O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 3 — O ATAQUE
O primeiro grito veio da torre norte.
— Eles estão aqui!
Rafael correu pelo corredor estreito, segurando a espingarda com as duas mãos. Atrás dele, os sinos de emergência continuavam tocando, espalhando o som pelos túneis da antiga estação ferroviária. As pessoas abandonavam os alojamentos, algumas carregando armas, outras tentando encontrar os filhos no meio da confusão.
O Refúgio inteiro havia despertado.
Quando Rafael alcançou a muralha, viu os primeiros monstros surgindo entre as árvores mortas que cercavam a estação. Eram criaturas menores do que o gigante que descera da montanha, mas isso não significava que fossem menos perigosas. Tinham corpos compridos, cobertos por uma pele escura e irregular, quatro patas musculosas e cabeças estreitas, nas quais brilhavam pequenos olhos avermelhados.
Moviam-se rapidamente, saltando sobre os escombros e escalando os restos de construções abandonadas.
Rafael contou seis.
Depois perdeu a conta.
Dezenas de criaturas avançavam pelo terreno, espalhando-se diante das muralhas como uma maré de sombras.
— Onde está Augusto? — perguntou ele.
Um vigia apontou para a torre central.
— Está coordenando a defesa! Mandou todos os homens para os portões!
Rafael subiu os últimos degraus e encontrou Lívia preparando um rifle. Apesar do ferimento na testa, ela parecia determinada. Havia prendido o cabelo e colocado um cinturão de munição ao redor da cintura.
— Pensei que você estivesse na enfermaria — disse Rafael.
— E perder a festa?
Ela tentou sorrir, mas seus olhos permaneceram fixos nas criaturas.
— Quantas são? — perguntou ele.
— Mais do que conseguimos contar.
Um estrondo interrompeu a conversa.
A primeira criatura atingiu a muralha norte.
O impacto fez as placas de aço estremecerem. Os vigias dispararam imediatamente, e os tiros iluminaram a escuridão. Uma das criaturas caiu, rolando sobre os escombros, mas outras duas avançaram por cima do corpo.
— Atirem nas cabeças! — gritou Lívia.
Rafael ergueu a espingarda e disparou contra o monstro que tentava escalar a barricada. A criatura perdeu o equilíbrio e caiu do outro lado, atingindo o chão com um ruído úmido.
Ele recarregou.
Outra apareceu imediatamente no lugar da primeira.
As criaturas não demonstravam medo dos tiros. Continuavam avançando, usando os corpos das companheiras como apoio para alcançar o topo da muralha.
— Estão tentando subir! — berrou um dos vigias.
Rafael correu até uma plataforma de madeira e disparou novamente. O monstro atingido caiu, mas suas garras ficaram presas entre as placas metálicas.
Lívia aproximou-se e disparou duas vezes contra a cabeça da criatura.
— Não deixem nenhuma passar!
No lado de dentro da muralha, os moradores transportavam caixas de munição e ferramentas. Alguns homens empurravam carrinhos cheios de pedras, enquanto mulheres distribuíam garrafas de água e panos para os feridos.
Augusto surgiu no alto da torre central, segurando um megafone.
— Reforcem o portão norte! As criaturas estão concentrando o ataque naquele ponto!
Rafael olhou para a entrada principal.
O portão era formado por duas enormes placas de aço, reforçadas com trilhos ferroviários e vigas de concreto. Atrás delas, uma segunda barreira de madeira e metal havia sido construída para impedir que os monstros alcançassem os alojamentos.
Se o portão caísse, o Refúgio ficaria exposto.
— Lívia, precisamos descer! — gritou Rafael.
Ela assentiu.
Os dois correram pela passarela, desviando de um homem ferido que era carregado por outros sobreviventes. Ao chegarem ao portão, encontraram Álvaro e um grupo de moradores tentando prender uma corrente ao mecanismo de abertura.
— A dobradiça está cedendo! — gritou Álvaro.
Rafael examinou a estrutura.
Uma das placas havia sido empurrada para dentro, criando uma abertura estreita perto do chão. Do outro lado, garras compridas tentavam encontrar espaço para atravessar.
— Tragam os trilhos! — ordenou ele.
Dois homens correram para buscar vigas de metal.
Lívia posicionou-se atrás de uma barricada improvisada e começou a disparar contra as criaturas que apareciam pelas frestas. Cada tiro fazia uma delas recuar, mas outras ocupavam imediatamente o espaço.
Um monstro conseguiu enfiar a cabeça pela abertura.
Suas mandíbulas se abriram, revelando fileiras de dentes finos.
Um dos moradores gritou e caiu para trás.
Rafael agarrou uma lança improvisada e golpeou a criatura no olho. O monstro recuou, soltando um guincho agudo.
— Segurem essa porta! — berrou ele.
Álvaro e outros três homens empurraram uma viga contra a abertura. O metal rangeu sob a pressão.
Por alguns segundos, pareceu que conseguiriam manter a estrutura firme.
Então veio um impacto muito mais forte.
O portão inteiro se curvou para dentro.
Uma das correntes se partiu, e a viga de sustentação deslizou pelo chão.
Rafael foi lançado contra a parede.
A dor percorreu suas costas, mas ele se levantou imediatamente. Do outro lado da entrada, as criaturas gritavam e golpeavam o aço, concentrando suas forças no mesmo ponto.
— Precisamos fechar a passagem secundária! — gritou Álvaro.
Rafael olhou para o corredor lateral.
A pequena porta que ligava o portão à área de manutenção estava aberta. Por ali, os moradores transportavam ferramentas e munição durante os trabalhos de reforço.
Se uma criatura conseguisse atravessar aquela passagem, alcançaria diretamente o interior da comunidade.
— Lívia! Cubra a entrada!
Ela disparou contra um monstro que tentava saltar sobre a barricada.
— Vai!
Rafael correu pelo corredor lateral, empurrando uma estante de metal para bloquear a passagem. Dois moradores o ajudaram a arrastar um contêiner vazio até a porta.
No momento em que terminaram, ouviram um grito vindo do lado de fora.
Um grito infantil.
Rafael congelou.
— Davi?
Ele reconheceu a voz imediatamente.
Davi tinha onze anos e morava com a avó no setor leste do Refúgio. Era um garoto magro, de cabelos escuros, que costumava ajudar os mecânicos a consertar bicicletas e pequenos geradores. Rafael já o havia encontrado várias vezes perto dos depósitos, sempre fazendo perguntas sobre as expedições.
O menino deveria estar nos alojamentos.
— Davi! — gritou Rafael.
Uma voz respondeu do outro lado da muralha.
— Rafael! Me ajuda!
Rafael correu até uma abertura entre as placas e espiou para fora.
Davi estava do lado de fora.
O garoto havia ficado preso perto de um antigo vagão ferroviário, a poucos metros do portão norte. Uma pequena estrutura de madeira desabada bloqueava seu caminho, e duas criaturas se aproximavam lentamente.
Ele segurava uma lanterna, que piscava sem parar.
Rafael sentiu o coração disparar.
— Como ele foi parar lá fora? — perguntou um dos moradores.
Ninguém respondeu.
Talvez Davi tivesse saído durante a confusão para buscar a avó. Talvez tivesse tentado ajudar os vigias. Não importava.
O menino estava prestes a morrer.
Rafael olhou para Lívia, que continuava defendendo o portão.
— Preciso sair!
Ela virou-se imediatamente.
— Está louco?
— É o Davi!
Lívia olhou pela abertura e viu o garoto.
Uma das criaturas avançou.
Davi recuou, tropeçou nos trilhos e caiu.
— Rafael! — gritou novamente.
O caçador não pensou duas vezes.
Agarrou uma corda presa à parede e começou a destravar a pequena passagem de emergência.
Lívia correu até ele.
— Espere! Eu vou com você!
— Não! Você precisa segurar o portão!
— Rafael, são muitas criaturas!
Ele encarou a mulher.
— Eu não vou deixar aquele garoto morrer.
Lívia apertou os lábios, furiosa.
Então retirou uma faca da cintura e entregou a ele.
— Traga o menino de volta. E não faça nenhuma besteira.
Rafael pegou a faca, prendeu a espingarda nas costas e abriu a passagem.
O ar frio da noite atingiu seu rosto.
Ele saiu correndo.
As criaturas perceberam imediatamente sua presença.
Uma delas ergueu a cabeça, farejando o ar. A outra abandonou Davi e virou-se na direção do homem.
Rafael disparou contra a primeira.
O tiro atingiu o pescoço da criatura, que cambaleou, mas não caiu.
Ele continuou correndo.
— Davi! Levanta!
O menino tentou se levantar, mas a perna estava presa entre dois pedaços de madeira.
Rafael alcançou o garoto e se ajoelhou ao seu lado.
— Olha para mim. Você consegue mexer o pé?
— Acho que sim!
— Então não se mexa!
Rafael puxou a madeira com força. A estrutura estava pesada demais. A criatura ferida soltou um guincho e começou a se aproximar novamente.
Ele abandonou a espingarda por um instante, segurou o pedaço de madeira com as duas mãos e empurrou.
A madeira se deslocou alguns centímetros.
Davi gritou.
— Está machucando!
— Aguenta só mais um pouco!
Um rugido veio da muralha.
O portão estava cedendo.
Rafael ouviu os disparos de Lívia e os gritos dos moradores. Não tinham muito tempo.
Ele apoiou um dos pés no chão e fez força com todo o corpo.
A madeira finalmente se soltou.
Davi puxou a perna e tentou ficar de pé, mas caiu novamente.
— Não consigo correr!
Rafael olhou para a criatura.
Ela estava a menos de dez metros.
A mandíbula se abriu, e uma saliva escura escorreu sobre o asfalto.
Rafael colocou Davi nas costas.
— Segura firme!
O menino passou os braços ao redor de seu pescoço.
Rafael começou a correr.
A criatura avançou.
O primeiro salto atingiu o chão a poucos metros deles. Rafael sentiu os fragmentos de concreto atingirem suas pernas.
Continuou correndo.
A entrada de emergência parecia distante demais.
Ele ouviu outro guincho e percebeu que a segunda criatura havia se juntado à perseguição.
Davi chorava silenciosamente em suas costas.
— Não olha para trás! — ordenou Rafael.
A passagem estava aberta.
Dois moradores gritavam do lado de dentro, estendendo os braços para ajudá-los.
Rafael acelerou.
Uma sombra passou sobre sua cabeça.
Ele se jogou para o lado no instante em que uma garra atingiu o chão, abrindo uma rachadura no asfalto.
Seu ombro bateu contra um automóvel abandonado.
A dor foi tão intensa que quase soltou o garoto.
Mas conseguiu se levantar.
A poucos passos da entrada, uma das criaturas bloqueou o caminho.
Rafael parou bruscamente.
O monstro ergueu a cabeça e abriu a boca.
Davi gritou.
Rafael retirou a faca da cintura.
Sabia que não conseguiria enfrentar aquela criatura com uma lâmina tão pequena. Mesmo assim, posicionou-se diante do menino.
— Quando eu mandar, corre para dentro!
— Mas...
— Corre!
A criatura avançou.
Rafael desviou para a esquerda, sentindo as garras rasparem sua jaqueta. Com a mão livre, agarrou uma barra de ferro caída no chão e golpeou o focinho do monstro.
A criatura recuou, guinchando.
— AGORA!
Davi correu para a passagem.
Dois moradores o puxaram para dentro.
Rafael tentou segui-lo, mas a segunda criatura saltou sobre o automóvel, bloqueando a entrada.
Ele recuou.
A espingarda estava caída perto dos trilhos.
Sem pensar, correu em direção à arma.
A criatura veio atrás.
Rafael mergulhou sobre o asfalto, agarrou a espingarda e rolou para o lado.
Disparou.
O tiro atingiu a cabeça do monstro a curta distância.
A criatura caiu sobre o chão, estremecendo.
Rafael levantou-se e correu para a entrada.
Lívia estava esperando do outro lado, com a mão estendida.
— Rafael!
Ele saltou pela passagem.
No instante seguinte, os moradores fecharam a porta de emergência.
Uma garra atravessou a fresta e atingiu a chapa metálica.
Rafael caiu de costas no chão.
Lívia ajoelhou-se ao seu lado.
— Você é um completo idiota!
Ele começou a rir, sem conseguir controlar a respiração.
— O garoto está bem?
Lívia apontou para Davi.
O menino estava sentado perto da parede, abraçado à avó, que chorava enquanto examinava sua perna.
Rafael fechou os olhos.
Pelo menos dessa vez, conseguira chegar a tempo.
Mas o ataque ainda não havia terminado.
Um estrondo violento sacudiu o corredor.
Rafael abriu os olhos e tentou se levantar, mas uma dor aguda atravessou seu ombro. Lívia segurou seu braço e o ajudou a ficar de pé.
— Depois você reclama da dor. Agora precisamos impedir que eles entrem.
Do outro lado da porta, as criaturas golpeavam o metal. Cada pancada fazia a estrutura estremecer. Os moradores haviam empilhado móveis e caixas contra a entrada, mas a barricada improvisada começava a se deslocar.
Álvaro apareceu correndo, com o rosto coberto de poeira.
— A muralha norte está comprometida! Perdemos duas posições de defesa!
— Quantas criaturas passaram? — perguntou Rafael.
— Ainda nenhuma, mas não sei por quanto tempo conseguiremos segurá-las.
Lívia pegou outro carregador de munição.
— Precisamos de alguma coisa que faça essas desgraças recuarem.
— Fogo! — respondeu um dos moradores. — Podemos usar combustível!
Álvaro balançou a cabeça.
— O vento está soprando em nossa direção. Se incendiarmos a entrada, podemos colocar fogo nos alojamentos.
Um novo impacto interrompeu a discussão.
A porta de emergência se curvou para dentro.
Rafael percebeu que uma das dobradiças havia se soltado. A criatura do lado de fora enfiou parte da cabeça pela abertura, tentando alcançar os sobreviventes.
— Saiam da frente! — gritou Lívia.
Ela disparou três vezes contra o olho do monstro.
A criatura recuou, mas outra ocupou imediatamente seu lugar.
Rafael agarrou uma barra de ferro e ajudou Álvaro a empurrar uma viga contra a porta. Outros moradores trouxeram chapas metálicas, enquanto dois homens arrastavam um armário pesado para bloquear a passagem.
Por alguns minutos, o esforço coletivo conseguiu conter os ataques.
Então os ruídos mudaram.
As criaturas pararam de golpear a entrada.
Rafael ergueu a cabeça.
— O que elas estão fazendo?
Lívia aproximou-se da abertura e escutou.
— Não sei.
Um som grave percorreu o corredor.
Era semelhante ao chamado que haviam ouvido na montanha, mas agora parecia vir de muito mais perto.
As criaturas começaram a responder.
Uma após outra, os guinchos ecoaram do lado de fora.
Álvaro empalideceu.
— Isso não pode ser bom.
O chão tremeu.
Dessa vez, o tremor foi tão intenso que uma lâmpada caiu do teto e se partiu no chão. Poeira desprendeu-se das paredes, e os moradores começaram a gritar.
Rafael correu até uma pequena abertura na barricada.
Do lado de fora, as criaturas menores estavam se afastando.
Não fugiam desordenadamente. Moviam-se em grupos, abrindo espaço entre os escombros.
No fim da avenida, uma sombra gigantesca avançava.
O mesmo monstro que observara o Refúgio do alto da montanha.
Rafael sentiu o estômago afundar.
A criatura caminhava lentamente, esmagando os veículos abandonados. As placas escuras que cobriam seu corpo refletiam a luz avermelhada dos olhos.
Quando chegou diante da muralha, parou.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Então o gigante ergueu uma das patas dianteiras.
— Afastem-se! — berrou Augusto pelo megafone.
O golpe atingiu a muralha.
O estrondo foi ensurdecedor.
Uma seção inteira da estrutura desabou, lançando pedaços de concreto sobre o pátio. Os moradores correram para se proteger, enquanto os vigias abandonavam as torres danificadas.
Rafael caiu de joelhos.
Quando conseguiu levantar a cabeça, viu uma abertura enorme na muralha norte.
As criaturas menores começaram a atravessá-la.
E, atrás delas, o gigante preparava outro golpe.
Augusto ordenou que todos recuassem para a segunda linha de defesa.
Os moradores abandonaram as barricadas externas e correram pelos corredores da estação. Alguns carregavam crianças, enquanto outros tentavam transportar os feridos.
Rafael ajudou Lívia a levantar um homem atingido por uma placa de concreto.
— Precisamos levá-lo para a enfermaria!
— Eu cuido dele! — respondeu ela. — Vá ajudar os outros!
Rafael correu em direção ao pátio.
As criaturas menores haviam invadido a área externa e se espalhavam entre os vagões. Os vigias disparavam das plataformas, tentando impedir que alcançassem os alojamentos.
Uma delas saltou sobre um homem que carregava uma caixa de munição.
Rafael ergueu a espingarda e disparou.
A criatura caiu, mas outras duas avançaram pelo corredor.
Ele recuou, procurando abrigo atrás de um contêiner.
Os disparos ecoavam por todos os lados.
Uma mulher gritava o nome do filho. Um homem tentava fechar uma porta enquanto uma criatura arranhava o outro lado. O cheiro de fumaça começava a se espalhar pela estação.
Rafael avistou Davi perto da entrada dos alojamentos.
O garoto estava de pé, apoiado na avó, segurando uma pequena lanterna.
— Davi! Entre!
O menino olhou para ele.
— Minha avó não consegue andar!
Rafael correu até os dois.
A mulher estava ferida na perna e mal conseguia se apoiar. Ele passou um braço ao redor de sua cintura e começou a conduzi-la para o corredor protegido.
— Não olhe para trás! — ordenou.
Davi caminhava ao lado deles, segurando a lanterna.
Quando chegaram à entrada dos alojamentos, encontraram um grupo de moradores tentando fechar uma porta de aço.
Rafael ajudou a empurrá-la.
No instante em que a passagem foi bloqueada, uma criatura surgiu do outro lado e golpeou a chapa metálica.
O menino começou a chorar.
A avó o abraçou.
— Vai ficar tudo bem, meu amor.
Rafael não teve coragem de responder.
Sabia que talvez não fosse verdade.
O combate continuou durante quase uma hora.
Os moradores conseguiram bloquear os principais corredores, utilizando vagões, móveis e placas de metal. Os vigias disparavam pelas aberturas, enquanto os grupos de defesa tentavam eliminar as criaturas que haviam entrado na estação.
A cada minuto, porém, os sobreviventes perdiam terreno.
Rafael encontrou Lívia perto do antigo setor de manutenção. Ela estava sentada sobre uma caixa, recarregando o rifle.
— Como estão os feridos? — perguntou ele.
— Muitos. O médico está fazendo o que pode.
Ela apontou para uma passagem lateral.
— Augusto quer você na sala de controle.
Rafael assentiu.
Os dois atravessaram um corredor coberto de poeira e chegaram à antiga sala de operações ferroviárias. O local havia sido transformado em centro de comando, com mapas pendurados nas paredes e rádios conectados a baterias improvisadas.
Augusto estava diante de uma mesa, examinando o mapa do Refúgio.
— Precisamos evacuar os setores inferiores — disse ele.
Rafael aproximou-se.
— E para onde vamos?
O líder apontou para uma passagem subterrânea no mapa.
— Existe um túnel de manutenção que leva até uma antiga estação, a três quilômetros daqui. Podemos usar o caminho para retirar as crianças e os feridos.
— E os outros?
Augusto permaneceu em silêncio.
Lívia compreendeu primeiro.
— Você quer dividir a comunidade.
— Não temos escolha. Se o gigante derrubar a segunda muralha, perderemos tudo.
Rafael observou as linhas do mapa.
A passagem subterrânea era estreita e parcialmente alagada. Muitos dos sobreviventes não conseguiriam atravessá-la rapidamente.
— Precisamos ganhar tempo — disse ele.
Augusto assentiu.
— Exatamente.
Um rádio chiou sobre a mesa.
Uma voz desesperada surgiu entre os ruídos.
— Torre leste para comando! Estamos perdendo a posição! Repito, estamos perdendo a posição!
Augusto agarrou o aparelho.
— Quantos inimigos?
— Não sabemos! Eles estão atravessando os vagões!
O rádio emitiu um estalo.
Depois, silêncio.
Rafael pegou a espingarda.
— Vou até lá.
Lívia levantou-se imediatamente.
— Eu também.
Augusto tentou impedi-los.
— Vocês não podem enfrentar aquelas coisas sozinhos!
Rafael olhou para ele.
— Não vamos enfrentar sozinhos. Vamos ganhar tempo para os outros fugirem.
O líder permaneceu imóvel.
Por fim, assentiu.
— Levem dois homens. E não tentem bancar os heróis.
Rafael e Lívia saíram da sala.
No corredor, encontraram dois moradores armados esperando por eles. Um deles carregava um rifle de caça; o outro segurava uma besta improvisada.
Juntos, seguiram em direção à torre leste.
O caminho estava tomado por destroços.
Ao atravessarem o antigo salão de embarque, encontraram três criaturas mortas. Os corpos estavam cobertos por uma substância escura, semelhante a óleo.
Lívia parou.
— Espere.
Ela se ajoelhou ao lado de uma das criaturas.
Rafael olhou para a entrada.
— Não temos tempo.
— Olhe para isso.
A caçadora afastou parte da pele da criatura com a ponta da faca.
Sob a carapaça, havia uma sequência de marcas escuras.
Não eram feridas comuns.
Pareciam linhas cuidadosamente desenhadas, formando símbolos geométricos.
Rafael se aproximou.
— O que é isso?
Lívia não respondeu.
Retirou uma pequena lanterna do bolso e iluminou as marcas.
Os símbolos percorriam o corpo do monstro, concentrando-se ao redor do pescoço e do peito. Algumas linhas brilhavam fracamente, emitindo uma luz avermelhada.
Um dos homens recuou.
— Isso estava dentro deles?
Lívia tocou uma das marcas com a ponta da faca.
A criatura estremeceu.
Todos se afastaram.
O corpo estava morto havia vários minutos.
Mesmo assim, alguma coisa se movimentara sob a pele.
Rafael ergueu a espingarda.
Um som eletrônico começou a sair do cadáver.
Três pulsos curtos.
Uma pausa.
Depois, três pulsos novamente.
Lívia reconheceu o padrão.
Era exatamente o mesmo sinal emitido pelo dispositivo que encontrara perto da rodovia.
Ela olhou para Rafael.
— Não são apenas monstros.
Antes que pudesse explicar, um estrondo veio da torre leste.
Os quatro correram.
Ao chegarem à plataforma, encontraram os últimos defensores recuando. As criaturas haviam atravessado a barricada e avançavam pelos trilhos.
Rafael disparou contra a primeira.
Lívia atingiu outra com uma flecha.
Os dois homens abriram fogo, permitindo que os sobreviventes recuassem para o corredor de manutenção.
Durante alguns minutos, conseguiram conter o avanço.
Então o gigante apareceu novamente.
Sua cabeça surgiu acima dos vagões destruídos.
Rafael sentiu o chão tremer.
A criatura observou a estação, os olhos vermelhos percorrendo as muralhas quebradas.
Depois virou a cabeça na direção da torre leste.
Diretamente para Rafael.
O homem ficou imóvel.
A criatura abriu a boca, revelando uma estrutura luminosa no fundo da garganta.
Lívia agarrou seu braço.
— CORRE!
Uma onda de energia atravessou os trilhos.
O vagão mais próximo foi lançado contra a torre, destruindo parte da plataforma. Rafael caiu no chão, enquanto pedaços de metal e concreto voavam sobre sua cabeça.
Quando conseguiu se levantar, a torre leste estava em chamas.
Os últimos defensores haviam desaparecido entre a fumaça.
Lívia estava caída perto de uma coluna, com o rifle quebrado ao seu lado.
Rafael correu até ela.
— Lívia!
Ela abriu os olhos.
— Estou bem.
— Você está sangrando!
— Depois você reclama disso!
Rafael ajudou-a a levantar.
Os dois correram para o corredor de manutenção enquanto o gigante avançava entre os vagões.
Atrás deles, o Refúgio continuava sendo destruído.
E, em algum lugar sob os escombros, as criaturas mortas começaram a emitir novamente aquele estranho sinal eletrônico.
Dessa vez, porém, a resposta não veio da montanha.
Veio de dentro da própria estação.
Rafael parou ao ouvir o ruído.
Lívia também.
Os dois olharam para a escuridão do túnel subterrâneo.
Uma luz vermelha piscou no fundo da passagem.
Depois outra.
E mais outra.
Lívia apertou o braço de Rafael.
— Isso não estava aqui antes.
Um som metálico ecoou sob seus pés.
Parecia o funcionamento de uma máquina gigantesca, despertando depois de muitos anos.
Rafael ergueu a espingarda.
Ao longe, Augusto gritava ordens para os sobreviventes evacuarem os alojamentos.
Mas Rafael já não conseguia ouvir direito.
Porque, no fundo do túnel, alguma coisa estava se aproximando.
E aquela coisa não caminhava como os monstros.
Ela vinha sobre rodas.
E estava emitindo exatamente os mesmos sinais encontrados nas criaturas mortas.
Rafael recuou um passo.
Lívia apontou a lanterna para a escuridão.
Uma enorme silhueta metálica surgiu entre os trilhos.
E, no centro de sua estrutura, três luzes vermelhas se acenderam.
As mesmas três luzes que haviam brilhado no topo da montanha.

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