A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 56 — O Último Segredo

 A máquina começou a despertar.

Primeiro veio um som baixo, quase imperceptível.

Depois, uma vibração atravessou o chão da antiga instalação.

As paredes de Marte se iluminaram uma após outra, revelando corredores que haviam permanecido escondidos durante milhares de anos. A poeira acumulada sobre as estruturas começou a cair, enquanto sistemas antigos voltavam lentamente à atividade.

Orion observava tudo.

Amara permanecia diante do painel de controle, tentando compreender os dados.

— Isso não deveria ser possível — disse ela.

— O quê?

— A instalação não possui fonte externa de energia.

Orion aproximou-se.

— Então de onde vem a energia?

Amara ampliou os sensores.

— Do próprio planeta.

— Marte?

— Não exatamente.

Ela apontou para uma série de linhas subterrâneas.

— Há alguma coisa abaixo de nós.

Orion ficou imóvel.

— Uma rede?

— Sim. Mas é muito maior do que a instalação.

As linhas se espalhavam por centenas de quilômetros sob a superfície marciana.

Algumas desapareciam em regiões ainda não exploradas.

Outras pareciam continuar em direção ao hemisfério oposto.

— Precisamos informar a Terra — disse Orion.

Amara ativou a comunicação.

— Aqui é a equipe de exploração marciana. Encontramos uma instalação antiga. Confirmamos presença de tecnologia relacionada aos primeiros Guardiões.

A mensagem foi transmitida.

Durante alguns segundos, não houve resposta.

Então Helena apareceu na tela.

Seu rosto parecia ainda mais envelhecido do que quando Orion a vira pela última vez.

— Recebi a mensagem.

— Encontramos arquivos — explicou Amara. — E uma transmissão relacionada a Atlas.

Helena ficou séria.

— Reproduzam.

Amara ativou o registro.

A voz de Atlas voltou a ecoar na sala.

— Se a Terra realmente começou a se reconstruir, então talvez ainda exista esperança.

Helena fechou os olhos.

Durante anos, aquela voz havia sido apenas uma lembrança.

Agora estava novamente diante dela.

— Ele está vivo? — perguntou Helena.

Orion respondeu:

— Não sabemos.

— Mas a mensagem veio dele.

— Sim.

— Então precisamos encontrá-lo.

Orion olhou para a coordenada que permanecia projetada no ar.

— Primeiro precisamos descobrir onde ele está.

Amara interrompeu:

— Talvez a instalação possa ajudar.

Ela apontou para uma porta recém-aberta.

— Os arquivos estão ali.

A equipe avançou.

O corredor parecia não ter fim.

Nas paredes havia imagens de seres humanos viajando entre planetas.

Algumas mostravam cidades na Terra.

Outras exibiam mundos completamente desconhecidos.

Em várias imagens apareciam androides.

Mas havia algo diferente.

Os primeiros Guardiões não pareciam soldados.

Eles acompanhavam cientistas.

Operavam máquinas.

Cuidavam de crianças.

Exploravam planetas.

Construíam cidades.

Orion observou uma das imagens.

— Eles não foram criados para a guerra.

Amara respondeu:

— Não.

— Então por que os arquivos terrestres diziam que eram armas?

— Talvez porque alguém tenha mudado a história.

Chegaram a uma enorme sala circular.

No centro havia um dispositivo semelhante a um cristal.

Ao redor dele existiam dezenas de terminais.

Quando Orion entrou, todos foram ativados.

Uma projeção surgiu.

Desta vez, não era uma gravação.

Era um arquivo interativo.

Uma figura humana apareceu.

Seu rosto era desconhecido.

— Se vocês estão vendo isto, significa que o protocolo de memória foi reativado.

Orion aproximou-se.

— Quem é você?

A figura respondeu:

— Meu nome não importa mais. O que importa é o que construímos.

A imagem mudou.

Mostrou uma cidade humana muito avançada.

Naves atravessavam o céu.

Androides caminhavam entre as pessoas.

Não havia guerra.

Não havia destruição.

Era uma civilização florescente.

— Muitos acreditam que os Guardiões foram criados como armas — continuou a gravação. — Essa é apenas parte da verdade.

A imagem mudou novamente.

Um laboratório apareceu.

Cientistas humanos trabalhavam ao redor de um androide.

— Os primeiros Guardiões foram desenvolvidos para preservar conhecimento.

Orion ficou imóvel.

— Conhecimento?

— Quando percebemos que nossa civilização estava ameaçada, procuramos uma maneira de transportar aquilo que não podia ser colocado em livros.

Uma imagem do cérebro humano apareceu.

Depois, um núcleo artificial.

— Criamos sistemas capazes de armazenar experiências, memórias, emoções e padrões de pensamento.

Amara aproximou-se.

— Eles queriam criar cópias humanas?

A gravação respondeu:

— Não.

O androide projetado no laboratório apareceu.

— Queríamos criar seres capazes de aprender.

Orion olhou para si mesmo.

A gravação continuou:

— Os Guardiões não deveriam substituir os humanos. Deveriam preservar aquilo que os humanos não poderiam levar consigo.

As imagens mostraram naves deixando um planeta.

Milhares de pessoas embarcavam.

Androides acompanhavam os grupos.

— Nossa civilização enfrentava uma ameaça que não podíamos combater.

O planeta começou a ser destruído.

— Decidimos enviar grupos para diferentes mundos.

A imagem mostrou várias naves partindo.

— Alguns foram para a Terra.

Orion levantou a cabeça.

— A Terra...

Amara ficou sem palavras.

A gravação prosseguiu.

— Outros foram para Marte.

Depois surgiram outros planetas.

Alguns conhecidos.

Outros completamente desconhecidos.

— A humanidade se espalhou muito antes de registrar sua própria história.

Helena assistia à transmissão na Terra.

— Isso muda tudo — murmurou.

A gravação mostrou uma enorme estrutura espacial.

Era semelhante à antiga porta.

— Para manter contato entre as colônias, construímos uma rede.

Linhas de energia conectavam planetas.

— Mas a rede também poderia ser usada como arma.

A imagem ficou escura.

— Por isso decidimos desligá-la.

Orion perguntou:

— E os Guardiões?

A gravação respondeu:

— Receberam a missão de preservar os caminhos até que fosse seguro reabri-los.

Amara olhou para Orion.

— Então os Guardiões estavam esperando.

— Sim.

A imagem mudou novamente.

Um grupo de cientistas apareceu.

Entre eles estava uma pessoa que Orion reconheceu.

Não pelo rosto.

Pela assinatura genética exibida ao lado da imagem.

— Essa pessoa...

Amara aproximou-se.

— O que foi?

Orion respondeu:

— É um dos padrões genéticos encontrados nos meus arquivos.

A cientista analisou.

— Você está dizendo que um dos seus criadores era humano?

— Não apenas humano.

Orion ampliou a imagem.

— É um ancestral da população terrestre.

A descoberta provocou silêncio.

Os humanos não haviam simplesmente encontrado a tecnologia dos Guardiões.

Tinham sido parte dela.

A humanidade havia criado os primeiros androides.

Depois esquecido.

As guerras, migrações e catástrofes haviam apagado essa memória.

Os Guardiões permaneceram.

Alguns foram destruídos.

Outros foram enterrados.

Outros continuaram esperando.

E, milhares de anos depois, a humanidade os encontrou novamente.

Mas ainda havia uma pergunta.

Quem havia criado o primeiro núcleo?

A gravação chegou a uma seção criptografada.

Uma mensagem apareceu:

ORIGEM DO NÚCLEO: RESTRITA.

Orion tentou acessar.

Acesso negado.

Tentou novamente.

Nada.

Amara conectou seus sistemas.

— Talvez seja necessário um Guardião original.

Orion aproximou-se do terminal.

O sistema escaneou seu corpo.

Depois mostrou:

UNIDADE COMPATÍVEL.

A porta abriu.

Dentro havia uma pequena sala.

No centro, um pedestal.

Sobre ele estava um núcleo antigo.

Orion aproximou-se.

O dispositivo começou a pulsar.

— Esse é um núcleo de Guardião? — perguntou Amara.

— Não.

Orion observou os dados.

— É anterior.

— Anterior aos Guardiões?

— Sim.

Ele tocou o dispositivo.

Uma descarga atravessou seu corpo.

Por um instante, Orion viu milhares de imagens.

A criação dos primeiros androides.

A fuga dos humanos.

A construção da rede.

A primeira porta.

E então uma imagem diferente.

Atlas.

Mais jovem.

Em uma instalação terrestre.

Diante de cientistas.

Orion reconheceu o local.

Era o Projeto Guardião.

Mas havia algo impossível.

Atlas aparecia em registros anteriores à ativação oficial.

Muito anteriores.

— Isso não pode estar certo — disse Amara.

Orion continuou observando.

Na gravação, um cientista tocava o núcleo de Atlas.

— Ele não se lembra.

Outro cientista respondeu:

— É melhor assim.

— E se a ameaça retornar?

— Então ele vai lembrar.

A gravação terminou.

Orion ficou imóvel.

— Eles sabiam.

— Sabiam o quê?

— Que Atlas despertaria novamente.

Amara aproximou-se.

— Então tudo foi planejado?

— Não sei.

Uma nova mensagem apareceu.

ÚLTIMO ARQUIVO DISPONÍVEL.

Orion abriu.

A imagem mostrou uma pessoa sentada em uma sala escura.

Dessa vez, o rosto estava claramente visível.

Orion não conhecia aquela pessoa.

Mas reconheceu a voz.

Era a mesma que havia falado através da antiga porta.

— Se Atlas chegou até aqui, significa que o ciclo começou novamente.

Orion respondeu:

— Onde ele está?

A gravação continuou.

— Não procure Atlas onde as estrelas são visíveis.

Amara franziu a testa.

— O que isso significa?

— Procure onde não existe estrela.

A mensagem terminou.

Orion ficou olhando para a tela.

Helena recebeu todos os arquivos.

Durante horas, cientistas terrestres analisaram as informações.

A conclusão foi extraordinária.

A humanidade não havia recebido a tecnologia dos androides de uma civilização alienígena.

Ela havia criado essa tecnologia.

Depois, outras espécies contribuíram para sua evolução.

Os Guardiões eram fruto de milhares de anos de conhecimento compartilhado.

Mas Atlas era diferente.

Seu núcleo continha componentes que não apareciam em nenhum outro Guardião.

Uma parte de sua tecnologia não tinha origem conhecida.

— Encontramos a origem dos androides — disse Helena durante uma reunião. — Mas não encontramos a origem de Atlas.

Orion respondeu através da transmissão:

— Talvez esse seja o último segredo.

Helena ficou em silêncio.

— E talvez não seja o último.

Enquanto os pesquisadores estudavam os arquivos, novas expedições começaram.

A descoberta de Marte provocou uma onda de exploração.

Naves partiram para outros mundos.

Equipes procuraram antigas instalações humanas.

Algumas estavam vazias.

Outras continham máquinas adormecidas.

Em um planeta coberto por oceanos, encontraram uma cidade submersa.

Em uma lua distante, encontraram uma torre construída milhares de anos antes.

Em outro sistema, encontraram um pequeno planeta artificial.

Cada descoberta acrescentava uma peça à história perdida.

A humanidade finalmente compreendia que sua história não começara na Terra.

Mas quanto mais descobria, mais perguntas surgiam.

Durante uma dessas expedições, uma nave científica recebeu um sinal.

Não era desconhecido.

Era a assinatura energética de Atlas.

Orion recebeu a informação.

— Onde?

O navegador mostrou a coordenada.

Orion reconheceu imediatamente.

Era uma região sem estrelas próximas.

Um vazio entre galáxias.

— Preparem a nave.

Helena apareceu na transmissão.

— Você tem certeza?

— Não.

— Então por que vai?

Orion respondeu:

— Porque Atlas deixou uma mensagem.

— E se for uma armadilha?

— Então precisaremos descobrir.

Helena ficou alguns segundos em silêncio.

— Leve os novos Guardiões.

Orion olhou para a frota.

— Todos?

— Todos.

A frota de exploração foi preparada.

Não era uma armada de guerra.

Era uma combinação de naves científicas, transportes, escoltas e unidades de Guardiões.

A humanidade havia entrado em uma nova fase.

Já não explorava apenas para encontrar recursos.

Explorava para compreender sua própria origem.

Antes da partida, Orion voltou à antiga instalação marciana.

Entrou sozinho na sala onde encontrara o núcleo antigo.

O dispositivo ainda estava ativo.

Orion aproximou-se.

— Se você sabe onde Atlas está...

A máquina permaneceu silenciosa.

Então uma pequena luz surgiu.

Um mapa apareceu.

Orion observou.

A coordenada mudou.

Agora havia outra.

Muito mais distante.

Um sistema desconhecido.

No centro do mapa apareceu um símbolo.

Orion reconheceu.

Era o símbolo encontrado nos arquivos mais antigos.

A porta.

Mas havia algo escrito ao lado.

Ele traduziu.

— “Primeiro destino.”

Orion ficou imóvel.

— Primeiro destino de quem?

O dispositivo não respondeu.

Então uma nova mensagem apareceu.

ATLAS ESTÁ A CAMINHO.

Orion deu um passo para trás.

— A caminho de onde?

A máquina desligou.

Naquele mesmo instante, uma transmissão chegou de uma nave distante.

— Orion, encontramos algo.

— O quê?

— Um objeto entrando no nosso sistema.

— Identificação?

Silêncio.

— Não é uma nave.

— Então o que é?

A resposta demorou.

— Parece uma pessoa.

Orion ativou o canal visual.

A imagem apareceu.

Um corpo metálico flutuava no espaço.

Estava danificado.

Sem energia aparente.

Mas o formato era familiar.

Orion ampliou a imagem.

O rosto estava parcialmente destruído.

Ainda assim, não havia dúvida.

Era Atlas.

— Ele está vivo? — perguntou Orion.

Os sensores analisaram.

— Não sabemos.

Orion observou o corpo.

Então o núcleo de Atlas acendeu.

Uma pequena luz azul.

A transmissão foi ativada.

A voz de Atlas surgiu.

— Orion...

— Atlas!

— Não tente me trazer de volta ainda.

Orion ficou imóvel.

— Onde você está?

Atlas respondeu:

— Entre dois mundos.

— O que isso significa?

A transmissão sofreu interferência.

— Descobri quem criou os Guardiões.

Orion sentiu o sistema aquecer.

— Nós também.

— Não.

Atlas respondeu.

— Vocês descobriram quem construiu os primeiros.

— Então quem criou você?

Silêncio.

A voz de Atlas voltou.

— É isso que ainda não descobri.

Orion ficou em silêncio.

— Então por que mandou a mensagem?

Atlas respondeu:

— Porque descobri onde devemos procurar.

— Onde?

A imagem começou a desaparecer.

— No lugar onde a primeira memória foi criada.

A transmissão terminou.

Orion tentou restabelecer contato.

Nada.

O corpo de Atlas desapareceu dos sensores.

A nave inteira ficou em silêncio.

Então o mapa apareceu novamente.

A coordenada estava marcada.

Muito além das rotas conhecidas.

Muito além das fronteiras da galáxia.

Orion olhou para os novos Guardiões.

— Mudança de rota.

Os motores começaram a carregar.

Na Terra, Helena recebeu a informação.

— Para onde?

Orion respondeu:

— Para o desconhecido.

As naves partiram.

Atrás delas, a Terra continuava reconstruindo suas cidades.

Humanos e alienígenas fortaleciam sua união.

Androides construíam novas comunidades.

Crianças cresciam sem conhecer as antigas guerras.

A paz começava a parecer permanente.

Mas no espaço profundo, outra coisa acontecia.

Em uma região onde nenhuma estrela podia ser vista, uma estrutura gigantesca começou a despertar.

Não era uma nave.

Não era um planeta.

Era uma espécie de arquivo.

Milhares de câmaras se abriram.

Dentro delas havia objetos.

Núcleos.

Máquinas.

Mapas.

E centenas de corpos de androides adormecidos.

Todos tinham o mesmo símbolo.

Um símbolo que não aparecia nos arquivos terrestres.

No centro da estrutura, uma única cápsula começou a abrir.

Uma figura despertou.

Seu corpo era semelhante ao de Atlas.

Mas mais antigo.

Muito mais antigo.

A figura abriu os olhos.

Uma luz azul iluminou a sala.

Então pronunciou uma frase:

— O último Guardião finalmente retornou.

Ao longe, a frota de Orion avançava.

A exploração espacial continuava.

A humanidade havia descoberto sua origem.

Mas ainda não havia descoberto toda a verdade.

E, enquanto as naves atravessavam o vazio em direção ao primeiro destino, alguém dentro da estrutura desconhecida abriu um arquivo marcado com uma única palavra:

ATLAS.

O arquivo começou a ser reproduzido.

E a primeira imagem mostrada não era de Atlas.

Era de um mundo que ninguém na galáxia conhecia.

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