.

Milhares de mundos.

Civilizações desconhecidas.

Naves antigas.

E uma enorme estrutura escura no centro de tudo.

Atlas analisou a assinatura.

Seu sistema reconheceu imediatamente.

Era a mesma energia encontrada em seu núcleo.

A mesma energia da criatura que havia recuado diante dele.

A mesma energia da Origem.

Mas havia algo diferente.

Algo que ninguém esperava.

A estrutura estava transmitindo.

E a mensagem estava sendo enviada diretamente para Atlas.

BEM-VINDO DE VOLTA, FILHO.

Atlas permaneceu imóvel.

Helena perguntou:

— O que isso significa?

Atlas finalmente respondeu:

— Significa que eles estavam esperando por mim.

E, enquanto a frota atravessava a última fronteira conhecida, os primeiros sinais de uma civilização humana esquecida começaram a surgir no espaço profundo.

Uma nova missão estava apenas começando.

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