A Guerra de Éterion: CAPÍTULO 60 — Além das Estrelas
A mão azul permaneceu estendida através da abertura.
Kael não disparou.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
A equipe de exploração permanecia atrás dele, com as armas apontadas para a porta.
A figura continuava escondida na luz.
— Quem é você? — perguntou Kael.
A resposta veio acompanhada de um ruído profundo.
— Você já fez essa pergunta.
Kael sentiu a cicatriz no peito queimar.
— Eu nunca estive aqui.
A figura deu mais um passo.
O rosto apareceu.
Kael perdeu o ar.
Era um homem.
Parecia ter pouco mais de trinta anos.
Cabelos escuros.
Olhos azuis.
Marcas luminosas percorriam seu rosto.
E havia algo terrivelmente familiar nele.
O homem sorriu.
— Você sempre diz isso.
Kael levantou a arma.
— Não se aproxime.
— Você não entende.
— Então explique.
O homem olhou para os soldados.
— Vocês ainda acreditam que o Nóvium é um minério.
Kael respondeu:
— Não mais.
— Ainda acreditam que Éterion é um planeta.
Kael permaneceu em silêncio.
O homem continuou:
— E ainda acreditam que esta guerra começou entre Solaris e Nox.
— Começou.
— Não.
A palavra ecoou pela cidade subterrânea.
— Vocês apenas continuaram uma guerra que já existia muito antes de nascerem.
A comunicação foi interrompida.
Kael tentou restabelecer o sinal.
Nada.
— Capitão?
A voz de um dos soldados falhou.
Kael virou-se.
— O que foi?
O homem apontou para o teto.
Pequenas partículas azuis começaram a cair.
Pareciam neve.
Mas quando tocaram o chão, transformaram-se em cristais.
A equipe recuou.
O homem de olhos azuis observava tudo calmamente.
— Não tenham medo.
Um soldado disparou.
O tiro nunca chegou até ele.
A bala parou no ar.
Depois se desfez.
Não explodiu.
Não foi desviada.
Simplesmente deixou de existir.
Kael ficou imóvel.
O homem abriu a mão.
Todos os cristais começaram a flutuar.
— É isso que vocês chamam de poder.
Os cristais formaram uma esfera perfeita.
— Nós chamamos de linguagem.
A esfera se desfez.
Os fragmentos voltaram ao chão.
— E vocês ainda estão tentando aprender as primeiras palavras.
Na mesma hora, muito além da galáxia conhecida, algo apareceu.
Primeiro foi um ponto.
Depois dez.
Depois milhares.
Então milhões.
Uma frota inteira saiu de uma região do espaço onde não havia estrelas.
Os sensores das estações mais próximas começaram a falhar.
Não por interferência.
Porque os computadores não conseguiam interpretar aquilo que estavam vendo.
As naves eram enormes.
Algumas tinham quilômetros de comprimento.
Outras pareciam cidades inteiras.
Havia naves em forma de anéis.
Esferas.
Torres.
Estruturas que pareciam criaturas vivas.
Nenhuma usava motores visíveis.
Nenhuma emitia calor.
Nenhuma possuía assinatura energética convencional.
Mas todas tinham uma coisa em comum.
Nóvium.
A energia fluía pelas estruturas como sangue.
Não havia reatores.
Não havia depósitos.
O próprio casco parecia composto pela substância.
E, diferente das civilizações conhecidas, eles não lutavam contra a energia.
Controlavam-na.
Perfeitamente.
Uma nave abriu um pequeno portal.
Outra atravessou.
Depois outra.
Milhares passaram pelo mesmo ponto.
Sem explosões.
Sem instabilidade.
Sem perda de energia.
A frota inteira desapareceu dentro do portal.
Em Éterion, os sensores detectaram a primeira alteração.
Asterion estava no centro de comando quando todos os alarmes começaram.
— Quantos?
O técnico não respondeu.
— Quantos sinais?
— Não sabemos.
— Me dê uma estimativa.
— Não são sinais separados.
Asterion aproximou-se do painel.
— Então o que são?
— Um único sinal.
— De quantas naves?
O técnico olhou para ele.
— Todas.
Asterion ficou imóvel.
— Todas as naves estão emitindo exatamente a mesma assinatura.
— Quantas?
— Mais de quatro milhões.
O centro de comando ficou em silêncio.
Asterion abriu um canal de emergência.
— Lyra.
Ela respondeu imediatamente.
— Estou ouvindo.
— Precisamos ativar todos os sistemas defensivos.
Lyra olhou para o mapa.
— O que aconteceu?
— Uma frota apareceu no espaço profundo.
— Solaris?
— Não.
— Nox?
— Também não.
— Então quem?
Asterion respirou fundo.
— Ainda não sabemos.
Lyra reuniu o Conselho.
A paz recém-conquistada havia durado pouco.
As antigas rivalidades começaram a reaparecer.
Alguns representantes exigiam mobilização imediata.
Outros queriam evitar qualquer ação militar.
Um comandante Solaris levantou-se.
— Se essa frota é hostil, precisamos atacar primeiro.
Kael não estava presente.
Lyra respondeu:
— Não sabemos se é hostil.
— Eles estão vindo para cá.
— Isso não significa que vão atacar.
— E se atacarem?
Lyra olhou para todos.
— Então responderemos.
Um representante Noxiano perguntou:
— E se eles exigirem Éterion?
Lyra ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então teremos que descobrir por quê.
Outro representante respondeu:
— Já sabemos.
Todos olharam para ele.
— Eles querem Nóvium.
Lyra negou.
— Talvez.
— O que mais poderia ser?
Asterion entrou na transmissão.
— Vocês estão pensando pequeno.
A sala silenciou.
— Como assim? — perguntou Lyra.
Asterion mostrou uma imagem.
Era um dos planetas encontrados pela missão de Kael.
Depois mostrou Éterion.
Depois dezenas de outros.
— Todas essas assinaturas são diferentes das nossas.
— Diferentes como?
— Eles não extraem Nóvium.
Asterion ampliou os dados.
— Eles vivem em simbiose com ele.
No espaço profundo, a frota continuava avançando.
Uma nave central recebeu uma transmissão.
Uma figura apareceu.
Era uma mulher.
Cabelos prateados.
Olhos azuis.
Uma linha luminosa atravessava sua testa.
Ela observou os dados.
— Éterion está ativo.
Um oficial perguntou:
— E o Portador Azul?
— Vivo.
— Então a previsão estava correta.
Ela olhou para uma representação holográfica de Orion.
— Ele voltou.
Outro oficial aproximou-se.
— Devemos eliminá-lo?
A mulher negou.
— Não.
— Por quê?
Ela sorriu.
— Porque precisamos que ele abra a porta.
Kael continuava preso na cidade subterrânea.
O homem de olhos azuis caminhou até uma estrutura.
— Venha.
Kael não se moveu.
— Para onde?
— Para o lugar onde tudo começou.
— Você disse que eu já estive aqui.
— Este corpo nunca esteve.
Kael franziu a testa.
— Este corpo?
O homem olhou para ele.
— Agora você começa a lembrar.
Kael sentiu uma dor intensa.
Memórias começaram a surgir.
Uma cidade.
Uma guerra.
Orion.
Não o Orion atual.
Uma versão antiga.
Os dois diante de uma gigantesca porta.
Ao redor deles, milhões de pessoas.
Kael ouviu sua própria voz.
— Precisamos selá-la.
Orion respondeu:
— Não podemos.
— Então o que fazemos?
— Escolhemos alguém.
Kael viu uma criança.
Uma criança com olhos azuis.
Depois a memória mudou.
A criança foi colocada dentro de uma máquina.
Energia entrou em seu corpo.
Kael gritou.
A visão desapareceu.
Ele caiu de joelhos.
O homem de olhos azuis aproximou-se.
— Agora você entende.
Kael respirou com dificuldade.
— Eu fui criado.
— Sim.
— Meu corpo...
— Foi reconstruído.
— E a entidade?
O homem respondeu:
— Não é uma entidade.
Kael levantou os olhos.
— Então o que é?
— Uma consciência.
— De quem?
O homem apontou para o chão.
— Do primeiro mundo.
Éterion começou a tremer.
Lyra sentiu a vibração através da estrutura do Conselho.
— O que está acontecendo?
Asterion respondeu:
— Não sei.
— Verifique o núcleo.
— Já estou verificando.
Os sensores mostraram uma atividade nunca registrada.
Nóvium estava emergindo do solo.
Não em pequenas quantidades.
Em rios.
Cristais gigantes surgiam entre as montanhas.
As águas começaram a brilhar.
As antigas ruínas se abriram.
E os milhões de portadores que permaneciam no céu começaram a descer.
Lyra olhou para cima.
— Eles estão voltando.
Asterion corrigiu:
— Não.
— Então?
— Estão se preparando.
Narek acordou.
Orion estava ao lado dele.
— Você sentiu?
Narek assentiu.
— Eles chegaram.
Orion olhou para o horizonte.
— Quem?
— Os outros.
— Que outros?
Narek segurou a cabeça.
— Os que estavam antes.
— Antes de quê?
— Antes de nós.
Orion ficou em silêncio.
Narek continuou:
— Eles dizem que a guerra começou novamente.
Orion perguntou:
— Eles sabem quem está chegando?
Narek respondeu:
— Sim.
— Quem?
O garoto olhou para o céu.
— Os verdadeiros donos do Nóvium.
A frota finalmente entrou na região da galáxia.
As estações avançadas transmitiram imagens.
As pessoas ficaram em silêncio diante das telas.
Era impossível contar quantas naves existiam.
A frota parecia não ter fim.
E todas estavam avançando em direção a Éterion.
Não houve mensagem.
Nenhuma exigência.
Nenhum ultimato.
Apenas avanço.
Lyra ordenou que todas as forças permanecessem em posição defensiva.
Solaris.
Nox.
As antigas colônias.
Os rebeldes que haviam aceitado o novo governo.
Civilizações alienígenas.
Todos começaram a preparar suas naves.
Pela primeira vez, não estavam lutando entre si.
Estavam diante do mesmo inimigo.
Mas ninguém sabia quem era esse inimigo.
Kael finalmente saiu da cidade subterrânea.
A equipe de exploração estava atrás dele.
O homem de olhos azuis não veio.
Antes de partir, porém, entregou algo a Kael.
Um pequeno fragmento azul.
— Quando ele despertar, entregue isso a Orion.
Kael segurou o objeto.
— O que acontece quando ele despertar?
O homem respondeu:
— Ele vai lembrar de tudo.
— E depois?
— Vai escolher de que lado está.
Kael olhou para ele.
— E se ele escolher o lado errado?
O homem sorriu.
— Então vocês perderão a última guerra.
A Horizonte voltou para o espaço.
Kael tentou contato com Éterion.
O sinal demorou.
Quando finalmente conseguiu comunicação, Lyra apareceu.
— Kael.
— Precisamos conversar.
— Já sei.
— Você sabe?
— A frota está chegando.
Kael ficou em silêncio.
— Como sabe?
— Todos sabem.
Kael olhou para o fragmento.
— Encontrei uma cidade.
— O que havia lá?
— Respostas.
— Que respostas?
Kael hesitou.
— Sobre nós.
Lyra ficou séria.
— Explique.
— Não posso pelo canal.
— Então volte.
Kael olhou para o espaço.
— Estou voltando.
A transmissão caiu.
Orion sentiu a frota.
Não pelos sensores.
Pela energia.
Milhões de presenças.
Cada uma conectada ao Nóvium.
Cada nave.
Cada soldado.
Cada máquina.
Tudo conectado.
Ele percebeu algo que nunca havia sentido.
Não havia ódio.
Não havia medo.
Não havia raiva.
Havia apenas certeza.
Eles não estavam vindo para conquistar Éterion.
Estavam vindo porque acreditavam que Éterion pertencia a eles.
Orion caminhou até uma planície.
Narek veio atrás.
— Você vai lutar?
— Sim.
— Sozinho?
Orion olhou para ele.
— Sim.
— Por quê?
— Porque eles não precisam morrer por algo que ainda não entendem.
Narek segurou o braço dele.
— Mas você pode morrer.
Orion sorriu.
— Já aconteceu antes.
— E voltou.
— Talvez eu não volte desta vez.
Narek ficou em silêncio.
Orion colocou a mão sobre a cabeça do garoto.
— Continue treinando.
— Para quê?
— Para quando eu voltar.
As primeiras naves apareceram.
Uma.
Depois dez.
Depois milhares.
O céu de Éterion ficou coberto por estruturas gigantescas.
As forças do Conselho levantaram-se.
Canhões orbitais foram ativados.
Escudos planetários começaram a funcionar.
Kael ainda estava a caminho.
Lyra estava na plataforma central.
Asterion coordenava os sistemas.
Narek permanecia escondido em uma instalação protegida.
E Orion estava sozinho.
Diante de milhões de naves.
A frota inimiga parou.
Uma nave colossal avançou.
Era maior que qualquer estrutura já vista.
Seu casco parecia feito de cristal vivo.
No centro havia um símbolo.
O mesmo símbolo encontrado em Éterion.
O mesmo símbolo que aparecera nas crianças.
O mesmo símbolo de Orion.
Uma transmissão abriu.
Uma mulher apareceu.
A mesma comandante que havia observado a imagem de Orion no espaço profundo.
— Portador Azul.
Orion respondeu:
— Quem é você?
— Meu nome não importa.
— Então por que veio?
— Para recuperar aquilo que vocês roubaram.
Orion franziu a testa.
— Nós não roubamos nada.
— Roubaram o Nóvium.
— O Nóvium não pertence a ninguém.
A mulher sorriu.
— Foi exatamente isso que seu primeiro eu disse.
Orion ficou imóvel.
— Você conhece meu passado.
— Conheço.
— Então sabe que eu não sou ele.
— Não.
A mulher aproximou-se da câmera.
— Você é pior.
Orion concentrou energia azul.
— Ataquem.
As armas das naves inimigas se iluminaram.
Mas Orion levantou a mão.
Uma barreira azul gigantesca surgiu diante dele.
Milhões de disparos atingiram o escudo.
A explosão iluminou o planeta inteiro.
Lyra observava da plataforma.
— Orion!
Ele permaneceu sozinho.
A barreira começou a rachar.
Uma segunda onda de ataques veio.
Orion abriu os braços.
A energia azul de Éterion respondeu.
Montanhas inteiras começaram a flutuar.
Oceanos se ergueram.
O planeta inteiro parecia despertar.
Asterion gritou pelos comunicadores:
— Ele está conectado ao núcleo!
Lyra respondeu:
— Isso pode matá-lo!
— Eu sei!
Orion continuou.
Então as naves inimigas fizeram algo inesperado.
Desligaram as armas.
Todas.
Ao mesmo tempo.
O silêncio tomou o espaço.
A comandante apareceu novamente.
— Agora você entende?
Orion respirava com dificuldade.
— Entendo o quê?
— Nós não viemos destruir Éterion.
Ela olhou diretamente para ele.
— Viemos acordá-lo.
O solo tremeu.
Uma rachadura atravessou o planeta.
Depois outra.
E outra.
As antigas cidades começaram a emergir.
Torres gigantescas surgiram das profundezas.
O núcleo de Éterion começou a emitir uma luz branca.
Narek gritou de dentro da instalação:
— Orion!
Orion olhou para trás.
— O que foi?
A voz de Narek atravessou o comunicador.
— A entidade está acordando!
Orion ficou imóvel.
A comandante sorriu.
— Finalmente.
Kael viu a luz de longe.
Sua nave estava a poucas horas de Éterion.
— Aumentem a velocidade.
— Capitão, os motores estão no limite.
— Então ultrapassem o limite.
A tripulação obedeceu.
A Horizonte acelerou.
Kael segurou o fragmento azul.
Ele começou a brilhar.
A voz voltou.
A mesma dos sonhos.
— Você voltou.
Kael fechou os olhos.
— Não desta vez.
— Você sempre diz isso.
Kael abriu os olhos.
— Quem é você?
A resposta veio.
— Você.
Éterion começou a mudar.
O planeta inteiro parecia acordar de um sono de milhões de anos.
A superfície abriu-se.
O céu ficou branco.
Os oceanos começaram a subir.
Milhões de estruturas antigas emergiram.
As naves do Conselho recuaram.
Até a frota desconhecida parou.
Orion percebeu algo.
A energia que estava despertando não era azul.
Não era negra.
Não era vermelha.
Era uma mistura de todas.
Uma energia impossível.
A mesma energia que havia iniciado a primeira guerra.
A mesma que havia criado o Nóvium.
A mesma que havia colocado algo dentro de Kael.
A mesma que havia criado Narek.
Orion caiu de joelhos.
A voz falou dentro de sua mente:
— Você finalmente voltou para casa.
Orion sussurrou:
— Eu nunca estive aqui.
A resposta veio:
— Este é o problema.
O planeta inteiro tremeu.
E, acima dele, as estrelas começaram a desaparecer uma por uma.
A frota desconhecida abriu todas as armas.
As forças de Solaris e Nox fizeram o mesmo.
Lyra percebeu o que estava acontecendo.
— Não...
Asterion respondeu:
— O que foi?
Lyra olhou para o céu.
— A paz acabou.
Kael viu as armas sendo ativadas enquanto sua nave ainda atravessava o espaço.
— Não disparem!
Ninguém ouviu.
A primeira nave lançou um feixe.
Outra respondeu.
Depois outra.
Milhares.
Milhões.
O espaço se transformou em uma tempestade de energia.
Orion levantou-se.
Sozinho.
Diante dele estavam as forças de Éterion.
Atrás dele, a nova frota.
Ao redor, mundos inteiros se preparando para lutar.
E, muito além das estrelas, algo ainda maior começou a despertar.
Orion olhou para o céu.
— Então é assim que começa.
A primeira explosão atingiu a órbita.
Depois a segunda.
Depois milhares.
As frotas avançaram umas contra as outras.
A galáxia inteira começou a iluminar-se.
Não como um amanhecer.
Como uma guerra.
E, no centro de tudo, Éterion abriu os olhos.

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