A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 57 — A Nova Ordem

 A oitava porta continuava aberta.

Do outro lado, o mundo negro permanecia imóvel.

Nenhuma estrela.

Nenhum planeta visível.

Apenas estruturas colossais espalhadas pela escuridão e, no centro de tudo, aquele trono.

Orion observava a figura diante dele.

Era como olhar para um reflexo deformado de si mesmo.

O rosto era o mesmo.

Os olhos eram azuis.

Mas havia algo diferente.

Aquele homem carregava séculos de dor.

— Quem é você? — perguntou Orion.

A figura respondeu:

— A pergunta correta é quem você era.

Orion apertou os punhos.

— Eu sou Orion.

— Hoje.

O homem apontou para o céu.

— Mas antes disso você teve outros nomes.

As memórias começaram a surgir.

Orion viu cidades antigas.

Viu crianças usando energia azul.

Viu exércitos inteiros.

Viu o primeiro Nóvium sendo extraído de um planeta morto.

Viu pessoas ajoelhadas diante de uma pedra azul.

E então viu uma multidão.

Centenas de milhares de pessoas.

Todas repetindo a mesma frase.

— O Nóvium nos salvará.

Orion abriu os olhos.

— Isso aconteceu?

O homem respondeu:

— Muitas vezes.

— Quem eram eles?

— Os primeiros adoradores.

— Adoradores?

— Sim.

Orion sentiu um arrepio.

— O Nóvium nunca foi uma religião.

— Não no começo.

A figura sorriu.

— Mas os humanos transformam aquilo que não compreendem em algo que possam venerar.


Na superfície de Éterion, a guerra havia parado.

Não por vitória.

Por medo.

Os soldados observavam o céu.

As cidades permaneciam em silêncio.

A energia azul que cobria o planeta começava a diminuir.

Lyra caminhava entre os destroços.

Ao seu redor, civis saíam dos abrigos.

Crianças olhavam para ela.

Algumas reconheciam a mulher que havia ajudado a salvá-las.

Mas Lyra não conseguia sorrir.

Ela continuava olhando para o céu.

— Ele está lá — disse uma menina.

Lyra abaixou os olhos.

— Quem?

A menina apontou.

— Orion.

Lyra olhou novamente.

Por um instante, viu uma pequena luz azul entre as nuvens.

Então ela desapareceu.

— Você viu?

A menina assentiu.

— Ele estava olhando para nós.

Lyra sorriu.

— Talvez estivesse.

Mas no fundo sabia que havia algo errado.

Orion havia voltado.

Porém, o universo que ele encontrara também havia voltado com ele.


Três dias depois, o novo Conselho reuniu-se.

Solaris.

Nox.

Colônias.

Planetas independentes.

Representantes de Éterion.

Sobreviventes das guerras.

Todos estavam presentes.

Lyra ocupava seu lugar entre os representantes.

Kael permanecia ao lado dela.

Asterion apresentava os dados.

— Desde o retorno de Orion, detectamos alterações na atividade do Nóvium em cento e oito sistemas.

Um representante perguntou:

— Alterações de que tipo?

— Fragmentos que estavam inativos começaram a emitir energia.

— E isso significa?

Asterion respondeu:

— Ainda não sabemos.

Outro representante levantou-se.

— Precisamos controlar o minério.

Kael respondeu:

— Já tentamos controlar.

O salão ficou em silêncio.

— E sabemos onde isso terminou.

O representante sentou-se.

Lyra observou os presentes.

Havia tensão.

A paz ainda era recente.

Bastava uma faísca.

Uma acusação.

Uma morte.

Uma mentira.

E tudo poderia começar novamente.

Foi então que as portas do salão se abriram.

Um mensageiro entrou correndo.

— Temos uma emergência.

Lyra levantou-se.

— O que aconteceu?

— O primeiro-ministro de Arven foi assassinado.

Silêncio.

Kael perguntou:

— Quando?

— Há vinte minutos.

Asterion fechou os olhos.

— Como?

— Não sabemos.

— Segurança?

— Todos mortos.

Lyra olhou para Kael.

Ele já havia entendido.

— Isso não foi um atentado comum.


O corpo do primeiro-ministro foi encontrado dentro de uma sala protegida.

Não havia marcas de arrombamento.

Nenhuma arma.

Nenhum invasor registrado.

O homem simplesmente caiu morto.

Mas havia algo estranho.

Uma pequena marca azul brilhava em sua mão.

Asterion analisou a imagem.

— Nóvium.

Lyra perguntou:

— Ele tinha contato com o minério?

— Oficialmente, não.

Kael aproximou-se.

— Então alguém colocou isso nele.

Asterion balançou a cabeça.

— Não.

— O que foi?

— A marca veio de dentro.

Lyra franziu a testa.

— Como?

Asterion ampliou a imagem.

— O Nóvium se formou dentro do tecido.

Kael ficou sério.

— Isso é possível?

— Nunca vimos antes.

Lyra perguntou:

— Então alguém despertou o poder dele?

Asterion respondeu:

— Não.

Ele mostrou os dados.

— Alguém matou o homem usando energia produzida pelo próprio corpo.


A notícia se espalhou rapidamente.

Outros políticos começaram a receber ameaças.

Alguns renunciaram.

Outros desapareceram.

Sistemas inteiros fecharam suas fronteiras.

O medo retornou.

Mas dessa vez havia algo diferente.

Uma mensagem apareceu nas redes clandestinas.

Um símbolo azul.

Um círculo atravessado por uma linha.

Abaixo dele, apenas três palavras:

O NÓVIUM DESPERTA.

Depois outra mensagem.

OS DIGNOS SERÃO SALVOS.

E uma terceira.

OS IMPUROS CAIRÃO.

Asterion observou os textos.

— É uma organização.

Lyra perguntou:

— Nome?

— Ainda não temos.

Kael respondeu:

— Descubram.


Orion voltou a Éterion durante a noite.

Ninguém viu sua chegada.

Ele simplesmente apareceu diante do antigo núcleo.

A região estava quase completamente reconstruída.

Mas o chão ainda guardava marcas da guerra.

Orion tocou uma parede.

Sentiu as memórias do planeta.

Milhões.

Algumas pertenciam aos mortos.

Outras aos vivos.

Então ouviu uma voz.

— Você voltou.

Orion virou-se.

Era Asterion.

— Você sabia que eu viria?

— Não.

— Então como me encontrou?

Asterion mostrou um pequeno dispositivo.

— O Nóvium avisou.

Orion olhou para o aparelho.

— Ele está mudando.

— Muito.

Asterion aproximou-se.

— Precisamos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre você.

Orion ficou em silêncio.

— Eu perdi memórias.

— Eu sei.

— E encontrei coisas que não deveria existir.

Asterion respondeu:

— Também sei.

— Como?

O cientista entregou-lhe um arquivo.

— Porque descobrimos que alguém está procurando exatamente pelas mesmas informações.

Orion abriu o arquivo.

Imagens de túneis subterrâneos.

Símbolos azuis.

Cerimônias.

Pessoas encapuzadas.

E crianças.

Todas portadoras.

Orion ficou imóvel.

— Quem são eles?

Asterion respondeu:

— Ainda não sabemos.

— Onde estão?

— Em vários sistemas.

— Quantos?

— Talvez milhões.

Orion fechou o arquivo.

— Então vamos encontrá-los.


A organização começou a ganhar um nome.

As autoridades a chamavam de Ordem do Nóvium.

Seus membros preferiam outro.

Os Despertos.

Eles acreditavam que o Nóvium não era um minério.

Era uma divindade.

Para eles, os portadores não eram pessoas.

Eram escolhidos.

Quanto maior o poder, maior o status.

Os mais poderosos ocupavam posições superiores.

Os que não possuíam poderes eram considerados adormecidos.

E os que se opunham à organização eram chamados de impuros.

A Ordem começou discretamente.

Primeiro em colônias pobres.

Depois em cidades reconstruídas.

Finalmente chegou aos próprios centros políticos.

Eles ofereciam comida.

Abrigo.

Medicamentos.

Proteção.

E uma promessa.

— O Nóvium escolherá os dignos.

Muitos acreditaram.


O primeiro portador recrutado foi uma garota de quinze anos.

Seu nome era Mira.

Ela conseguia controlar eletricidade.

Depois que seus poderes apareceram, sua família a abandonou.

Tinha medo dela.

A Ordem a encontrou.

Deram-lhe abrigo.

Ensinaram-na a controlar a energia.

Ela passou a acreditar que finalmente pertencia a algum lugar.

Mas havia um preço.

— Você precisa servir ao Nóvium.

Mira perguntou:

— Como?

— Encontrando outros como você.

Ela aceitou.

Em poucos meses, recrutou dezenas.

Depois centenas.

Os novos membros eram levados para instalações subterrâneas.

Lá, aprendiam a meditar diante de fragmentos azuis.

Alguns desenvolviam poderes.

Outros adoeciam.

Alguns morriam.

Os líderes chamavam aquilo de seleção.


Orion entrou em uma dessas instalações sozinho.

Não utilizou nave.

Não utilizou armas.

Abriu um pequeno portal e atravessou.

Surgiu em um corredor escuro.

Havia símbolos nas paredes.

O mesmo círculo azul.

Ele tocou um deles.

Uma memória surgiu.

Uma voz:

— O Portador retornará.

Outra:

— Quando ele voltar, estaremos preparados.

Orion abriu os olhos.

— Eles me esperavam.

Uma porta abriu.

Mira apareceu.

Ela ergueu as mãos.

Raios começaram a percorrer seus braços.

— Quem é você?

Orion respondeu:

— Meu nome é Orion.

Mira congelou.

— O Portador Azul?

— Sim.

Ela ficou emocionada.

— Você voltou.

— Quem te trouxe para cá?

Mira abaixou as mãos.

— Eles me salvaram.

— Quem?

— Os Despertos.

— O que eles querem?

— Preparar o universo.

Orion franziu a testa.

— Para quê?

Mira olhou para trás.

— Para sua chegada.


Uma voz surgiu pelos alto-falantes.

— Orion.

Ele levantou os olhos.

— Mostre-se.

Uma figura apareceu no fim do corredor.

Vestia uma máscara branca.

No centro dela havia o símbolo azul.

— Finalmente.

Orion caminhou na direção dele.

— Você conhece meu nome.

— Todos conhecemos.

— Por quê?

— Porque você é o primeiro.

Orion parou.

— Primeiro o quê?

O homem respondeu:

— Primeiro dos que retornarão.

— Quantos existem?

— Muitos.

— Onde?

— Dentro de nós.

Orion sentiu energia.

Centenas de assinaturas.

Milhares.

Algumas muito fortes.

— Vocês estão usando Nóvium para despertar poderes.

— Não.

O homem sorriu.

— Estamos devolvendo às pessoas aquilo que sempre pertenceu a elas.

Orion percebeu algo.

— Vocês estão modificando o Nóvium.

O homem ficou em silêncio.

— Estão cultivando fragmentos artificiais.

— Sim.

— Para criar novos portadores.

— Sim.

Orion deu outro passo.

— E quantos morreram?

A máscara não respondeu.

Mira baixou os olhos.

Orion entendeu.

— Quantos?

Finalmente o homem respondeu:

— Muitos.

Orion fechou os punhos.

A energia azul começou a envolver seu corpo.

As paredes tremeram.

— Vocês estão brincando com vidas.

O líder permaneceu tranquilo.

— Não.

— Então o que estão fazendo?

— Preparando-os.

— Para quê?

O homem respondeu:

— Para sobreviver ao que está chegando.

Orion ficou imóvel.

— Vocês sabem sobre a porta.

— Sabemos muito mais.


No mesmo instante, outro assassinato aconteceu.

Desta vez em Solaris.

Um membro do novo governo foi encontrado morto dentro de uma sala de segurança máxima.

Novamente, nenhuma porta havia sido aberta.

Nenhuma câmera registrou intrusos.

E novamente havia a mesma marca azul.

A notícia chegou a Lyra.

Ela correu para o local.

Kael já estava lá.

— É a mesma assinatura — disse Asterion.

Lyra observou o corpo.

— Eles estão eliminando políticos.

Kael respondeu:

— Ou alguém quer que pareça isso.

Lyra olhou para ele.

— Você suspeita de outra coisa?

— Sim.

— O quê?

Kael mostrou um relatório.

— Todos os mortos apoiavam o Conselho.

Lyra ficou séria.

— E os próximos?

Kael entregou uma lista.

Havia dezenas de nomes.

Governadores.

Cientistas.

Representantes de planetas.

E um último nome.

Lyra.

Ela ficou imóvel.

Kael imediatamente guardou o arquivo.

— Você vai sair do Conselho.

— Não.

— Lyra.

— Se eu sair, eles vencem.

— Não sabemos quem são.

— Então descubra.

Kael respirou fundo.

— Eu já estou tentando.


A Ordem observava tudo.

Em uma instalação subterrânea, dezenas de pessoas estavam reunidas diante de um enorme cristal azul.

O cristal pulsava.

Cada pulso fazia os portadores sentirem energia.

No centro da sala estava Mira.

O líder mascarado aproximou-se.

— Você viu Orion?

Mira assentiu.

— Sim.

— E?

— Ele não é como esperávamos.

— Explique.

— Ele se importa com as pessoas.

O líder permaneceu em silêncio.

— Isso é um problema?

— Talvez.

— Por quê?

Mira respondeu:

— Porque ele não acredita que o Nóvium escolha quem merece viver.

O líder sorriu.

— Então precisaremos ensiná-lo.


Orion continuava diante do líder.

— Quem criou vocês?

— Os antigos.

— Eles estão vivos?

— Alguns.

— Onde?

O homem aproximou-se.

— Mais perto do que imagina.

— Quero respostas.

— Você terá.

O líder retirou a máscara.

Orion ficou imóvel.

Era um homem velho.

Mas seus olhos brilhavam em azul.

— Eu fui um portador.

Orion perguntou:

— Há quanto tempo?

— Antes da última guerra.

— Então como está vivo?

O homem respondeu:

— Porque o Nóvium me escolheu.

Orion observou seu corpo.

Havia linhas azuis percorrendo sua pele.

— Não.

— O quê?

— Você não foi escolhido.

O homem franziu a testa.

— Como sabe?

Orion aproximou-se.

— Porque o Nóvium não escolhe ninguém.

O homem recuou.

— O que está dizendo?

— Ele conecta.

Orion apontou para o cristal.

— Vocês estão confundindo conexão com obediência.

O cristal começou a pulsar violentamente.

Todos os portadores na sala sentiram.

Mira caiu de joelhos.

Orion percebeu algo.

A Ordem não controlava o cristal.

O cristal controlava a Ordem.

— Vocês não estão adorando o Nóvium.

O líder começou a respirar com dificuldade.

— Então o que estamos adorando?

Orion olhou para o cristal.

Uma voz surgiu dentro de sua mente.

A mesma voz que ouvira atrás da oitava porta.

— Ele ainda não percebeu.

Orion ficou pálido.

— Percebeu o quê?

A voz respondeu:

— O Nóvium não é a divindade.

O cristal rachou.

Uma pequena abertura surgiu em sua superfície.

Algo estava se movendo dentro dele.

Orion recuou.

— O que é isso?

O líder começou a sorrir.

— Agora você vai entender.

A rachadura aumentou.

Uma mão azul surgiu do interior do cristal.

Depois outra.

Mira gritou.

Os portadores recuaram.

Orion preparou sua energia.

Mas então a figura saiu completamente.

Era uma criança.

Talvez dez anos.

Olhos azuis.

Pele coberta por marcas luminosas.

E o mesmo símbolo que Orion carregava no peito.

A criança olhou diretamente para ele.

— Você demorou.

Orion não conseguiu responder.

— Quem é você?

A criança sorriu.

— Eu sou o próximo.


Ao mesmo tempo, em todos os sistemas onde a Ordem estava presente, os cristais começaram a rachar.

Centenas.

Milhares.

Milhões.

Os portadores sentiram a mesma presença.

Alguns começaram a cair.

Outros ouviram uma voz.

E uma mensagem apareceu em todas as redes:

O RETORNO COMEÇOU.

Lyra recebeu a transmissão.

Kael também.

Asterion abriu todos os sensores.

Os instrumentos registraram milhões de assinaturas de energia.

Não estavam vindo de Éterion.

Não estavam vindo das naves negras.

Estavam surgindo dentro dos próprios portadores.

Kael olhou para Lyra.

— Isso não pode estar acontecendo.

Ela perguntou:

— O quê?

Kael mostrou os dados.

As assinaturas estavam se conectando.

Como uma rede.

Como uma mente.

Como uma única consciência.

Lyra ficou em silêncio.

— Orion precisa saber.

Kael respondeu:

— Ele já sabe.


Orion olhou para a criança.

A criatura sorriu novamente.

— Você perdeu suas memórias.

Orion sentiu um arrepio.

— Como sabe?

— Porque eu estava lá quando foram apagadas.

— Quem apagou?

A criança aproximou-se.

— Você.

Orion ficou completamente imóvel.

— Eu?

— Sim.

— Por quê?

A criança tocou seu peito.

— Porque você sabia o que aconteceria quando lembrasse.

As luzes da instalação começaram a apagar.

Uma por uma.

Mira levantou-se.

— Orion...

Ele não respondeu.

A criança continuou:

— Você não voltou para salvar o universo.

— Então para quê?

A criança sorriu.

— Para escolher de que lado ficará.

Orion olhou para o líder mascarado.

Depois para Mira.

Depois para os cristais.

E finalmente para a escuridão além da instalação.

Uma presença gigantesca começou a surgir através da rede de energia.

A mesma presença que havia atravessado a oitava porta.

Orion percebeu que a Ordem do Nóvium não era o verdadeiro inimigo.

Era apenas o primeiro movimento.

Ele abriu a mão.

Uma enorme esfera azul apareceu acima dele.

— Então vou descobrir quem está por trás de vocês.

A criança respondeu:

— Você já sabe.

Orion olhou para ela.

— Quem?

A criança apontou para seu próprio peito.

— Você.

Nesse instante, todos os cristais explodiram em luz.

E, em algum ponto desconhecido da galáxia, uma frota gigantesca mudou de rota.

Seu destino agora era Éterion.

Mas, pela primeira vez, os sensores detectaram algo ainda mais estranho:

uma segunda frota vinha na direção oposta.

E ambas carregavam o mesmo símbolo azul.


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