A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 54 — O Novo Conselho

 Durante três semanas, nenhum canhão foi disparado.

Nenhuma frota atravessou as fronteiras.

Nenhum planeta declarou guerra.

Pela primeira vez em gerações, a galáxia conheceu algo que muitos já consideravam impossível.

Silêncio.

Mas não era um silêncio de paz.

Era o silêncio de quem ainda não sabia se podia confiar no outro.

Nas ruínas de Éterion, representantes de Solaris e Nox ocupavam a mesma sala.

O antigo salão havia sido construído pelos habitantes originais do planeta. As paredes, parcialmente destruídas, ainda possuíam símbolos azuis que brilhavam de tempos em tempos.

No centro havia uma mesa circular.

De um lado, os representantes de Solaris.

Do outro, os representantes de Nox.

Entre eles, representantes dos mundos destruídos, das colônias independentes, dos sobreviventes de Éterion e dos povos antigos.

Lyra estava sentada entre os dois lados.

Não usava mais o uniforme de capitã.

Vestia apenas uma roupa escura, simples, sem símbolos militares.

À sua direita estava Kael.

Ele também havia abandonado o uniforme de general.

Sua espada permanecia sobre a mesa.

Não como arma.

Como lembrança.

Um representante de Solaris abriu a reunião.

— Começaremos pela questão mais urgente.

Uma mulher levantou-se.

— A paz.

Do outro lado, um homem respondeu:

— Não.

Todos olharam para ele.

— A justiça vem antes da paz.

O salão ficou silencioso.

O homem continuou:

— Meu planeta perdeu vinte milhões de pessoas durante a guerra. Não quero ouvir discursos sobre reconciliação enquanto os responsáveis continuam livres.

Uma mulher de Nox levantou-se.

— Seu planeta também atacou o meu.

— Porque vocês nos atacaram primeiro!

— E vocês destruíram três de nossas colônias!

— Depois que vocês—

Lyra bateu a mão sobre a mesa.

O som ecoou pelo salão.

— Chega.

Os dois se calaram.

Lyra respirou fundo.

— Se começarmos a discutir quem sofreu mais, ficaremos aqui durante décadas.

Ninguém respondeu.

— Todos sofreram.

Ela olhou para cada representante.

— Alguns perderam famílias. Outros perderam mundos. Alguns perderam tudo.

Kael permaneceu em silêncio.

Lyra continuou:

— Mas se essa reunião terminar em acusações, então a guerra não terminou. Apenas trocou os campos de batalha por uma sala.

A frase atingiu o salão.

Um dos representantes de Nox perguntou:

— E qual é sua proposta?

Lyra olhou para Kael.

Depois para a mesa.

— Um novo conselho.


A proposta era simples.

Nenhum império teria autoridade absoluta.

Solaris e Nox continuariam existindo, mas perderiam o direito de declarar guerras sozinhos.

Qualquer conflito envolvendo mais de um sistema precisaria passar pelo novo conselho.

Os planetas devastados teriam direito a reparações.

Os criminosos de guerra seriam julgados independentemente de sua posição.

E nenhuma força militar poderia operar em outro planeta sem autorização.

Era uma ideia revolucionária.

E extremamente perigosa.

Porque exigia que todos confiassem em todos.

— Solaris não aceitará perder sua soberania — declarou um senador.

Kael respondeu:

— Solaris não existe mais como antes.

O senador olhou para ele.

— O que isso significa?

— Significa que todos vimos o que acontece quando um império acredita que seu poder não possui limites.

O senador ficou furioso.

— Você está acusando Solaris?

Kael encarou-o.

— Estou acusando todos nós.

Lyra percebeu que aquela frase havia mudado o ambiente.

Kael continuou:

— Nox fez coisas imperdoáveis.

— Solaris também.

— Os rebeldes também.

— E aqueles que manipularam a guerra também.

Ele olhou para as ruínas através das janelas.

— Mas se continuarmos tentando descobrir quem é o mais culpado, teremos outra guerra antes de terminar esta reunião.

Um representante dos mundos devastados perguntou:

— E você?

Kael virou-se.

— Eu?

— Quantas ordens você deu?

Silêncio.

— Quantas cidades foram destruídas por decisões suas?

Kael não desviou o olhar.

— Muitas.

— Então por que você está sentado aqui?

Kael respondeu:

— Porque quero ser julgado.

A sala inteira ficou imóvel.


O primeiro tribunal foi instalado em uma antiga estação orbital.

Não havia bandeiras.

Nenhum símbolo imperial.

Apenas uma inscrição na entrada:

NENHUM PODER ESTÁ ACIMA DA LEI.

Os primeiros acusados chegaram algemados.

Generais.

Almirantes.

Governadores.

Cientistas responsáveis por experimentos com Nóvium.

Oficiais que ordenaram massacres.

Comandantes que destruíram colônias inteiras.

Alguns tentavam justificar suas ações.

— Eu apenas obedeci ordens.

— Todos obedeciam — respondeu um dos juízes.

— Se eu recusasse, seria executado.

— Outros recusaram.

— Eu estava protegendo meu povo.

— Seu povo não estava naquele planeta.

As sessões eram transmitidas para toda a galáxia.

Pela primeira vez, famílias de vítimas podiam ouvir os responsáveis responderem por seus atos.

Alguns choravam.

Outros não demonstravam arrependimento.

Alguns admitiam tudo.

Outros mentiam.

Mas todos eram obrigados a falar.

E todos eram julgados.


Kael também seria julgado.

Mas seu julgamento foi adiado.

Não porque o conselho pretendesse protegê-lo.

Pelo contrário.

Havia centenas de testemunhas contra ele.

Soldados que receberam suas ordens.

Cientistas que trabalharam em seus laboratórios.

Sobreviventes dos ataques.

Colônias destruídas durante sua liderança.

Lyra recebeu os documentos pessoalmente.

Ela leu durante horas.

Cada página parecia pesar mais que a anterior.

Kael entrou na sala.

— Já viu?

— Sim.

— Então sabe.

Lyra fechou o arquivo.

— Sei.

— E?

— Você será julgado.

Kael assentiu.

— Espero que sim.

Lyra levantou-se.

— Mas não quero que use o julgamento como uma forma de morrer.

Kael ficou em silêncio.

— Você acha que sofrer é suficiente para pagar pelo que fez?

— Não.

— Então não transforme sua culpa em espetáculo.

Kael olhou para ela.

— O que você quer que eu faça?

— Viva.

Ele franziu a testa.

— Viva?

— Sim.

Lyra aproximou-se.

— Assuma a responsabilidade. Ajude a reconstruir o que destruiu. Encare as famílias. Escute as vítimas. E, quando chegar a hora, aceite a sentença.

Kael baixou os olhos.

— Talvez isso seja pior que morrer.

— Eu sei.


Enquanto os tribunais funcionavam, o novo conselho precisava enfrentar outro problema.

Os planetas devastados queriam justiça imediata.

E tinham motivos.

Delegações chegavam diariamente.

Um planeta exigia indenização.

Outro exigia território.

Outro queria a dissolução completa de Solaris.

Um quarto exigia que Nox entregasse todos os seus oficiais.

As discussões eram intermináveis.

Até que um representante de um pequeno mundo destruído levantou-se.

— Vocês querem saber por que não confiamos em vocês?

Ninguém respondeu.

Ele colocou uma fotografia sobre a mesa.

Era uma criança.

— Essa era minha filha.

O salão ficou em silêncio.

— Ela morreu durante um bombardeio.

O homem colocou outra fotografia.

— Esta era minha esposa.

Outra.

— Meu irmão.

Outra.

— Minha mãe.

Ele respirou fundo.

— Vocês falam de paz porque sobreviveram.

A frase atingiu Lyra.

— Nós falamos de paz porque queremos que vocês sobrevivam também — respondeu ela.

O homem encarou-a.

— E se não quisermos perdoar?

— Não precisam.

— E se quisermos vingança?

Lyra demorou alguns segundos.

— Então o novo conselho terá que impedir que a vingança destrua outra geração.


Lyra acabou sendo escolhida para ocupar uma das cadeiras permanentes do conselho.

Ela recusou inicialmente.

— Não sou política.

Uma representante respondeu:

— Talvez seja justamente por isso.

Lyra continuou recusando.

Até que uma criança entrou na sala.

Era a mesma menina que ela havia salvado durante o colapso de Éterion.

A menina aproximou-se.

— Você vai ficar?

Lyra olhou para ela.

— Não sei.

— Você prometeu que ia salvar a gente.

Lyra sentiu um aperto no peito.

— Eu prometi.

A menina sorriu.

— Então fica.

Lyra olhou para Kael.

Ele apenas assentiu.

— Fique.

No dia seguinte, Lyra aceitou a cadeira.


Seu primeiro ato como membro do novo governo foi inesperado.

Ela pediu que as fronteiras militares fossem abertas.

— Não podemos reconstruir planetas se continuarmos tratando os sobreviventes como inimigos.

Oficiais de Solaris e Nox foram obrigados a trabalhar juntos.

Engenheiros reconstruíram cidades.

Médicos atenderam vítimas de ambos os lados.

Naves que antes carregavam armas passaram a transportar alimentos.

Antigos soldados começaram a retirar destroços.

Havia desconforto.

Desconfiança.

Brigas.

Às vezes, até confrontos.

Mas, lentamente, alguma coisa mudou.

Um soldado Solaris entregou água a um soldado Nox.

Um engenheiro Nox ajudou uma equipe Solaris a reparar uma ponte.

Uma criança brincou com outra sem perguntar de qual império ela vinha.

Pequenas coisas.

Mas, depois de décadas de guerra, pequenas coisas pareciam milagres.


Nem todos aceitaram.

Nas regiões externas da galáxia, grupos rebeldes começaram a se organizar.

Eles não reconheciam o novo conselho.

Chamavam o acordo de traição.

Chamavam Lyra de colaboradora.

Chamavam Kael de criminoso.

E prometiam continuar lutando.

Uma transmissão clandestina apareceu em milhares de sistemas.

Um homem mascarado surgiu diante da câmera.

— Solaris não nos representa.

A imagem mudou.

Outro símbolo apareceu.

— Nox não nos representa.

Depois uma terceira frase:

O CONSELHO NÃO NOS REPRESENTA.

O homem continuou:

— Eles dizem que a guerra acabou.

Ele retirou a máscara.

Era um comandante rebelde desconhecido.

— Mentira.

Atrás dele havia centenas de naves.

— A guerra apenas mudou de nome.


A notícia chegou ao conselho durante uma sessão.

Um oficial entrou correndo.

— Temos um problema.

Lyra virou-se.

— Qual?

— Três sistemas se recusaram a reconhecer o tratado.

Kael levantou os olhos.

— Quantas naves?

— Mais de oito mil.

Silêncio.

Um representante perguntou:

— Eles querem atacar?

— Ainda não.

Lyra perguntou:

— Então o que querem?

O oficial colocou um arquivo sobre a mesa.

— Querem que o conselho seja dissolvido.

Kael levantou-se.

— E se recusarmos?

O oficial respondeu:

— Eles ameaçam iniciar uma nova guerra.

Alguns representantes começaram a discutir.

Lyra levantou a mão.

— Ninguém vai mobilizar tropas.

Kael olhou para ela.

— Se atacarem—

— Então nos defenderemos.

— Eles estão reunindo uma frota.

— Eu sei.

— Isso pode ser um erro.

Lyra encarou-o.

— Se enviarmos uma frota agora, eles terão exatamente o que querem.

Kael entendeu.

— Querem provocar uma reação.

— Sim.


Horas depois, outra transmissão chegou.

Desta vez, não era um discurso.

Era uma mensagem.

A gravação mostrava uma colônia recém-reconstruída.

Centenas de civis estavam reunidos.

Então as luzes se apagaram.

Uma explosão ocorreu ao longe.

A transmissão terminou.

Lyra ficou imóvel.

— Onde foi isso?

O oficial respondeu:

— Colônia Arven.

— Quantos mortos?

— Ainda não sabemos.

Kael já estava caminhando.

— Vou para lá.

Lyra segurou seu braço.

— Não.

— Eles precisam de ajuda.

— Você não pode simplesmente sair.

Kael olhou para ela.

— Sou responsável por isso.

— Não é mais um general.

— Exatamente.

Ele se soltou.

— Agora sou alguém tentando consertar o que destruiu.

Lyra acompanhou-o.

— Então eu vou também.


A viagem até Arven levou quatro horas.

Quando chegaram, encontraram a colônia parcialmente destruída.

Fumaça cobria as ruas.

Edifícios estavam em chamas.

Equipes de emergência trabalhavam entre os destroços.

Lyra desceu da nave.

Uma mulher correu até ela.

— Vocês vieram tarde demais!

Lyra não respondeu.

A mulher apontou para os destroços.

— Eles disseram que vocês garantiriam nossa segurança!

Kael aproximou-se.

— Nós vamos ajudar.

A mulher reconheceu-o.

Seu rosto mudou.

— Você.

Kael ficou imóvel.

— Você destruiu minha cidade.

Ele não tentou negar.

— Sim.

A mulher deu um tapa em seu rosto.

Os soldados ao redor levantaram as armas.

Kael ergueu a mão.

— Baixem.

A mulher chorava.

— Por que você está aqui?

Kael respondeu:

— Para ajudar a reconstruir.

— Não quero sua ajuda.

Kael olhou para os destroços.

— Então me deixe carregar os escombros.

Ela ficou em silêncio.

Kael tirou o casaco.

Começou a trabalhar.

Lyra o observou por alguns segundos.

Depois fez o mesmo.

E logo os soldados começaram a ajudar.

Sem discursos.

Sem bandeiras.

Apenas mãos retirando pedras.


Naquela noite, o conselho recebeu outra notícia.

Mais quatro sistemas haviam aderido aos rebeldes.

A frota deles crescia.

E alguém estava fornecendo armas.

Armas muito mais avançadas que as disponíveis nos arsenais de Solaris ou Nox.

Asterion apareceu em uma transmissão de emergência.

Seu rosto estava pálido.

— Precisamos conversar.

Lyra perguntou:

— O que aconteceu?

— Analisei os registros das armas utilizadas em Arven.

Kael ficou sério.

— E?

Asterion hesitou.

— Não são armas rebeldes.

— Então de quem são?

— Não sei.

— Asterion.

O cientista aproximou-se da câmera.

— Há algo pior.

Ele mostrou um pequeno fragmento metálico.

A superfície era coberta por símbolos.

Lyra reconheceu imediatamente.

— Éterion.

— Sim.

Kael aproximou-se.

— Isso veio da explosão?

— Não.

— Então de onde?

Asterion respondeu:

— Encontramos dentro de uma das naves rebeldes.

Lyra sentiu um arrepio.

— Você está dizendo que eles estão usando tecnologia de Éterion?

— Estou dizendo que essa tecnologia não deveria existir fora do planeta.

Kael ficou em silêncio.

Asterion continuou:

— E há mais.

Ele abriu outro arquivo.

Uma sequência de coordenadas apareceu.

— Essas armas estão sendo produzidas em algum lugar.

Lyra perguntou:

— Onde?

Asterion olhou para os dados.

— Ainda não sabemos.

Então a tela mudou.

Uma imagem apareceu.

Uma enorme estrutura negra flutuava no espaço.

Era antiga.

Muito antiga.

E havia um símbolo gravado na superfície.

O mesmo símbolo que Orion carregava.

Lyra levantou-se.

— Orion...

Kael olhou para a imagem.

— Não pode ser.

Asterion respondeu:

— Talvez não seja ele.

Lyra aproximou-se da tela.

— Então quem construiu isso?

Antes que Asterion pudesse responder, todos os sistemas do conselho foram interrompidos.

Uma nova transmissão tomou o controle.

O comandante rebelde apareceu novamente.

Dessa vez, não estava sozinho.

Atrás dele havia uma figura coberta por um manto.

O rosto permanecia oculto.

O comandante falou:

— Vocês acreditam que a guerra acabou.

Ele sorriu.

— Acreditam que podem construir uma galáxia baseada em acordos.

A figura atrás dele levantou lentamente a mão.

As luzes da sala começaram a piscar.

— Vocês acreditam que venceram.

Lyra aproximou-se da transmissão.

— Quem está aí?

A figura virou-se diretamente para a câmera.

Por um instante, ninguém respirou.

Dois olhos azuis apareceram sob o capuz.

Lyra ficou pálida.

— Não...

Kael olhou para ela.

— O que foi?

Lyra não respondeu.

Ela conhecia aqueles olhos.

Conhecia aquela energia.

Conhecia aquela presença.

A figura aproximou-se da câmera.

E uma voz que Lyra pensava nunca mais ouvir atravessou o salão.

— Vocês fizeram um conselho para decidir o futuro da galáxia.

Pausa.

— Mas esqueceram de perguntar ao verdadeiro herdeiro.

Lyra deu um passo à frente.

— Orion?

A figura sorriu.

— Ainda não.

A transmissão foi interrompida.

E, no mesmo instante, todos os sensores do conselho detectaram milhões de naves surgindo nos limites do espaço conhecido.

Não eram Solaris.

Não eram Nox.

Não eram rebeldes.

E nenhuma delas aparecia em qualquer registro da galáxia.

Kael olhou para os dados.

— Quantas?

O oficial responsável mal conseguia falar.

— Não sabemos.

— Estimativa.

— Mais de vinte milhões.

Ninguém se moveu.

Lyra olhou para o céu através da janela.

As primeiras naves começaram a aparecer.

Uma após outra.

Como se estivessem esperando havia séculos.

Asterion voltou a falar pelo comunicador.

Sua voz estava tremendo.

— Lyra...

— O quê?

— Eu consegui decifrar o símbolo da nave.

Lyra fechou os olhos.

— E?

Asterion respondeu:

— Não significa “Orion”.

Silêncio.

— Significa...

Asterion parou.

— O quê?

Retorno.

As luzes da galáxia começaram a piscar.

Uma após outra.

Como se alguma coisa estivesse acordando.

E, muito além das fronteiras conhecidas, uma voz antiga começou a chamar pelo nome de Orion.

Uma vez.

Depois outra.

E outra.

Até que milhões de vozes responderam juntas:

O herdeiro deve voltar.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

tetris