As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 11 — O ABRIGO 1.

 O helicóptero mergulhou violentamente para a esquerda.

Daniel bateu o ombro contra a lateral da cabine, enquanto Ricardo tentava se segurar em uma das barras metálicas. O equipamento de Helena caiu no chão e deslizou até os pés do piloto. Por alguns segundos, ninguém conseguiu distinguir o que estava acontecendo do lado de fora. A floresta desapareceu atrás de uma nuvem de poeira, e o horizonte pareceu inclinar-se até ficar quase vertical.

— Segurem-se! — gritou o piloto.

Uma segunda sacudida atingiu a aeronave.

Daniel olhou pela janela e sentiu o estômago se contrair.

O solo estava se elevando.

Não era uma impressão causada pelo movimento do helicóptero. Uma faixa inteira da floresta subia lentamente, empurrada por alguma coisa que avançava sob a superfície. Árvores enormes tombavam, raízes expostas, enquanto pedras eram lançadas para o alto. A elevação percorria o terreno em direção à montanha, abrindo uma cicatriz no mundo.

Então a terra explodiu.

Uma coluna de rochas, lama e árvores foi lançada a dezenas de metros de altura. Por trás da nuvem, Daniel viu uma estrutura escura emergir parcialmente do chão.

Não conseguiu compreender o que estava vendo.

Parecia uma placa gigantesca, curva e irregular, coberta por sulcos que brilhavam em azul. A estrutura surgiu por apenas alguns segundos antes de desaparecer novamente sob a terra, como se a criatura que a carregava tivesse mudado de direção.

Mas aqueles poucos segundos foram suficientes.

— Você filmou isso? — perguntou Helena.

Daniel ergueu a câmera com as mãos trêmulas.

— Acho que sim.

— Não pare de gravar.

— O que era aquilo?

Helena não respondeu imediatamente. Observava os instrumentos espalhados pelo chão, tentando recuperar o equipamento de leitura enquanto o helicóptero continuava a perder altitude.

— Não sei — admitiu ela. — Mas, se aquilo era parte do corpo da criatura, estamos diante de algo muito maior do que qualquer coisa que vimos até agora.

O piloto interrompeu a conversa.

— Temos problemas. O sistema hidráulico foi danificado. Não vou conseguir manter esta altitude por muito tempo.

Ricardo olhou pela janela.

— Há uma clareira adiante!

— Aquilo não é uma clareira! — respondeu o piloto. — É uma estrada!

Uma estrada estreita atravessava a encosta, quase completamente coberta por árvores caídas. Ao lado dela, havia uma construção militar parcialmente enterrada na montanha. Duas torres de vigilância estavam inclinadas, e uma antena quebrada se projetava do telhado.

O piloto conduziu o helicóptero até uma área plana próxima à entrada.

A aeronave tocou o solo com violência, arrastou-se alguns metros e parou.

Por um instante, todos permaneceram imóveis.

Depois, o piloto desligou os motores.

— Fora! Agora!

Daniel pegou a câmera e saltou para o terreno. O ar estava cheio de poeira e tinha um cheiro forte de terra molhada, combustível e alguma coisa metálica que ele não conseguiu identificar.

Helena saiu logo atrás, carregando o equipamento contra o peito. Ricardo ajudou um dos sobreviventes que viajavam com eles a descer da aeronave.

Ao redor, a montanha parecia morta.

Nenhum pássaro cantava. Nenhum inseto produzia ruído. Nem mesmo o vento parecia atravessar as árvores.

O silêncio era tão completo que Daniel conseguia ouvir o próprio coração.

A construção militar ficava a aproximadamente cinquenta metros do helicóptero. Era um bloco de concreto reforçado, com uma entrada protegida por portas metálicas e uma placa quase apagada.

Daniel conseguiu distinguir algumas letras.

POSTO DE CONTENÇÃO SUBTERRÂNEA — ACESSO RESTRITO.

Ele olhou para Helena.

— Contenção subterrânea?

A cientista empalideceu.

— Eu nunca ouvi falar deste lugar.

— Mas estamos exatamente na região onde você encontrou aquela primeira barreira.

— Eu sei.

Ela aproximou-se da placa e passou os dedos pela superfície empoeirada.

— Esta instalação não aparece em nenhum documento que consultei durante minha pesquisa. Se o governo construiu uma base aqui, fez questão de esconder sua existência.

Ricardo observou as portas.

— Talvez seja uma boa notícia. Um abrigo militar escondido deve ter suprimentos, energia e comunicação.

Um disparo interrompeu a conversa.

Todos se abaixaram.

Do alto da construção, uma figura surgiu atrás de uma abertura estreita. Um soldado apontava um fuzil para eles.

— Identifiquem-se! — gritou ele. — Mãos visíveis!

O piloto levantou os braços.

— Somos uma equipe de evacuação! Nosso helicóptero foi danificado! Precisamos de abrigo!

O soldado não abaixou a arma.

— Quantas pessoas?

— Cinco na aeronave, contando o piloto. Temos mais sobreviventes vindos de São Paulo.

— Algum ferido?

— Dois com cortes. Ninguém em estado crítico.

O homem desapareceu da abertura.

Ouviram-se ruídos metálicos do outro lado da porta, seguidos pelo som de mecanismos sendo destravados. Uma pequena abertura surgiu na parte inferior da entrada.

— Entrem um de cada vez. Deixem qualquer arma do lado de fora. Se alguém apresentar sinais de contaminação, será isolado.

Daniel franziu a testa.

— Contaminação de quê?

A abertura tornou a fechar-se.

A porta principal começou a deslizar.

Do outro lado, havia um corredor iluminado por lâmpadas de emergência. Dois soldados armados aguardavam junto à entrada, ambos usando máscaras de proteção e uniformes cobertos de poeira.

O primeiro apontou para o interior.

— Rápido. Não fiquem parados na entrada.

Daniel atravessou a porta.

Assim que o último sobrevivente entrou, os militares fecharam a passagem e acionaram um mecanismo que fez as travas se encaixarem. Um ruído pesado percorreu a estrutura.

Depois, uma luz vermelha acendeu acima da porta.

— Quanto tempo vocês estão aqui? — perguntou Helena.

Um dos soldados retirou a máscara.

Era um homem de aproximadamente quarenta anos, com barba por fazer, olhos fundos e uma cicatriz que atravessava parte do queixo.

— Desde ontem à noite — respondeu. — Meu nome é sargento Mendes. Sou responsável pelo setor de segurança.

— Esta instalação estava operacional?

— Estava. Até começarem os tremores.

— E vocês sabiam o que havia debaixo da montanha?

Mendes olhou para ela com desconfiança.

— Quem é você?

— Helena Vasconcelos. Geóloga. Estudo as estruturas subterrâneas desta região há onze anos.

A expressão do sargento mudou.

Não foi surpresa.

Foi reconhecimento.

— Vasconcelos? — repetiu ele. — Você participou da expedição que desapareceu na montanha?

Helena ficou imóvel.

— Como sabe disso?

O sargento não respondeu imediatamente. Olhou para os outros militares, como se estivesse decidindo quanto deveria revelar.

— Venham comigo. O comandante vai querer conversar com vocês.

O corredor descia em uma inclinação suave. Tubulações percorriam o teto, e cabos grossos estavam presos às paredes por suportes de aço. Em determinados pontos, o concreto apresentava rachaduras recentes, preenchidas às pressas com material de vedação.

Daniel percebeu pequenas marcas escuras ao longo do chão.

Pareciam riscos produzidos por alguma coisa pesada sendo arrastada.

— O que aconteceu aqui? — perguntou ele.

Mendes olhou para as marcas.

— Tivemos uma falha estrutural.

— Causada pelo terremoto?

— Foi o que nos disseram.

— E o que você acha?

O sargento lançou-lhe um olhar severo.

— Acho que vocês deveriam guardar as perguntas para o comandante.

Continuaram descendo.

Depois de duas portas de segurança, chegaram a um salão amplo, ocupado por dezenas de pessoas. Havia famílias sentadas em bancos metálicos, homens enrolados em cobertores e crianças deitadas sobre colchonetes. Algumas pessoas dormiam. Outras permaneciam imóveis, olhando para o vazio.

Um gerador produzia um zumbido constante.

No fundo do salão, uma equipe distribuía garrafas de água, pacotes de alimentos e pequenas porções de comida quente. Uma mulher com o braço enfaixado segurava um recipiente com as duas mãos, como se temesse que alguém pudesse tirá-lo dela.

Ao ver os recém-chegados, algumas pessoas se levantaram.

— Vocês vieram de São Paulo? — perguntou um homem.

Daniel assentiu.

— Viemos de lá.

— A cidade ainda está de pé?

Ele hesitou.

Não queria mentir, mas também não conseguia oferecer uma resposta que não destruísse a esperança daquele homem.

— Algumas áreas resistiram. Outras foram muito danificadas.

O homem fechou os olhos.

— Minha filha ficou lá.

Ninguém soube o que dizer.

Uma enfermeira aproximou-se e entregou garrafas de água aos recém-chegados.

— Bebam devagar. Temos comida suficiente para alguns dias, mas precisamos controlar as rações até sabermos se os acessos externos continuam disponíveis.

Ricardo pegou uma garrafa e bebeu quase metade de uma vez.

— Alguns dias? — perguntou. — Vocês não têm reservas para mais tempo?

— Temos depósitos, mas parte deles foi isolada depois dos últimos tremores.

— Por quê?

A enfermeira lançou um olhar para o teto.

— Porque os corredores inferiores não são mais seguros.

Helena aproximou-se dela.

— Quantos níveis existem nesta instalação?

— Quatro setores habitáveis e dois níveis técnicos. Pelo menos, era assim antes.

— Antes de quê?

A enfermeira apertou os lábios.

— Antes de começarem os ruídos.

Daniel sentiu um arrepio.

— Que ruídos?

A mulher não respondeu. Entregou outra garrafa a um sobrevivente e afastou-se.

Helena acompanhou-a com os olhos.

— Há alguma coisa que não estão nos contando.

— Isso parece óbvio — disse Ricardo.

— Não. Eles estão escondendo algo específico. O sargento reconheceu meu nome antes mesmo de eu explicar quem era. Esta instalação conhece minha expedição.

Daniel olhou para as portas reforçadas no fim do salão.

— E construíram tudo isso sobre a mesma rede subterrânea que estamos investigando.

— Exatamente.

Uma voz firme surgiu atrás deles.

— Sargento Mendes, quem são essas pessoas?

Um homem alto, de cabelos grisalhos e uniforme impecável, aproximou-se. As insígnias em seu peito indicavam o posto de coronel. Ao lado dele caminhava uma mulher com um tablet e uma pistola presa ao cinto.

Mendes ficou em posição de sentido.

— Senhor, equipe de evacuação. O helicóptero sofreu danos durante a aproximação. A doutora Helena Vasconcelos está entre os sobreviventes.

O coronel encarou Helena.

Por alguns segundos, não disse nada.

Então estendeu a mão.

— Coronel Augusto Ferraz. Comando desta instalação.

Helena não apertou a mão imediatamente.

— O senhor sabe quem eu sou.

— Conheço seu trabalho.

— Meu trabalho foi censurado. Meus relatórios desapareceram. Dezessete pessoas sumiram durante uma expedição que nunca deveria ter sido autorizada.

Ferraz manteve a expressão controlada.

— Este não é o lugar para discutir assuntos antigos.

— Então vamos discutir os atuais. Há criaturas emergindo de estruturas subterrâneas em todo o país. Elas estão fugindo de alguma coisa. Existe uma rede de túneis sob esta montanha, e um sinal gigantesco está se aproximando. Se vocês construíram uma instalação aqui, certamente encontraram evidências disso.

O coronel olhou ao redor para os sobreviventes.

— Venham à sala de comando.

— Não vou sair daqui enquanto não souber o que vocês encontraram.

— Doutora, com todo o respeito, não estou pedindo.

Daniel colocou-se ao lado dela.

— Se o senhor tem informações que podem salvar pessoas, escondê-las não vai ajudar ninguém.

Ferraz voltou os olhos para ele.

— E você é?

— Daniel. Jornalista.

— Naturalmente.

O coronel fez um gesto para os soldados.

— Levem os três à sala de comando. O piloto e os demais sobreviventes permanecem aqui até receberem autorização para sair.

Ricardo pegou a mochila.

— Não gostei do jeito como ele falou isso.

— Nem eu — respondeu Daniel.

Eles seguiram o coronel por um corredor lateral. A porta da sala de comando abriu-se com um sinal eletrônico.

O espaço era ocupado por mesas, computadores e painéis de monitoramento. Um mapa da região montanhosa cobria uma parede inteira. Linhas vermelhas indicavam túneis conhecidos, enquanto círculos amarelos marcavam pontos de instabilidade.

Daniel reconheceu imediatamente a geometria.

Era semelhante ao mapa de Helena.

Mas havia diferenças importantes.

A rede subterrânea representada na parede era muito maior. Os túneis continuavam além dos limites da montanha, atravessando áreas que os mapas geológicos oficiais consideravam compostas por rocha sólida.

E, no centro da representação, havia uma região completamente escura.

Nenhum túnel entrava nela.

Nenhum túnel saía.

Apenas um círculo negro, rodeado por dezenas de símbolos.

Helena aproximou-se da parede.

— Onde conseguiram isso?

Ferraz fechou a porta.

— De uma operação conduzida pelo Exército há vinte e três anos.

— Vinte e três anos? — perguntou Daniel.

— Esta instalação foi construída muito antes dos primeiros tremores que vocês testemunharam. Sua função original era monitorar anomalias geológicas e estruturas artificiais encontradas sob a montanha.

Helena olhou para ele.

— Artificiais?

— Sim.

— Quem construiu os túneis?

— Não sabemos.

— Há quanto tempo estão aqui?

— A análise dos materiais sugere uma idade impossível de determinar com precisão. Algumas estruturas parecem ter milhões de anos. Outras apresentam propriedades que nossos equipamentos não conseguem explicar.

Helena aproximou o rosto do mapa.

— E o círculo negro?

O coronel demorou a responder.

— É a razão pela qual esta base existe.

Daniel sentiu a câmera pesar em suas mãos.

— O que há lá embaixo?

— Não sabemos ao certo. Nenhuma equipe conseguiu chegar ao centro.

— Então por que o monitoram?

Ferraz apontou para uma sequência de leituras em um dos painéis.

— Porque, durante décadas, o local permaneceu estável. Até três semanas atrás.

Helena fechou os olhos por um instante.

— A perfuração.

O coronel assentiu.

— Uma equipe autorizada por uma agência federal realizou uma sondagem a vários quilômetros daqui. O objetivo oficial era identificar depósitos minerais. A perfuração encontrou uma cavidade e, logo depois, uma estrutura metálica desconhecida.

— Não era metálica — disse Helena. — Era uma barreira.

Ferraz franziu a testa.

— Como sabe?

— Porque encontrei uma semelhante onze anos atrás. Os símbolos na superfície não eram decorativos. Reagiam a determinadas frequências de vibração. A estrutura estava funcionando como um mecanismo de contenção.

A mulher que acompanhava o coronel consultou o tablet.

— Os registros da perfuração mostram uma oscilação incomum exatamente antes de a equipe perder contato.

— Quantas pessoas estavam lá? — perguntou Helena.

— Oito.

— E quantas retornaram?

A mulher baixou os olhos.

— Duas.

Daniel sentiu o estômago apertar.

— O que aconteceu com as outras seis?

Ferraz respondeu com a voz mais baixa:

— Ainda estamos procurando.

Helena apontou para o mapa.

— Vocês não estão procurando as pessoas. Estão tentando impedir que alguma coisa saia de lá.

O coronel não negou.

— A primeira barreira caiu há poucas horas. A instalação detectou alterações em estruturas subterrâneas de todo o continente. Os organismos que vocês viram na superfície começaram a se movimentar antes que nossos sensores registrassem o primeiro grande tremor.

— Eles estão fugindo — disse Helena.

— Essa hipótese foi considerada.

— Não é uma hipótese. É o padrão que os dados indicam. Eles não estão atacando aleatoriamente. Estão respondendo a alguma coisa.

— Doutora, as criaturas destruíram cidades inteiras.

— E depois recuaram. Você viu as imagens? Centenas delas abandonaram a superfície ao mesmo tempo. Se quisessem exterminar a população, teriam permanecido. Elas estão se deslocando para a região montanhosa porque existe algo aqui que as atrai ou aterroriza.

Ferraz apoiou as mãos na mesa.

— Nós também detectamos esse movimento.

— Então me mostre os dados completos.

— Não posso entregar informações classificadas.

Helena soltou uma risada sem humor.

— O mundo está desmoronando, coronel. Seus segredos não vão sobreviver se nós não sobrevivermos.

Por alguns segundos, apenas os ventiladores dos computadores produziram ruído.

Então Ferraz fez um gesto para a mulher.

— Mostre a ela os registros das últimas seis horas.

A mulher hesitou.

— Senhor, o protocolo de segurança—

— Mostre.

Ela tocou na tela.

Uma série de imagens surgiu no painel principal. Os registros mostravam variações sísmicas, deslocamentos de massa e leituras de sensores instalados em profundidade.

Helena examinou os gráficos.

Sua expressão mudou.

— Isso não é possível.

Daniel reconheceu aquelas palavras. Já as ouvira vezes demais.

— O que foi?

Ela ampliou uma das leituras.

— As criaturas produzem vibrações irregulares. Os sinais variam conforme o movimento delas. Mas este padrão...

Uma linha atravessava o gráfico em intervalos quase perfeitos.

Pulsos profundos, regulares, cada vez mais intensos.

— É o mesmo sinal que detectamos no helicóptero — disse Daniel.

— Sim. Mas aqui há algo diferente.

Helena apontou para a sequência.

Entre cada pulso, apareciam pequenas oscilações, como respostas vindas de outros pontos da rede subterrânea.

— O sinal principal está emitindo uma frequência. As estruturas ao redor estão respondendo.

— Como se fosse uma comunicação? — perguntou Ricardo.

— Talvez. Ou como se estivesse tentando ativar alguma coisa.

A mulher ampliou a imagem.

De repente, um dos pontos vermelhos do mapa mudou de cor.

Depois outro.

E outro.

Os sinais se espalharam pelo painel, aproximando-se da região central.

Helena ficou pálida.

— Não estão apenas respondendo.

— O que quer dizer? — perguntou Ferraz.

Ela olhou diretamente para o coronel.

— Estão abrindo caminho.

Antes que alguém pudesse responder, um soldado entrou na sala sem bater.

— Senhor! Precisamos de autorização para evacuar o setor inferior.

Ferraz virou-se.

— O que aconteceu?

— Encontramos uma nova fissura atrás do depósito de ferramentas. Ela atravessa a parede do corredor técnico.

— Há quanto tempo?

— Menos de dez minutos.

— Alguém ficou ferido?

O soldado hesitou.

— Não, senhor. Mas encontramos algo junto à fissura.

Helena aproximou-se.

— O quê?

O homem olhou para ela, depois para o coronel.

— Ossos.

Ferraz fechou os olhos por um instante.

— Mostre a localização.

— Setor inferior dois. Próximo à câmara de drenagem.

— Quantos?

O soldado engoliu em seco.

— Não sabemos. A maior parte ainda está enterrada.

Helena já estava caminhando para a porta.

— Quero ver.

— Doutora, não podemos permitir—

— Se são ossos humanos, preciso saber há quanto tempo estão ali. Se não são humanos, precisamos saber o que são.

O coronel pegou uma lanterna e uma arma curta.

— Ninguém vai sozinho. Mendes, reúna uma equipe. Máscaras, lanternas e sensores portáteis. Quero o corredor isolado até avaliarmos a situação.

Daniel ajustou a câmera.

— Estou indo também.

Ferraz olhou para ele.

— Isso não é uma visita guiada.

— Se encontraram algo que pode explicar o que está acontecendo, as pessoas precisam saber.

— Se começar a atrapalhar, será retirado à força.

— Entendido.

Ricardo suspirou.

— Eu devia ter ficado no helicóptero.

Apesar da reclamação, acompanhou-os.

O grupo desceu por uma escadaria estreita até o primeiro nível técnico. O ar ficou mais frio a cada lance. A iluminação de emergência piscava, lançando sombras sobre as tubulações. Em alguns trechos, a água escorria pelas paredes, formando pequenas poças no chão.

Quanto mais desciam, mais intenso ficava o cheiro metálico.

Ao chegarem ao segundo nível, encontraram dois soldados bloqueando um corredor com fitas de isolamento. Atrás deles, uma parede de concreto apresentava uma rachadura vertical que se estendia do teto até o chão.

A fissura não era larga o suficiente para uma pessoa passar.

Mas o concreto ao redor estava deformado para fora, como se alguma coisa tivesse pressionado a parede pelo lado oposto.

O soldado que os acompanhava apontou para uma abertura menor junto ao piso.

— Foi por aqui que vimos os primeiros fragmentos.

Helena ajoelhou-se e iluminou a abertura.

Havia uma substância escura entre as pedras. Não parecia lama nem carvão. A superfície era lisa e brilhava como vidro.

Ela tocou o material com uma ferramenta metálica.

Um som agudo ecoou pelo corredor.

Todos se afastaram.

— O que foi isso? — perguntou Ricardo.

Helena examinou a ferramenta.

— A substância está vibrando.

— Mas você acabou de tocar nela — disse Daniel.

— Não estou falando do som que produzimos. Observem.

Ela aproximou novamente a ferramenta, sem encostar.

O material começou a emitir um zumbido baixo.

Uma vibração percorreu o chão.

Os sensores presos ao uniforme do soldado apitaram.

— Está aumentando! — avisou ele.

Helena retirou a ferramenta.

O zumbido cessou.

Daniel filmou a abertura.

— Isso estava na parede?

— Não. Parece ter vindo do outro lado — respondeu Helena.

O coronel fez sinal para dois soldados avançarem.

Eles usaram ferramentas para remover alguns fragmentos de concreto. A abertura aumentou, revelando um espaço estreito, escuro e irregular.

O feixe de uma lanterna atravessou a fissura.

Algo branco apareceu entre as pedras.

Um osso.

Era comprido, espesso e curvado. Um dos soldados tentou retirá-lo, mas não conseguiu movê-lo.

— Preciso de ajuda.

Outro homem se aproximou e os dois puxaram juntos.

O fragmento deslizou para fora.

Daniel ficou sem fala.

O osso era maior do que o tronco de um homem adulto. Sua superfície estava coberta por sulcos profundos, e uma das extremidades apresentava uma articulação enorme, larga o suficiente para acomodar uma estrutura óssea de proporções absurdas.

Helena aproximou a lanterna.

— Isso não pertence a nenhum animal conhecido desta região.

— Pode ser de um dinossauro? — perguntou Ricardo.

— Não. A forma da articulação é diferente. E o material parece ter sido submetido a uma pressão extraordinária.

Ela mediu o fragmento com os olhos.

— Se esse osso pertence a um único esqueleto, o animal teria dimensões muito superiores às das criaturas que vimos na superfície.

O coronel encarou a abertura.

— Há quanto tempo está enterrado?

Helena não respondeu.

Retirou uma pequena lâmina de coleta e raspou cuidadosamente a superfície. O fragmento liberou um pó escuro que caiu sobre a luva.

Ela observou a amostra sob a luz.

— Não há sinais de decomposição recente. Mas isso não significa que seja antigo. Precisamos analisar a composição.

— Encontramos outros — disse o soldado.

Ele apontou para dentro da abertura.

As lanternas iluminaram uma série de estruturas brancas parcialmente cobertas por rocha. Havia costelas, vértebras e placas ósseas sobrepostas. Algumas eram tão grandes que pareciam colunas de sustentação.

Daniel aproximou a câmera.

O conjunto não se parecia com um esqueleto completo.

Parecia um cemitério.

Dezenas de estruturas gigantescas estavam comprimidas umas contra as outras, como se muitas criaturas tivessem sido empilhadas naquele lugar.

Helena avançou um passo.

— Meu Deus...

No fundo, quase escondido pelas sombras, havia um crânio.

Era largo e achatado, com duas cavidades oculares enormes. Uma fileira de estruturas pontiagudas se projetava da mandíbula. O crânio estava rachado ao meio, mas suas dimensões eram suficientes para fazer qualquer um compreender que aquilo não pertencia a uma criatura comum.

Daniel ajustou o foco.

No interior de uma das cavidades oculares, algo refletiu a luz.

Ele pensou que fosse um pedaço de mineral.

Então o reflexo se moveu.

— Helena...

Ela olhou para a câmera.

— O que foi?

Daniel apontou a lanterna para o crânio.

O brilho havia desaparecido.

— Achei que tivesse visto alguma coisa.

Um dos soldados aproximou-se da abertura.

— Não há movimento no interior. Os sensores estão limpos.

Helena examinou os ossos com atenção.

— Essas estruturas não foram simplesmente enterradas. Observem as marcas.

Vários sulcos paralelos percorriam a superfície das costelas. Não pareciam rachaduras provocadas pelo peso da rocha. Eram profundas e regulares, como cortes produzidos por uma ferramenta.

— Alguém fez isso — disse Daniel.

— Ou alguma coisa — corrigiu Helena.

O coronel recuou.

— Vamos recolher amostras e fechar o corredor.

— Não podemos fechar ainda — protestou Helena. — Precisamos descobrir o que existe além dessa abertura.

— A segurança desta instalação é minha responsabilidade.

— E se esses ossos forem de criaturas que morreram tentando escapar do que está no fundo? Se houver uma passagem por trás deles, fechar essa fissura não vai resolver nada.

Ferraz encarou-a.

— A última equipe que entrou em um corredor não mapeado perdeu contato em quatro minutos.

— E o senhor pretende repetir o mesmo erro?

O coronel apertou a mandíbula.

Por fim, autorizou que dois soldados avançassem alguns metros, presos por cabos de segurança.

Eles entraram na abertura com lanternas e sensores. A cada passo, a passagem ficava mais estreita. As paredes eram compostas de rocha escura, interrompidas por fragmentos ósseos que pareciam ter crescido junto ao material mineral.

Um dos soldados transmitia a posição pelo rádio.

— Estamos avançando cerca de seis metros. A temperatura está caindo. Há uma passagem à frente.

— Consegue ver o fim? — perguntou Mendes.

— Negativo. O corredor continua descendo.

O segundo soldado iluminou o chão.

— Esperem. Há marcas aqui.

Helena se aproximou do rádio.

— Que tipo de marcas?

A resposta veio depois de alguns segundos.

— Pegadas.

Daniel sentiu um arrepio percorrer a nuca.

— De quê?

O soldado demorou a responder.

— São grandes demais para serem humanas. Mas não parecem pertencer às criaturas da superfície.

O sinal começou a falhar.

— Repita a última mensagem — ordenou Ferraz.

Um ruído estático preencheu o corredor.

Então uma voz surgiu no rádio.

Não era a voz do soldado.

Era grave, profunda e distorcida, como se viesse de muito longe.

— ...não abram...

Todos ficaram imóveis.

Helena agarrou o comunicador.

— Quem está falando? Identifique-se!

A voz voltou.

— ...não abram a segunda...

O sinal desapareceu.

Ferraz arrancou o rádio das mãos dela.

— Equipe, retornem imediatamente. Repito: retornem agora.

Não houve resposta.

O coronel acionou o canal de emergência.

— Soldado Mendes, localize a equipe. Quero os dois homens de volta imediatamente!

O rádio estalou.

Uma respiração pesada atravessou o alto-falante.

Depois, uma voz desesperada.

— Senhor... encontramos uma porta.

Helena ficou branca.

— Uma porta? — perguntou ela. — Descreva a estrutura!

— É enorme. Tem símbolos gravados na superfície. Mas não é igual às outras.

— O que há de diferente?

O soldado começou a falar mais depressa.

— Há alguma coisa escrita aqui. Não consigo entender. Parece que as marcas estão se movendo.

Helena olhou para Daniel.

— As marcas não se movem. Elas reagem às vibrações.

Um ruído metálico ecoou pelo rádio.

O soldado gritou.

— Ela está vibrando!

O canal foi tomado por uma sequência de estalos.

Então surgiu um som que ninguém confundiria com interferência.

Uma batida.

Profunda.

Lenta.

Como um golpe desferido do outro lado de uma parede colossal.

O chão do corredor tremeu.

Poeira caiu do teto.

Os soldados apontaram as armas para a abertura, enquanto Helena segurava o equipamento com as duas mãos.

Uma segunda batida fez as lâmpadas piscarem.

Depois, uma terceira.

O som não vinha da passagem por onde os soldados haviam entrado.

Vinha de trás das paredes da instalação.

Daniel recuou até encostar em uma tubulação.

— Isso está vindo de onde?

Helena olhou para o mapa que carregava no equipamento.

Os sinais estavam mudando tão depressa que mal conseguia acompanhá-los.

— De todos os lados — sussurrou ela.

Uma quarta batida percorreu a estrutura.

Dessa vez, alguma coisa respondeu no nível superior.

Depois outra resposta surgiu sob seus pés.

O abrigo inteiro parecia estar cercado por enormes estruturas que despertavam uma após a outra.

O coronel ordenou a retirada do setor. Os soldados começaram a recuar, puxando os cabos de segurança. Mas, quando tentaram trazer os dois homens de volta, encontraram o primeiro cabo esticado até ficar quase rígido.

— Puxem! — gritou Mendes.

Três soldados agarraram a linha e começaram a recolhê-la.

Ela deslizou alguns centímetros.

Depois parou.

Do outro lado, alguma coisa segurava o cabo.

— Cortem a energia do setor! — ordenou Ferraz.

As lâmpadas se apagaram.

Durante um segundo, o corredor mergulhou na escuridão absoluta.

Então as luzes de emergência acenderam, tingindo tudo de vermelho.

A voz do primeiro soldado surgiu no rádio.

— Senhor... tem alguma coisa atrás de nós.

Um grito cortou a transmissão.

O cabo de segurança foi puxado violentamente para dentro da abertura.

Mendes e os outros soldados caíram para trás.

A linha desapareceu no escuro.

Ninguém se moveu.

O rádio continuava ligado.

Ouviu-se uma respiração rápida, seguida por um ruído de passos sobre pedra.

Depois, a voz do segundo soldado surgiu, quase inaudível.

— Não é uma porta...

Uma pausa.

— É uma parede.

Helena aproximou-se do comunicador.

— O que existe do outro lado?

A resposta veio acompanhada de um som de metal sendo esmagado.

— Uma parede que está segurando alguma coisa.

Então o soldado começou a chorar.

— E ela está quebrando.

Um estrondo sacudiu o abrigo.

O corredor inteiro se deformou. Uma rachadura atravessou a parede de concreto, espalhando fragmentos pelo chão. As luzes se apagaram outra vez, e o som de algo gigantesco arrastando-se atrás da estrutura fez os sobreviventes gritarem.

Daniel ergueu a câmera no escuro.

Quando as luzes vermelhas voltaram, a abertura onde estavam os ossos havia aumentado.

O crânio colossal continuava no mesmo lugar.

Mas agora havia uma marca nova em sua superfície.

Uma fissura fina, recém-aberta, atravessava o osso de uma extremidade à outra.

Helena olhou para a rachadura.

— Isso não estava assim antes.

Uma batida ensurdecedora atingiu o lado oposto da parede.

O concreto se curvou para dentro.

Outra batida.

Uma das tubulações rompeu-se, lançando vapor pelo corredor.

O coronel ordenou que todos recuassem.

Daniel tentou acompanhar Helena, mas ela permanecia imóvel, observando os instrumentos. Na tela, as frequências subterrâneas haviam se transformado em uma sequência de pulsos sincronizados.

Não eram tremores aleatórios.

Era um ritmo.

Uma chamada.

E, em algum lugar abaixo deles, alguma coisa respondia.

Helena finalmente ergueu a cabeça.

— Precisamos sair deste nível.

— Por quê? — perguntou Ricardo.

Ela apontou para os gráficos.

— Porque o sinal não está vindo de fora do abrigo.

A parede atrás deles estremeceu.

Helena engoliu em seco.

— Está vindo de dentro.

O som seguinte foi tão forte que todos sentiram a vibração nos dentes.

Uma seção inteira do revestimento se desprendeu, revelando uma superfície escura por trás do concreto. Nela havia símbolos antigos, idênticos aos encontrados nas barreiras subterrâneas.

Só que aqueles símbolos estavam acesos.

Linhas azuladas percorreram a parede, conectando marcas que pareciam formar um mapa.

No centro, um símbolo circular começou a pulsar.

O coronel recuou, horrorizado.

— Esta parede não estava nos projetos.

Helena aproximou a lanterna.

— Não é uma parede comum.

A superfície escura se moveu lentamente.

Uma linha vertical apareceu no centro do círculo, abrindo-se como uma fenda estreita.

Do outro lado, não havia pedra.

Havia escuridão.

E, no fundo daquela escuridão, duas luzes brancas se acenderam.

Daniel sentiu a câmera escorregar em suas mãos.

As luzes se aproximaram.

A parede inteira gemeu sob uma pressão imensa.

Então alguma coisa bateu do outro lado.

Uma única vez.

O impacto lançou todos ao chão.

E, quando o silêncio voltou por um instante, uma voz atravessou a fenda, profunda o bastante para fazer as estruturas metálicas vibrarem.

— Finalmente encontrei vocês.

Helena reconheceu o padrão da voz.

Era o mesmo que ouvira onze anos antes, durante a expedição que custara a vida de seus colegas.

A voz pronunciou seu nome.

— Helena Vasconcelos...

Ela parou de respirar.

A fenda começou a se alargar.

— Você voltou para terminar o que começou.

E, atrás daquela parede, alguma coisa gigantesca começou a empurrar.

Corrija a continuidade da expedição de HelenaEsclareça quantos sobreviventes chegaram

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