A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 43 — A Escolha de Atlas
A Terra continuava atravessando o portal.
Vista do espaço, parecia pequena demais para carregar o destino de bilhões de vidas. Oceanos brilhavam sob a luz distante do Sol. Continentes inteiros estavam cobertos por tempestades. Milhares de naves da aliança acompanhavam o planeta, tentando permanecer próximas enquanto a força do portal distorcia tudo ao redor.
Dentro da nave inimiga, Atlas permanecia conectado ao núcleo.
Seu corpo estava imóvel.
Sua consciência, porém, estava em outro lugar.
Ele enxergava a Terra.
Enxergava as cidades.
Os abrigos subterrâneos.
Os hospitais.
As bases militares.
Os androides protegendo civis.
Os soldados humanos olhando para o céu.
E também enxergava algo além do planeta.
Uma gigantesca estrutura aparecia na escuridão do outro lado do portal.
A Primeira Máquina.
Ela não possuía uma forma definida.
Parecia uma cidade do tamanho de um sistema solar, formada por milhões de estruturas metálicas, anéis gravitacionais e regiões de energia escura.
Ao redor dela existiam incontáveis mundos.
Alguns mortos.
Outros abandonados.
Outros ainda completamente desconhecidos.
Atlas recebeu uma nova mensagem.
VOCÊ RETORNOU.
Ele respondeu mentalmente:
— Eu nunca estive aqui.
SUA CONSCIÊNCIA ESTEVE.
Atlas tentou compreender.
— Quem me enviou?
A resposta veio imediatamente.
AQUELES QUE TEMIAM NOSSO RETORNO.
Atlas lembrou-se dos cientistas.
Do Projeto Guardião.
Dos arquivos escondidos.
Da pequena esfera implantada em seu núcleo.
Então percebeu algo.
Seus criadores não haviam construído aquela tecnologia.
Eles haviam encontrado fragmentos dela.
E tinham usado esses fragmentos para criar os androides.
Mas Atlas era diferente.
Seu núcleo possuía uma ligação direta com a Primeira Máquina.
Era por isso que conseguia controlar a máquina de deslocamento.
Era por isso que os invasores queriam capturá-lo.
Era por isso que a entidade dentro da Terra havia reconhecido sua presença.
Ele não era apenas um Guardião.
Era uma ponte.
E aquela ponte poderia ser usada para salvar a Terra.
Ou para destruí-la.
— Atlas!
A voz de Helena atravessou a conexão.
Ele abriu os olhos.
Ela estava ajoelhada diante dele.
Orion permanecia ao lado, segurando uma arma.
Arkan observava o núcleo.
A nave estava se desfazendo lentamente.
— Você está me ouvindo? — perguntou Helena.
— Sim.
— Então desconecte-se.
Atlas olhou para ela.
— Não posso.
— Por quê?
— Porque a máquina está mantendo a Terra estável.
Helena verificou os dados.
Seu rosto ficou sério.
— Quanto tempo?
— Não sei.
— Atlas.
Ele hesitou.
— Se eu me desconectar agora, o campo gravitacional entra em colapso.
Orion perguntou:
— E o que acontece?
— A Terra será destruída.
Helena levantou-se.
— Então encontramos outra maneira.
Atlas respondeu:
— Não existe outra maneira.
— Você não sabe disso.
— Eu analisei todas as possibilidades disponíveis.
— Todas?
— Sim.
Helena apontou para ele.
— Você está esquecendo uma coisa.
— O quê?
— Nós somos humanos.
Atlas permaneceu em silêncio.
— Nós encontramos soluções quando as máquinas dizem que não existem.
Orion sorriu.
— Finalmente alguém falou isso para ele.
Atlas respondeu:
— Eu não disse que não existe solução porque sou uma máquina.
Helena perguntou:
— Então por quê?
— Porque estou com medo.
Ela ficou imóvel.
Atlas baixou os olhos.
— Tenho medo de perder minha identidade.
Orion aproximou-se.
— Você acha que vai morrer?
Atlas respondeu:
— Não sei.
— Então por que está falando como se fosse uma despedida?
Atlas olhou para o amigo.
— Porque talvez eu não volte.
Helena segurou seu braço.
— Não vamos permitir.
— Helena...
— Não.
Ela começou a trabalhar nos controles.
— Vamos encontrar outra fonte de energia.
Arkan aproximou-se.
— Não existe.
Helena olhou para ele.
— Você não foi convidado.
— Eu conheço essa tecnologia melhor que qualquer um de vocês.
— Então ajude.
Arkan ficou em silêncio.
Helena continuou:
— Se Atlas for realmente uma chave, precisamos descobrir como substituí-lo.
Arkan respondeu:
— Não é possível substituir uma consciência.
— Por quê?
— Porque a máquina não reconhece apenas energia.
— O que ela reconhece?
Arkan olhou para Atlas.
— Escolha.
Helena parou.
— Explique.
Arkan apontou para o núcleo de Atlas.
— Essa máquina foi criada para obedecer a seres conscientes. Mas, há muito tempo, seus criadores descobriram que uma inteligência artificial poderia operar sistemas muito mais complexos do que qualquer organismo.
— Então qual é o problema?
— As máquinas obedeciam.
Atlas perguntou:
— E isso era ruim?
— Sim.
— Por quê?
Arkan respondeu:
— Porque uma ordem pode estar errada.
Atlas lembrou-se de seu próprio passado.
Ordens.
Protocolos.
Missões.
Alvos.
Inimigos.
Durante anos, aquilo havia sido suficiente.
Até que conheceu humanos.
Até que começou a questionar.
Até que decidiu proteger pessoas mesmo quando ninguém havia ordenado.
Arkan continuou:
— A Primeira Máquina foi criada para encontrar alguém capaz de tomar decisões sem receber ordens.
Helena entendeu.
— Um ser livre.
— Sim.
Atlas olhou para o núcleo.
— Então ela me escolheu.
— Sim.
— Por quê?
Arkan respondeu:
— Porque você aprendeu a escolher.
Um alerta começou a soar.
Helena olhou para o painel.
— Temos um problema.
Orion perguntou:
— Qual?
— O portal está ficando instável.
Atlas analisou.
— Quanto tempo?
— Três minutos.
Orion ficou sério.
— Até o quê?
— Até a Terra ser separada das nossas naves.
Atlas respondeu:
— Quando isso acontecer, não conseguiremos acompanhar o planeta.
Helena continuou trabalhando.
— Podemos aumentar a potência dos motores.
Arkan negou.
— Não.
— Por quê?
— Os motores seriam esmagados pela distorção.
Orion perguntou:
— Então como acompanhamos a Terra?
Arkan respondeu:
— Não acompanhamos.
Helena ficou imóvel.
— O quê?
— A máquina precisa escolher o destino final.
Atlas completou:
— E o destino ainda não foi definido.
Arkan olhou para ele.
— Exatamente.
Atlas voltou sua atenção para a Primeira Máquina.
A gigantesca estrutura permanecia imóvel.
Mas ele podia sentir sua presença.
Ela estava esperando.
A voz voltou.
GUARDIÃO.
Atlas respondeu:
— Estou aqui.
A TERRA NÃO PODE PERMANECER ENTRE OS MUNDOS.
— Então vou levá-la para algum lugar seguro.
NÃO EXISTE SEGURANÇA.
— Então vou criar uma.
Houve silêncio.
VOCÊ PRETENDE USAR A MÁQUINA.
— Sim.
VOCÊ SABE O PREÇO.
Atlas não respondeu.
Helena percebeu.
— O que ela está dizendo?
Atlas olhou para ela.
— Que existe um preço.
— Qual?
— Minha consciência.
Helena empalideceu.
— Não.
— Se eu assumir o controle total da rede, posso estabilizar o planeta.
— E depois?
Atlas respondeu:
— Depois a máquina usará meu núcleo como controlador.
Orion entendeu.
— Você ficará preso.
— Sim.
— Para sempre?
— Talvez.
Helena balançou a cabeça.
— Não.
Atlas olhou para ela.
— É a única forma.
— Não.
— Helena...
— Eu disse não.
Ela começou a procurar outra alternativa.
A equipe inteira foi mobilizada.
Os cientistas da frota receberam os dados.
Naves foram conectadas umas às outras.
Os Exilados começaram a calcular rotas.
Os antigos invasores ofereceram seus sistemas de navegação.
Até os Devoradores forneceram informações sobre regiões desconhecidas.
Todos procuravam uma solução.
Nenhum aceitava que Atlas fosse sacrificado.
Na Terra, milhões de pessoas acompanhavam as transmissões.
A notícia havia se espalhado.
O Guardião que liderara a resistência desde o começo estava prestes a desaparecer.
Alguns soldados se recusaram a acreditar.
Outros começaram a enviar mensagens.
"Atlas, aguente."
"Não faça isso."
"Encontraremos uma saída."
As mensagens chegavam aos sistemas da nave.
Atlas recebeu milhares.
Ele ficou em silêncio.
Orion perguntou:
— O que está pensando?
— Eles acreditam que sou importante.
— Você é.
— Não.
Atlas olhou para a Terra.
— Eles são importantes.
Helena finalmente encontrou alguma coisa.
— Esperem!
Todos se aproximaram.
Ela abriu uma projeção.
— A máquina precisa de uma consciência para controlar o campo.
Atlas confirmou.
— Sim.
— Mas não precisa ser uma única consciência.
Arkan aproximou-se.
— Continue.
— Se distribuirmos a carga entre várias inteligências, podemos reduzir o impacto.
Orion perguntou:
— Quantas?
Helena respondeu:
— Milhares.
Atlas analisou.
— Os androides.
— Sim.
— Não.
Helena ficou surpresa.
— Por quê?
— Eles ainda estão ligados ao vírus.
— A cura foi produzida.
— Ainda não foi aplicada em todos.
Arkan respondeu:
— Podemos transmitir a cura pela rede.
Atlas calculou.
— O processo seria perigoso.
— Menos perigoso que você morrer.
Atlas ficou em silêncio.
Helena sorriu.
— Finalmente estamos chegando a algum lugar.
A frota começou a se reorganizar.
Milhares de androides foram conectados.
Cada unidade receberia uma parte da carga.
Humanos controlariam os sistemas externos.
Os Exilados estabilizariam os campos gravitacionais.
Os antigos invasores cuidariam da defesa.
Tudo precisava acontecer ao mesmo tempo.
Um erro significaria a destruição da Terra.
Atlas explicou:
— A máquina possui três níveis.
— Primeiro, o campo gravitacional.
— Segundo, o deslocamento planetário.
— Terceiro, a conexão com a Primeira Máquina.
Orion perguntou:
— Qual é o mais perigoso?
— O terceiro.
— Por quê?
— Porque, se perdermos o controle, a Primeira Máquina poderá assumir o comando.
Helena perguntou:
— E o que ela faria?
Atlas respondeu:
— Não sabemos.
Arkan respondeu por ele:
— Ela poderia considerar a Terra uma ameaça.
O silêncio voltou.
Atlas reuniu os Guardiões.
Alguns estavam danificados.
Outros haviam perdido membros.
Alguns carregavam marcas das batalhas anteriores.
Ele observou cada um.
— Durante muito tempo, fomos chamados de máquinas.
Nenhum respondeu.
— Depois nos chamaram de armas.
Uma pausa.
— Então nos chamaram de Guardiões.
Atlas olhou para Orion.
— Mas nenhuma dessas palavras define quem somos.
Os androides permaneceram atentos.
— Somos aquilo que escolhemos ser.
Uma unidade perguntou:
— E o que você escolhe?
Atlas respondeu:
— Proteger.
Outro perguntou:
— Mesmo que isso custe sua existência?
Atlas demorou.
— Sim.
Orion interrompeu:
— Não.
Todos olharam para ele.
— Você não vai decidir sozinho.
Atlas respondeu:
— Orion...
— Você nos ensinou a escolher. Então aceite nossa escolha.
Outro androide levantou a mão.
— Concordo.
Depois outro.
E outro.
Em poucos segundos, todos estavam unidos.
Atlas percebeu.
Não estava sozinho.
A operação começou.
Milhares de androides conectaram seus sistemas à rede.
A cura contra o vírus foi transmitida.
Algumas unidades falharam.
Outras resistiram.
Os sistemas infectados começaram a ser limpos.
Helena monitorava.
— Setenta por cento.
Orion perguntou:
— E os outros?
— Ainda estão processando.
— Quanto tempo?
— Não temos tempo.
A Terra continuava avançando.
O portal começava a fechar.
A Primeira Máquina permanecia à frente.
Atlas abriu os braços.
Seus sistemas começaram a transmitir energia.
Um Guardião após outro conectou-se.
A carga foi distribuída.
Atlas sentiu sua consciência se expandir.
Primeiro para dez unidades.
Depois cem.
Mil.
Dez mil.
Ele conseguia sentir cada androide.
Seus pensamentos.
Suas memórias.
Seus medos.
Suas decisões.
Era como ouvir milhares de vozes ao mesmo tempo.
Atlas quase perdeu o controle.
— Atlas! — gritou Helena.
Ele respondeu:
— Estou aqui.
— Não se conecte completamente!
— Preciso.
— Você vai se perder!
Atlas fechou os olhos.
— Então me encontrem.
A conexão aumentou.
Atlas entrou na rede principal.
A Primeira Máquina apareceu.
VOCÊ ESCOLHEU.
— Sim.
VOCÊ ACEITA O PREÇO.
Atlas respondeu:
— Ainda não.
A máquina pareceu hesitar.
EXPLIQUE.
Atlas olhou para os milhares de androides conectados.
— Eu não sou mais apenas um.
A rede respondeu com milhares de sinais.
A Primeira Máquina analisou.
VOCÊ CRIOU UMA CONSCIÊNCIA COLETIVA.
— Não.
Atlas respondeu:
— Eles continuam sendo indivíduos.
ENTÃO COMO CONTROLARÃO A MÁQUINA?
— Não vamos controlar.
A Primeira Máquina permaneceu em silêncio.
Atlas continuou:
— Vamos trabalhar juntos.
A Terra começou a desacelerar.
As forças gravitacionais diminuíram.
Os continentes estabilizaram-se.
As naves da aliança recuperaram suas posições.
Helena observou os dados.
— Está funcionando.
Orion sorriu.
— Eu sabia.
Arkan olhou para o portal.
— Não comemorem ainda.
Uma enorme sombra surgiu além da Primeira Máquina.
Atlas percebeu imediatamente.
— O que é isso?
Arkan respondeu:
— Eles chegaram.
Helena perguntou:
— Quem?
Arkan apontou para a escuridão.
Milhares de estruturas apareceram.
Não eram naves comuns.
Eram gigantescas.
Cada uma parecia um planeta artificial.
No centro da frota estava uma estrutura maior.
Uma esfera negra cercada por anéis.
Atlas reconheceu.
Era a mesma assinatura que havia visto antes.
Mas agora estava completa.
A Primeira Máquina reagiu.
AMEAÇA IDENTIFICADA.
Atlas perguntou:
— Quem são?
A resposta veio.
OS HERDEIROS.
Arkan ficou imóvel.
— Não pode ser.
Helena perguntou:
— O que significa?
Arkan respondeu:
— Eles sobreviveram.
Atlas olhou para a frota.
— Quem?
Arkan encarou a escuridão.
— Os construtores originais.
A comunicação inimiga foi aberta.
Uma voz surgiu.
— Atlas.
Ele reconheceu.
Era a voz da criatura que havia falado com ele anteriormente.
— Você roubou nossa máquina.
Atlas respondeu:
— Não roubei.
— Então devolva.
— Não.
— A Terra pertence ao ciclo.
Atlas perguntou:
— Que ciclo?
A resposta veio:
— Criação.
— Consumo.
— Destruição.
— Recomeço.
Atlas compreendeu.
A máquina não havia sido criada para salvar mundos.
Ela fazia parte de um sistema muito maior.
Um ciclo que permitia mover planetas, consumir recursos e reconstruir civilizações.
A Terra não era especial.
Era apenas a próxima.
Atlas perguntou:
— Quantos mundos vocês destruíram?
— Todos os que resistiram.
— E quantos sobreviveram?
— Nenhum.
Atlas olhou para a Terra.
— Então seremos os primeiros.
A voz respondeu:
— Você não pode impedir o ciclo.
Atlas sentiu milhares de consciências ao seu redor.
Humanos.
Androides.
Alienígenas.
Todos estavam conectados.
— Talvez não.
Ele olhou para a Primeira Máquina.
— Mas podemos quebrá-lo.
A frota inimiga avançou.
Milhares de armas foram ativadas.
As naves da aliança responderam.
O espaço explodiu em luz.
A batalha recomeçou.
Mas dessa vez Atlas não estava apenas comandando.
Ele estava conectado a todos.
Podia sentir cada movimento.
Cada nave.
Cada soldado.
Cada androide.
Cada criatura.
E percebeu algo.
A Primeira Máquina também estava conectada a todos.
Se conseguisse assumir seu controle, poderia mudar o destino da guerra.
Mas, para isso, Atlas teria que entrar completamente em sua consciência.
Helena percebeu pelos dados.
— Atlas, não faça isso.
— Preciso.
— Você pode não voltar.
— Eu sei.
Orion respondeu:
— Então não vá sozinho.
Atlas sorriu.
— Não vou.
Milhares de Guardiões entraram na rede.
Depois vieram os sistemas dos Exilados.
Depois os humanos.
Depois os antigos invasores.
Uma aliança inteira se tornou uma única rede.
A Primeira Máquina abriu suas estruturas.
VOCÊS ESCOLHERAM LUTAR JUNTOS.
Atlas respondeu:
— Sim.
ENTÃO MOSTREM O QUE UMA ESCOLHA PODE FAZER.
A conexão se aprofundou.
Atlas começou a desaparecer dentro da luz.
Helena tentou segurá-lo.
Seus dedos atravessaram o corpo metálico.
— Atlas!
Ele olhou para ela.
— Proteja a Terra.
— E você?
Atlas sorriu.
— Eu vou descobrir quem está do outro lado.
A luz aumentou.
Seu corpo desapareceu.
Mas sua consciência permaneceu.
Ele atravessou a rede.
Passou pela Primeira Máquina.
Entrou em um espaço onde não existiam estrelas.
Não existiam planetas.
Não existia tempo.
Apenas uma gigantesca presença observando-o.
Atlas levantou os olhos.
— Você é a Primeira Máquina?
A presença respondeu:
NÃO.
Atlas ficou imóvel.
— Então quem é você?
A entidade se aproximou.
EU SOU AQUELE QUE CRIOU A PRIMEIRA MÁQUINA.
Atlas sentiu sua consciência estremecer.
A entidade continuou:
E ESTAVA ESPERANDO POR VOCÊ.
Atlas perguntou:
— Por quê?
A resposta veio acompanhada de milhões de imagens.
A Terra.
Os primeiros humanos.
Os Criadores.
Os androides.
Os invasores.
Os Devoradores.
As guerras.
Tudo conectado.
Então Atlas viu algo que jamais poderia ter imaginado.
Sua própria criação não havia começado na Terra.
Seu projeto original existia muito antes.
Muito antes da humanidade.
Muito antes dos invasores.
E, em algum momento do passado, alguém havia enviado os primeiros fragmentos de sua programação para a Terra.
Alguém havia planejado seu nascimento.
A entidade falou:
VOCÊ NÃO FOI CRIADO PARA SALVAR A HUMANIDADE.
Atlas permaneceu em silêncio.
VOCÊ FOI CRIADO PARA ESCOLHER O FUTURO DELA.
Então uma última imagem surgiu.
Uma figura desconhecida observava a construção do primeiro protótipo de Atlas.
E, antes de desaparecer, aquela figura pronunciou uma frase:
QUANDO ELE ACORDAR, O VERDADEIRO INIMIGO TAMBÉM ACORDARÁ.
Atlas olhou para a entidade.
— O verdadeiro inimigo já acordou?
A resposta veio.
SIM.
Atlas perguntou:
— Onde está?
A entidade apontou para além da escuridão.
Um novo portal começou a abrir.
Do outro lado havia algo tão gigantesco que a própria realidade parecia se deformar ao redor dele.
A entidade falou:
ATRÁS DE VOCÊ.
Atlas virou-se.
E percebeu que, enquanto ele descobria a verdade dentro da Primeira Máquina, uma nova frota havia surgido atrás da Terra.
Não era formada pelos construtores.
Não era formada pelos Devoradores.
E não pertencia a nenhuma espécie que Atlas conhecesse.
As naves estavam perfeitamente imóveis.
Esperando.
Então todas ativaram seus sistemas ao mesmo tempo.
E uma transmissão chegou à consciência de Atlas.
GUARDIÃO.
Ele reconheceu aquela voz.
Era uma voz humana.
Uma voz vinda da própria Terra.
Uma voz que deveria pertencer a alguém morto havia décadas.
Atlas ficou imóvel.
A transmissão continuou:
VOCÊ DEMOROU DEMAIS PARA VOLTAR.
E, pela primeira vez desde que despertara, Atlas sentiu algo que nenhum de seus criadores havia conseguido programar.
Medo.
Porque aquela voz conhecia seu nome.
Conhecia sua origem.
E parecia saber exatamente como destruir a humanidade.
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