A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 50 — A Rebelião das Frotas
Durante alguns segundos, ninguém se moveu.
A transmissão permanecia aberta em todas as frequências.
A mensagem era simples.
O último portador despertou.
Então uma segunda mensagem apareceu.
A guerra terminou.
Os soldados olharam uns para os outros.
Alguns abaixaram as armas.
Outros começaram a desligar os sistemas de combate.
Nos hangares de Solaris, pilotos recusavam-se a entrar nas naves.
Em Nox, batalhões inteiros abandonaram suas posições.
Nas colônias, governadores desligaram os canhões.
E, pela primeira vez em décadas, talvez séculos, os exércitos começaram a fazer algo que nenhum imperador, general ou comandante havia conseguido impedir.
Eles disseram não.
— Eu não vou mais lutar.
A frase surgiu primeiro em uma transmissão de um soldado desconhecido.
Depois outro repetiu.
— Eu também não.
Mais um.
— Chega.
Em poucos segundos, milhões de vozes começaram a ocupar as frequências.
— Não vou morrer por Vark.
— Não vou matar Solaris.
— Não vou matar Nox.
— Não vou lutar por um minério.
— Não vou lutar por um império.
— Chega.
A palavra atravessou a galáxia.
Chega.
Na frota de Solaris, o almirante responsável pela ala norte recebeu centenas de pedidos de deserção.
Ele ficou olhando para o painel.
— Eles estão abandonando as posições.
O oficial ao lado respondeu:
— Todos.
— Ordene que retornem.
— Já tentei.
— E?
O oficial respirou fundo.
— Eles recusaram.
O almirante apertou os dentes.
— Prendam os comandantes.
— Não temos soldados suficientes.
— Então enviem a polícia militar.
— A polícia militar também se recusou.
Silêncio.
O almirante olhou para a imensa frota diante de Éterion.
Milhares de naves.
Milhões de soldados.
E quase ninguém queria mais apertar o gatilho.
— Então o que fazemos?
O oficial olhou para ele.
— Talvez seja hora de parar.
O almirante ficou imóvel.
Depois retirou lentamente o símbolo de Solaris do uniforme.
Colocou-o sobre a mesa.
— Talvez seja.
Em Nox, a reação foi ainda maior.
Kael recebeu uma transmissão de um dos maiores cruzadores de sua antiga frota.
— General.
— Fale.
— A tripulação quer saber se deve continuar.
Kael observou o planeta.
Éterion estava desaparecendo lentamente dentro do abismo azul.
— Não.
O comandante ficou surpreso.
— Senhor?
— Não continuem.
— E Vark?
Kael fechou os olhos.
— Vark não representa Nox.
— E os rebeldes?
— Também não.
— Então quem representa Nox?
Kael olhou para os soldados.
— As pessoas que sobreviveram.
A transmissão terminou.
Minutos depois, milhares de naves Nox desligaram seus armamentos.
Os símbolos vermelhos desapareceram.
Em seguida, as naves Solaris fizeram o mesmo.
Uma frota inteira baixou as armas.
Depois outra.
E outra.
Até que o espaço ao redor de Éterion ficou silencioso.
Mas Vark não aceitou.
Sua nave estava no centro da superestrutura.
Ele observava os indicadores.
Metade das forças havia abandonado suas posições.
A outra metade estava hesitando.
— Covardes — murmurou.
Um oficial entrou na ponte.
— General...
Vark virou-se.
— O que foi?
— Os soldados não obedecem mais.
— Então substitua-os.
— Não temos substitutos.
Vark apontou para o painel.
— Temos milhões de tropas.
— Não mais.
O oficial engoliu em seco.
— Algumas unidades estão se unindo aos soldados de Solaris.
Vark ficou imóvel.
— Repita.
— Tropas Solaris e Nox estão formando unidades conjuntas.
— Destrua-as.
— Não temos autorização.
Vark sacou a arma.
— Eu sou a autorização.
O oficial não se moveu.
— Não posso.
Vark apontou a arma para ele.
— Você quer morrer?
O oficial respondeu:
— Não.
— Então obedeça.
O homem respirou fundo.
— É justamente por isso que não vou obedecer.
Vark atirou.
O oficial caiu.
Por alguns segundos, a ponte ficou silenciosa.
Então um soldado atrás de Vark levantou a arma.
— Chega.
Outro soldado fez o mesmo.
Depois outro.
Vark olhou ao redor.
Dezenas de armas estavam apontadas para ele.
— Vocês não fariam isso.
Uma soldada respondeu:
— Já fizemos.
Vark recuou.
— Eu sou o único capaz de salvar a galáxia.
— Não.
A soldada apertou o gatilho.
Vark ativou o escudo.
O disparo ricocheteou.
A ponte explodiu em caos.
Ao mesmo tempo, rebeldes de diferentes mundos começaram a atacar os canhões orbitais.
As gigantescas plataformas que durante anos haviam mantido sistemas inteiros sob controle agora estavam vulneráveis.
As guarnições abandonaram seus postos.
Os rebeldes invadiram as estações.
Portas foram arrombadas.
Computadores foram desligados.
Torres de defesa foram desativadas.
Em uma das maiores plataformas, um soldado Solaris encontrou um grupo Noxiano entrando pelo corredor.
Ele levantou a arma.
Um Noxiano fez o mesmo.
Os dois ficaram imóveis.
Então o Solaris abaixou a arma.
— Trégua?
O Noxiano hesitou.
— Trégua.
Os dois apertaram as mãos.
E avançaram juntos.
Lyra recebeu a notícia enquanto estava dentro da nave que tentava alcançar a abertura dimensional.
— As frotas estão se unindo.
Kael olhou para ela.
— Quantas?
— Todas que conseguiram.
— E os canhões?
— Os rebeldes tomaram quase metade.
Kael sorriu.
— Então Vark está sozinho.
Lyra observou o planeta.
— Não completamente.
— O que quer dizer?
Ela apontou para os sensores.
Uma gigantesca assinatura energética surgia atrás de Éterion.
— Aquilo.
Kael ficou sério.
— O que é?
— Não sei.
Asterion aproximou-se.
Ao ver os dados, perdeu a cor.
— Não é uma nave.
— Então o que é?
Asterion respondeu:
— Um mundo.
Kael olhou para o monitor.
— Um mundo?
— Está atravessando a realidade.
Lyra sentiu um arrepio.
— O mundo que estava atrás da porta.
Asterion assentiu.
— Ele está vindo para cá.
A frota conjunta avançou.
Pela primeira vez, não havia uma linha Solaris e uma linha Nox.
As naves voavam lado a lado.
Caças dos dois impérios protegiam os mesmos cruzadores.
Transportes civis viajavam entre encouraçados.
Médicos de Solaris tratavam soldados Noxianos.
Engenheiros Nox trabalhavam em motores Solaris.
Uma nova bandeira apareceu nos sistemas.
Não era Solaris.
Não era Nox.
Era um círculo azul atravessado por uma linha branca.
A marca dos sobreviventes de Éterion.
Lyra observou o símbolo.
— Quem criou isso?
Kael respondeu:
— Um piloto.
— Qual piloto?
— Não sei.
Lyra sorriu.
— Então talvez seja exatamente assim que deveria ser.
Uma transmissão surgiu.
Era Vark.
Seu rosto estava ensanguentado.
A ponte atrás dele estava destruída.
— Vocês realmente acreditam que podem vencer sem mim?
Ninguém respondeu.
Vark continuou.
— Vocês acham que a guerra acabou?
Ele riu.
— A guerra apenas começou.
Lyra assumiu a frequência.
— Vark.
Ele olhou diretamente para a câmera.
— Capitã.
— Seus soldados abandonaram você.
— Soldados são substituíveis.
— Seus generais também.
— Também.
— Então quem está lutando por você?
Vark sorriu.
— Eu.
— Você está sozinho.
— Não.
A transmissão mudou.
Atrás dele surgiu uma estrutura gigantesca.
O Núcleo Absoluto.
Mas agora havia algo conectado a ele.
Uma forma escura.
Pulsante.
Viva.
Lyra sentiu o sangue gelar.
— O que é isso?
Vark respondeu:
— O futuro.
A transmissão terminou.
Os sensores começaram a disparar.
Kael olhou para Asterion.
— Identifique.
Asterion digitou rapidamente.
— Não consigo.
— Tente novamente.
— Estou tentando.
O monitor começou a apresentar símbolos desconhecidos.
Depois uma sequência de coordenadas.
Asterion ficou imóvel.
— Isso não pode ser.
Lyra aproximou-se.
— O quê?
— O sinal não vem de Éterion.
— De onde vem?
Asterion levantou os olhos.
— Do centro da galáxia.
Kael ficou sério.
— O centro?
— Sim.
— O que existe lá?
Asterion respondeu:
— Uma região que não deveria existir.
Enquanto isso, dentro da dimensão escura, Orion ainda estava diante da criatura.
Ele segurava o Núcleo Branco.
A figura com seu rosto permanecia imóvel.
— Você demorou — disse ela.
Orion apertou a esfera.
— Quem é você?
— Já respondi.
— Não.
Orion deu um passo.
— Você disse que estava esperando eu nascer.
— Sim.
— Mas por quê?
A criatura sorriu.
— Porque você é a chave.
— Chave para quê?
A criatura apontou para trás.
Bilhões de mundos mortos estavam suspensos no vazio.
— Para abrir tudo.
Orion olhou para os mundos.
— E o que existe depois?
A criatura respondeu:
— Liberdade.
Orion sentiu a energia do Núcleo Branco reagir.
— Você chama isso de liberdade?
— O universo atual é uma prisão.
— E você quer destruí-lo.
— Quero libertá-lo.
— Matando todos.
A criatura aproximou-se.
— Vida e morte são apenas estados.
Orion ergueu a mão.
— Para mim, não.
A criatura parou.
— É por isso que você é diferente.
A entidade ancestral surgiu atrás de Orion.
Ela parecia enfraquecida.
— Não escute.
Orion olhou para ela.
— Você sabe quem ele é.
— Sim.
— Então diga.
A entidade hesitou.
— Ele foi o primeiro.
Orion franziu a testa.
— Primeiro o quê?
— Primeiro portador.
A criatura sorriu.
— Primeiro de todos.
Orion olhou novamente para seu próprio rosto.
— Você criou o Nóvium.
— Eu descobri o Nóvium.
— E depois?
— Tentei controlá-lo.
— E falhou.
— Não.
A criatura respondeu:
— Eu consegui.
A entidade ancestral gritou:
— Mentira!
O primeiro portador abriu os braços.
O espaço começou a tremer.
— Eles me chamaram de deus.
Orion percebeu.
— Você destruiu sua própria civilização.
— Eu a aperfeiçoei.
— Você matou todos.
— Eles se sacrificaram.
— Para prendê-lo.
Silêncio.
O sorriso desapareceu.
— Eles tiveram medo.
Orion segurou o Núcleo Branco com mais força.
— E agora você quer sair.
— Quero voltar.
Na superfície de Éterion, as frotas começaram a ser atacadas.
Não por Vark.
Algo estava surgindo do abismo.
Criaturas menores atravessaram a abertura.
Depois naves.
Não eram máquinas.
Eram estruturas orgânicas.
Milhares delas.
Kael olhou para os sensores.
— Todos os esquadrões, formação defensiva!
As naves conjuntas responderam.
Canhões abriram fogo.
As criaturas avançaram.
Explosões iluminaram o espaço.
Uma nave Noxiana foi atingida.
Duas Solaris entraram na frente.
Criaram um escudo conjunto.
A nave danificada conseguiu escapar.
O piloto transmitiu:
— Obrigado.
A resposta veio de uma voz desconhecida.
— Hoje salvamos uns aos outros.
Os canhões orbitais capturados pelos rebeldes começaram a disparar.
Não contra as frotas.
Contra as criaturas.
Centenas de feixes atravessaram o espaço.
A batalha transformou-se em um massacre.
Criaturas gigantes explodiam.
Naves eram destruídas.
Pedaços de metal e energia flutuavam por toda parte.
Mas, para cada criatura destruída, outras dez surgiam.
Lyra observou a situação.
— Não vamos conseguir.
Kael respondeu:
— Ainda não.
— Quantos?
— O suficiente.
Lyra olhou para ele.
— O suficiente para quê?
Kael apontou para uma das maiores plataformas orbitais.
— Aquela estação.
— O que tem nela?
— O maior canhão de Vark.
Lyra entendeu.
— Se tomarmos aquilo...
— Podemos abrir caminho até o núcleo.
Uma força conjunta foi enviada.
Soldados Solaris e Noxianos embarcaram na mesma nave.
Nenhum deles conhecia os outros.
Mas todos tinham o mesmo objetivo.
A estação orbital surgiu à frente.
Era gigantesca.
Centenas de quilômetros de metal e energia.
Torres defensivas cercavam a estrutura.
O grupo pousou.
As portas abriram.
Combate imediato.
Soldados rebeldes enfrentaram as tropas leais a Vark.
Mas muitos dos defensores simplesmente largaram as armas.
— Não vamos lutar!
— Rendam-se!
Os rebeldes passaram por eles.
Cada corredor era conquistado.
Cada sala.
Cada torre.
Até chegarem ao centro de comando.
Um oficial de Vark tentou impedir a entrada.
Um soldado Solaris apontou a arma.
— Acabou.
— Vark ainda vencerá.
O soldado respondeu:
— Talvez.
Abaixou a arma.
— Mas você não precisa morrer por ele.
O oficial deixou a própria arma cair.
No centro da estação, encontraram o canhão.
Era muito maior do que os registros indicavam.
Kael chegou pouco depois.
Lyra veio atrás.
Asterion observou os controles.
— Posso assumir o sistema.
— Faça isso.
— Mas existe um problema.
— Qual?
— O canhão não dispara apenas energia.
— Então?
Asterion apontou para a tela.
— Ele pode disparar a própria estação.
Kael ficou sério.
— Como assim?
— O núcleo inteiro pode ser convertido em uma arma.
Lyra percebeu.
— Se usarmos isso...
Asterion assentiu.
— Podemos destruir a abertura.
Kael perguntou:
— E o que acontece com a estação?
— Será destruída.
Silêncio.
Centenas de milhares de pessoas estavam na estrutura.
Lyra balançou a cabeça.
— Não.
Kael olhou para ela.
— Se não fizermos isso, a galáxia inteira pode morrer.
— Não vamos repetir os erros de Vark.
Asterion observou os controles.
— Então precisamos de outra coisa.
Uma voz surgiu nos comunicadores.
Fraca.
Quase inaudível.
— Lyra.
Ela congelou.
— Orion?
Kael aproximou-se.
— Você está ouvindo?
A voz voltou.
— Estou.
Lyra fechou os olhos.
— Onde você está?
— Dentro.
— Dentro de quê?
Orion demorou.
— De tudo.
Asterion aproximou-se do sistema.
— Orion, precisamos de uma maneira de fechar a abertura.
— Eu sei.
— Como?
Silêncio.
Então Orion respondeu:
— Não fechem.
Kael franziu a testa.
— O quê?
— Não fechem a porta.
Lyra sentiu o coração acelerar.
— Por quê?
— Porque não é uma porta.
— Então o que é?
A voz de Orion ficou mais fraca.
— É uma ponte.
Todos ficaram em silêncio.
— Uma ponte entre dois lados.
Kael perguntou:
— Que lados?
Orion respondeu:
— O nosso...
Ele parou.
Depois completou:
— E o lado de onde ele veio.
Asterion olhou para os dados.
— Então podemos mandá-lo de volta.
— Talvez.
— Como?
Orion respondeu:
— Usando todas as frotas.
Kael olhou para Lyra.
— Todas?
— Sim.
Orion continuou:
— Todas as naves.
— Todos os canhões.
— Todo o Nóvium.
Lyra ficou pálida.
— Orion, isso pode matar você.
Silêncio.
Então ele respondeu:
— Eu sei.
A notícia foi transmitida para todas as naves.
A proposta era impossível.
Usar a energia combinada das frotas para inverter a abertura dimensional.
Não destruí-la.
Não fechá-la.
Empurrá-la de volta.
Era uma manobra que poderia salvar a galáxia.
Ou destruir Éterion completamente.
Os comandantes começaram a discutir.
Alguns recusaram.
Outros aceitaram.
Mas então uma voz surgiu.
Era de um soldado.
— Eu vou.
Outra respondeu:
— Eu também.
Depois outra.
— Nós também.
As transmissões se multiplicaram.
Milhares.
Milhões.
A frota inteira começou a responder.
— Nós vamos.
Vark observava tudo.
Sua expressão havia perdido qualquer vestígio de arrogância.
Ele percebeu o que estava acontecendo.
As pessoas não estavam mais obedecendo.
Estavam escolhendo.
E essa escolha era mais perigosa para ele do que qualquer arma.
Vark caminhou até o Núcleo Absoluto.
— Então é isso.
Uma sombra apareceu atrás dele.
— Você perdeu.
Vark virou-se.
— Você.
A criatura sorriu.
— Seus soldados abandonaram você.
Vark levantou a arma.
— Eu ainda tenho o núcleo.
— Não por muito tempo.
— Você prometeu poder.
— Eu prometi nada.
Vark ficou imóvel.
— Então você também me usou.
— Todos foram usados.
Vark olhou para Éterion.
Depois para a criatura.
— Não.
Ele levantou a arma.
— Eu não vou permitir que eles vençam.
A criatura riu.
— Você ainda não compreendeu.
— O quê?
— Você não é mais necessário.
Uma mão escura atravessou o peito de Vark.
Ele arregalou os olhos.
A entidade começou a absorver sua energia.
Vark tentou disparar.
Nada aconteceu.
— Eu construí tudo isso...
— Sim.
— Eu destruí mundos...
— Sim.
— Eu matei milhões...
— Sim.
Vark começou a cair.
— Então por quê?
A criatura respondeu:
— Porque você me trouxe até aqui.
Vark caiu diante do Núcleo Absoluto.
Ainda respirava.
Ainda vivo.
Mas derrotado.
No espaço, todas as frotas começaram a formar uma única linha.
Solaris.
Nox.
Rebeldes.
Civis.
Antigos.
Todos.
Os canhões orbitais foram reposicionados.
Os reatores começaram a carregar.
Lyra assumiu o comando central.
Kael ficou ao lado dela.
— Pronto?
Ela olhou para o planeta.
— Não.
Kael sorriu.
— Ótimo.
Lyra olhou para ele.
— Ótimo?
— Se estivéssemos prontos, provavelmente significaria que não entendemos o que estamos fazendo.
Ela riu brevemente.
Depois ficou séria.
— Orion.
A voz dele surgiu.
— Estou aqui.
Lyra respirou fundo.
— Nós vamos buscá-lo.
— Não.
Ela fechou os olhos.
— Não?
— Vocês precisam salvar os outros.
— Orion...
— Lyra.
Silêncio.
— Se eu não voltar...
Ela interrompeu:
— Você vai voltar.
— Não posso prometer.
Kael aproximou-se do comunicador.
— Então faça o seguinte.
— O quê?
— Não morra.
Orion ficou em silêncio.
Depois riu.
— Vou tentar.
Kael olhou para Lyra.
— Parece um plano.
As frotas começaram a disparar.
Não contra o inimigo.
Contra a própria abertura.
Milhares de feixes convergiram.
Energia azul.
Branca.
Dourada.
Vermelha.
Verde.
Todas as formas de energia que o Nóvium havia despertado começaram a se unir.
O espaço se deformou.
Éterion tremeu.
As criaturas começaram a gritar.
A entidade ancestral gritou também.
— Parem!
Orion segurou o Núcleo Branco.
A força de bilhões de pessoas atravessou seu corpo.
Ele quase caiu.
Mas permaneceu de pé.
— Agora.
As frotas dispararam novamente.
A abertura começou a se inverter.
O mundo negro do outro lado começou a ser puxado para trás.
A criatura com o rosto de Orion tentou resistir.
— Você não pode me mandar de volta!
Orion respondeu:
— Não estou mandando você.
A energia branca aumentou.
— Estamos mandando.
As vozes de bilhões ecoaram.
Juntos.
A criatura começou a desaparecer.
Mas, antes de ser arrastada completamente, sorriu.
— Você ainda não entendeu.
Orion apertou os dentes.
— O quê?
— Eu não preciso atravessar.
Orion ficou imóvel.
A criatura apontou para ele.
— Você já me trouxe.
Uma sombra surgiu dentro do peito de Orion.
Lyra viu a energia mudar.
— Orion?
Kael gritou:
— Orion!
O corpo de Orion começou a rachar em luz.
O Núcleo Branco desapareceu dentro dele.
A abertura dimensional começou a fechar.
As frotas comemoraram.
Mas Lyra não.
Ela percebeu alguma coisa.
— Não.
Kael olhou para ela.
— O que foi?
Lyra encarou o monitor.
— A assinatura de Orion...
— O que tem?
Ela respondeu com a voz tremendo:
— Está duplicada.
Kael ficou imóvel.
Duas assinaturas.
Uma azul.
Outra negra.
A voz de Orion surgiu nos comunicadores.
Mas havia algo diferente nela.
— Lyra...
Ela respondeu:
— Estou aqui.
Silêncio.
Depois:
— Eu acho que consegui.
Lyra sorriu.
— Sabia.
Mas então uma segunda voz falou através do mesmo canal.
Uma voz idêntica.
Só que mais profunda.
— Nós conseguimos.
Todas as naves ficaram em silêncio.
A abertura dimensional finalmente se fechou.
Éterion permaneceu intacto.
As criaturas desapareceram.
As estrelas voltaram.
A guerra parecia ter acabado.
Mas, dentro do planeta, algo começou a pulsar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Kael olhou para Asterion.
— O que está acontecendo?
Asterion observou os sensores.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— A energia não desapareceu.
— Então para onde foi?
Asterion levantou lentamente os olhos.
— Para Orion.
Lyra olhou para o céu.
— Traga-o de volta.
Ninguém respondeu.
Então, acima de Éterion, surgiu uma gigantesca silhueta.
Tinha o corpo de Orion.
Mas seus olhos eram completamente negros.
E atrás dela apareceram milhares de outras formas.
Os soldados levantaram as armas.
Lyra ficou imóvel.
A silhueta olhou diretamente para a frota.
E falou com a voz de Orion:
— Agora começa a verdadeira rebelião.
As estrelas tremeram.
E, muito além de Éterion, em sistemas que ninguém havia conseguido detectar antes, milhões de naves começaram a despertar.

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