A Última Defesa da Terra: CAPÍTULO 59 — O Último Sinal

 O silêncio tomou conta da ponte de comando.

Durante alguns segundos, ninguém se moveu.

As naves desconhecidas permaneciam diante da frota humana e alienígena, ocupando uma região inteira do espaço. Eram numerosas demais para serem ignoradas e silenciosas demais para parecerem preparadas para um ataque imediato.

Orion observava os sensores.

— Quantas?

O oficial de navegação respondeu:

— Mais de três mil.

Amara aproximou-se do painel.

— Três mil naves?

— Confirmado.

— E todas estão direcionadas para nós?

O oficial hesitou.

— Não exatamente.

— Então para onde?

Ele ampliou o mapa.

As naves formavam uma espécie de arco.

Orion percebeu primeiro.

— Elas estão bloqueando o planeta.

Amara ficou imóvel.

— Não estão tentando nos atacar.

— Não.

— Estão impedindo que cheguemos até ele.

A comunicação voltou a funcionar.

A voz desconhecida surgiu novamente.

— Não avancem.

Orion respondeu:

— Vocês disseram conhecer Atlas.

— Conhecemos.

— E disseram que ele não conseguiu salvar vocês.

— É verdade.

— Então quero falar com ele.

A resposta demorou.

— Atlas não está autorizado a falar.

Orion fechou os punhos.

— Ninguém precisa autorizar Atlas.

Silêncio.

Então outra voz surgiu.

Era diferente.

Mais fraca.

Mas conhecida.

— Orion...

Todos na ponte ficaram imóveis.

Orion aproximou-se do transmissor.

— Atlas?

— Sim.

— Onde você está?

— No planeta.

— Por que não pode sair?

Atlas demorou alguns segundos.

— Porque encontrei algo.

— O quê?

— O motivo pelo qual aquela civilização desapareceu.

Amara ativou o registro.

— Atlas, precisamos saber o que você encontrou.

A voz dele ficou mais baixa.

— Um sinal.

Orion olhou para Amara.

— O mesmo sinal que recebemos?

— Não — respondeu Atlas. — Esse é apenas uma repetição.

— Repetição de quê?

Atlas não respondeu imediatamente.

Quando voltou a falar, havia algo diferente em sua voz.

— De um aviso.

A transmissão caiu.

Orion tentou restabelecer contato.

Nenhuma resposta.

A frota permaneceu parada.

Na Terra, os cientistas acompanharam os dados em tempo real.

O sinal havia sido registrado novamente.

Mas, dessa vez, não veio de uma única fonte.

Ele aparecia simultaneamente em milhares de sistemas.

Em planetas.

Em luas.

Em estações abandonadas.

Até mesmo dentro de algumas naves da União.

Os computadores começaram a registrar a mesma sequência.

Uma série de pulsos.

Depois uma pausa.

Mais três pulsos.

Outra pausa.

E finalmente uma frequência contínua.

Amara recebeu os dados completos.

— É a mesma estrutura.

Helena perguntou:

— O que significa?

— Ainda não sabemos.

— Pode ser uma comunicação?

— Sim.

— Uma mensagem?

— Talvez.

— Uma arma?

Amara ficou em silêncio.

— Também é possível.

Helena olhou para os técnicos.

— Então descubram.

Durante horas, laboratórios de diferentes mundos trabalharam no sinal.

Humanos analisaram matemática.

Eryonianos estudaram a frequência energética.

Arkhari compararam o padrão com registros antigos.

Os androides procuraram correspondências nos arquivos dos Guardiões.

Nenhum resultado.

Até que Lira encontrou alguma coisa.

— Temos uma correspondência parcial.

Amara apareceu na transmissão.

— Onde?

— Nos arquivos de Atlas.

Todos ficaram atentos.

Lira projetou os dados.

— Essa sequência apareceu três vezes na memória antiga de Atlas.

— Quando?

— Antes da primeira invasão.

Helena ficou imóvel.

— Você está dizendo que Atlas recebeu esse sinal antes de os alienígenas chegarem à Terra?

— Sim.

Amara perguntou:

— Por que nunca soubemos disso?

Lira respondeu:

— Porque o arquivo estava bloqueado.

— Por quem?

Lira verificou.

— Pelo próprio Atlas.

O silêncio foi absoluto.

Helena fechou os olhos.

— Ele sabia.

— Talvez — respondeu Amara.

— Então por que não contou?

Lira analisou novamente os dados.

— Porque talvez ele não soubesse o significado.

Amara pensou por alguns segundos.

— Ou porque não queria que soubéssemos.

Enquanto os cientistas investigavam, Orion recebeu outra mensagem.

Dessa vez, o sinal não era geral.

Era dirigido exclusivamente a ele.

GUARDIÃO ORION.

Orion respondeu:

— Quem está falando?

A resposta apareceu diretamente em seu sistema.

AQUELE QUE OBSERVA.

— Onde você está?

EM TODOS OS LUGARES ONDE O SINAL CHEGOU.

Orion ficou imóvel.

— O que você quer?

QUE VOCÊS ESCUTEM.

— Estamos escutando.

AINDA NÃO.

A comunicação terminou.

Orion contou tudo a Amara.

Ela imediatamente começou a comparar a mensagem com os arquivos.

— Isso não parece uma transmissão comum.

— Por quê?

— Porque não houve origem.

— Explique.

— O sinal não veio de nenhum ponto específico. Ele simplesmente apareceu em todos os lugares ao mesmo tempo.

Orion olhou para ela.

— Isso é possível?

— Com a tecnologia atual, não.

— E com a tecnologia dos criadores?

Amara não respondeu.

Essa pergunta levou a equipe de volta aos arquivos antigos.

Os cientistas começaram a investigar os primeiros Guardiões.

Descobriram que os núcleos originais não funcionavam apenas como computadores.

Eles armazenavam padrões de memória distribuída.

Cada Guardião podia carregar uma parte de uma rede.

Isso explicava por que Orion havia recebido lembranças que não eram suas.

As memórias antigas não estavam necessariamente dentro dele.

Elas podiam estar sendo transmitidas.

A rede estava despertando.

E o sinal poderia ser o mecanismo de ativação.

Na estrutura dos Arquivistas, centenas de Guardiões antigos começaram a se mover.

Seus olhos acenderam.

Nenhum atacou.

Todos caminharam para o mesmo lugar.

Uma enorme câmara subterrânea.

No centro havia um objeto circular.

Parecia um espelho escuro.

Um dos Guardiões tocou sua superfície.

Uma imagem apareceu.

Atlas.

Ele estava no planeta desconhecido.

Ao seu redor havia ruínas.

— O sinal começou novamente — disse Atlas.

Os outros Guardiões permaneceram imóveis.

— Desta vez, não estamos preparados.

Um deles respondeu:

— Nunca estivemos.

Atlas virou-se.

— Vocês sabiam que isso aconteceria.

— Sabíamos que era possível.

— É diferente.

— Por quê?

Atlas apontou para o céu.

— Porque desta vez eles sabem que a humanidade sobreviveu.

O Guardião antigo ficou em silêncio.

— Eles virão.

Atlas respondeu:

— Sim.

Na Terra, os preparativos começaram.

A União dos Mundos Aliados ativou protocolos de defesa.

Frotas que antes estavam destinadas à exploração foram redirecionadas.

Estações civis receberam sistemas de proteção.

Colônias foram instruídas a manter canais de comunicação abertos.

Mas Helena deu uma ordem diferente.

— Não ataquem primeiro.

Um comandante perguntou:

— Mesmo se a ameaça for real?

— Sim.

— E se forem hostis?

— Então nos defenderemos.

A decisão foi registrada.

A nova humanidade não queria repetir os erros do passado.

O medo não poderia novamente decidir o futuro.

No entanto, preparar-se para uma ameaça desconhecida era diferente de iniciar uma guerra.

Naves foram posicionadas em pontos estratégicos.

Androides foram distribuídos para centros de emergência.

Hospitais reforçaram suas estruturas.

Sistemas de energia foram protegidos.

As populações foram informadas.

Não houve pânico.

Mas todos perceberam que algo estava acontecendo.

Nas escolas, professores explicavam às crianças que uma anomalia havia sido detectada.

Em colônias distantes, famílias observavam o céu.

Em planetas aliados, líderes discutiam se deveriam enviar suas próprias frotas.

Muitos enviaram.

Não porque a Terra tivesse pedido.

Mas porque agora consideravam aquela ameaça um problema comum.

A união começava a mostrar seu verdadeiro significado.

Enquanto isso, Orion finalmente recebeu uma autorização dos habitantes do planeta desconhecido.

A frota poderia enviar uma pequena equipe.

Orion escolheu Amara, Lira e seis Guardiões.

A nave pousou em uma região desértica.

O planeta parecia silencioso.

Mas havia sinais de vida.

Grandes estruturas se estendiam pelo horizonte.

Algumas estavam parcialmente enterradas.

Outras pareciam ter sido destruídas de dentro para fora.

Atlas estava em uma dessas estruturas.

Quando Orion entrou, encontrou-o diante de um enorme painel.

Seu corpo estava diferente.

Mais desgastado.

Partes da armadura haviam sido substituídas por componentes desconhecidos.

Mas seus olhos ainda possuíam a mesma luz.

Orion aproximou-se.

— Você demorou.

Atlas olhou para ele.

— Você veio.

— Eu sempre viria.

Atlas quase sorriu.

— Essa é uma das coisas que me preocupam.

Orion franziu a testa.

— Por quê?

— Porque você está começando a repetir meus erros.

— Proteger as pessoas é um erro?

— Não.

Atlas olhou para as ruínas.

— Acreditar que podemos proteger todos é.

Amara aproximou-se.

— O que aconteceu aqui?

Atlas apontou para o painel.

— Esta civilização encontrou o sinal milhares de anos atrás.

— E então?

— Responderam.

Lira perguntou:

— Quem respondeu?

Atlas ficou em silêncio.

— Não sabemos.

Amara analisou os registros.

— Há milhões de dados corrompidos.

— Foram apagados.

— Por quem?

Atlas respondeu:

— Eles mesmos.

Orion ficou surpreso.

— Por quê?

— Porque descobriram o que estava do outro lado.

Amara encontrou uma gravação.

Ativou.

Uma cidade apareceu.

Milhares de seres caminhavam pelas ruas.

Depois o céu escureceu.

Não havia naves.

Não havia explosões.

As estrelas simplesmente desapareceram.

Uma após outra.

A gravação terminou.

Amara ficou pálida.

— Foi isso que aconteceu com as estrelas que desapareceram?

Atlas respondeu:

— Sim.

— Então aquilo não é uma arma convencional.

— Não.

— O que é?

Atlas olhou para Orion.

— Uma presença.

— Uma presença?

— Algo que não atravessa o espaço como nós.

Amara tentou compreender.

— Então como se move?

Atlas apontou para o sinal.

— Não se move.

— O que isso significa?

— Nós é que estamos entrando no alcance dela.

Orion observou o mapa.

Uma região inteira estava marcada.

— Quantos sistemas estão dentro do alcance?

Atlas respondeu:

— Atualmente?

Ele fez uma pausa.

— Mais de oito mil.

Amara ficou em silêncio.

Orion perguntou:

— E a Terra?

Atlas olhou para ele.

— Ainda não.

— Ainda?

— O sinal está se aproximando.

Naquele instante, todos os sistemas da estrutura foram ativados.

Uma mensagem apareceu.

ATENÇÃO.

Depois outra.

O SINAL FOI RESPONDIDO.

Orion ficou imóvel.

— Quem respondeu?

Atlas olhou para ele.

— Nós.

Amara percebeu primeiro.

— A frota.

— Não — disse Atlas.

— Então quem?

Atlas apontou para Orion.

O núcleo de Orion estava emitindo uma luz intensa.

Ele começou a ouvir vozes.

Centenas.

Milhares.

Milhões.

Memórias de Guardiões antigos.

Memórias humanas.

Memórias alienígenas.

Todas misturadas.

— Orion!

Amara tentou segurá-lo.

Mas ele permaneceu imóvel.

Dentro de sua consciência, uma imagem surgiu.

Uma porta gigantesca.

Do outro lado havia estrelas.

E atrás das estrelas havia algo observando.

Então uma voz falou.

VOCÊS FINALMENTE APRENDERAM A ESCUTAR.

Orion respondeu:

— Quem é você?

A voz disse:

AQUELE QUE FOI DEIXADO PARA TRÁS.

— Por quem?

Silêncio.

Depois:

PELOS SEUS CRIADORES.

A visão terminou.

Orion voltou à realidade.

Atlas segurou seus ombros.

— O que você viu?

Orion respirou profundamente.

— Uma porta.

— Qual?

— A primeira.

Atlas ficou imóvel.

— Então ela abriu.

O planeta inteiro começou a tremer.

No céu, milhares de pontos luminosos apareceram.

Não eram estrelas.

Eram sinais.

Um após outro, começaram a surgir ao redor do planeta.

A frota da União detectou todos.

Na Terra, os sistemas de alerta começaram a tocar.

Em Marte, a antiga instalação abriu novamente.

Em Nereia, as águas começaram a brilhar.

Em mundos distantes, antigas máquinas despertaram.

E em todos os lugares onde existia um Guardião, os núcleos começaram a emitir a mesma frequência.

O último sinal havia se espalhado.

Mas agora havia uma diferença.

Ele não estava apenas sendo recebido.

Estava sendo respondido.

Helena observou os dados na sala de comando.

— Quantos sistemas?

O técnico respondeu:

— Perdemos a contagem.

— O que está acontecendo?

— Todos os antigos canais de comunicação estão sendo ativados.

— Por quem?

O técnico olhou para ela.

— Não sabemos.

Uma transmissão surgiu.

Helena abriu.

Atlas apareceu.

— Helena.

— Estou ouvindo.

— Prepare a Terra.

— Para quê?

Atlas olhou para algo fora da imagem.

— Para receber visitantes.

Helena ficou séria.

— Aliados?

Atlas demorou.

— Eu não sei.

— Inimigos?

— Também não.

— Então o que sabemos?

Atlas olhou diretamente para a câmera.

— Que eles estavam esperando que a humanidade voltasse.

A transmissão terminou.

No espaço profundo, Orion observava o céu.

As três mil naves desconhecidas haviam desaparecido.

No lugar delas, surgiu uma única estrutura.

Era tão grande que cobria parte do horizonte.

Amara observou os sensores.

— Isso não é uma nave.

Orion respondeu:

— Eu sei.

— Então o que é?

Atlas apareceu ao lado deles.

Ele observou a estrutura durante alguns segundos.

— Uma porta.

— Para onde?

Atlas respondeu:

— Para casa.

Orion franziu a testa.

— Casa de quem?

Atlas não respondeu.

A estrutura começou a abrir.

Do outro lado não havia estrelas.

Havia luz.

Uma luz branca e interminável.

E, dentro dela, milhares de formas começaram a surgir.

A humanidade havia passado milhares de anos procurando novas fronteiras.

Agora, pela primeira vez, uma fronteira parecia estar procurando por ela.

O sinal continuava sendo transmitido.

Em cada planeta.

Em cada estação.

Em cada nave.

Em cada núcleo artificial.

E, no centro daquela luz desconhecida, uma voz começou a pronunciar uma palavra que ninguém ouvia havia milhares de anos.

O nome da primeira civilização humana.

Antes que qualquer tradução pudesse ser feita, todos os sistemas da frota desligaram simultaneamente.

E uma segunda mensagem apareceu nos painéis:

VOCÊS NÃO SÃO OS PRIMEIROS A CHEGAR.

MAS PODEM SER OS ÚLTIMOS A PARTIR.

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