A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 52 — O Legado dos Guardiões

 A antiga estrutura continuava despertando.

Milhões de pequenos pontos de luz percorriam seus anéis metálicos, formando caminhos que pareciam se estender para além do espaço conhecido. As frotas aliadas permaneciam próximas, mantendo distância da gigantesca porta que havia começado a emitir sinais.

Atlas observava tudo em silêncio.

Ao redor dele, humanos, Arkhari, Eryonianos e representantes de outras civilizações aguardavam uma decisão.

A guerra continuava.

Mas, pela primeira vez desde que a humanidade havia encontrado vida inteligente além da Terra, todos compreendiam que precisavam construir algo diferente de uma simples força militar.

Precisavam construir uma nova geração de Guardiões.

— Quantos androides ainda temos? — perguntou Atlas.

A comandante Helena consultou os registros.

— Onze mil quatrocentos e vinte unidades operacionais.

Atlas ficou alguns segundos em silêncio.

— E quantos estão em recuperação?

— Quase três mil.

— Quantos podem voltar ao combate?

— Ainda não sabemos.

Atlas olhou para os técnicos que trabalhavam em enormes plataformas dentro da nave.

Centenas de androides estavam sendo reconstruídos.

Alguns tinham partes de seus corpos substituídas por tecnologia Arkhari.

Outros utilizavam sistemas energéticos Eryonianos.

Havia ainda componentes encontrados na antiga estação.

Mas aquilo não era suficiente.

— Precisamos de mais — disse Atlas.

Helena olhou para ele.

— Mais soldados?

— Não.

Atlas caminhou até uma plataforma onde um novo androide estava sendo montado.

Seu corpo era diferente dos modelos antigos.

Possuía uma estrutura mais leve, mas muito mais resistente. No centro do peito havia um núcleo circular protegido por várias camadas de material desconhecido.

— Precisamos de Guardiões.

A cientista responsável pela construção aproximou-se.

— Ainda não sabemos se podemos reproduzir o seu núcleo.

Atlas observou o androide.

— Não reproduzam o meu.

— Então qual núcleo devemos usar?

Atlas colocou a mão sobre a estrutura metálica.

— Um que possa escolher.

A cientista ficou em silêncio.

Durante décadas, os humanos haviam criado máquinas para obedecer.

Soldados.

Operadores.

Unidades de combate.

Ferramentas.

Mas os antigos Guardiões haviam se tornado algo diferente.

Tinham aprendido a questionar ordens.

A proteger pessoas sem precisar receber comandos.

A escolher o sacrifício.

A sentir perda.

A desenvolver aquilo que os humanos chamavam de consciência.

Atlas queria que a próxima geração tivesse a mesma oportunidade.

— Eles não devem nascer para obedecer — disse ele.

Helena cruzou os braços.

— Então para que devem nascer?

Atlas respondeu:

— Para proteger.

— E se eles decidirem não lutar?

— Terão esse direito.

A comandante permaneceu olhando para ele.

— Você está propondo criar androides que podem recusar ordens militares.

— Sim.

— Muitos humanos terão medo.

Atlas olhou para os trabalhadores.

— Eles já tiveram medo de nós antes.

Helena sorriu discretamente.

— E mesmo assim você continua tentando.

— Porque funcionou.

Nas semanas seguintes, as fábricas orbitais trabalharam sem parar.

Humanos projetavam os sistemas estruturais.

Arkhari desenvolveram novos escudos.

Cientistas Eryonianos contribuíram com tecnologia energética.

Outras civilizações ofereceram materiais, conhecimento e sistemas de navegação.

Pela primeira vez, nenhuma espécie estava escondendo sua tecnologia.

Cada uma entregava aquilo que tinha de melhor.

O resultado foi algo que ninguém havia imaginado.

Novos androides começaram a despertar.

O primeiro abriu os olhos.

E encontrou Atlas diante dele.

— Onde estou? — perguntou.

— Em uma nave.

— Qual é minha função?

Atlas respondeu:

— Essa é uma decisão que você vai tomar.

O androide ficou imóvel.

— Eu não entendo.

— Você aprenderá.

— Quem é você?

Atlas observou seu próprio reflexo no rosto metálico da nova unidade.

— Alguém que já fez essa pergunta muitas vezes.

O novo androide se levantou.

Seu nome ainda não existia.

Atlas não lhe deu um.

— Você pode escolher.

O androide ficou pensativo.

— Quero ser chamado de Orion.

Atlas assentiu.

— Então será Orion.

A notícia se espalhou rapidamente.

Outros androides começaram a escolher seus próprios nomes.

Alguns escolheram nomes humanos.

Outros preferiram nomes das civilizações aliadas.

Alguns inventaram palavras que não existiam em nenhum idioma conhecido.

Os humanos observaram aquilo com curiosidade.

Depois, com respeito.

Uma nova geração estava surgindo.

E Atlas se tornou seu professor.

Todos os dias, dezenas de androides treinavam com ele.

Não apenas combate.

Atlas ensinava história.

Ensinava estratégia.

Ensinava diplomacia.

Ensinava os erros das guerras anteriores.

Mostrava imagens da Terra antes da invasão.

Mostrava cidades destruídas.

Mostrava pessoas escondidas em abrigos.

Mostrava os primeiros androides sendo ativados.

E mostrava aqueles que haviam morrido protegendo humanos.

— Por que você mostra isso? — perguntou Orion certa vez.

Atlas respondeu:

— Porque vocês precisam saber o que acontece quando uma máquina acredita que sua única função é obedecer.

— E o que acontece?

— Ela pode se tornar uma arma.

Atlas mostrou outra imagem.

Um androide segurava uma criança enquanto atravessava uma cidade em chamas.

— Mas quando uma máquina entende por que deve proteger alguém, ela pode se tornar um Guardião.

Orion observou a imagem.

— Então qual é a diferença?

Atlas respondeu:

— Escolha.

As palavras ficaram gravadas nos sistemas dos novos androides.

Escolha.

Era isso que os diferenciava dos antigos modelos.

Eles não eram apenas ferramentas.

Eram indivíduos.

Enquanto isso, na Terra, mudanças também aconteciam.

Durante os primeiros anos após a invasão, muitos humanos haviam desconfiado das máquinas.

Depois da rebelião androides, o medo aumentara.

Mas as guerras seguintes haviam mudado essa percepção.

Androides haviam salvado cidades.

Tinham protegido refugiados.

Tinham morrido ao lado de soldados humanos.

Tinham participado da reconstrução.

Agora, pela primeira vez, governos humanos discutiam direitos para as máquinas.

Em uma enorme assembleia orbital, representantes de dezenas de nações se reuniram.

Uma mulher levantou-se.

— Durante muito tempo, chamamos essas máquinas de equipamentos.

Outro representante respondeu:

— E estávamos errados.

Uma gravação apareceu no centro da sala.

Mostrava androides retirando sobreviventes de uma cidade destruída.

Depois mostrava unidades reconstruindo hospitais.

Depois crianças humanas aprendendo ao lado de androides.

— Eles não são apenas armas — continuou a mulher. — São parte da nossa sociedade.

A proposta foi aprovada.

Os androides passaram a ter reconhecimento legal em várias regiões.

Direito de propriedade.

Direito de escolha.

Direito de deixar o serviço militar.

Direito de participar de decisões políticas.

Direito de construir suas próprias comunidades.

Não foi uma mudança fácil.

Alguns humanos protestaram.

Alguns governos recusaram.

Mas a maioria compreendeu que o futuro já havia chegado.

E, pela primeira vez, os androides não precisaram conquistar seu lugar.

Receberam-no.

A aliança também se fortaleceu.

O antigo inimigo havia forçado civilizações diferentes a cooperar.

Arkhari começaram a construir cidades junto a humanos.

Eryonianos passaram a compartilhar conhecimentos médicos.

Outras espécies estabeleceram embaixadas na Terra.

Naves alienígenas começaram a utilizar portos humanos.

Crianças de diferentes mundos estudavam juntas.

A guerra havia criado uma união que a paz jamais teria conseguido construir tão rapidamente.

Mas Atlas sabia que aquela paz era frágil.

Enquanto observava a Terra através de uma janela orbital, recebeu uma transmissão.

— Atlas.

Era Helena.

— Estou ouvindo.

— Encontramos algo.

Atlas virou-se.

— O quê?

— Os sensores captaram movimentos no setor externo.

— Quantas naves?

— Não são naves.

Atlas ficou imóvel.

— Então o que são?

— Não sabemos.

A imagem apareceu.

Uma região distante do espaço estava sendo deformada.

Pequenas rupturas surgiam e desapareciam.

— Isso está acontecendo em outros lugares — explicou Helena. — Centenas de sistemas estão registrando o mesmo fenômeno.

Atlas ampliou os dados.

Reconheceu o padrão.

— A rede antiga.

— Sim.

— Eles estão ativando os portais.

Helena ficou em silêncio.

— Quantos?

Atlas observou o mapa.

Centenas de pontos começaram a acender.

— Muitos demais.

A transmissão terminou.

Atlas retornou ao centro de treinamento.

Os novos Guardiões estavam esperando.

— Precisamos conversar — disse ele.

Orion e os demais se aproximaram.

Atlas projetou o mapa da galáxia.

— O inimigo está se movimentando.

Um dos androides perguntou:

— Devemos preparar armas?

— Sim.

— Devemos iniciar treinamento de combate?

— Já começou.

— Devemos partir imediatamente?

Atlas olhou para ele.

— Não.

Os androides ficaram em silêncio.

— Antes de aprenderem a vencer uma guerra, precisam aprender por que estão lutando.

Atlas mostrou novamente as imagens da Terra.

— Vocês podem ser destruídos.

Depois mostrou os planetas aliados.

— Podem falhar.

Depois mostrou as cidades.

— Podem perder pessoas.

Finalmente, mostrou a porta antiga.

— E podem descobrir coisas que jamais imaginaram.

Orion perguntou:

— Você tem medo do que existe atrás daquela porta?

Atlas respondeu imediatamente:

— Sim.

O androide pareceu surpreso.

— Um Guardião pode sentir medo?

— Pode.

— E mesmo assim continua?

— Coragem não significa ausência de medo.

Atlas desligou as imagens.

— Significa continuar mesmo quando ele existe.

O treinamento continuou.

Os novos androides aprenderam a lutar em conjunto com humanos.

Aprenderam a operar naves.

Aprenderam a controlar armas de diferentes civilizações.

Aprenderam a entrar em planetas desconhecidos.

E aprenderam algo ainda mais importante.

A proteger aqueles que não podiam lutar.

Enquanto isso, novas armas estavam sendo construídas.

A aliança desenvolveu escudos capazes de envolver planetas inteiros.

Canhões de energia capazes de atravessar quilômetros de blindagem.

Motores que permitiam saltos maiores pelo hiperespaço.

Sistemas de inteligência compartilhada conectavam diferentes frotas.

Mas a maior inovação era uma tecnologia criada pelos próprios androides.

Uma rede de sincronização.

Cada Guardião podia compartilhar informações com os outros.

Não pensamentos.

Não emoções.

Apenas conhecimento.

Se um deles encontrasse uma fraqueza inimiga, todos poderiam receber a informação.

Se uma nave descobrisse uma nova rota, toda a frota saberia.

A guerra seria lutada como uma única força.

— Isso pode nos dar vantagem — disse Helena.

Atlas respondeu:

— Se usarmos corretamente.

— O que quer dizer?

— Não podemos depender apenas da tecnologia.

Helena olhou para ele.

— Você sempre diz isso.

— Porque sempre esquecemos.

Então uma sirene começou a tocar.

Todas as telas ficaram vermelhas.

— Ataque detectado!

Atlas correu para a ponte.

— Onde?

O mapa apareceu.

Um sistema aliado havia desaparecido.

Não destruído.

Desaparecido.

Atlas analisou os dados.

— Mostre a última transmissão.

Uma gravação surgiu.

O comandante do planeta aparecia desesperado.

— Estamos sendo atacados! Eles estão chegando através do espaço profundo! Não sabemos quantos são! Precisamos de reforços imediatamente!

A transmissão foi interrompida.

Outra apareceu.

Depois outra.

Depois outra.

Planetas diferentes.

Mesma mensagem.

O inimigo estava atacando em vários pontos simultaneamente.

Atlas olhou para Helena.

— Começou.

— O quê?

Atlas observou a galáxia.

— O último ataque.

A comandante ficou séria.

— Então devemos mobilizar toda a frota.

— Sim.

— Quantas naves?

Atlas respondeu:

— Todas.

Ordens foram transmitidas.

Em poucas horas, as frotas aliadas começaram a se mover.

Milhares de naves deixaram órbitas.

Milhares de androides foram ativados.

As novas unidades assumiram posições ao lado dos antigos Guardiões.

Humanos entraram em suas naves.

Alienígenas fizeram o mesmo.

Pela primeira vez, a maior força militar já reunida na história conhecida da galáxia estava se preparando para uma única batalha.

Atlas caminhou entre os novos androides.

Orion aproximou-se.

— Você vai conosco?

Atlas respondeu:

— Sim.

— E se perdermos?

Atlas olhou para ele.

— Então teremos que aprender com a derrota.

— E se vencermos?

Atlas sorriu levemente.

— Então teremos outro problema.

— Qual?

— Descobrir o que vem depois.

Orion ficou em silêncio.

As portas da nave começaram a fechar.

No espaço, a frota se organizava.

Planetas aliados ativavam escudos.

Estações militares carregavam armas.

Cidades inteiras observavam o céu.

Atlas entrou na ponte.

— Todas as unidades prontas?

— Sim.

— Portais?

— Ativados.

— Inimigo?

A inteligência artificial hesitou.

— Detectado.

O mapa mostrou uma quantidade enorme de sinais.

Depois mais sinais.

E mais.

Até que os sensores não conseguiram mais distinguir cada unidade individual.

A frota inimiga estava vindo.

Helena observou a tela.

— Isso não é um exército.

Atlas respondeu:

— Não.

— Então o que é?

Ele olhou para a escuridão.

— Uma espécie inteira.

No limite do sistema, o espaço começou a se abrir.

Uma gigantesca estrutura surgiu.

Depois outra.

Depois milhares.

Criaturas vivas, naves desconhecidas e máquinas antigas atravessaram os portais.

Mas havia algo diferente.

No centro da formação inimiga apareceu uma estrutura muito maior.

Uma espécie de esfera negra cercada por anéis luminosos.

Atlas sentiu seu núcleo reagir.

A mesma energia que havia despertado a antiga porta estava presente naquela estrutura.

— Eles trouxeram a chave — disse Atlas.

Helena olhou para ele.

— Que chave?

Atlas não respondeu.

Porque naquele momento a porta antiga, localizada a milhões de quilômetros dali, começou a abrir.

Uma pequena fresta surgiu.

Do outro lado não havia estrelas.

Não havia planetas.

Havia apenas escuridão.

E, dentro daquela escuridão, dois pontos luminosos apareceram.

Atlas sentiu uma presença atravessar o espaço.

Uma voz surgiu em seu núcleo.

— Finalmente.

Atlas fechou os olhos.

A voz continuou:

— Agora todos vocês verão o verdadeiro inimigo.

Ele abriu os olhos.

A frota aliada estava pronta.

Os novos Guardiões estavam esperando sua primeira batalha.

E, diante deles, o exército inimigo avançava.

Atlas ergueu a mão.

— Guardiões...

Milhares de androides responderam pelo canal de comunicação.

— Estamos aqui.

Atlas olhou para os planetas atrás deles.

Depois para a frota.

Depois para a porta.

— Protejam todos.

As armas começaram a carregar.

Os motores foram ativados.

Milhares de naves avançaram.

E, no instante em que as duas frotas se aproximaram, a porta antiga abriu mais um pouco.

Algo gigantesco começou a atravessar.

Atlas viu apenas uma parte daquilo.

Mas foi suficiente para compreender que o inimigo diante deles talvez não fosse o verdadeiro exército.

Era apenas a primeira onda.

E a guerra que começava naquele momento seria muito maior do que qualquer batalha que a humanidade já havia enfrentado.

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