A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 58 — O Filho do Abismo
As armas começaram a disparar.
Todas.
Ao mesmo tempo.
Na órbita de Éterion, cruzadores Solaris abriram fogo contra naves Noxianas.
Encouraçados Noxianos dispararam contra estações alienígenas.
Caças rebeldes atacaram seus próprios aliados.
Até antigas plataformas de defesa, enterradas havia milhões de anos, despertaram e começaram a lançar feixes de energia contra qualquer coisa que estivesse no céu.
Lyra segurou-se com força à lateral da ponte.
— Desliguem os sistemas de armas!
— Não respondem!
— Retirem a alimentação!
— Também não responde!
Kael observava os painéis.
— Não são as naves.
Lyra virou-se.
— O quê?
— Alguém está usando as redes de energia para controlar os armamentos.
Asterion apareceu no monitor.
— Não é alguém.
A voz do cientista estava trêmula.
— É a entidade.
Lyra olhou para o céu.
As estrelas haviam voltado.
Mas agora sabia que não eram estrelas.
Eram olhos.
Milhares.
Milhões.
Cada um observando um ponto diferente da galáxia.
— Então ela escapou — disse Lyra.
Asterion balançou a cabeça.
— Não.
— Como assim?
— Aquilo que estamos vendo não é a entidade que conhecemos.
Kael aproximou-se.
— Então quem é?
Asterion demorou alguns segundos para responder.
— O que estava atrás dela.
No meio do caos, uma pequena nave de transporte atravessava a atmosfera de Éterion.
Não possuía identificação.
Não transmitia sinal.
Não tinha armas.
Apenas um compartimento de carga.
Dentro dele havia um garoto.
Devia ter aproximadamente doze anos.
Estava sentado no chão metálico, com os joelhos junto ao peito.
Seus cabelos eram completamente negros.
Não castanhos.
Não escuros.
Negros como se a luz desaparecesse ao tocá-los.
Seus olhos também eram diferentes.
Um era azul.
O outro era quase completamente negro.
Ao redor de seus braços havia pequenas linhas escuras.
Elas pareciam veias.
Mas se moviam.
O garoto respirava rapidamente.
Uma voz sussurrava dentro de sua cabeça.
— Eles estão vindo.
O menino fechou os olhos.
— Eu sei.
— Eles querem você.
— Eu sei.
— Não deixe que encontrem você.
O garoto apertou as mãos contra os ouvidos.
— Pare.
A voz continuou.
— Eles têm medo de você.
— Pare!
As luzes da nave começaram a piscar.
Uma sombra surgiu no chão.
Depois outra.
A energia negra começou a escapar dos dedos do garoto.
A sombra cresceu.
Subiu pelas paredes.
Cobriu o teto.
O garoto gritou.
E toda a nave desapareceu dentro da escuridão.
Quando voltou a existir, estava sobre uma cidade.
A nave simplesmente surgiu no céu.
O piloto não teve tempo de reagir.
O veículo caiu.
Bateu contra três prédios.
Explodiu.
Fragmentos choveram sobre as ruas.
Os sistemas de emergência começaram a funcionar.
Equipes de resgate correram para o local.
Encontraram o garoto no centro dos destroços.
Vivo.
Sem um arranhão.
Um dos soldados aproximou-se.
— Ei.
O menino levantou os olhos.
O soldado congelou.
A sombra ao redor dele se mexeu.
— Você está ferido?
O garoto não respondeu.
— Qual é seu nome?
O menino olhou para os destroços.
— Não lembro.
— De onde você veio?
Silêncio.
— Quem estava com você?
O garoto apontou para o céu.
— Ele.
O soldado olhou para cima.
Não havia ninguém.
— Quem?
O menino respondeu:
— O que está atrás das estrelas.
Poucas horas depois, a notícia chegou ao Conselho.
Lyra estava no centro de comando quando o relatório apareceu.
— Criança encontrada dentro de uma nave desconhecida.
Asterion ampliou a imagem.
Lyra ficou imóvel.
— O que é isso?
O garoto aparecia nas gravações.
Ao redor dele, os sensores registravam uma quantidade absurda de energia.
Mas não era Nóvium.
Era diferente.
Muito diferente.
Kael aproximou-se.
— Parece energia negativa.
Asterion respondeu:
— Não existe energia negativa.
— Então o que estamos vendo?
Asterion ampliou os dados.
— Algo que não deveria existir.
Lyra observou o garoto.
— Onde ele está?
— Hospital central.
— Vamos.
Kael segurou seu braço.
— Espere.
— O quê?
— Você viu os relatórios dos ataques.
Lyra assentiu.
— Vi.
— Três mundos foram atacados nas últimas duas horas.
Asterion acrescentou:
— Quatro.
Todos olharam para ele.
— Acabou de chegar outro relatório.
Um novo mapa apareceu.
Quatro pontos vermelhos surgiram.
— Os ataques estão acontecendo ao redor da mesma região espacial.
Kael analisou a posição.
— Éterion.
— Não — disse Asterion.
Ele ampliou o mapa.
— Estão formando um círculo.
Lyra percebeu.
— Um cerco.
O primeiro mundo atacado era uma colônia agrícola.
As naves chegaram sem aviso.
Não pertenciam a Solaris.
Nem a Nox.
Não tinham qualquer símbolo conhecido.
Eram completamente negras.
Não refletiam a luz.
Quando os habitantes tentaram estabelecer comunicação, receberam apenas uma mensagem:
— Entreguem o portador.
Ninguém sabia o que aquilo significava.
Os colonos recusaram.
Então o céu ficou negro.
Não por causa de nuvens.
Por causa de energia.
Uma onda escura atravessou as cidades.
Não destruiu os prédios.
Destruiu a energia dentro das pessoas.
Milhares caíram inconscientes.
Alguns perderam seus poderes.
Outros começaram a manifestá-los de maneira descontrolada.
Uma criança fez o chão desaparecer.
Outro menino criou uma tempestade dentro de uma sala.
Uma mulher começou a flutuar.
A colônia inteira entrou em pânico.
Então as naves partiram.
Sem destruir o planeta.
Apenas procurando.
O segundo mundo foi diferente.
Ali viviam milhares de pessoas que haviam começado a desenvolver habilidades espontaneamente.
Quando as naves negras chegaram, os portadores tentaram defender a cidade.
Ergueram barreiras.
Criaram fogo.
Eletricidade.
Campos gravitacionais.
Telecinese.
As naves não reagiram.
Apenas atravessaram os ataques.
Então uma voz surgiu.
— O filho está aqui?
Ninguém respondeu.
A cidade inteira foi envolvida por uma sombra.
E todos os portadores ouviram a mesma frase dentro de suas cabeças:
— Ele está acordando.
No hospital de Éterion, o garoto permanecia sozinho.
Médicos haviam tentado examiná-lo.
Nenhum equipamento funcionava perto dele.
Monitores desligavam.
Scanners quebravam.
Drones médicos perdiam controle.
Quando uma enfermeira tentou tocar sua mão, todas as luzes do corredor apagaram.
O garoto olhou para ela.
— Desculpe.
— Está tudo bem.
— Não está.
— Por quê?
Ele respondeu:
— Ele está com fome.
A enfermeira ficou pálida.
— Quem?
O garoto olhou para a janela.
— Meu pai.
Lyra chegou minutos depois.
Kael veio logo atrás.
Asterion permaneceu no centro de comando.
O corredor estava escuro.
As luzes piscavam.
Lyra aproximou-se do quarto.
O garoto estava sentado na cama.
— Olá.
Ele olhou para ela.
— Você é Lyra.
Ela parou.
— Como sabe meu nome?
— Ele me contou.
Kael entrou.
O garoto imediatamente olhou para ele.
Sua expressão mudou.
As sombras ao redor de seus braços ficaram mais intensas.
— Você também está quebrado.
Kael ficou imóvel.
— O que você disse?
— Tem alguma coisa dentro de você.
Lyra olhou para Kael.
Ele não respondeu.
O garoto continuou:
— Ela está tentando sair.
Kael sentiu a cicatriz em seu peito queimar.
A mesma cicatriz que havia surgido durante seus sonhos.
A mesma energia que Asterion encontrara dentro dele.
— Quem é você? — perguntou Kael.
O menino abaixou os olhos.
— Não sei.
— Qual é seu nome?
— Me chamavam de Narek.
Lyra aproximou-se.
— Quem chamava?
O garoto respondeu:
— Os que estavam no escuro.
Uma sombra atravessou o quarto.
Kael puxou a arma.
Lyra fez o mesmo.
Narek levantou a mão.
— Não.
A sombra desapareceu.
Kael não baixou a arma.
— Você fez isso?
Narek assentiu.
— Você controla a escuridão?
— Não.
— Então o que controla?
O garoto olhou para os próprios dedos.
— Ela me controla.
Lyra perguntou:
— Quem?
Narek fechou os olhos.
Sua respiração ficou pesada.
Quando falou novamente, sua voz parecia diferente.
Mais grave.
Mais antiga.
— O primeiro.
As paredes começaram a vibrar.
Lyra deu um passo para trás.
— O primeiro quê?
Narek abriu os olhos.
Os dois ficaram completamente negros.
— O primeiro portador.
Asterion ouviu tudo através do comunicador.
Seu rosto perdeu a cor.
— Lyra, saia daí.
— Por quê?
— Agora.
— Asterion...
— Esse garoto não pode permanecer perto de Kael.
Kael olhou para ele.
— Explique.
Asterion respirou fundo.
— Comparei a assinatura energética dele com a que existe dentro de você.
Silêncio.
— E?
— São semelhantes.
Kael ficou imóvel.
— Semelhantes quanto?
— Da mesma origem.
Lyra perguntou:
— Isso significa que eles são parentes?
Asterion respondeu:
— Não.
Ele ampliou os dados.
— Significa que ambos foram alterados pela mesma coisa.
Kael tocou o peito.
— A entidade.
Asterion respondeu:
— Talvez.
Então um terceiro sinal apareceu.
O sistema inteiro entrou em alerta.
Asterion olhou para o mapa.
— Não.
Lyra perguntou:
— O que foi?
— Encontramos o quinto ataque.
— Onde?
Asterion ampliou a imagem.
— Aqui.
O ponto vermelho estava exatamente sobre Éterion.
O céu explodiu.
Naves negras surgiram em milhares.
Não haviam vindo pelo espaço.
Haviam surgido de dentro dele.
Como se sempre estivessem escondidas entre as estrelas.
As defesas de Éterion abriram fogo.
Os disparos desapareceram antes de alcançar os inimigos.
As naves negras continuaram descendo.
Lyra correu até a janela.
— Quantas?
Kael respondeu:
— Não sei.
Asterion transmitiu:
— Pelo menos duzentas mil.
Lyra ficou em silêncio.
— Eles vieram atrás dele.
Kael olhou para Narek.
O garoto estava tremendo.
— Sim.
Lyra perguntou:
— Quem são?
Narek respondeu:
— Os que servem ao abismo.
Uma das maiores naves abriu-se.
Uma figura surgiu.
Era uma mulher.
Vestia uma armadura negra coberta por linhas azuis.
Seus cabelos eram brancos.
Os olhos, completamente azuis.
Ela flutuou diante da frota.
Sua voz foi transmitida para toda a superfície.
— Entreguem Narek.
Lyra ativou o canal.
— Quem é você?
A mulher sorriu.
— Alguém que tentou impedir o nascimento dele.
Kael aproximou-se do transmissor.
— Por quê?
A mulher olhou diretamente para a câmera.
— Porque eu sei o que ele vai se tornar.
Narek começou a chorar.
Lyra olhou para ele.
— Você conhece essa mulher?
— Sim.
— Quem é?
Ele respondeu:
— Minha mãe.
A transmissão foi interrompida.
Kael olhou para Lyra.
— Isso não faz sentido.
Asterion respondeu pelo comunicador:
— Faz.
— Como?
— Se Narek foi criado artificialmente...
Lyra completou:
— Ele pode ter sido criado por aqueles que cultivavam Nóvium.
Asterion ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Não.
— Então?
— Encontrei registros sobre isso.
Uma imagem apareceu no monitor.
Era um laboratório antigo.
Centenas de cápsulas.
Dentro delas havia crianças.
Algumas ainda em formação.
Outras já crescidas.
Todas tinham marcas negras pelo corpo.
— Onde encontrou isso? — perguntou Lyra.
— Nos arquivos que recuperamos do mercado clandestino.
Kael observou as cápsulas.
— Quantas?
Asterion ampliou a imagem.
— Milhares.
Lyra sentiu um arrepio.
— Eles criaram um exército.
— Não — respondeu Asterion.
— Então o quê?
— Criaram recipientes.
Narek caiu de joelhos.
A sombra explodiu ao redor dele.
Kael segurou Lyra e recuou.
O chão rachou.
As paredes começaram a escurecer.
Narek gritava.
— Ele está vindo!
Lyra aproximou-se.
— Quem?
— Meu pai!
— Narek, olha para mim.
O garoto levantou os olhos.
— Não consigo segurá-lo.
— Consegue.
— Não!
A energia negra aumentou.
— Ele é muito forte!
Lyra estendeu a mão.
— Então deixe-nos ajudar.
Narek hesitou.
Kael aproximou-se também.
— Você não está sozinho.
O garoto olhou para ele.
— Você também ouve?
Kael ficou imóvel.
— O quê?
— A voz.
Kael não respondeu.
Narek sorriu tristemente.
— Então você sabe.
Naquele momento, a porta se abriu.
Orion entrou.
Não havia chegado de nave.
Simplesmente apareceu.
A energia azul ao redor dele ainda pulsava.
Seu rosto estava diferente.
Mais sério.
Mais velho.
Como se tivesse visto coisas demais.
Lyra correu até ele.
— Orion!
Ele a abraçou rapidamente.
— Você está bem?
— Estou.
Orion olhou para Kael.
Depois para Narek.
Parou.
— Ele é o filho do abismo.
Narek olhou para ele.
— Você sabe quem eu sou?
Orion respondeu:
— Sei o suficiente.
— Então sabe o que existe dentro de mim.
— Sim.
— Vai me matar?
Orion aproximou-se.
— Não.
Narek ficou confuso.
— Por quê?
Orion ajoelhou-se diante dele.
— Porque sei o que significa ter uma coisa dentro de você que outras pessoas querem controlar.
Kael desviou os olhos.
Orion percebeu.
— E porque sei que uma origem não determina aquilo que você será.
Narek começou a chorar.
— Ele diz que eu sou dele.
Orion respondeu:
— Ele está mentindo.
— Como sabe?
— Porque eu também ouvi a voz dele.
O garoto ficou em silêncio.
— E você venceu?
Orion olhou para o céu.
— Ainda não.
Uma explosão sacudiu o hospital.
A frota negra havia começado o ataque.
As paredes tremeram.
Vidros quebraram.
Alarmes dispararam.
Lyra puxou a arma.
— Todos para os abrigos!
Orion permaneceu ao lado de Narek.
— Você precisa aprender a controlar isso.
— Eu não consigo.
— Consegue.
— Como?
Orion estendeu a mão.
Uma pequena esfera azul surgiu.
Narek estendeu os dedos.
Uma pequena esfera negra apareceu.
As duas energias se tocaram.
Não houve explosão.
Pela primeira vez, a escuridão permaneceu estável.
Narek arregalou os olhos.
— Como fez isso?
— Não tente destruir sua energia.
— Mas ela é perigosa.
— Então aprenda a ouvi-la.
Narek hesitou.
— Ela fala comigo.
— Eu sei.
— Ela diz que quer sair.
— Talvez não seja ela quem está falando.
Narek ficou imóvel.
Orion fechou os olhos.
— Existe uma diferença entre uma voz e uma vontade.
— Como descubro?
Orion abriu os olhos.
— Vou ensinar você.
Os ataques continuaram.
Cidades inteiras foram evacuadas.
Frotas tentaram proteger os corredores espaciais.
As naves negras avançavam sem parar.
Mas agora Orion havia assumido outra missão.
Ele levou Narek para uma região isolada de Éterion.
Era um vale cercado por montanhas.
Ali, os sinais de energia eram baixos.
Narek sentou-se sobre uma pedra.
Orion permaneceu à frente dele.
— Primeiro exercício.
— Qual?
— Não use seu poder.
Narek ficou confuso.
— Mas você disse que vai me ensinar.
— Estou ensinando.
— Sem usar?
— Controle começa quando você consegue escolher não usar.
Narek fechou os olhos.
Silêncio.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então uma pequena sombra apareceu sob seus pés.
— Ela está vindo.
— Não reaja.
— Está aumentando.
— Deixe.
A sombra cresceu.
Cobriu metade do vale.
Narek começou a tremer.
— Não consigo.
Orion segurou seu ombro.
— Você consegue.
— Ela quer me dominar.
— Então diga não.
— Ela não vai ouvir.
— Não fale com ela.
Narek abriu os olhos.
— Então com quem?
Orion apontou para o próprio peito.
— Com você.
A sombra parou.
Narek respirou fundo.
A energia começou a diminuir.
Pouco a pouco.
Até desaparecer.
Orion sorriu.
— Primeiro passo.
Narek sorriu também.
Foi a primeira vez que alguém viu aquele garoto sorrir desde que chegara a Éterion.
Do alto das montanhas, Lyra observava.
Kael estava ao lado dela.
— Você acha que funciona?
Lyra respondeu:
— Não sei.
— Ele é perigoso.
— Sim.
— Pode destruir uma cidade.
— Sim.
Kael olhou para ela.
— E mesmo assim você deixou Orion treiná-lo.
Lyra ficou em silêncio.
— Porque Orion sabe o que é ter medo do próprio poder.
Kael observou o garoto.
— Talvez seja isso que ele precise.
Uma transmissão chegou.
Asterion apareceu no comunicador.
— Temos outro problema.
Lyra suspirou.
— Qual?
— As naves negras recuaram.
Kael franziu a testa.
— Por quê?
— Não sei.
— Algum ataque?
— Não.
Asterion ampliou os dados.
— Elas receberam uma transmissão.
— De quem?
Asterion ficou em silêncio.
— De Narek.
Lyra olhou para o garoto.
— Ele não transmitiu nada.
Asterion respondeu:
— Eu sei.
— Então quem transmitiu?
Asterion ampliou a origem do sinal.
O rosto dele ficou completamente pálido.
— Veio de dentro dele.
Narek abriu os olhos.
A sombra voltou.
Mas agora não estava sob seus pés.
Estava atrás dele.
Gigantesca.
Uma forma humanoide começou a surgir.
Orion imediatamente ficou em posição de combate.
— Narek.
O garoto não conseguia se mover.
— Eu não estou fazendo isso.
A forma negra cresceu.
Dois olhos vermelhos apareceram.
A voz ecoou pelo vale.
— Finalmente.
Orion concentrou energia azul.
— Você não vai levá-lo.
A entidade respondeu:
— Eu não vim buscá-lo.
Orion franziu a testa.
— Então veio fazer o quê?
A criatura olhou para Narek.
— Vim acordá-lo.
Narek começou a gritar.
As linhas negras em seu corpo se iluminaram.
Kael sentiu sua própria cicatriz responder.
Ele caiu de joelhos.
Lyra correu até ele.
— Kael!
A voz da entidade mudou.
Agora falava diretamente dentro da mente de todos.
— Dois recipientes.
Kael levantou os olhos.
— Não...
Orion olhou para ele.
— O que foi?
Kael respirou com dificuldade.
— Eu conheço essa voz.
A entidade sorriu.
— Claro que conhece.
Kael ficou imóvel.
— Foi você.
— Sim.
Lyra percebeu.
— A voz dos sonhos.
A entidade respondeu:
— Eu coloquei a primeira semente dentro de Kael.
Orion ficou tenso.
— E Narek?
A criatura respondeu:
— Narek é o segundo.
O garoto gritou.
Uma explosão de energia negra atravessou o vale.
Orion criou uma barreira.
Kael tentou levantar.
Lyra segurou-o.
A sombra gigantesca começou a desaparecer.
Antes de sumir, a entidade deixou uma última frase:
— Quando os dois despertarem, o abismo terá um corpo.
Tudo ficou silencioso.
Narek caiu inconsciente.
Orion correu até ele.
Kael observou a própria mão.
As linhas negras haviam aparecido em seu braço.
Lyra olhou para os dois.
E então o céu ficou completamente negro.
Não havia mais estrelas.
Nem luas.
Nem naves.
Apenas uma gigantesca silhueta cobrindo o firmamento.
Asterion surgiu no comunicador, quase sem conseguir falar:
— Orion...
— Estou ouvindo.
— Detectamos milhares de sinais se aproximando.
— Quantos?
Asterion olhou para os sensores.
— Não são naves.
Orion levantou os olhos.
— Então o que são?
Asterion respondeu:
— Portadores.
Orion ficou imóvel.
— Quantos?
— Todos os que desapareceram.
Lyra olhou para o céu.
Milhares de pontos começaram a surgir na escuridão.
Depois milhões.
Pessoas que haviam sido consideradas mortas.
Soldados desaparecidos.
Cientistas.
Crianças.
Antigos portadores.
Todos flutuavam no espaço.
Todos com os olhos negros.
E todos disseram a mesma coisa:
— O filho do abismo despertou.
Narek abriu os olhos.
Desta vez, porém, seus olhos não eram azuis nem negros.
Eram completamente brancos.
Ele olhou diretamente para Orion.
E falou com uma voz que não era sua:
— Agora falta apenas você.

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