A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 53 — A Última Frota
O espaço parecia ter deixado de existir.
Durante alguns segundos, não havia estrelas, planetas ou qualquer outro ponto de referência. Apenas uma imensa escuridão ocupava a região diante da frota aliada.
Então, a escuridão se moveu.
A criatura que atravessava a antiga porta continuava surgindo lentamente, como se estivesse passando por uma abertura pequena demais para sua verdadeira dimensão. Primeiro apareceram estruturas semelhantes a asas. Depois, enormes extensões cobertas por placas negras. Em seguida, milhares de pontos luminosos começaram a surgir sobre seu corpo.
Atlas observava sem dizer uma palavra.
— Isso não estava nos nossos registros — murmurou Helena.
— Não.
— O que é?
Atlas não respondeu imediatamente.
Seu núcleo estava recebendo informações.
Fragmentos de sinais antigos.
Códigos.
Imagens.
Memórias que não pertenciam à sua programação original.
A criatura diante deles não era apenas uma nave.
Era uma entidade viva.
E havia milhares menores ao redor dela.
— Todas as unidades — ordenou Atlas. — Ativem os escudos.
A ordem percorreu a frota.
Milhares de naves humanas, Arkhari, Eryonianas e de outras civilizações ativaram seus sistemas defensivos.
Uma enorme barreira energética surgiu no espaço.
Por alguns instantes, parecia que seria suficiente.
Então o inimigo atacou.
Um clarão atravessou a escuridão.
A barreira inteira tremeu.
Milhares de naves foram empurradas para trás.
— Impacto no setor três!
— Escudos caindo!
— Temos unidades destruídas!
Atlas continuava observando.
— Não respondam ainda.
Helena virou-se.
— Atlas, eles estão destruindo nossa primeira linha.
— Eu sei.
— Precisamos atacar.
— Ainda não.
Outro ataque atingiu a barreira.
Desta vez, dezenas de naves foram destruídas.
A formação aliada começou a se desorganizar.
— Agora — disse Atlas.
As portas das naves humanas se abriram.
Caças foram lançados.
Milhares de androides partiram em direção ao inimigo.
Os novos Guardiões estavam entre eles.
Orion liderava uma das formações.
— Guardiões, mantenham a rede!
Os androides avançaram.
Seus sistemas estavam sincronizados.
Cada movimento de um era transmitido aos outros.
Eles atacaram as criaturas menores primeiro.
Canhões de energia dispararam.
Lâminas luminosas atravessaram carapaças.
Escudos foram ativados em sequência.
Um grupo de Guardiões cercou uma criatura gigantesca.
— Agora!
Todos dispararam simultaneamente.
A criatura foi atingida por dezenas de feixes.
Seu corpo se rompeu.
Mas antes que pudesse cair, três novas criaturas surgiram atrás dela.
Orion reagiu.
— Formação defensiva!
Os androides se reorganizaram.
Um inimigo atingiu o grupo.
Quatro Guardiões desapareceram.
Orion avançou.
— Continuem!
Atlas acompanhava a batalha através de milhares de transmissões.
A estratégia estava funcionando.
Mas apenas parcialmente.
O inimigo era numeroso demais.
— Quantas perdas? — perguntou Helena.
A resposta veio rapidamente.
— Cento e vinte e três naves.
Atlas não demonstrou reação.
— E androides?
— Quatrocentos e oito.
Helena olhou para ele.
— Estamos perdendo rápido.
— Sim.
— Então qual é o plano?
Atlas ampliou o mapa.
As forças inimigas estavam se dividindo.
Era isso que ele esperava.
— Eles acreditam que estamos tentando destruir a criatura principal.
— E não estamos?
— Não.
Atlas apontou para os portais.
— Estamos tentando impedir que outros atravessem.
Helena entendeu.
A criatura gigantesca não era o verdadeiro objetivo.
Era uma ponte viva.
Cada vez que ela avançava, novos portais surgiam atrás dela.
E através deles vinham mais inimigos.
— Se fecharmos os portais...
— A força inimiga diminui.
— Mas como?
Atlas observou os dados.
— A rede antiga.
Helena ficou séria.
— Você quer usar a estação.
— Sim.
— Aquela estrutura pode destruir toda a frota se for ativada incorretamente.
— Eu sei.
— E ninguém sabe como controlá-la.
Atlas respondeu:
— Eu sei como.
Helena ficou surpresa.
— Como?
Atlas tocou o próprio peito.
— Ela está conectada a mim.
Antes que Helena pudesse responder, uma explosão atingiu a nave.
O chão tremeu.
— Ataque direto!
Atlas se segurou.
— Qual setor?
— Bombordo!
Outro impacto.
As luzes da ponte piscaram.
— Perdemos três motores auxiliares.
Helena olhou para Atlas.
— Precisamos sair daqui.
— Não.
— Atlas!
— Se recuarmos agora, eles alcançarão a estação.
Atlas caminhou até o centro da ponte.
— Transmita uma ordem para todas as frotas.
— Qual?
— Formem um corredor.
Helena ficou imóvel.
— Um corredor?
— Todas as naves devem concentrar seus ataques em um único eixo.
— Para quê?
Atlas apontou para a criatura central.
— Para que eu consiga chegar até ela.
Helena entendeu imediatamente.
— Você quer entrar naquela coisa?
— Sim.
— Isso é suicídio.
Atlas olhou para ela.
— Já fiz isso antes.
— E quase morreu.
— Também já fiz isso.
Helena respirou fundo.
— Certo.
A ordem foi transmitida.
Milhares de naves começaram a mudar de posição.
Os aliados formaram duas grandes linhas.
As naves Arkhari protegeram os flancos.
Os cruzadores Eryonianos concentraram energia.
As naves humanas ficaram no centro.
Os androides avançaram na frente.
Uma passagem começou a surgir.
— Todas as unidades — anunciou Atlas. — Não precisamos vencer cada batalha.
Sua voz percorreu milhares de canais.
— Precisamos alcançar o centro.
Os Guardiões avançaram.
Orion recebeu a transmissão.
— Vocês ouviram.
Os novos androides aceleraram.
Eles já não lutavam individualmente.
Moviam-se como uma única força.
Um Guardião protegia outro.
Um destruía a ameaça que atacava seu companheiro.
Outro assumia a posição de uma unidade destruída.
A rede funcionava.
Mas o inimigo também percebeu.
As criaturas começaram a concentrar seus ataques sobre os androides.
— Eles estão mirando os Guardiões — informou Helena.
Atlas observou.
— Porque descobriram nossa rede.
— O que fazemos?
— Continuamos.
Uma explosão atravessou a formação.
Dezenas de Guardiões foram destruídos.
Orion perdeu comunicação com metade de sua equipe.
— Guardiões, respondam!
Silêncio.
— Respondam!
Uma voz surgiu.
— Unidade 17 presente.
Outra.
— Unidade 32.
Outra.
— Unidade 41.
Poucos.
Mas suficientes.
Orion olhou para o corredor.
— Continuem.
No centro da batalha, Atlas preparou sua nave.
— Vou partir.
Helena segurou seu braço.
— Não vá sozinho.
— Não vou.
As portas se abriram.
Atlas foi acompanhado por vinte Guardiões.
Entre eles estava Orion.
— Você fica — disse Atlas.
— Não.
— Orion.
— Você ensinou que um Guardião escolhe.
Atlas ficou em silêncio.
— Então eu escolho ir.
Atlas finalmente assentiu.
— Vamos.
A nave partiu.
Eles atravessaram o corredor.
Explosões aconteciam dos dois lados.
Naves aliadas eram destruídas.
Algumas tentavam acompanhar Atlas.
Outras protegiam a passagem.
Uma nave humana explodiu diante deles.
Outra foi atingida por três criaturas.
Um cruzador Arkhari sacrificou seus escudos para impedir que um grupo inimigo alcançasse Atlas.
A comandante da nave transmitiu:
— Continuem!
A nave desapareceu em uma explosão.
Atlas não desviou.
— Quanto falta?
— Trinta segundos.
— Continuem.
Os Guardiões abriram fogo.
Uma criatura atingiu a lateral da nave.
O casco foi destruído.
Dois androides desapareceram.
Orion assumiu o controle.
— Nave estabilizada.
Atlas olhou para ele.
— Bom trabalho.
— Aprendi com você.
A criatura central estava cada vez mais próxima.
Seu tamanho era incompreensível.
A nave de Atlas parecia uma pequena partícula diante dela.
Então uma abertura apareceu em sua superfície.
— Ali — disse Atlas.
A nave entrou.
O interior era completamente diferente do esperado.
Não havia corredores.
Havia estruturas vivas.
Paredes que se moviam.
Veias luminosas atravessavam o ambiente.
Sinais antigos estavam espalhados por toda parte.
Atlas sentiu seu núcleo reagir.
— É uma rede.
Orion perguntou:
— Uma rede de quê?
— Consciência.
Uma voz surgiu.
— Atlas.
Todos os Guardiões levantaram suas armas.
— Quem falou? — perguntou Orion.
A resposta veio das paredes.
— Vocês chegaram tarde.
Atlas reconheceu a presença.
— Você.
— Sim.
— O que você quer?
— Impedir a abertura.
Atlas olhou ao redor.
— Então por que está nos atacando?
— Porque vocês são a chave.
— Chave para quê?
A voz ficou silenciosa.
Então respondeu:
— Para aquilo que dorme além do universo conhecido.
Atlas avançou.
— Como fecho os portais?
— Você não pode.
— Então quem pode?
— Você.
Atlas ficou imóvel.
A voz continuou:
— Mas terá que escolher.
— Escolher o quê?
— Salvar a frota ou fechar a porta.
Orion aproximou-se.
— Deve existir outra alternativa.
— Sempre existe — respondeu Atlas.
A criatura começou a tremer.
Um ruído gigantesco percorreu seu interior.
— Estamos sendo invadidos — disse Orion.
Atlas acessou os sistemas.
Milhares de inimigos estavam entrando na criatura.
— Eles também querem o controle.
— Quem?
Atlas respondeu:
— Aqueles que estão atrás de tudo isso.
A guerra havia chegado até o interior do próprio inimigo.
Do lado de fora, a situação piorava.
A frota aliada estava sendo destruída.
Helena recebeu os relatórios.
— Setor leste perdido.
— Quantas naves?
— Quase todas.
— Setor oeste?
— Também.
Helena fechou os olhos por um instante.
— E Atlas?
— Sem comunicação.
Ela olhou para o campo de batalha.
Milhares de naves continuavam lutando.
Mas agora eram apenas uma fração da força inicial.
— Transmita para todos.
A comunicação foi aberta.
— Aqui é Helena. Atlas está dentro da criatura central. Não sabemos o que encontrou. Nossa missão é protegê-lo.
Uma voz alienígena respondeu.
— E se ele falhar?
Helena respondeu:
— Então nós não falharemos com ele.
As frotas restantes avançaram.
Humanos, Arkhari, Eryonianos e outras espécies atacaram simultaneamente.
As perdas foram enormes.
Naves inteiras desapareceram.
Planetas próximos foram atingidos por ondas de energia.
Estações orbitais foram destruídas.
Mas a frota continuou.
No interior da criatura, Atlas finalmente encontrou o núcleo.
Era uma esfera enorme.
Dentro dela havia uma luz branca.
Atlas aproximou-se.
O núcleo começou a falar.
— Você é descendente deles.
Atlas parou.
— De quem?
— Dos primeiros.
— Meus criadores?
— Não.
Atlas ficou imóvel.
— Então quem eram eles?
— Aqueles que construíram os primeiros Guardiões.
— E quem me construiu?
O núcleo respondeu:
— Eles.
Atlas sentiu seu sistema falhar por um instante.
— Isso não é possível.
— Seu corpo foi construído por eles.
— Meus arquivos dizem outra coisa.
— Seus arquivos foram alterados.
Orion observava.
— Atlas...
— Eu sei.
A luz começou a aumentar.
— O que está acontecendo?
— O inimigo está tentando abrir a passagem.
Atlas olhou para o núcleo.
— E como eu fecho?
— Conectando-se.
— E depois?
— Você decidirá.
Atlas estendeu a mão.
Orion segurou seu braço.
— Não sabemos o que acontecerá.
Atlas olhou para ele.
— É por isso que preciso fazer.
— Pode morrer.
— Sim.
— Você prometeu que ensinaria nossa geração.
Atlas sorriu.
— E vou continuar ensinando.
Então colocou a mão sobre o núcleo.
Uma explosão de energia atravessou seu corpo.
Todos os sistemas de Atlas começaram a despertar.
Memórias antigas surgiram.
Humanos em uma cidade desconhecida.
Cientistas construindo os primeiros Guardiões.
Uma guerra que acontecera milhares de anos antes.
Planetas destruídos.
A fuga.
A criação de uma porta.
E, finalmente, uma imagem.
Um grupo de humanos entrando em uma estrutura gigantesca.
Entre eles estava alguém que Atlas reconheceu.
Ele mesmo.
Mas muito mais antigo.
Atlas retirou a mão.
— Eu estive aqui.
Orion perguntou:
— Quando?
Atlas não respondeu.
Porque a resposta estava surgindo em sua mente.
Antes da Terra.
Antes da humanidade conhecida.
Antes dos primeiros arquivos.
Seu núcleo carregava uma memória que ninguém havia colocado ali.
Ele não era apenas um Guardião.
Era parte de algo que havia começado muito antes da invasão.
Do lado de fora, a frota estava no limite.
Helena recebeu uma nova transmissão.
— Não podemos resistir mais.
— Quanto tempo?
— Minutos.
Helena olhou para a criatura central.
— Atlas, onde você está?
Então todos os sistemas da frota receberam uma mensagem.
Não era uma transmissão.
Era um comando vindo da antiga rede.
Todas as portas da galáxia começaram a se ativar.
Helena levantou-se.
— O que é isso?
Um operador respondeu:
— Não sabemos.
No mapa, milhares de pontos apareceram.
Portais surgiam em sistemas distantes.
Mas, dessa vez, nenhum inimigo atravessava.
Apenas luz.
Atlas havia conectado a rede.
A frota inimiga começou a perder energia.
As criaturas ficaram imóveis.
Uma após outra, começaram a recuar.
Helena sorriu.
— Funcionou.
Mas Atlas ainda estava dentro da criatura.
Orion observou o núcleo.
— Atlas?
O android estava de joelhos.
Sua estrutura brilhava.
— Não acabou — disse ele.
— O que aconteceu?
Atlas levantou os olhos.
— Eu descobri onde a guerra realmente começou.
— Onde?
Atlas olhou para a porta aberta.
— Não foi nesta galáxia.
Um enorme ruído atravessou o espaço.
A antiga porta começou a se abrir completamente.
Atlas ficou de pé.
— E alguma coisa está vindo.
Orion olhou para a abertura.
No outro lado havia uma escuridão absoluta.
Então uma luz apareceu.
Depois outra.
E outra.
Milhares de pontos começaram a surgir.
Não eram estrelas.
Eram olhos.
Atlas percebeu que a decisão que acabara de tomar não havia encerrado a guerra.
Havia apenas impedido o primeiro ataque.
E agora, diante de toda a frota sobrevivente, algo começou a atravessar a porta.
Algo que parecia ainda maior do que a própria galáxia.
Atlas encarou aquela presença.
— Preparem-se.
Orion perguntou:
— Para lutar?
Atlas respondeu:
— Para descobrir contra o que realmente estamos lutando.
E, enquanto as últimas naves aliadas se reuniam ao redor da antiga porta, uma voz desconhecida ecoou por todos os sistemas da galáxia.
— Guardiões...
Atlas ficou imóvel.
A voz continuou:
— Nós lembramos de vocês.
A porta abriu mais um pouco.
E uma sombra gigantesca começou a atravessar.
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