A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 47 — O Verdadeiro Inimigo
As sete portas se abriram ao mesmo tempo.
Não eram portais como os que haviam surgido anteriormente.
Não havia luz em seu interior.
Havia ausência.
Ausência de estrelas.
Ausência de matéria.
Ausência até mesmo de som.
Era como se cada porta conduzisse para um lugar onde as leis do universo ainda não haviam sido criadas.
A frota inteira parou.
Pilotos esqueceram-se de respirar.
Soldados abaixaram as armas.
Até os seres colossais que haviam atravessado as rachaduras ficaram imóveis.
Orion flutuava diante da maior abertura.
Seu corpo continuava coberto pela energia branca e azul.
Ao lado dele, a figura que parecia ser uma versão futura de si mesmo observava silenciosamente.
— O que existe atrás dessas portas? — perguntou Lyra através do comunicador.
Orion não respondeu imediatamente.
Ele conseguia sentir alguma coisa.
Não uma criatura.
Não exatamente.
Era uma vontade.
Uma consciência tão vasta que parecia ocupar o espaço entre as estrelas.
Então a voz surgiu.
Não veio de uma nave.
Não veio de um transmissor.
Veio de todos os lugares.
— Vocês chegaram.
A frase foi simples.
Mas milhares de pessoas caíram de joelhos.
Algumas começaram a chorar.
Outras gritaram.
Kael permaneceu de pé.
— Mostre-se.
Lyra olhou para ele.
— Kael...
— Se essa coisa quer falar conosco, então que fale.
A escuridão atrás das portas começou a se mover.
Primeiro lentamente.
Depois como uma tempestade.
Uma forma surgiu.
Era impossível determinar seu tamanho.
Parte dela parecia estar dentro do portal.
Outra parte parecia envolver o próprio universo.
Sua superfície era composta por estruturas semelhantes a ossos, estrelas mortas e rios de energia.
Milhares de olhos se abriram.
Cada olho observava um mundo diferente.
Kael sentiu uma pressão sobre a mente.
A criatura falou:
— Vocês me chamaram.
Lyra respondeu:
— Nós não chamamos você.
A entidade virou um dos olhos para ela.
— Chamaram, sim.
— Como?
— Com a guerra.
Silêncio.
A criatura continuou:
— Com o medo.
— Com o Nóvium.
Orion sentiu um arrepio.
— Você criou o Nóvium?
A entidade olhou para ele.
— Não.
Orion ficou confuso.
— Então quem criou?
— Vocês.
A resposta pareceu absurda.
Asterion aproximou-se.
— Isso não é verdade.
A entidade respondeu:
— Tudo que vocês chamam de Nóvium foi apenas uma parte de mim.
Orion sentiu a energia dentro do corpo reagir.
De repente, todas as lembranças começaram a voltar.
O primeiro contato.
A mina.
As pedras azuis.
Os soldados.
Os experimentos.
As guerras.
As cidades destruídas.
As criaturas.
Tudo.
Ele percebeu algo terrível.
O Nóvium nunca havia simplesmente concedido poderes.
Ele estava conectando as pessoas.
Cada portador carregava uma pequena parte da mesma consciência.
Cada batalha alimentava aquela consciência.
Cada morte.
Cada explosão.
Cada tentativa de controlar o minério.
Tudo acumulava energia.
A entidade estava se alimentando da guerra.
— Você nos manipulou — disse Orion.
— Sim.
Lyra sentiu o estômago revirar.
— Desde quando?
A entidade respondeu:
— Desde antes de vocês conhecerem Éterion.
Kael apertou os punhos.
— Então Vark...
— Foi útil.
— E os impérios?
— Úteis.
— A guerra?
— Necessária.
Kael ergueu a arma.
— Então você causou tudo isso.
A entidade pareceu sorrir.
— Eu apenas ofereci oportunidades. Vocês fizeram o restante.
As transmissões foram abertas para toda a galáxia.
Todos ouviram.
Governadores.
Soldados.
Refugiados.
Cientistas.
Prisioneiros.
Crianças escondidas em abrigos.
Todos escutaram a mesma verdade.
A guerra não havia sido iniciada apenas por ambição.
O desejo por Éterion havia sido plantado.
O Nóvium havia aparecido em momentos estratégicos.
Descobertas tinham sido incentivadas.
Transmissões haviam sido interceptadas.
Informações falsas haviam sido enviadas.
Até mesmo algumas decisões dos imperadores haviam sido influenciadas.
Não diretamente.
A entidade não precisava controlar cada pessoa.
Bastava empurrar.
Uma mensagem aqui.
Um sonho ali.
Uma visão.
Uma coincidência.
Uma descoberta.
E os humanos faziam o resto.
Lyra lembrou-se de algo.
— A voz.
Kael olhou para ela.
— Qual voz?
— A voz que apareceu nos sonhos de você.
Kael ficou imóvel.
A entidade respondeu antes que ele pudesse falar.
— Era minha.
Kael sentiu a raiva crescer.
— Você entrou na minha mente.
— Sim.
— Por quê?
— Para garantir que você continuasse lutando.
Kael apertou a mandíbula.
— Então até minhas dúvidas foram manipuladas?
— Não.
A resposta surpreendeu.
— Suas dúvidas eram suas.
Kael ficou em silêncio.
— Eu apenas garanti que elas não fossem suficientes para fazê-lo desistir.
Orion olhou para o planeta.
Éterion estava coberto por tempestades.
Os oceanos haviam recuado.
As florestas estavam em chamas.
As cidades destruídas brilhavam com energia azul.
E, abaixo da superfície, o núcleo pulsava.
— Você quer Éterion.
— Não.
— Então o que quer?
A entidade respondeu:
— Quero aquilo que existe dentro dele.
Orion sentiu a resposta antes de ouvi-la.
O Núcleo Branco.
O Núcleo Absoluto.
E a terceira fonte.
As três energias haviam sido reunidas.
Era exatamente o que a entidade precisava.
— Você usou Vark para construir o canhão.
— Sim.
— Ele achava que controlaria o poder.
— Ele acreditava no que precisava acreditar.
Lyra olhou para Kael.
— Precisamos destruir o núcleo.
A entidade riu.
O som fez o espaço vibrar.
— Tarde demais.
Éterion começou a mudar.
As montanhas se moveram.
Continentes começaram a se deslocar.
Rios inverteram seus cursos.
No oceano, gigantescas estruturas azuis emergiram.
Pareciam ossos.
Mas eram máquinas.
Antigas máquinas enterradas havia milhões de anos.
Asterion ficou horrorizado.
— Não...
Lyra perguntou:
— O que foi?
— Éterion não era apenas um planeta.
— O que significa?
Asterion apontou para a superfície.
— Era uma prisão.
Orion virou-se.
— Prisão de quê?
Asterion respondeu:
— Dela.
A entidade permaneceu em silêncio.
Então Éterion começou a girar.
Não como um planeta.
Como uma máquina.
As luas mudaram de posição.
Os oceanos foram puxados.
As rachaduras se fecharam.
Os portais começaram a desaparecer.
Kael observava os sensores.
— Está tomando controle da estrutura planetária.
Selene respondeu:
— Não.
— Então?
Ela olhou para os dados.
— Está tomando controle de tudo.
As naves começaram a perder energia.
Uma após outra.
Motores desligaram.
Escudos desapareceram.
Armas ficaram inutilizadas.
Os sistemas de comunicação foram assumidos.
Pilotos tentaram recuperar o controle.
Sem sucesso.
Uma frota inteira ficou imóvel.
A entidade havia conectado todas as máquinas ao mesmo sistema.
Lyra ouviu uma voz no comunicador.
— Não resistam.
Ela respondeu:
— Vá para o inferno.
A voz respondeu:
— O inferno é apenas outro nome para um lugar onde eu ainda não cheguei.
Lyra desligou a comunicação.
— Eu odeio essa coisa.
Kael sorriu pela primeira vez em horas.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Vark observava tudo da ponte de sua nave.
O canhão estava completamente desativado.
Seus soldados aguardavam ordens.
Nenhuma veio.
Vark olhou para o planeta.
Depois para a entidade.
Pela primeira vez, parecia assustado.
— Eu não fiz isso para você.
A entidade respondeu:
— Não.
Vark levantou a arma.
— Eu queria destruir Éterion.
— Eu sei.
— Então por que permitiu?
— Porque você acreditava que era o responsável.
Vark percebeu.
— Você nunca precisou de mim.
— Não.
— Então por que me deixou chegar tão longe?
— Porque você acelerou o processo.
Vark ficou imóvel.
Todos os seus planos.
Todas as batalhas.
Todos os mundos destruídos.
Tudo havia sido utilizado.
Ele apontou a arma para o próprio Núcleo Absoluto.
— Então vou destruir sua fonte.
A entidade respondeu:
— Tente.
Vark disparou.
O tiro atingiu o núcleo.
Por um instante, nada aconteceu.
Depois a arma explodiu.
A nave de Vark foi lançada para longe.
Seu corpo desapareceu entre os destroços.
Lyra viu a explosão.
— Vark?
Kael respondeu:
— Não sei.
Orion fechou os olhos.
— Ele está vivo.
Lyra olhou para ele.
— Tem certeza?
— Sim.
— Onde?
Orion apontou para Éterion.
— Dentro do planeta.
O solo abriu.
Vark caiu em uma câmara subterrânea.
Levantou-se lentamente.
Estava ferido.
Seu uniforme estava rasgado.
O sangue escorria pelo rosto.
À sua frente havia uma estrutura gigantesca.
Um altar.
Sobre ele, uma pequena esfera vermelha pulsava.
Vark aproximou-se.
Uma voz surgiu.
— Você falhou.
Vark levantou a arma.
— Quem é você?
A esfera respondeu:
— Aquele que foi esquecido.
Vark estreitou os olhos.
— Você também está preso?
— Estava.
— E agora?
A esfera começou a crescer.
— Agora estou livre.
Orion sentiu a presença.
Outra.
Diferente.
Mais próxima.
Mais agressiva.
Ele abriu os olhos.
— Tem alguém aqui.
A entidade percebeu.
— Sim.
— Quem?
— Outro erro.
Asterion ficou pálido.
— Não pode ser.
Lyra perguntou:
— O quê?
Asterion respondeu:
— Os antigos não criaram apenas uma entidade.
— Quantas?
Ele olhou para as sete portas.
— Sete.
As portas começaram a fechar.
Uma por uma.
A entidade principal recuou.
Orion percebeu que ela estava evitando alguma coisa.
— Você tem medo.
A criatura permaneceu imóvel.
— Não.
— Tem.
— Não conheço medo.
Orion sorriu.
— Então por que está fechando as portas?
Silêncio.
Finalmente, a entidade respondeu:
— Porque aquilo que vem não pode ser controlado.
Uma das portas tremeu.
Algo bateu do outro lado.
Uma vez.
Duas.
Três.
A estrutura inteira da realidade vibrou.
As frotas começaram a ser empurradas para trás.
Kael gritou:
— Todos os motores!
Nada aconteceu.
As naves continuaram imóveis.
Então Orion levantou a mão.
A energia azul surgiu novamente.
— Eu consigo mover as naves.
Lyra olhou para ele.
— Você consegue?
— Não sozinho.
Kael entendeu.
— Todos os portadores.
Lyra transmitiu imediatamente:
— Todos os portadores de Nóvium, escutem!
Milhares de pessoas ouviram.
— Concentrem sua energia.
Alguns hesitaram.
Outros começaram.
A energia azul apareceu dentro das naves.
Um piloto.
Depois outro.
Depois centenas.
Milhares.
Uma corrente luminosa atravessou a frota.
Orion absorveu parte dela.
Seu corpo começou a brilhar.
A entidade observou.
— Pare.
Orion não parou.
— Você queria a energia de todos.
— Sim.
— Então agora vai receber.
Orion abriu os braços.
Toda a energia foi liberada.
As naves se moveram.
Primeiro lentamente.
Depois rapidamente.
A frota inteira avançou contra Éterion.
Não para atacá-lo.
Para entrar nele.
As primeiras naves atravessaram a atmosfera.
As defesas planetárias abriram fogo.
Mas os próprios oceanos começaram a protegê-las.
Colunas de água se ergueram.
Florestas abriram corredores.
Montanhas se separaram.
Éterion estava ajudando.
A consciência planetária ainda existia.
Orion sentiu-a.
— Você está lutando contra ela.
Uma voz fraca respondeu:
— Estou tentando.
— Quanto tempo?
— Pouco.
— Então precisamos agir agora.
Kael pousou em uma planície destruída.
Lyra desceu logo atrás.
Ao redor deles, soldados Solaris e Noxianos se reuniram.
Pela primeira vez, ninguém apontava armas uns para os outros.
Todos olhavam para o céu.
A entidade havia assumido a atmosfera.
Um enorme rosto apareceu entre as nuvens.
— Vocês não podem vencer.
Kael levantou sua espada.
— Talvez.
Lyra apontou sua arma.
— Mas vamos tentar.
Centenas de soldados levantaram suas armas.
Depois milhares.
A entidade observou.
— Vocês ainda não compreenderam.
Kael respondeu:
— Compreendemos perfeitamente.
— O quê?
Ele olhou para Lyra.
Depois para os soldados.
— Que passamos tempo demais lutando uns contra os outros.
Lyra completou:
— E agora sabemos quem merece nossa atenção.
A entidade começou a rugir.
O céu escureceu.
Orion desceu em direção ao núcleo.
O Guardião Dourado apareceu ao seu lado.
— Você precisa escolher.
Orion perguntou:
— Escolher o quê?
— O que salvar.
Orion olhou para o núcleo.
A energia azul.
A energia branca.
A energia dourada.
As três estavam em conflito.
— Não quero escolher.
O Guardião respondeu:
— Então crie uma quarta opção.
Orion encarou-o.
— Isso é possível?
— Você é o primeiro a tentar.
— E se eu falhar?
O Guardião sorriu.
— Então falharemos juntos.
Orion fechou os olhos.
Ele não tentou controlar o planeta.
Não tentou dominar o Nóvium.
Não tentou destruir a entidade.
Em vez disso, abriu sua mente.
E permitiu que todas as consciências conectadas pelo Nóvium entrassem.
Soldados.
Cientistas.
Mineradores.
Nativos.
Portadores.
Mortos.
Vivos.
Todos.
Durante alguns segundos, Orion sentiu bilhões de pensamentos.
Dor.
Medo.
Raiva.
Esperança.
Memórias.
Amor.
Ódio.
Arrependimento.
Era quase insuportável.
Mas ele não fechou a mente.
Então ouviu uma voz diferente.
Era de Lyra.
— Orion.
Ele respondeu mentalmente.
— Estou aqui.
Kael apareceu depois.
— E eu também.
Outras vozes vieram.
Milhares.
Depois milhões.
Orion compreendeu.
A entidade havia usado a conexão para se alimentar.
Mas aquela mesma conexão poderia ser usada contra ela.
Orion abriu os olhos.
— Nós não somos sua fonte.
A entidade respondeu:
— Vocês são meus.
Orion levantou a mão.
— Não mais.
A energia começou a mudar.
O Nóvium azul ficou branco.
Depois dourado.
Depois uma cor que nenhum dos instrumentos conseguiu identificar.
A entidade gritou.
O planeta inteiro tremeu.
As sete portas começaram a colapsar.
Mas, antes que desaparecessem completamente, uma delas permaneceu aberta.
Orion olhou para ela.
Do outro lado havia apenas escuridão.
Então dois olhos apareceram.
A entidade que controlava Éterion recuou.
Pela primeira vez, parecia realmente aterrorizada.
— Não.
Orion perguntou:
— Quem está ali?
A entidade não respondeu.
Os olhos cresceram.
Uma mão gigantesca atravessou a porta.
Depois outra.
A realidade começou a se partir.
E uma voz diferente ecoou pela galáxia:
— Você demorou demais.
A entidade ancestral de Éterion começou a recuar.
Orion percebeu que ela não era o maior inimigo.
Era apenas uma prisão.
Uma sentinela.
Talvez até uma vítima.
A criatura do outro lado atravessou mais um passo.
O espaço inteiro pareceu se curvar diante dela.
Kael levantou a arma.
Lyra preparou seus soldados.
O Guardião Dourado ergueu sua espada.
Orion concentrou toda a energia restante.
E então a porta se abriu completamente.
Do outro lado surgiu um mundo inteiro.
Um mundo negro.
Coberto por estruturas gigantescas.
E, no centro dele, havia um trono.
Vazio.
Mas atrás do trono estava uma figura.
Alguém que Orion reconheceu imediatamente.
Seu próprio rosto.
Mais velho.
Mais ferido.
Mais poderoso.
A figura olhou diretamente para ele.
— Finalmente nos encontramos.
Orion não respondeu.
O homem sorriu.
— Agora você vai descobrir por que o Nóvium foi criado.
E atrás dele, milhares de outras figuras começaram a se levantar.
A guerra que havia destruído impérios inteiros parecia pequena diante do exército que estava despertando.
Éterion começou a desaparecer.
Não sendo destruído.
Sendo transportado.
A entidade ancestral perdeu o controle do planeta.
As sete portas se fecharam.
Exceto uma.
E Orion percebeu, tarde demais, que aquela última porta não estava levando para outro lugar.
Ela estava trazendo outro lugar até eles.
Então todas as estrelas do céu se apagaram ao mesmo tempo.

Comentários
Postar um comentário