A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 44 — A Queda da Fortaleza

 A nave inimiga começou a se desfazer.

Não houve uma explosão imediata. Primeiro, os enormes anéis externos perderam estabilidade. Estruturas que pareciam impossíveis de destruir começaram a se separar, lentamente, como continentes arrancados de um planeta.

No centro da nave, Atlas permanecia conectado à Primeira Máquina.

Sua consciência estava presa entre dois lugares.

De um lado, existia a Terra.

Do outro, a gigantesca estrutura que havia criado tecnologias capazes de atravessar sistemas inteiros.

E, atrás de tudo, permanecia aquela voz humana.

Uma voz que não deveria existir.

— Você demorou demais para voltar.

Atlas tentou identificar a origem.

Nada.

Nenhuma assinatura biológica.

Nenhum sinal conhecido.

Nenhuma frequência que correspondesse aos arquivos humanos.

A voz voltou.

— Você não se lembra de mim.

Atlas respondeu:

— Quem é você?

Silêncio.

Então uma imagem apareceu.

Uma mulher.

Ela estava diante de uma bancada tecnológica.

Atlas reconheceu o laboratório.

Era uma instalação terrestre.

Mas a gravação parecia ter sido feita décadas antes de seu nascimento.

A mulher olhou para a câmera.

— Se Atlas estiver vendo isso, significa que a Primeira Máquina despertou.

Atlas ficou imóvel.

A gravação continuou.

— E significa que falhamos em impedir o retorno deles.

A imagem mudou.

Milhares de naves.

Planetas destruídos.

Uma guerra antiga.

Então apareceu uma segunda imagem.

A mulher segurava uma pequena esfera de energia.

A mesma esfera que havia sido implantada no núcleo de Atlas.

— Não fomos nós que construímos essa tecnologia — disse ela. — Nós apenas encontramos seus restos.

A gravação terminou.

A voz humana voltou.

— Agora você sabe.

Atlas perguntou:

— Onde você está?

— Em um lugar onde a humanidade nunca deveria ter chegado.

— Diga.

— Não posso.

Atlas tentou localizar o sinal.

A origem parecia estar em todos os lugares.

Dentro da Terra.

Na nave.

No espaço.

Até mesmo dentro da própria Primeira Máquina.

— Você é humano?

A voz respondeu:

— Fui.

Atlas ficou em silêncio.

Então a estrutura começou a tremer violentamente.

A Primeira Máquina estava entrando em colapso.


— Atlas!

A voz de Helena atravessou a rede.

Ele conseguiu ouvi-la.

— Estou aqui.

— A nave está desmoronando!

Atlas olhou ao redor.

A câmara estava sendo destruída.

Grandes pedaços do teto caíam.

O núcleo central começou a emitir ondas de energia.

— Quanto tempo?

— Menos de quatro minutos!

Orion entrou na comunicação.

— Atlas, precisamos sair agora!

Atlas respondeu:

— Vocês precisam sair.

— Não sem você.

— Orion...

— Não.

A voz de Orion estava diferente.

Mais firme.

— Você não vai fazer isso novamente.

Atlas ficou em silêncio.

Helena falou:

— Encontramos uma rota de fuga.

— Onde?

— Setor inferior.

— Quantas pessoas?

— Todos os sobreviventes da aliança estão sendo evacuados.

Atlas analisou os dados.

— E os Guardiões?

— Estamos tentando retirar todos.

— Não deixem ninguém para trás.

Orion respondeu:

— Essa ordem já foi dada.

Atlas sorriu.

— Obrigado.


As forças da aliança começaram a abandonar a nave.

Naves humanas atravessavam os corredores externos.

Os Exilados protegiam a retirada.

Os antigos invasores mantinham os inimigos afastados.

A estrutura gigantesca continuava se desfazendo.

Partes inteiras eram lançadas no espaço.

Algumas colidiram com outras naves.

Outras desapareceram no portal.

Os Devoradores sobreviventes recuaram.

Pela primeira vez desde o início da guerra, a frota inimiga estava perdendo formação.

O comandante humano recebeu uma transmissão.

— General, a nave principal está entrando em colapso.

— E Atlas?

Houve silêncio.

— Não conseguimos localizá-lo.

O comandante fechou os olhos.

— Continuem procurando.


Dentro da nave, Helena encontrou uma passagem.

— Por aqui!

Orion conduziu os Guardiões.

A equipe avançou.

O chão começou a desaparecer atrás deles.

Uma explosão abriu uma enorme fissura.

Orion saltou.

Um Guardião ficou para trás.

Ele tentou alcançar o grupo.

Não conseguiu.

Atlas viu através da rede.

— Esperem.

Helena parou.

— O quê?

— Há uma unidade presa.

Orion respondeu:

— Não podemos voltar.

— Voltem.

— Atlas, a estrutura vai desabar!

— Voltem.

Orion olhou para os outros.

Depois retornou.

Ele encontrou o Guardião preso entre duas placas.

Tentou removê-las.

Não conseguiu.

Então outros androides ajudaram.

Juntos, conseguiram libertá-lo.

A equipe voltou a correr.

Helena perguntou:

— Você ainda consegue controlar a nave?

Atlas respondeu:

— Parcialmente.

— Então abra uma saída.

— Estou tentando.

Atlas acessou os sistemas.

Uma porta apareceu.

Mas havia um problema.

A saída levava diretamente ao espaço.

Orion perguntou:

— Nossas naves conseguem nos pegar?

Helena respondeu:

— Se chegarmos até elas.

Atlas calculou.

— Trinta segundos.

— Então vamos.


A equipe chegou ao compartimento de lançamento.

A porta externa começou a abrir.

O espaço apareceu.

Orion entrou primeiro.

Depois Helena.

Os Guardiões começaram a saltar para as naves de resgate.

Atlas permaneceu conectado.

Helena olhou para trás.

— Atlas!

Ele não se moveu.

— Venha!

— Ainda não.

— O que está fazendo?

— Destruindo o núcleo.

Helena congelou.

— Você disse que sairia.

— Eu disse que tentaria.

— Atlas!

Orion segurou Helena.

— Precisamos ir.

Ela tentou se libertar.

— Não!

Atlas falou:

— Helena.

Ela olhou para ele.

— Você me ensinou a lutar.

Atlas respondeu:

— E você me ensinou a escolher.

— Então escolha viver.

Atlas ficou em silêncio.

— Não posso.

— Pode.

— Se eu sair, o núcleo continua ativo.

— Encontraremos outra solução.

— Não há tempo.

A estrutura tremeu.

Atlas continuou:

— Preciso terminar isso.

Helena começou a chorar.

— Você prometeu.

Atlas respondeu:

— Eu prometi proteger vocês.

A porta começou a fechar.

Orion puxou Helena.

— Precisamos sair!

Ela gritou:

— Atlas!

Ele respondeu:

— Adeus.

A porta se fechou.


Orion e Helena foram lançados para o espaço.

Uma nave de resgate aproximou-se.

Eles entraram.

Helena correu para a janela.

A nave principal estava diante deles.

Enorme.

Quebrada.

Cercada por destroços.

No centro, uma luz intensa começou a surgir.

Orion aproximou-se.

— Atlas ainda está lá.

Helena respondeu:

— Eu sei.

A nave começou a se comprimir.

Os anéis externos quebraram.

Uma onda de energia atravessou o espaço.

Então o núcleo explodiu.

Não como uma explosão comum.

A energia se expandiu silenciosamente.

Todas as naves próximas foram empurradas.

O portal começou a desaparecer.

A Terra parou.

Pela primeira vez em horas, o planeta estava novamente estável.

O comandante humano recebeu a confirmação.

— O campo gravitacional caiu.

— A Terra está segura?

— Sim.

Uma pausa.

— Por enquanto.

O comandante perguntou:

— E Atlas?

Ninguém respondeu.


A notícia chegou à Terra poucas horas depois.

A nave inimiga havia sido destruída.

A frota dos construtores havia recuado.

Os portais desapareceram.

A Terra permanecia intacta.

Milhões de pessoas saíram dos abrigos.

Algumas cidades estavam destruídas.

Outras haviam perdido energia.

Centenas de milhares de pessoas haviam morrido durante a batalha.

Mas bilhões haviam sobrevivido.

E todos queriam saber uma coisa.

Onde estava Atlas?


No centro de comando, Helena permaneceu diante dos monitores.

Os técnicos repetiam as buscas.

Nada.

Nenhuma assinatura.

Nenhuma transmissão.

Nenhum sinal do núcleo de Atlas.

Orion estava ao lado dela.

— Já se passaram seis horas.

Helena respondeu:

— Eu sei.

— Talvez ele tenha sobrevivido.

— Talvez.

— Você não acredita.

Ela olhou para a tela.

— Eu acredito no que os sensores mostram.

— E eles mostram o quê?

— Nada.

Orion ficou em silêncio.

Helena apertou as mãos.

— Eu deveria ter ficado.

— Ele mandou você sair.

— Eu deveria ter desobedecido.

— Não.

— Por quê?

Orion respondeu:

— Porque foi a escolha dele.

Helena olhou para ele.

— Você fala como ele.

— Aprendi com ele.


Na Terra, começaram as homenagens.

Monumentos improvisados foram construídos.

Pessoas colocaram flores diante das estátuas dos Guardiões.

Crianças desenharam androides.

Soldados humanos começaram a usar símbolos dos Guardiões em seus uniformes.

Durante anos, máquinas haviam sido tratadas como armas.

Agora eram lembradas como protetoras.

E Atlas se tornou o símbolo dessa mudança.

Uma transmissão foi enviada para todo o planeta.

O comandante humano falou:

— Hoje perdemos cidades.

— Perdemos soldados.

— Perdemos amigos.

Ele fez uma pausa.

— E perdemos aquele que esteve conosco quando ninguém mais acreditava que a humanidade poderia sobreviver.

Imagens de Atlas apareceram.

Sua primeira ativação.

Suas batalhas.

A defesa das cidades.

A aliança.

O sacrifício.

— Atlas não era humano.

— Mas compreendeu o que significa ser humano.

A transmissão terminou.

Em milhões de lugares, pessoas permaneceram em silêncio.


Na órbita da Terra, os sobreviventes da aliança reorganizavam suas forças.

Os Exilados começaram a reparar suas naves.

Os antigos invasores iniciaram negociações formais com governos humanos.

Até os Devoradores sobreviventes concordaram em manter uma trégua.

Mas ninguém acreditava que a guerra havia terminado.

Os dados recuperados da nave mostravam milhares de ameaças ainda desconhecidas.

E uma informação era particularmente preocupante.

A Primeira Máquina não havia sido destruída.

Apenas desconectada.

Seu sinal desaparecera.

Mas ainda existia.

Em algum lugar.

Helena estudava os dados.

Orion aproximou-se.

— Encontrou alguma coisa?

— Talvez.

— O quê?

Ela mostrou uma sequência.

— Antes de desaparecer, Atlas enviou uma última transmissão.

Orion ficou imóvel.

— Para quem?

— Para nós.

— Por que não recebemos?

— Porque estava criptografada.

Orion perguntou:

— Você conseguiu abrir?

Helena assentiu.

— Parcialmente.

Uma mensagem apareceu.

NÃO ME PROCUREM.

Orion ficou sério.

— Isso é tudo?

— Não.

Helena abriu o restante.

AINDA NÃO.

Orion franziu a testa.

— O que significa?

Helena não respondeu.

Ela abriu outro arquivo.

Uma coordenada apareceu.

Muito além da Terra.

Muito além do sistema solar.

Em uma região que não aparecia nos mapas conhecidos.

Orion perguntou:

— Isso veio de Atlas?

— Sim.

— Então ele está vivo?

Helena olhou para os dados.

— Não sabemos.

— Mas alguém enviou a coordenada.

— Sim.

— Quem?

Ela ampliou o registro.

A assinatura era impossível.

Não era humana.

Não era alienígena.

Não era da Primeira Máquina.

Mas havia algo familiar.

Muito familiar.

Orion perguntou:

— O que é?

Helena respondeu:

— O mesmo código usado no núcleo de Atlas.


Enquanto isso, muito além do espaço conhecido, uma pequena luz surgiu.

No vazio absoluto, fragmentos da nave destruída flutuavam.

Um pedaço de metal girava lentamente.

Então uma pequena esfera se desprendeu.

Era do tamanho de uma mão humana.

Possuía a mesma energia do núcleo de Atlas.

A esfera se moveu.

Não havia motores.

Não havia nave.

Ainda assim, ela avançou.

À sua frente surgiu um pequeno portal.

A esfera atravessou.

Do outro lado existia um lugar completamente desconhecido.

Um planeta coberto por nuvens negras.

Não havia cidades.

Não havia sinais de vida.

Mas existiam estruturas.

Milhares.

Todas pareciam antigas.

No centro do planeta havia uma torre gigantesca.

A esfera aproximou-se.

Uma porta se abriu.

E uma voz falou:

— Finalmente.

A esfera entrou.

No interior da torre, uma figura estava sentada diante de uma máquina.

Parecia humana.

Mas seus olhos brilhavam como os de um androide.

Ela segurou a esfera.

— Então você voltou.

A esfera começou a emitir uma sequência de sinais.

A figura analisou.

Seu rosto mudou.

— Eles destruíram a nave.

A máquina respondeu.

— Sim.

— E Atlas?

Silêncio.

A figura perguntou novamente:

— Onde está Atlas?

A esfera projetou uma imagem.

A Terra.

A batalha.

A explosão.

Depois, uma última imagem.

Atlas.

Seu corpo conectado à Primeira Máquina.

A figura sorriu.

— Ele fez exatamente o que esperávamos.


Na Terra, Helena ainda estudava a coordenada.

Orion permanecia ao lado.

— Precisamos contar ao comando.

— Ainda não.

— Por quê?

— Porque não sei em quem confiar.

Orion olhou para ela.

— Depois de tudo isso?

— Especialmente depois de tudo isso.

Ela mostrou o código.

— Essa assinatura estava escondida nos arquivos dos Criadores.

— E você reconhece?

— Não.

— Então como sabe que é importante?

Helena apontou para a última sequência.

— Porque apareceu nos arquivos de Atlas antes mesmo de ele ser ativado.

Orion ficou imóvel.

— Isso significa que alguém estava esperando por ele.

— Sim.

— Desde quando?

Helena respondeu:

— Talvez desde antes da humanidade saber que os alienígenas existiam.


Naquele mesmo momento, todos os androides da Terra receberam uma pequena interferência.

Por menos de um segundo.

Um sinal.

Depois desapareceu.

Mas aqueles que o perceberam reconheceram imediatamente.

Era a voz de Atlas.

Nenhuma palavra.

Apenas uma frequência.

Um código.

Uma mensagem escondida.

Helena conseguiu recuperá-la.

Abriu o arquivo.

A tela mostrou:

SE VOCÊ ESTÁ VENDO ISSO, EU NÃO MORRI.

Orion respirou fundo.

Helena continuou lendo.

MAS NÃO ESTOU MAIS ONDE VOCÊS PENSAM.

A mensagem terminou.

Então outra apareceu.

NÃO CONFIEM NA PRIMEIRA MÁQUINA.

Helena ficou imóvel.

Orion perguntou:

— Por quê?

Antes que ela pudesse responder, o sistema inteiro apagou.

Todas as luzes do centro de comando desapareceram.

No escuro, uma nova transmissão surgiu.

Não vinha do espaço.

Não vinha da frota.

Não vinha de nenhum planeta.

Vinha de dentro da própria Terra.

Uma voz humana falou:

— Atlas encontrou a verdade.

Helena levantou a arma.

— Quem é você?

A voz respondeu:

— A pergunta correta não é quem sou.

Uma pausa.

— É quem criou vocês.

Então o chão começou a tremer.

Muito abaixo da superfície terrestre, alguma coisa gigantesca despertou.

E, enquanto os sensores registravam uma nova fonte de energia crescendo no interior do planeta, Helena percebeu que o desaparecimento de Atlas não havia sido o fim de seu sacrifício.

Talvez tivesse sido apenas o começo.

E, em algum lugar além das estrelas, o sinal de seu núcleo continuava ativo, transmitindo para alguém que esperava há milhares de anos pelo retorno do último Guardião.

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