As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 1 — O PRIMEIRO ABALO
Às 2h17 da madrugada, a pequena cidade de Santa Aurora foi acordada por um estrondo que parecia ter vindo do próprio céu.
Não houve aviso.
Nenhuma tempestade se aproximava. Não havia previsão de terremoto. O rádio meteorológico permanecia silencioso, e os sensores instalados na região não haviam registrado qualquer atividade incomum nas horas anteriores.
Mesmo assim, durante alguns segundos, toda a cidade tremeu.
Primeiro, foram as janelas.
Vidros vibraram dentro de suas molduras. Copos sobre mesas começaram a tilintar. Portas bateram sozinhas. Objetos pequenos caíram das prateleiras.
Depois, veio o chão.
As casas balançaram como se estivessem sobre ondas. Telhas deslizaram dos telhados. Um poste de iluminação caiu na Avenida Central, espalhando faíscas pelo asfalto. Alarmes de carros dispararam simultaneamente, enchendo a madrugada com uma mistura ensurdecedora de sirenes.
E então tudo parou.
O silêncio que veio depois foi ainda mais assustador.
Por quase vinte segundos, ninguém soube o que fazer.
Nas casas, famílias saíram dos quartos e correram para as salas. Algumas pessoas permaneceram debaixo das mesas. Outras abriram as portas e encontraram vizinhos fazendo exatamente a mesma coisa.
— Foi um terremoto?
— Você sentiu?
— Meu Deus...
— Cadê as crianças?
As perguntas se espalharam de uma casa para outra.
Santa Aurora ficava em uma região que nunca havia sofrido um terremoto significativo. Os moradores conheciam pequenas vibrações ocasionais, quase imperceptíveis, mas nada parecido com aquilo.
A cidade tinha pouco mais de vinte mil habitantes.
Era cercada por colinas baixas, plantações e uma extensa área de mata que começava depois dos últimos bairros. Havia apenas uma estrada principal ligando Santa Aurora às cidades maiores da região.
Durante décadas, aquela tranquilidade havia sido motivo de orgulho.
Naquela madrugada, porém, alguma coisa havia mudado.
Na Avenida Central, uma rachadura surgiu no meio do asfalto.
Começou como uma pequena linha escura.
Então se abriu.
O asfalto estalou violentamente, levantando pedaços de concreto. A rachadura avançou por vários metros em poucos segundos, atravessando a avenida de um lado ao outro.
Um motorista que passava pelo local freou bruscamente.
O carro parou a poucos centímetros do buraco.
O homem saiu do veículo tremendo.
— Não pode ser...
Ele iluminou a rachadura com o celular.
A abertura tinha quase um metro de largura.
Mas não era apenas profunda.
Era escura.
Muito escura.
A luz do celular desaparecia dentro dela antes de alcançar o fundo.
O homem recuou.
Então ouviu alguma coisa.
Um som baixo.
Distante.
Parecia um trovão.
Mas vinha de baixo.
Ele levantou a cabeça, procurando uma tempestade inexistente.
O som voltou.
Dessa vez, mais forte.
RRRRAAAAAUUUUM...
O homem deixou o celular cair.
— Que diabos foi isso?
Algumas janelas se abriram.
Moradores começaram a aparecer nas calçadas.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então o som veio novamente.
Mais profundo.
Mais longo.
Como um rugido abafado atravessando quilômetros de rocha.
As pessoas começaram a correr.
Às 2h31, a central de emergência de Santa Aurora já estava recebendo dezenas de ligações.
— Houve um terremoto!
— A rua abriu!
— Tem uma cratera na Avenida Central!
— Eu ouvi alguma coisa debaixo da minha casa!
— Minha parede rachou!
— Mandem alguém!
A operadora Helena Duarte tentava registrar todas as ocorrências enquanto três linhas tocavam simultaneamente.
— Central de emergência, qual é a emergência?
— Minha casa está tremendo de novo!
— Senhora, mantenha distância das paredes e saia para uma área aberta.
— Mas tem alguma coisa lá fora!
Helena parou.
— Como assim?
— Eu ouvi um barulho!
— Que tipo de barulho?
Do outro lado da linha, houve silêncio.
— Um rugido.
Helena respirou fundo.
— Senhora, pode ser uma estrutura desabando. Vá para um local seguro.
— Não.
A voz da mulher começou a tremer.
— Não era isso.
— Senhora...
— Parecia que alguma coisa estava respirando.
A ligação caiu.
Helena olhou para o relógio.
2h34.
Naquele instante, uma nova vibração percorreu o prédio.
As lâmpadas piscaram.
Um copo caiu da mesa.
Todos os funcionários da central olharam para o chão.
O tremor durou apenas quatro segundos.
Mas foi suficiente.
Helena pegou o telefone.
— Chamem a polícia. E os bombeiros. Agora.
O prefeito Augusto Mendes acordou com alguém batendo violentamente em sua porta.
— Prefeito!
Ele abriu os olhos.
— O quê?
— Prefeito, o senhor precisa ver isso.
Augusto levantou-se ainda sonolento, vestiu rapidamente uma camisa e abriu a porta.
Do lado de fora estava o chefe da defesa civil, Marcelo Tavares.
Seu rosto estava pálido.
— Quantos feridos? — perguntou Augusto.
— Ainda não sabemos.
— Mortos?
— Também não sabemos.
O prefeito ficou em silêncio.
— Então o que você sabe?
Marcelo apontou para a rua.
— O chão está abrindo.
Quando chegaram à Avenida Central, o cenário parecia impossível.
Carros estavam abandonados em várias partes da rua.
Algumas lojas tinham vitrines quebradas.
Um prédio antigo apresentava uma enorme rachadura atravessando sua fachada.
Policiais tentavam afastar os curiosos.
Bombeiros examinavam os edifícios.
E no centro da avenida havia uma abertura de quase três metros.
Augusto aproximou-se.
— Isso aconteceu sozinho?
— Até onde sabemos.
Marcelo apontou para uma segunda rachadura.
— Tem outra ali.
Depois uma terceira.
E uma quarta.
As rachaduras formavam linhas irregulares que atravessavam o asfalto em diferentes direções.
Pareciam veias.
Helena chegou pouco depois.
— Prefeito!
Augusto virou-se.
— O que está acontecendo?
— Estamos recebendo chamadas de vários bairros.
— Sobre o terremoto?
Helena hesitou.
— Não exatamente.
— Então sobre o quê?
— Pessoas estão dizendo que estão ouvindo sons debaixo da terra.
Marcelo olhou para o buraco.
— Eu também ouvi.
Todos ficaram em silêncio.
Então o chão vibrou.
Dessa vez, não houve dúvida.
O som veio junto.
Um rugido grave.
Tão grave que parecia ser sentido mais do que ouvido.
As pessoas na rua começaram a gritar.
Uma mulher deixou o filho cair no chão ao tentar correr.
Um policial puxou-a para longe.
— Todo mundo para trás!
A rachadura central aumentou.
Cinco centímetros.
Dez.
Vinte.
Então parou.
Augusto ficou olhando.
— Isso não é normal.
Marcelo respondeu sem tirar os olhos do chão.
— Não.
— Pode acontecer outro terremoto?
— Talvez.
— De que magnitude?
Marcelo não respondeu.
Porque, naquele momento, uma nova coisa aconteceu.
Algo bateu contra o fundo da rachadura.
Uma vez.
BUM.
Todos ouviram.
Depois outra.
BUM.
A multidão recuou.
Uma terceira pancada foi ainda mais forte.
BUUUUM.
O asfalto ao redor da abertura começou a tremer.
— Todo mundo para trás! — gritou um bombeiro.
A ordem foi repetida pelos policiais.
As pessoas correram.
Alguns tropeçaram.
Outros abandonaram veículos.
Uma criança começou a chorar.
Então veio o quarto impacto.
O asfalto explodiu.
Uma coluna de poeira subiu vários metros.
Pedaços de concreto foram lançados para os lados.
Uma viatura foi atingida.
Os bombeiros recuaram.
E alguma coisa surgiu dentro da nuvem.
Primeiro, apareceu uma mão.
Não era humana.
Tinha dedos longos demais.
As unhas pareciam feitas de pedra escura.
A criatura segurou a borda da rachadura.
Então puxou o próprio corpo para cima.
Um bombeiro apontou a lanterna.
— Meu Deus...
A criatura tinha aproximadamente três metros de altura.
Seu corpo era coberto por placas rígidas, semelhantes a uma mistura de pedra e pele.
Não possuía pelos.
Os braços eram longos.
As pernas, grossas e arqueadas.
A cabeça parecia estreita, quase triangular.
Dois pontos avermelhados brilhavam onde deveriam estar os olhos.
A criatura ficou imóvel.
A cidade inteira pareceu prender a respiração.
Ninguém sabia o que estava vendo.
Ninguém sabia se aquilo era um animal, uma máquina ou alguma coisa completamente diferente.
Então a criatura abriu a boca.
Não havia dentes visíveis.
Apenas uma enorme abertura escura.
E ela rugiu.
O som atravessou Santa Aurora.
Alarmes dispararam.
Janelas quebraram.
Cães começaram a latir.
As pessoas gritaram e correram em todas as direções.
A criatura deu o primeiro passo.
O asfalto afundou sob seu peso.
Um policial levantou a arma.
— Não atire!
Mas outro policial, tomado pelo pânico, disparou.
Os tiros atingiram o peito da criatura.
Ela recuou alguns centímetros.
Todos esperaram que caísse.
Não caiu.
A criatura lentamente abaixou a cabeça.
Olhou para o policial.
E avançou.
O homem tentou recuar.
Tropeçou.
A criatura atingiu a viatura ao lado com um movimento do braço.
O veículo foi lançado contra uma loja.
Vidros explodiram.
O policial conseguiu fugir por pouco.
— CORRAM!
A ordem não precisava ser dada.
A cidade já estava em pânico.
Do outro lado de Santa Aurora, o professor Daniel Azevedo acordou com o som dos disparos.
Ele morava sozinho em uma pequena casa perto da universidade local.
Durante alguns segundos, pensou que fossem fogos.
Então ouviu outro rugido.
Daniel levantou-se.
Foi até a janela.
Ao longe, uma coluna de fumaça subia sobre a cidade.
Ele ficou observando.
O celular tocou.
Era sua irmã.
— Daniel?
— Estou aqui.
— Você está vendo?
— Sim.
— Tem alguma coisa na cidade.
Daniel ficou em silêncio.
— Você viu?
— Vi pela janela.
— O que é?
— Não sei.
Houve uma pausa.
Então a irmã perguntou:
— Daniel, você acha que é um animal?
Ele olhou novamente para a fumaça.
— Não.
— Então o que é?
Daniel não respondeu.
Porque alguma coisa havia chamado sua atenção.
Na parede de seu escritório havia um monitor conectado a um equipamento que ele utilizava para registrar vibrações subterrâneas.
A tela estava cheia de linhas.
Daniel aproximou-se.
O aparelho registrava atividade sísmica.
Mas havia algo estranho.
As ondas não estavam vindo de baixo da cidade.
Elas estavam se deslocando.
Daniel ampliou os dados.
Uma sequência de pulsos aparecia no monitor.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Depois uma pausa.
Novamente:
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Daniel sentiu um arrepio.
— Isso não é um terremoto...
— O quê? — perguntou a irmã pelo telefone.
Ele desligou sem perceber.
Correu até a estante e pegou uma pasta antiga.
Dentro dela havia mapas geológicos da região.
Daniel abriu um dos mapas sobre a mesa.
A área onde Santa Aurora estava construída possuía uma formação subterrânea pouco estudada.
Décadas antes, pesquisadores haviam identificado uma extensa cavidade sob a região.
As investigações foram interrompidas depois de um desmoronamento.
Daniel passou o dedo pelo mapa.
A cavidade não estava apenas sob Santa Aurora.
Ela se estendia muito além.
Para oeste.
Em direção à mata.
E, segundo os registros antigos, continuava por vários quilômetros.
Daniel voltou a olhar para o monitor.
As ondas estavam avançando na direção da cidade.
Como se alguma coisa estivesse se movendo debaixo da terra.
Ele murmurou:
— Quantos existem?
Às 3h08, as forças de segurança começaram a retirar os moradores das áreas centrais.
A criatura havia desaparecido.
Depois de destruir três veículos, atravessar uma parede e derrubar parte de um edifício, ela simplesmente correu em direção às ruas estreitas e sumiu.
Ninguém sabia para onde.
Câmeras de segurança registraram apenas imagens fragmentadas.
Um vulto.
Um clarão.
Uma sombra atravessando uma rua.
Depois nada.
O desaparecimento não trouxe alívio.
Trouxe medo.
Porque ninguém acreditava que aquilo tivesse ido embora.
As pessoas foram levadas para escolas, ginásios e igrejas.
Famílias inteiras dormiam juntas em corredores.
Crianças perguntavam aos pais o que estava acontecendo.
Os adultos não tinham respostas.
No hospital municipal, médicos tratavam feridos enquanto ambulâncias chegavam sem parar.
A cidade estava sem energia em vários bairros.
Torres de comunicação apresentavam falhas.
O rádio local transmitia apenas instruções de emergência.
— Permaneçam em locais seguros.
— Evitem as áreas afetadas.
— Não se aproximem das rachaduras.
— As autoridades estão investigando o ocorrido.
Mas ninguém conseguia explicar o que havia acontecido.
Às 3h21, o prefeito recebeu uma ligação de uma autoridade estadual.
— Senhor prefeito, precisamos saber exatamente o que aconteceu.
Augusto olhou pela janela do ginásio.
— Houve um terremoto.
— Temos certeza?
— Não.
— Há relatos de uma criatura.
Augusto ficou em silêncio.
— Sim.
— O senhor viu?
— Vi.
Do outro lado da linha, ninguém falou por alguns segundos.
— Estamos enviando uma equipe.
— Quanto tempo?
— Algumas horas.
Augusto fechou os olhos.
— Talvez não tenhamos algumas horas.
Às 3h37, Daniel chegou à universidade.
O prédio estava quase vazio.
Ele correu pelos corredores até o laboratório subterrâneo.
Ligou os computadores.
Um mapa tridimensional da região apareceu na tela.
Daniel inseriu os dados registrados durante o terremoto.
A máquina começou a processar.
Linhas luminosas apareceram abaixo da cidade.
Ele observou.
A criatura havia surgido exatamente sobre uma das maiores cavidades subterrâneas.
Mas aquilo não era o mais estranho.
Daniel ampliou o mapa.
Havia outras cavidades.
Dezenas.
Todas conectadas.
E algumas estavam se movimentando.
Não as cavidades.
Alguma coisa dentro delas.
Daniel sentiu a boca secar.
Um novo sinal apareceu.
Depois outro.
E outro.
Ele contou.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Dez.
Havia pelo menos dez pontos se deslocando sob a região.
Daniel afastou-se do computador.
— Não...
As luzes do laboratório piscaram.
O chão vibrou.
Ele segurou a mesa.
Um som profundo atravessou as paredes.
Daniel olhou para o teto.
Outro rugido.
Mais próximo.
Muito mais próximo.
Então as telas ficaram pretas.
Às 3h42, a cidade inteira voltou a ouvir o mesmo som.
Dessa vez, porém, não vinha de um único lugar.
Rugidos começaram a surgir em diferentes pontos de Santa Aurora.
Um no norte.
Outro no sul.
Outro perto do rio.
Outro sob a região industrial.
As pessoas nos abrigos levantaram a cabeça.
Os policiais olharam uns para os outros.
Os bombeiros pararam de trabalhar.
Até mesmo aqueles que não haviam acreditado nos primeiros relatos perceberam que havia alguma coisa terrivelmente errada.
Então uma rachadura surgiu no chão do ginásio onde centenas de moradores estavam reunidos.
Começou pequena.
Um risco.
Depois aumentou.
Uma mulher gritou.
As pessoas começaram a correr.
O concreto abriu.
Do outro lado da cidade, outra rua desmoronou.
Depois outra.
E outra.
Santa Aurora estava sendo rasgada de dentro para fora.
E, abaixo dela, alguma coisa se movia.
Algo antigo.
Algo que havia permanecido escondido por muito tempo.
Na praça central, o primeiro monstro reapareceu.
Ele surgiu lentamente entre os prédios destruídos.
Mas dessa vez não estava sozinho.
Atrás dele, no escuro da rua, duas luzes vermelhas apareceram.
Depois mais duas.
E mais duas.
A criatura levantou a cabeça.
Como se estivesse ouvindo um chamado.
Um chamado vindo das profundezas.
Então abriu a boca e soltou um rugido que fez toda a cidade estremecer.
E, muito abaixo das ruas destruídas, uma estrutura gigantesca começou a despertar.
Não era uma caverna.
Não era uma construção humana.
Era alguma coisa muito maior.
E quando seus primeiros movimentos fizeram as montanhas ao redor de Santa Aurora tremerem, Daniel finalmente entendeu que o terremoto daquela madrugada não havia sido um desastre natural.
Tinha sido um despertar.
E aquilo que havia acordado ainda estava apenas começando a subir.
A milhares de metros abaixo da superfície, dois olhos enormes se abriram na escuridão.
E uma voz, tão profunda que parecia atravessar a própria pedra, pronunciou uma única palavra:
— Finalmente...

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