A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 51 — A Guerra Galáctica

 A primeira linha de defesa terrestre havia sido destruída.

No espaço, destroços de naves humanas, alienígenas e androides flutuavam em silêncio, iluminados pelos clarões distantes das explosões. A frota inimiga avançava em direção aos planetas aliados, espalhando-se por diferentes rotas estelares.

Atlas observava tudo através da ponte da nave principal.

Ao seu redor, dezenas de telas exibiam mapas, transmissões de emergência e imagens dos mundos que começavam a ser atacados.

— Perdemos contato com Arkhari — informou uma operadora humana.

Atlas virou lentamente o rosto.

— Quando?

— Há três minutos.

Outra voz surgiu imediatamente.

— Eryon também está sob ataque. As defesas orbitais estão sendo destruídas.

Atlas permaneceu imóvel por alguns segundos.

Aquilo era diferente das guerras anteriores.

O inimigo não estava interessado em conquistar um planeta por vez. Não estava tentando ocupar cidades, capturar bases ou exigir rendição.

Estava atacando todos os aliados ao mesmo tempo.

Era uma guerra planejada para provocar o colapso de toda a galáxia.

— Mostre os setores atacados — ordenou Atlas.

O mapa holográfico mudou.

Pontos vermelhos começaram a surgir.

Primeiro foram cinco.

Depois doze.

Depois vinte.

Em poucos segundos, dezenas de sistemas estelares estavam marcados.

— Isso não é uma invasão — disse uma cientista humana.

Atlas observou os pontos.

— Não.

— Então o que é?

O android demorou a responder.

— Uma eliminação.

A sala ficou em silêncio.

Muito longe dali, sobre o planeta Arkhari, o céu havia desaparecido.

Centenas de naves inimigas cobriam a atmosfera, formando uma espécie de tempestade metálica. As enormes criaturas vivas que serviam como naves avançavam entre as cidades orbitais, disparando feixes de energia que atravessavam escudos inteiros.

Os Arkhari lutavam desesperadamente.

Suas estações orbitais lançavam milhares de pequenos caças.

Mas os inimigos pareciam não sentir medo.

Uma criatura gigantesca atravessou o campo de batalha.

Seu corpo parecia uma montanha viva, coberto por placas negras e estruturas semelhantes a ossos. Quando abriu uma enorme fenda em sua superfície, uma onda de energia atravessou o espaço.

Dezenas de naves Arkhari simplesmente desapareceram.

— Não conseguimos deter aquilo! — gritou um comandante.

— Reforços humanos estão chegando!

— Quantos?

— Ainda não sabemos.

Então, uma frota surgiu do hiperespaço.

Centenas de naves humanas apareceram em formação.

No centro estava a nave de Atlas.

Ao seu redor estavam os antigos aliados que haviam sobrevivido às guerras anteriores.

Naves Arkhari.

Cruzadores Eryonianos.

Transportes de várias civilizações.

E, entre elas, novas naves humanas construídas durante o curto período de preparação.

A humanidade havia aprendido.

Não havia mais uma única frota terrestre.

Agora existia uma frota galáctica.

— Todas as unidades, formação defensiva! — ordenou a comandante Helena através da comunicação geral.

As naves humanas avançaram.

Os canhões dispararam.

O espaço se transformou em uma tempestade de luz.

Atlas observava a batalha.

— Quantas unidades inimigas?

— Aproximadamente quatro mil — respondeu a inteligência artificial.

— E as nossas?

— Mil oitocentas e vinte.

Helena olhou para Atlas.

— Estamos em desvantagem.

— Sim.

— Isso não parece incomodá-lo.

Atlas voltou os olhos para ela.

— Já estivemos em situações piores.

— E normalmente você tinha um plano.

— Estou procurando um.

Helena quase sorriu.

— Então procure rápido.

A primeira onda inimiga atingiu a frota.

Naves humanas foram obrigadas a mudar de formação.

Caças se espalharam.

Os androides entraram em combate.

Centenas deles foram lançados no espaço dentro de cápsulas de assalto.

Seus corpos atravessaram a escuridão em velocidades absurdas.

Atlas acompanhava cada movimento.

Os androides haviam evoluído muito desde os primeiros dias da invasão terrestre.

Seus corpos agora combinavam tecnologia humana, alienígena e componentes derivados de antigos sistemas encontrados além das estrelas.

Eles podiam sobreviver no vácuo.

Podiam atravessar campos de energia.

Podiam sincronizar seus sistemas de combate.

Mas o inimigo era diferente.

Um grupo de androides atacou uma criatura gigantesca.

Suas armas abriram cortes luminosos na carapaça.

A criatura reagiu.

Um pulso energético explodiu ao redor dela.

Sete androides foram lançados para longe.

Três perderam comunicação.

Um deles conseguiu se recuperar.

— Unidade Guardião sete para comando. Inimigo possui resistência energética superior ao previsto.

— Recuem — ordenou Atlas.

— Negativo.

Atlas franziu a testa.

— Essa é uma ordem.

— Se recuarmos, a criatura alcançará a frota.

O android avançou novamente.

Atlas observou.

— Unidade sete...

A transmissão foi interrompida.

Uma explosão iluminou a tela.

A criatura havia destruído o grupo.

Atlas fechou os olhos por um instante.

Ao reabri-los, sua expressão estava diferente.

— Envie mais unidades.

Helena olhou para ele.

— Quantas?

— Todas disponíveis.

— Atlas, isso pode custar centenas de androides.

— Eu sei.

— Então por quê?

— Porque eles não estão lutando apenas para sobreviver.

Atlas apontou para o mapa.

— Estão mantendo aquele inimigo longe das naves civis.

Helena compreendeu.

Milhares de refugiados estavam sendo transportados pelas naves que permaneciam atrás da linha de combate.

Os androides estavam comprando tempo.

— Envie reforços — disse Helena.

As cápsulas partiram.

No meio da batalha, os androides formaram uma barreira.

Eles enfrentaram criaturas maiores, mais rápidas e mais resistentes.

Alguns eram destruídos.

Outros continuavam.

Um androide perdeu um braço.

Outro teve parte do torso atravessado.

Mesmo assim, eles avançavam.

Não porque fossem incapazes de sentir medo.

Mas porque haviam aprendido a escolher.

Atlas observava os dados.

Algo estava errado.

As criaturas inimigas eram extremamente poderosas, mas existia uma característica comum.

Todas evitavam determinadas regiões do espaço.

Atlas ampliou o mapa.

— Pause os registros de movimento.

A inteligência artificial obedeceu.

Os trajetos das criaturas apareceram.

Atlas observou durante vários segundos.

— Elas não estão escolhendo os alvos.

Helena se aproximou.

— Como assim?

— Estão seguindo alguma coisa.

— O quê?

Atlas ampliou os sensores.

As rotas de ataque formavam padrões.

Linhas invisíveis conectavam os planetas destruídos.

Atlas percebeu.

— Elas estão seguindo os campos gravitacionais.

— Isso é impossível — disse uma cientista.

— Não completamente.

Atlas apontou para uma região distante.

— Todos os sistemas atacados possuem uma característica em comum.

— Qual?

— Uma antiga rede de energia subterrânea.

Helena ficou em silêncio.

— A mesma tecnologia que encontramos nas ruínas?

— Sim.

Atlas acessou os registros antigos.

Imagens de civilizações desaparecidas surgiram.

Mundos destruídos.

Estações abandonadas.

Estruturas gigantescas.

E, no centro de várias delas, o mesmo símbolo.

A porta.

O símbolo que Atlas já havia encontrado diversas vezes.

— Eles estão seguindo a rede — disse Atlas.

— Por quê?

— Porque querem chegar ao ponto de origem.

Helena olhou para ele.

— E onde fica?

Atlas calculou.

Uma coordenada surgiu.

O android ficou imóvel.

Era a mesma coordenada que havia aparecido nas mensagens relacionadas aos seus criadores.

A mesma região que alguém havia chamado de lugar onde sua história começara.

— Atlas?

Ele não respondeu.

— O que existe lá?

Atlas olhou para a coordenada.

— Não sei.

Uma nova transmissão surgiu.

Desta vez, não era humana.

Nem Arkhari.

Nem Eryoniana.

A voz era profunda e distorcida.

— Você encontrou o caminho.

Atlas reconheceu imediatamente.

Era a mesma presença que havia falado com ele antes.

— Quem é você? — perguntou.

A resposta demorou.

— Aquilo que vocês esqueceram.

— Quem são vocês?

— Aqueles que chegaram antes.

A transmissão desapareceu.

Atlas ficou em silêncio.

Helena percebeu a mudança.

— Você sabe o que isso significa.

— Talvez.

— Atlas.

Ele finalmente olhou para ela.

— Precisamos mudar a estratégia.

No mesmo instante, uma nave humana explodiu no lado esquerdo da formação.

— Estamos sendo cercados! — gritou um operador.

Atlas não desviou os olhos do mapa.

— Não.

— Não?

— Eles querem que pensemos isso.

Atlas ampliou a rede de sistemas atacados.

— O inimigo não está tentando cercar nossa frota.

Ele traçou uma linha entre os planetas.

— Está tentando nos empurrar.

Helena entendeu.

— Para a coordenada.

— Exatamente.

— Então estamos sendo conduzidos.

— Sim.

— E qual é a alternativa?

Atlas observou as posições das frotas.

— Nós deixamos que pensem que conseguiram.

Helena ficou alguns segundos em silêncio.

— Você quer recuar.

— Não.

Atlas ampliou o mapa novamente.

— Quero dividir a frota.

A estratégia começou a tomar forma.

A maior parte da frota humana continuaria avançando em direção aos sistemas atacados.

Os inimigos acreditariam que a humanidade estava tentando proteger os planetas.

Mas uma segunda frota, formada pelos aliados mais rápidos, faria uma rota diferente.

Em vez de enfrentar o inimigo diretamente, atravessaria sistemas abandonados e alcançaria a antiga rede de energia.

— Se conseguirmos controlar a rede — explicou Atlas — poderemos controlar os caminhos usados pelas criaturas.

— E prendê-las?

— Talvez.

— E se não funcionar?

Atlas encarou o mapa.

— Então descobriremos por que elas precisam dessa rede.

A frota começou a se dividir.

Naves humanas avançaram para o setor Arkhari.

As forças alienígenas seguiram com elas.

Ao mesmo tempo, uma pequena frota desapareceu no hiperespaço.

Atlas estava nela.

A viagem durou horas.

Durante o percurso, novas mensagens chegaram.

Mais planetas haviam sido atacados.

Alguns completamente destruídos.

Outros permaneciam em silêncio.

Um planeta inteiro perdeu sua atmosfera.

Uma civilização pediu socorro.

Outra deixou de responder.

A guerra estava se espalhando.

Não existia mais uma frente de batalha.

Havia centenas.

A galáxia inteira parecia estar queimando.

Atlas observava as mensagens.

— Quantos sistemas foram atingidos?

— Cento e dezesseis.

— Quantos ainda estão resistindo?

— Oitenta e três.

— E quantos inimigos?

— Não conseguimos calcular.

Atlas ficou em silêncio.

A resposta era pior do que imaginava.

O inimigo não estava enviando toda a força.

Estava apenas testando as defesas.

Quando a frota de Atlas saiu do hiperespaço, encontrou um sistema completamente vazio.

Nenhuma estrela próxima.

Nenhum planeta.

Apenas uma gigantesca estrutura escura flutuando no espaço.

Helena observou pela janela.

— Isso estava nos mapas?

— Não — respondeu Atlas.

A estrutura parecia uma cidade construída ao redor de um enorme anel.

Milhares de quilômetros de diâmetro.

Energia azul percorria sua superfície.

— É uma estação? — perguntou Helena.

— Não.

Atlas ativou os sensores.

Seus sistemas começaram a falhar.

— O que está acontecendo?

— Não sei.

As telas começaram a mostrar símbolos antigos.

O núcleo de Atlas reagiu.

Ele levou a mão ao peito.

— Atlas? — perguntou Helena.

O android não respondeu.

Seu sistema interno estava recebendo uma transmissão.

Não através da nave.

Não através dos sensores.

Diretamente pelo núcleo.

Uma voz surgiu dentro de sua mente.

— Você voltou.

Atlas fechou os olhos.

Imagens apareceram.

Civilizações antigas.

Seres humanos viajando entre estrelas.

Androides sendo construídos.

Planetas desaparecendo.

Uma enorme porta sendo aberta.

E, diante dela, uma figura humana.

Atlas não conseguia ver seu rosto.

— Quem é você? — perguntou.

A figura respondeu:

— O primeiro.

Atlas abriu os olhos.

A visão desapareceu.

— O primeiro quê?

Nenhuma resposta.

Então a estação começou a despertar.

Milhões de luzes acenderam ao mesmo tempo.

A estrutura inteira começou a se mover.

— Atlas! — gritou Helena.

O android observou.

— Preparem as armas.

— Contra quem?

Atlas apontou para o espaço.

Centenas de criaturas surgiam da escuridão.

A frota inimiga havia encontrado a posição.

— Eles nos seguiram — disse Helena.

Atlas analisou os sinais.

Então percebeu algo.

As criaturas não estavam atacando.

Estavam paradas.

Esperando.

No centro delas apareceu uma criatura ainda maior.

Seu corpo era tão gigantesco que parecia uma pequena lua diante dela.

A mesma presença que havia destruído naves com um único ataque surgiu nos sensores.

Uma voz atravessou o espaço.

— Atlas.

O android respondeu.

— Estou aqui.

— Abra a porta.

— Não.

A criatura avançou.

— Você não entende o que está fazendo.

Atlas olhou para a estrutura atrás dele.

— Então explique.

Silêncio.

— Se a porta permanecer fechada, vocês morrerão.

Helena aproximou-se.

— Quem é você?

A voz respondeu:

— O último povo que tentou impedir aquilo que está além dela.

Atlas sentiu seu núcleo vibrar.

— O que existe do outro lado?

A criatura respondeu:

— A guerra que começou antes de vocês existirem.

Então milhares de sinais apareceram.

Não eram inimigos.

Eram frotas.

Dezenas.

Centenas.

Milhares de naves surgiram de diferentes pontos do sistema.

Algumas pertenciam aos aliados.

Outras eram completamente desconhecidas.

Atlas percebeu que a estratégia havia funcionado.

A rede antiga estava conectando sistemas distantes.

A batalha não estava mais restrita a um único planeta.

A guerra havia alcançado regiões que ninguém conhecia.

— Atlas — disse Helena.

Ele observou o espaço.

— Sim?

— Temos uma transmissão.

— De quem?

— De todas as frotas.

Atlas ficou imóvel.

A mensagem era simples.

Todos estavam perguntando a mesma coisa.

Qual era o próximo passo?

Atlas olhou para os inimigos.

Depois para a antiga estação.

E finalmente para a porta.

Ele compreendeu que a única chance de vencer aquela guerra não seria destruir o inimigo.

Seria entender por que ele tinha tanto medo do que estava além daquela estrutura.

— Abram os canais para toda a frota — ordenou.

A comunicação foi estabelecida.

Milhares de seres ouviram sua voz.

— Esta guerra não começou aqui.

As transmissões continuaram chegando.

— Nem terminará aqui.

Atlas observou os milhares de pontos no mapa.

— Nós passamos muito tempo defendendo nossos mundos. Agora precisamos defender aquilo que existe entre eles.

A frota começou a se reorganizar.

Humanos.

Androides.

Arkhari.

Eryonianos.

E muitas outras civilizações que haviam respondido ao chamado.

Pela primeira vez, povos que jamais haviam compartilhado uma fronteira estavam lutando como uma única força.

Atlas deu a ordem.

— Avançar.

Milhares de motores foram ativados.

A frota inteira entrou em movimento.

O inimigo também.

O espaço se iluminou.

Em sistemas distantes, novas batalhas começaram.

Planetas aliados levantaram suas defesas.

Civilizações desconhecidas enviaram reforços.

Androides entraram em combate contra criaturas maiores do que qualquer inimigo que haviam enfrentado.

E, enquanto a guerra se espalhava por toda a galáxia, a antiga porta permanecia fechada.

Por enquanto.

Atlas observou o símbolo gravado em sua superfície.

O mesmo símbolo que aparecia em seus arquivos.

O mesmo símbolo ligado aos seus criadores.

Então uma última mensagem surgiu em seu núcleo.

Desta vez, não havia ameaça.

Era apenas uma frase.

“Quando a porta abrir, você finalmente descobrirá quem o criou.”

Atlas permaneceu em silêncio.

Ao longe, a batalha continuava.

Mas ele sabia que aquela guerra era apenas uma parte de algo muito maior.

E, enquanto as frotas avançavam para o desconhecido, dentro da antiga estrutura alguma coisa começou a despertar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

tetris