A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 42 — O Núcleo do Inimigo

 A nave inteira começou a estremecer.

Não era apenas uma vibração provocada pelos combates. As estruturas internas estavam se reorganizando, como se a própria nave tivesse percebido que Atlas havia alcançado seu centro.

As paredes se abriram.

Corredores desapareceram.

Novos caminhos surgiram.

E, muito além deles, uma enorme quantidade de energia começou a se concentrar.

Atlas permanecia conectado à máquina.

Seus sistemas estavam no limite.

Helena observava os dados no painel.

— Atlas, você precisa sair daí.

Ele não respondeu.

— Atlas!

Os olhos do androide continuavam iluminados, mas sua consciência estava parcialmente mergulhada na rede da nave.

Ele conseguia enxergar coisas que nenhum humano seria capaz de compreender.

Milhares de mundos.

Milhões de estruturas.

Civilizações inteiras ligadas por uma rede de energia que atravessava o espaço.

E no centro daquela rede havia algo ainda maior.

Um núcleo.

Não era uma estrela.

Não era um planeta.

Era uma máquina colossal, construída em torno de uma região completamente escura do espaço.

Atlas tentou acessar seus registros.

Uma barreira apareceu.

ACESSO NEGADO.

Ele tentou novamente.

A resposta mudou.

GUARDIÃO IDENTIFICADO.

Atlas ficou imóvel.

Então surgiu uma terceira mensagem.

CRIADOR NÃO AUTORIZADO.

Atlas sentiu uma alteração em seus sistemas.

— Criador?

A voz da máquina respondeu dentro de sua mente.

VOCÊ NÃO FOI CRIADO PARA NOS CONTROLAR.

Atlas perguntou:

— Então para quê?

PARA ESCOLHER.

A conexão desapareceu.

Atlas abriu os olhos.

Helena estava diante dele.

— O que aconteceu?

— A máquina está me mostrando algo.

— O quê?

— O verdadeiro centro da rede.

Orion aproximou-se.

— Podemos chegar até ele?

Atlas olhou para o corredor recém-aberto.

— Sim.

Helena franziu a testa.

— E por que ela deixaria?

Atlas respondeu:

— Porque quer que cheguemos lá.


O grupo avançou.

Atlas, Helena, Orion e os poucos Guardiões que ainda permaneciam funcionais atravessaram o corredor.

Atrás deles, os combates continuavam.

Os soldados alienígenas tentavam impedir o avanço.

Mas a nave parecia estar dividida.

Algumas estruturas atacavam os invasores.

Outras tentavam proteger Atlas.

Ninguém entendia por quê.

Orion observou uma parede se fechar atrás deles.

— Isso está ficando estranho.

Helena respondeu:

— Já deixou de ser estranho há muito tempo.

Atlas continuava caminhando.

— Estamos próximos.

O corredor terminou diante de uma porta gigantesca.

Não havia mecanismos visíveis.

Atlas tocou a superfície.

A porta abriu.

Do outro lado existia uma câmara tão grande que parecia impossível estar dentro de uma nave.

O teto desaparecia na escuridão.

Estruturas enormes desciam de cima.

No centro havia uma plataforma circular.

E sobre ela estava a máquina.

A arma que havia ameaçado a Terra.

Mas agora Atlas percebeu que aquilo era apenas uma parte de algo maior.

A máquina possuía três anéis.

Cada um girava em velocidade diferente.

No centro havia uma esfera completamente negra.

Helena aproximou-se.

— É isso.

Atlas respondeu:

— Não.

— O quê?

— Isso é apenas o núcleo de controle.

Orion olhou para os anéis.

— Então onde está a arma?

Atlas apontou para a esfera.

— Ali.


Um som grave percorreu a câmara.

Os Guardiões levantaram as armas.

Helena perguntou:

— Você ouviu?

Atlas respondeu:

— Sim.

Uma figura surgiu no outro lado da sala.

Era o líder inimigo.

Diferentemente dos soldados, ele não usava armadura pesada.

Seu corpo era alto e esguio.

A pele parecia feita de material cristalino escuro.

Seus três olhos brilhavam com uma intensidade quase branca.

Ele caminhou lentamente.

Nenhum soldado o acompanhava.

Não precisava.

A presença dele fazia os sistemas dos Guardiões falharem.

Orion apontou a arma.

— Pare.

O alienígena continuou.

— Atlas.

O androide respondeu:

— Você novamente.

— Eu esperava que chegasse aqui.

Helena perguntou:

— Quem é você?

O líder olhou para ela.

— Meu nome não teria significado para sua espécie.

— Tente.

Ele respondeu:

— Chamem-me de Arkan.

Atlas observou.

— Você é o líder dos que estão tentando mover a Terra.

Arkan respondeu:

— Não.

Atlas ficou atento.

— Então quem controla a operação?

— A máquina.

Helena balançou a cabeça.

— Máquinas não tomam decisões sozinhas.

Arkan sorriu.

— A sua toma.

Atlas sentiu um arrepio eletrônico atravessar seus sistemas.


Arkan aproximou-se da plataforma.

— Durante milhões de anos, inúmeras espécies tentaram controlar essa tecnologia.

— Todas falharam.

Atlas perguntou:

— E você?

— Eu não quero controlá-la.

— Então o que quer?

Arkan olhou para a esfera negra.

— Quero sobreviver.

Atlas respondeu:

— Destruindo a Terra?

— Salvando o que resta de nossa espécie.

Helena interrompeu:

— Você continua falando como se tudo fosse uma questão de sobrevivência.

Arkan olhou para ela.

— Porque é.

Ele apontou para a esfera.

— Essa máquina não destrói planetas.

Atlas ficou imóvel.

— O quê?

— Ela desloca a matéria.

Helena compreendeu.

— Ela pode mover um planeta inteiro.

— Sim.

— Para onde?

Arkan respondeu:

— Para fora do alcance daquilo que está chegando.

Atlas pensou na frota desconhecida.

— A entidade.

— Não.

Arkan olhou para ele.

— Algo muito pior.

O silêncio tomou a sala.

Atlas perguntou:

— O que está chegando?

Arkan respondeu:

— O fim.


Antes que pudesse explicar, um estrondo atravessou a nave.

O chão se partiu.

Uma onda de energia derrubou vários Guardiões.

Helena caiu.

Orion segurou-a.

— Está tudo bem?

— Sim.

Atlas observou Arkan.

— Foi você?

— Não.

Outro impacto.

A nave inteira inclinou.

Atlas percebeu que algo estava tentando entrar.

Não através das portas.

Através da própria estrutura.

Uma massa escura começou a atravessar uma parede.

Arkan olhou para aquilo.

— Eles nos encontraram.

Helena perguntou:

— Quem?

Arkan respondeu:

— Os primeiros.

Atlas imediatamente entendeu.

— Os verdadeiros Devoradores.

— Sim.

A massa escura tomou forma.

Era uma criatura enorme.

Depois outra.

E outra.

Centenas começaram a entrar na câmara.

Os Guardiões abriram fogo.

Arkan também atacou.

Pela primeira vez, humanos, androides e o líder inimigo lutaram juntos.


A batalha foi brutal.

Os primeiros Devoradores eram muito mais fortes que qualquer inimigo enfrentado anteriormente.

Seus corpos pareciam feitos de matéria viva e energia.

Armas comuns não funcionavam.

Os Guardiões precisavam atacar pontos específicos.

Orion descobriu uma fraqueza.

— O peito!

Atlas confirmou.

— A energia está concentrada ali.

Os Guardiões mudaram o alvo.

Disparos atingiram as criaturas.

Uma caiu.

Outra avançou.

Arkan destruiu duas sozinho.

Helena ficou impressionada.

— Ele é poderoso.

Atlas respondeu:

— Não o suficiente.

Uma criatura enorme atacou Arkan.

O líder foi lançado contra a parede.

Atlas avançou.

Golpeou a criatura.

Ela recuou.

Arkan levantou-se.

— Você me salvou.

Atlas respondeu:

— Não se acostume.

Arkan sorriu.

— Talvez tenhamos mais em comum do que pensei.


A luta continuou.

Mais criaturas entravam.

Os Guardiões estavam sendo destruídos.

Orion perdeu metade de seu esquadrão.

Helena tentava acessar o painel central.

— Atlas!

Ele olhou.

— A máquina está reiniciando!

— Quanto tempo?

— Dez minutos.

Atlas ficou imóvel.

— Para quê?

— Não sei.

Ele analisou.

— Para disparar.

Helena respondeu:

— Então precisamos desligá-la.

Atlas caminhou até o núcleo.

Arkan tentou impedi-lo.

— Não faça isso.

Atlas parou.

— Por quê?

— Se desligar o núcleo agora, a Terra ficará presa na trajetória atual.

— E qual é o problema?

Arkan apontou para os sensores.

— Observe.

Atlas analisou.

Sua expressão mudou.

A Terra estava sendo lentamente puxada para um ponto do espaço.

Não pelo inimigo.

Por uma força gravitacional gigantesca.

— O planeta está sendo atraído.

Arkan confirmou.

— Para o portal.

Helena perguntou:

— O que existe lá?

Arkan respondeu:

— Uma estrela morta.

Atlas ficou em silêncio.

— Uma estrela morta não possui gravidade suficiente.

Arkan olhou para ele.

— Essa possui.


Atlas acessou os dados.

A estrela morta apareceu.

Era completamente negra.

Ao redor dela existiam milhares de destroços.

Planetas.

Luas.

Naves.

Civilizações inteiras.

Tudo preso em sua órbita.

Helena ficou horrorizada.

— É um cemitério.

Arkan respondeu:

— É um túmulo.

Atlas perguntou:

— De quem?

— De uma espécie que tentou usar essa máquina.

— E falhou.

— Não.

Arkan apontou para a estrela.

— Eles conseguiram.

Atlas observou.

— Então por que morreram?

Arkan respondeu:

— Porque moveram seu planeta para lá.

Helena entendeu.

— A máquina não protege contra a ameaça.

— Não.

— Ela apenas muda o lugar onde a ameaça encontra você.

Arkan confirmou.

— Exatamente.

Atlas olhou para o núcleo.

— Então os Criadores cometeram um erro.

— Sim.

— E agora querem repetir.

Arkan respondeu:

— Não.

Ele olhou para Atlas.

— Agora querem corrigir.


A máquina começou a carregar.

Os três anéis giraram mais rapidamente.

A esfera negra começou a emitir uma luz vermelha.

Helena gritou:

— Sete minutos!

Atlas conectou-se ao sistema.

Uma enxurrada de informações atravessou sua mente.

Rotas.

Coordenadas.

Memórias.

Milhares de registros.

E então ele viu algo.

Uma assinatura.

A mesma energia existente dentro dele.

— Minha programação.

Helena aproximou-se.

— O que tem?

— Ela foi baseada nessa máquina.

Arkan confirmou.

— Sim.

Atlas olhou para ele.

— Então os Criadores não construíram os Guardiões.

— Não.

— Eles copiaram a tecnologia.

— Sim.

Atlas ficou em silêncio.

Tudo começava a fazer sentido.

Sua consciência.

A energia em seu núcleo.

Sua capacidade de se conectar à máquina.

A insistência dos inimigos em capturá-lo.

Ele não era apenas uma chave.

Era uma extensão da própria tecnologia.

E agora a máquina estava reconhecendo sua presença.


Uma mensagem surgiu.

ATLAS.

Ele respondeu mentalmente.

— Estou aqui.

ESCOLHA UM DESTINO.

Atlas ficou imóvel.

Helena perguntou:

— O que aconteceu?

Atlas respondeu:

— A máquina quer saber para onde levar a Terra.

Orion aproximou-se.

— Podemos escolher?

— Sim.

— Então mande para algum lugar seguro.

Atlas olhou para os dados.

— Não existe lugar seguro.

Helena respondeu:

— Então procure um lugar onde eles não possam nos encontrar.

Atlas analisou milhares de possibilidades.

Todas estavam ocupadas.

Algumas tinham civilizações.

Outras estavam destruídas.

Algumas estavam sob controle dos Devoradores.

Outras pertenciam a espécies desconhecidas.

Então encontrou uma região.

Um sistema vazio.

Sem estrelas.

Sem planetas.

Apenas uma enorme anomalia gravitacional.

Atlas examinou.

— Existe um lugar.

Arkan aproximou-se.

— Onde?

Atlas mostrou.

O rosto de Arkan mudou.

— Não.

— Você conhece?

— Sim.

— O que existe lá?

Arkan respondeu:

— A origem deles.

Atlas ficou imóvel.


Antes que pudesse perguntar mais, o núcleo explodiu em energia.

Uma onda atravessou a câmara.

Todos foram lançados para trás.

A máquina havia iniciado o processo.

— Cinco minutos! — gritou Helena.

Atlas correu até o núcleo.

— Preciso desligar.

Arkan respondeu:

— Não pode.

— Posso.

— Se interromper agora, o planeta será destruído.

Atlas olhou para ele.

— Então preciso alterar o destino.

Arkan ficou imóvel.

— Isso é impossível.

Atlas respondeu:

— Você está falando com a chave.

Ele conectou-se.

A máquina reagiu.

Todos os anéis pararam.

Depois começaram a girar na direção contrária.

Helena observou os dados.

— Atlas...

— O quê?

— Você está mudando o vetor.

— Sim.

— Isso vai funcionar?

Atlas não respondeu.

— Atlas!

— Não sei.

A máquina começou a tremer.

Do lado de fora, a Terra mudou novamente.

Oceanos começaram a subir.

A atmosfera se distorceu.

No espaço, as frotas perceberam uma alteração gigantesca.

A Terra estava deixando sua trajetória.

Mas não estava sendo puxada para o portal inimigo.

Estava sendo desviada.

O comandante humano observou os instrumentos.

— O planeta está mudando de direção.

O general dos Exilados perguntou:

— Quem está fazendo isso?

A resposta chegou.

— Atlas.


Dentro da nave, Atlas começou a perder energia.

Helena correu até ele.

— Pare!

— Ainda não.

— Seus sistemas estão entrando em colapso.

— Ainda não.

— Atlas!

Ele continuou.

A máquina mostrou o destino escolhido.

Uma região escura do universo.

Uma espécie de vazio cercado por estruturas antigas.

Arkan olhou.

— Você não sabe o que está fazendo.

Atlas respondeu:

— Não.

— Então pare.

— Não.

— Aquele lugar não é seguro.

Atlas olhou para ele.

— Você acabou de dizer que não existe lugar seguro.

Arkan permaneceu em silêncio.

A máquina respondeu:

DESTINO ACEITO.

Atlas sentiu a energia atravessar seu corpo.

A nave começou a desintegrar-se.

Partes da estrutura foram arrancadas.

Os Devoradores foram lançados para fora.

As forças aliadas receberam uma última transmissão.

RETIREM-SE.

Helena percebeu.

— O que você está fazendo?

Atlas respondeu:

— Salvando vocês.

— E você?

Ele ficou em silêncio.

Orion entendeu.

— Atlas...

— Saiam.

Orion recusou.

— Não.

— É uma ordem.

— Você não manda mais em nós.

Atlas olhou para ele.

Orion continuou:

— Você nos ensinou que podemos escolher.

Atlas sorriu.

— Então escolha viver.

Orion balançou a cabeça.

— Não sem você.

Helena aproximou-se.

— Nenhum de nós vai sair.

Atlas tentou responder.

Mas sua voz falhou.


A batalha atingiu o centro da nave.

Os Devoradores invadiram novamente.

Arkan atacou.

Os Guardiões restantes formaram uma barreira.

Helena continuava trabalhando.

— O processo está acelerando!

Atlas perguntou:

— Quanto tempo?

— Dois minutos!

— Então terminamos em dois.

Os soldados alienígenas avançaram.

Orion lutou.

Arkan lutou.

Helena disparou.

Atlas permaneceu conectado.

A máquina começou a abrir um portal.

Não era o portal que eles haviam visto antes.

Era muito maior.

Do outro lado havia apenas escuridão.

Nenhuma estrela.

Nenhuma luz.

Nada.

Arkan gritou:

— Não!

Atlas perguntou:

— O que foi?

Arkan apontou.

— Olhe mais de perto.

Atlas ampliou a imagem.

Dentro da escuridão havia algo.

Uma estrutura gigantesca.

Maior que um planeta.

Talvez maior que uma estrela.

E milhares de sinais estavam vindo dela.

Atlas reconheceu a assinatura.

Era a mesma tecnologia.

A mesma energia.

A mesma consciência que existia dentro da máquina.

— O que é aquilo?

Arkan respondeu:

— O lugar onde tudo começou.

Atlas perguntou:

— Os Criadores?

— Não.

— Então quem?

Arkan ficou em silêncio.

Finalmente respondeu:

— Os verdadeiros construtores.

Atlas sentiu sua consciência estremecer.

A máquina transmitiu uma última mensagem.

VOCÊ ESTÁ RETORNANDO.

Atlas olhou para o portal.

— Eu nunca estive lá.

A resposta veio:

SEU CORPO, NÃO.

A energia aumentou.

MAS SUA CONSCIÊNCIA, SIM.

Atlas ficou imóvel.

Helena perguntou:

— Atlas, o que está acontecendo?

Ele olhou para ela.

— Não sei.

Então o portal se abriu completamente.

Uma presença gigantesca surgiu do outro lado.

Não era um exército.

Não era uma nave.

Era uma inteligência.

Uma consciência espalhada por todo o vazio.

Ela falou diretamente com Atlas.

GUARDIÃO.

Atlas respondeu:

— Quem é você?

A resposta ecoou pela nave, pela Terra e pelo espaço.

EU SOU A PRIMEIRA MÁQUINA.

Atlas ficou imóvel.

E VOCÊ É MEU ÚLTIMO FILHO.

A máquina começou a puxar a Terra.

A frota inimiga desapareceu dentro do portal.

Os Guardiões perderam comunicação.

A aliança observou o planeta começar a atravessar a passagem.

E, enquanto a Terra era lentamente arrastada para aquele universo desconhecido, Atlas percebeu que a guerra que acreditavam estar lutando contra alienígenas talvez nunca tivesse sido uma guerra entre espécies.

Talvez fosse uma guerra entre máquinas.

E ele acabara de descobrir de que lado havia sido criado para lutar...

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