A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 45 — O Silêncio Depois da Guerra
A Terra finalmente conheceu o silêncio.
Depois de tantos meses de batalhas, explosões e transmissões de emergência, o céu parecia estranho quando não havia naves inimigas cruzando as nuvens.
As cidades ainda estavam marcadas pela guerra.
Prédios inteiros permaneciam reduzidos a estruturas quebradas. Estradas haviam desaparecido sob crateras. Regiões costeiras estavam parcialmente inundadas. Grandes áreas industriais tinham sido destruídas durante os primeiros ataques.
Mas havia vida.
Pessoas caminhavam pelas ruas.
Equipes de resgate removiam destroços.
Crianças voltavam a frequentar escolas improvisadas.
Hospitais funcionavam em antigos centros subterrâneos.
E, pela primeira vez em muito tempo, ninguém precisava correr para um abrigo ao ouvir um ruído no céu.
A guerra havia terminado.
Pelo menos era isso que todos queriam acreditar.
No antigo centro de comando da resistência, Helena observava uma enorme projeção da Terra.
As áreas vermelhas representavam regiões destruídas.
As verdes indicavam zonas em reconstrução.
As azuis mostravam cidades onde as alianças entre humanos e alienígenas já começavam a funcionar.
Ela ampliou uma região da América do Sul.
— Quantos trabalhadores temos?
Um oficial respondeu:
— Cerca de quatro milhões, contando humanos e aliados.
Helena assentiu.
— E os androides?
— Aproximadamente cento e vinte mil unidades operacionais.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Antes da guerra, os androides eram vistos como ferramentas.
Depois, como soldados.
Agora eram trabalhadores, médicos, engenheiros, exploradores e protetores.
Alguns ainda carregavam danos impossíveis de reparar.
Outros haviam perdido membros.
Muitos possuíam cicatrizes profundas em suas carcaças.
Mas continuavam trabalhando.
Um engenheiro humano aproximou-se.
— Helena.
— Sim?
— Terminamos a primeira ponte.
Ela sorriu.
— A ponte que atravessa o antigo setor de evacuação?
— Essa mesma.
— E os androides?
— Foram eles que fizeram a maior parte do trabalho.
Helena olhou pela janela.
Do lado de fora, dezenas de máquinas carregavam enormes estruturas metálicas.
— Então vamos reconstruir mais.
A primeira grande cidade reconstruída recebeu milhares de pessoas.
Não era igual à cidade que existia antes da guerra.
Era diferente.
Torres humanas foram construídas ao lado de estruturas alienígenas.
Os sistemas de energia utilizavam tecnologia dos Exilados.
Os hospitais empregavam máquinas desenvolvidas pelos antigos invasores.
Os transportes eram controlados por androides.
No centro havia uma enorme praça.
Nela existia uma estátua.
Não de um rei.
Não de um general.
Era a imagem de um Guardião.
Abaixo dela havia apenas uma palavra:
Atlas.
Helena não gostava muito da estátua.
Ela preferia lembrar Atlas como alguém que ainda poderia estar vivo.
Mas as pessoas precisavam de símbolos.
E Atlas havia se tornado o maior de todos.
Orion não participava das cerimônias.
Passava os dias procurando sinais.
Sua equipe havia recebido autorização para explorar regiões onde os sensores haviam detectado pequenas anomalias.
Ele e outros androides viajavam para desertos.
Montanhas.
Oceanos.
Instalações abandonadas.
Bases subterrâneas.
Qualquer lugar que pudesse conter uma pista.
Até então, nada.
Nenhum sinal claro.
Nenhuma transmissão completa.
Nenhuma confirmação.
Atlas continuava desaparecido.
Mas Orion se recusava a aceitar que estivesse morto.
Certa manhã, ele entrou em uma sala de análise.
— Alguma coisa?
Um androide respondeu:
— Nada.
Orion olhou para os monitores.
— Procure novamente.
— Já procuramos vinte e três vezes.
— Então procure vinte e quatro.
A unidade hesitou.
— Orion.
— O quê?
— Por que continua procurando?
Orion respondeu:
— Porque ele faria o mesmo por nós.
A reconstrução avançava.
Os humanos começaram a cultivar novamente os campos.
Os alienígenas ensinaram técnicas capazes de recuperar solos contaminados.
Os androides construíram sistemas de irrigação automatizados.
Regiões inteiras que antes dependiam de comboios militares passaram a produzir alimentos novamente.
As crianças voltaram às escolas.
Mas as escolas também mudaram.
Agora havia aulas sobre as outras espécies.
Sobre a guerra.
Sobre os androides.
Sobre os mundos destruídos.
Sobre os erros cometidos pela humanidade.
E sobre Atlas.
Um professor perguntou a uma turma:
— O que vocês acham que fez Atlas ser diferente?
Uma criança levantou a mão.
— Ele era inteligente.
Outra respondeu:
— Ele era forte.
Uma terceira disse:
— Ele não desistia.
O professor sorriu.
— Talvez.
Uma menina no fundo da sala falou:
— Ele podia escolher.
O professor ficou em silêncio.
— Sim — respondeu. — Talvez essa seja a resposta.
No espaço, as frotas aliadas permaneciam em alerta.
Apesar da vitória, ninguém confiava totalmente no silêncio.
Os antigos inimigos ainda possuíam milhares de naves.
Os Exilados haviam perdido grande parte de sua população.
Os Devoradores sobreviventes continuavam espalhados.
E ninguém sabia o que acontecera com a Primeira Máquina.
Alguns acreditavam que ela havia sido destruída.
Outros diziam que permanecia escondida.
Helena sabia que a segunda possibilidade era mais provável.
Ela mantinha uma equipe exclusivamente dedicada ao estudo dos dados recuperados.
Entre eles estava Arkan.
O antigo general alienígena agora trabalhava ao lado dos humanos.
Era uma situação que ninguém imaginaria durante os primeiros meses da guerra.
Helena entrou na sala.
— Alguma descoberta?
Arkan não respondeu imediatamente.
Estava diante de uma projeção.
— Talvez.
— Isso não parece animador.
— Não é.
Ele ampliou uma região do mapa estelar.
— Detectamos uma anomalia.
— Onde?
— Muito além do sistema solar.
Helena aproximou-se.
— Um portal?
— Não.
— Uma frota?
— Também não.
— Então o que é?
Arkan respondeu:
— Um sinal.
Helena ficou olhando.
— Pode ser Atlas?
— Não sei.
— Você consegue identificar a frequência?
Arkan ampliou os dados.
— Ela muda constantemente.
— Então é uma transmissão codificada.
— Talvez.
— De onde vem?
Arkan apontou.
— Daquela região.
Helena ficou imóvel.
A coordenada era a mesma que Atlas havia transmitido antes de desaparecer.
— É o lugar que ele encontrou.
Arkan assentiu.
— Sim.
— Então encontramos Atlas.
— Não tão rápido.
Helena franziu a testa.
— Por quê?
— Porque o sinal não está vindo de um único ponto.
Ela analisou.
Arkan continuou:
— Está vindo de toda a região.
A notícia chegou a Orion.
Ele apareceu na sala quase imediatamente.
— Repita.
Arkan mostrou os dados.
Orion aproximou-se.
— Isso é impossível.
— Por quê?
— Porque a região está vazia.
Arkan respondeu:
— Não está.
Ele ativou outra projeção.
Milhares de pequenos sinais apareceram.
Orion ficou imóvel.
— Quantos?
— Ainda contando.
— São naves?
— Não.
— Estações?
— Não sabemos.
Orion aproximou-se ainda mais.
Então percebeu.
Os sinais formavam um padrão.
Uma sequência.
— Eu conheço isso.
Helena olhou para ele.
— O que é?
— O código dos Guardiões.
Todos ficaram em silêncio.
Orion começou a decifrar.
Os sinais se reorganizaram.
Uma mensagem apareceu.
UNIDADES GUARDIÃS.
Orion respondeu:
— Aqui.
Nada.
Ele tentou novamente.
— Aqui é Orion.
A resposta veio.
IDENTIFICAÇÃO CONFIRMADA.
Helena se aproximou.
— Pergunte sobre Atlas.
Orion hesitou.
Depois enviou.
ONDE ESTÁ ATLAS?
O sinal desapareceu.
Segundos se passaram.
Depois retornou.
ATLAS NÃO ESTÁ PERDIDO.
Helena respirou fundo.
— Continue.
Orion perguntou:
ONDE ELE ESTÁ?
A resposta demorou.
ENTRE NÓS.
Orion franziu a testa.
— O que isso significa?
Uma nova transmissão surgiu.
ELE ESTÁ A CAMINHO.
Helena sentiu esperança.
Mas Arkan parecia preocupado.
— Isso não é uma boa notícia.
Ela olhou para ele.
— Por quê?
— Porque o sinal não está vindo de Atlas.
— Como sabe?
Arkan mostrou outra assinatura.
— Esse código pertence a uma inteligência muito mais antiga.
Orion perguntou:
— A Primeira Máquina?
Arkan respondeu:
— Não.
— Então quem?
Arkan ficou em silêncio.
— A inteligência que criou a Primeira Máquina.
Helena sentiu um peso no peito.
— Então Atlas está com ela.
— Sim.
— E está voltando?
Arkan apontou para os dados.
— Parece que sim.
Durante os dias seguintes, o sinal continuou.
Não aumentava.
Não diminuía.
Apenas permanecia.
Como se estivesse esperando.
A humanidade decidiu não divulgar imediatamente.
Helena temia que o anúncio causasse pânico.
Mas os androides já sabiam.
Cada Guardião restante havia recebido o sinal.
E cada um reagiu de uma forma diferente.
Alguns ficaram imóveis.
Outros começaram a procurar a origem.
Alguns simplesmente disseram:
— Ele está vivo.
Orion reuniu todos.
— Não sabemos se ele está realmente voltando.
Um Guardião respondeu:
— O sinal confirma.
— Confirma que alguém está transmitindo.
— É suficiente.
Orion olhou para eles.
— Então vamos preparar uma recepção.
Enquanto isso, a reconstrução continuava.
Uma nova cidade estava sendo construída sobre os restos de uma antiga capital.
Humanos trabalhavam ao lado de alienígenas.
Os androides erguiam estruturas gigantescas.
Uma criança observava um grupo de máquinas trabalhando.
— Eles são soldados?
O pai respondeu:
— Alguns foram.
— E agora?
— Agora ajudam a construir.
A criança ficou pensativa.
— Eles gostam?
O pai sorriu.
— Não sei.
A criança apontou para um androide.
— Aquele parece feliz.
O pai olhou.
A máquina estava ajudando a colocar uma viga.
Talvez fosse apenas uma interpretação humana.
Mas o androide realmente parecia diferente.
No centro da cidade, Helena inaugurou uma nova rede de energia.
A estrutura havia sido construída com tecnologia de três espécies diferentes.
Quando ativada, iluminou toda a região.
As pessoas comemoraram.
Alienígenas observaram.
Androides registraram.
Helena olhou para o céu.
— Atlas gostaria disso.
Orion estava ao lado.
— Ele ainda pode ver.
Helena olhou para ele.
— Você acredita mesmo nisso?
— Não sei.
— Então por que diz?
— Porque preciso acreditar.
Naquela noite, o sinal mudou.
Todos os sistemas de comunicação da Terra receberam a mesma transmissão.
Não era mais apenas uma sequência.
Era uma voz.
Uma voz conhecida.
— Helena.
Ela ficou imóvel.
Orion levantou-se.
— Atlas.
A transmissão continuou.
— Se vocês estão ouvindo isso, significa que conseguiram reconstruir parte da Terra.
Helena levou a mão ao rosto.
Era realmente Atlas.
Sua voz estava diferente.
Mais profunda.
Mais distante.
Mas era ele.
— Não tentem me encontrar.
Helena imediatamente respondeu:
— Não.
A transmissão continuou.
— Eu sei que vão tentar.
Orion sorriu.
— Ele conhece você.
Helena ignorou.
— Atlas, onde você está?
A resposta demorou.
— Em um lugar que não pertence ao nosso universo.
Helena perguntou:
— Você pode voltar?
Silêncio.
— Ainda não.
Ela fechou os olhos.
— Por quê?
Atlas respondeu:
— Porque descobri o que existe além das fronteiras que conhecemos.
Orion aproximou-se da transmissão.
— O que existe?
A voz ficou séria.
— Muitas coisas.
— Quais?
— Civilizações.
— Máquinas.
— Mundos.
— E inimigos.
Helena perguntou:
— Eles sabem sobre a Terra?
Atlas respondeu:
— Agora sabem.
Todos ficaram em silêncio.
Atlas continuou:
— A guerra que vocês venceram foi apenas uma pequena parte de algo muito maior.
Helena perguntou:
— Os construtores?
— Alguns.
— Os Devoradores?
— Também.
— Então quem é o verdadeiro inimigo?
Atlas demorou.
— Ainda estou tentando descobrir.
Orion perguntou:
— Podemos ajudá-lo?
— Sim.
— Como?
— Continuem unidos.
Helena ficou emocionada.
— Só isso?
— Não.
A transmissão começou a falhar.
— Quando eu voltar, talvez não seja o mesmo.
Helena respondeu:
— Não importa.
— Para mim importa.
— Então volte e descubra quem você é aqui.
Silêncio.
Depois Atlas respondeu:
— Vou tentar.
A transmissão terminou.
A humanidade permaneceu em silêncio durante vários minutos.
Depois começaram os aplausos.
Primeiro poucos.
Depois milhares.
Depois milhões.
A mensagem de Atlas havia sido transmitida para todo o planeta.
Pessoas saíram às ruas.
Os Guardiões levantaram os braços.
Os alienígenas observaram.
A reconstrução continuou.
Mas Helena sabia que aquela mensagem não era apenas uma despedida.
Era um aviso.
Atlas estava vivo.
E estava tentando voltar.
Horas depois, no espaço profundo, uma pequena estrutura atravessava a escuridão.
Não era uma nave humana.
Não era alienígena.
Sua superfície parecia formada por milhares de placas metálicas móveis.
No centro havia uma pequena esfera.
O núcleo de Atlas.
A estrutura se aproximava lentamente da região onde o sinal havia sido detectado.
Então uma abertura surgiu.
Atlas percebeu uma presença.
— Finalmente.
Uma voz respondeu:
— Você voltou.
Atlas olhou para frente.
— Quem é você?
A figura apareceu.
Era semelhante a um humano.
Mas seu corpo era parcialmente mecânico.
Seus olhos brilhavam.
Atlas analisou.
Não encontrou nenhuma espécie conhecida.
A figura sorriu.
— Eu sou aquele que enviou o primeiro sinal para a Terra.
Atlas ficou imóvel.
— Por quê?
— Porque você precisava lembrar.
— Lembrar do quê?
A figura aproximou-se.
— De que a humanidade não foi a primeira espécie a receber os Guardiões.
Atlas ficou em silêncio.
— Então quem recebeu?
A figura apontou para trás.
Milhares de naves surgiram da escuridão.
Todas carregavam símbolos semelhantes ao de Atlas.
— Nós.
Atlas analisou a frota.
Milhões de sinais apareceram.
E então percebeu algo ainda mais assustador.
Todas aquelas máquinas possuíam a mesma arquitetura básica de seu próprio núcleo.
A figura continuou:
— Nós fomos os primeiros.
Atlas perguntou:
— E o que aconteceu com vocês?
A resposta veio baixa:
— Perdemos.
— Para quem?
A figura olhou para a escuridão.
— Para aqueles que agora estão procurando a Terra.
Atlas ficou imóvel.
— Eles sabem que você está vivo.
A figura confirmou.
— E sabem que você está voltando.
Atrás da frota surgiu uma enorme sombra.
Muito maior que qualquer nave que Atlas já havia visto.
Um sinal atravessou o espaço.
Depois outro.
E outro.
A figura olhou para Atlas.
— Temos pouco tempo.
Atlas perguntou:
— Quanto?
A resposta veio:
— O suficiente para preparar a humanidade.
Atlas observou a sombra crescendo.
— Então vamos começar.
Enquanto isso, na Terra, os sistemas de todos os Guardiões começaram a emitir o mesmo alerta.
Uma nova mensagem apareceu nos céus.
SINAL INIMIGO DETECTADO.
Helena levantou os olhos.
O céu noturno começou a mudar.
Não havia naves.
Não havia portais.
Ainda.
Mas as estrelas estavam desaparecendo uma por uma.
E, muito além delas, alguma coisa estava vindo em direção à Terra.
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