As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 2 — DEBAIXO DA CIDADE

 A palavra ainda ecoava na cabeça de Daniel quando as luzes do laboratório voltaram a piscar.

— Finalmente...

Ele permaneceu imóvel.

Não sabia se realmente tinha ouvido aquela voz ou se o som havia sido produzido pela vibração das paredes. Talvez fosse apenas sua mente tentando transformar o medo em alguma coisa compreensível.

Mas havia uma coisa da qual tinha certeza.

O sinal subterrâneo continuava se movendo.

Daniel correu até o computador reserva e ligou o sistema manualmente. A tela demorou alguns segundos para responder.

Quando finalmente acendeu, dezenas de linhas apareceram.

Ele ampliou os dados.

Os sensores registravam atividade em vários pontos abaixo da cidade.

Não eram ondas sísmicas normais.

Daniel conhecia terremotos. Havia estudado o comportamento de falhas geológicas durante anos.

Um terremoto começava em uma região e suas ondas se espalhavam.

Aquilo era diferente.

Os pulsos apareciam em sequência.

Como se algo estivesse transmitindo sinais.

Daniel abriu o histórico.

O primeiro tremor havia começado às 2h17.

Depois vieram os outros.

2h31.

2h34.

2h47.

3h08.

3h21.

3h37.

3h42.

Ele observou os horários.

Algo chamou sua atenção.

A diferença entre alguns eventos parecia aleatória.

Mas não era.

Daniel pegou uma folha e começou a calcular.

A cada novo tremor, o epicentro se deslocava alguns quilômetros.

Sempre na mesma direção.

Ele marcou os pontos em um mapa.

Norte.

Nordeste.

Leste.

Depois sudeste.

A linha formada pelas marcações parecia uma curva gigantesca atravessando a cidade.

Daniel ficou olhando.

— Você está indo para algum lugar...

Um estrondo interrompeu seu pensamento.

O laboratório inteiro tremeu.

Livros caíram das estantes.

Um equipamento bateu contra o chão.

Daniel se apoiou na mesa.

O computador registrou o novo evento.

3h49.

O ponto apareceu no mapa.

Daniel congelou.

O novo epicentro estava exatamente sob a praça central.

Ele pegou o casaco e correu.


A praça central de Santa Aurora havia se transformado em uma zona de emergência.

Policiais cercavam a área.

Bombeiros iluminavam os prédios com lanternas.

Cabos elétricos pendiam das fachadas.

Algumas ruas estavam completamente destruídas.

No meio da praça havia uma enorme rachadura.

Daniel chegou perto da barreira.

— Preciso entrar.

Um policial o impediu.

— Ninguém entra.

— Sou jornalista.

— Não importa.

Daniel mostrou sua identificação.

— Preciso falar com alguém da prefeitura.

— O prefeito está no ginásio.

— Então me leve até ele.

O policial hesitou.

Antes que pudesse responder, outro tremor começou.

A praça inteira se moveu.

As pessoas gritaram.

Daniel caiu de joelhos.

Uma estátua no centro da praça começou a inclinar.

Então uma parte do chão desabou.

A abertura aumentou.

O policial puxou Daniel para trás.

— Todo mundo para longe!

O desabamento revelou uma cavidade abaixo da praça.

Daniel iluminou o interior.

Havia concreto.

Tubulações.

Cabos.

Mas, muito mais abaixo, algo chamou sua atenção.

Uma parede de pedra.

Não parecia natural.

Era lisa.

Curvada.

Como se tivesse sido construída.

Daniel se aproximou alguns metros da borda.

— Isso estava aqui?

O policial respondeu:

— Não faço ideia.

Daniel fotografou.

Depois outra coisa aconteceu.

Um som veio do buraco.

Baixo.

Distante.

Respiração.

Daniel sentiu o sangue gelar.

Não era um rugido.

Era uma inspiração profunda.

Depois uma expiração.

O som parecia vir de quilômetros abaixo.

— Afaste-se! — gritou alguém.

Daniel recuou.

Uma pequena pedra caiu no buraco.

Todos ficaram esperando.

Nada aconteceu.

Por alguns segundos.

Então uma enorme sombra passou no fundo da abertura.

Rápida demais para ser identificada.

As pessoas começaram a gritar.

O policial levantou a arma.

— Todo mundo para trás!

Daniel ficou olhando.

A criatura não havia desaparecido.

Ela estava embaixo deles.


Às 4h15, a cidade recebeu uma ordem de evacuação parcial.

Os bairros próximos às rachaduras deveriam ser abandonados.

Caminhões começaram a transportar moradores.

As autoridades estaduais anunciaram que se tratava de uma sequência de eventos sísmicos sem precedentes.

Nenhuma palavra foi dita sobre criaturas.

Nenhuma palavra foi dita sobre os sons.

Nenhuma palavra foi dita sobre os olhos vermelhos.

Daniel percebeu imediatamente.

Alguém estava tentando controlar a informação.

No ginásio municipal, ele encontrou o prefeito.

— Preciso falar com o senhor.

Augusto parecia exausto.

— Daniel, agora não.

— O senhor sabe o que está acontecendo?

— Estamos investigando.

— Isso não é um terremoto comum.

O prefeito olhou para ele.

— Eu sei.

— Então por que estão dizendo que é?

Augusto ficou em silêncio.

— Porque ainda não temos uma explicação.

— Eu tenho imagens.

O prefeito franziu a testa.

— Que imagens?

— Câmeras de segurança. A criatura saindo do chão.

Augusto imediatamente olhou para os policiais próximos.

— Onde conseguiu?

— Ainda não consegui. Mas sei onde estão.

— Daniel...

— Se o governo esconder isso, alguém vai descobrir de qualquer maneira.

— Você não entende a situação.

— Então me explique.

O prefeito respirou fundo.

— Há pessoas entrando em pânico. Se essas imagens forem divulgadas agora, pode haver uma tragédia.

Daniel respondeu:

— Já existe uma tragédia.

Augusto não respondeu.

Antes que pudesse continuar, um homem de terno escuro apareceu.

Ele não usava uniforme.

Aproximou-se do prefeito e falou baixo.

— Precisamos conversar.

Augusto fez um gesto para Daniel esperar.

Os dois se afastaram.

Daniel observou.

O homem entregou uma pasta preta ao prefeito.

Daniel não conseguiu ouvir a conversa.

Mas percebeu algo.

O homem apontou para as câmeras instaladas no ginásio.

Depois apontou para a pasta.

O prefeito empalideceu.


Daniel saiu do ginásio alguns minutos depois.

Não tinha conseguido respostas.

Mas havia conseguido uma pista.

A central de monitoramento da cidade ficava no prédio da prefeitura.

Todas as câmeras públicas eram gravadas ali.

Se existia uma imagem da criatura, ela estava naquele lugar.

Daniel conhecia um dos técnicos responsáveis pelo sistema.

Seu nome era Ricardo.

Encontrou-o perto de uma ambulância.

— Ricardo.

O técnico olhou para os lados.

— Você não deveria estar aqui.

— Preciso das gravações.

— De quê?

— Da Avenida Central.

Ricardo ficou pálido.

— Não posso.

— Por quê?

— Recebi ordens.

— De quem?

Ricardo não respondeu.

Daniel aproximou-se.

— Ricardo, eu vi a criatura.

O técnico baixou a cabeça.

— Todos vimos.

Daniel ficou surpreso.

— Então existem gravações.

— Existem.

— Quero ver.

— Foram recolhidas.

— Por quem?

Ricardo olhou novamente ao redor.

— Homens do governo.

— Governo estadual?

— Não sei.

— Eles apagaram?

Ricardo demorou para responder.

— Tentaram.

Daniel estreitou os olhos.

— Tentaram?

Ricardo retirou discretamente um pequeno cartão de memória do bolso.

— Fiz uma cópia.

Daniel olhou para o cartão.

— Onde?

— Não aqui.

— Então onde?

— Minha casa.

— Sua casa está em uma área de evacuação.

Ricardo engoliu em seco.

— Eu sei.


Os dois atravessaram algumas ruas secundárias.

A cidade parecia abandonada.

As casas estavam com portas abertas.

Veículos permaneciam parados no meio das ruas.

Alarmes tocavam sem parar.

Em alguns pontos, o asfalto havia se elevado como uma onda congelada.

Daniel olhava constantemente para o chão.

Tinha a sensação de que algo estava observando os dois.

Quando chegaram à casa de Ricardo, a porta estava aberta.

— Eu deixei trancada — disse ele.

Daniel parou.

— Tem certeza?

Ricardo assentiu.

Os dois entraram.

A casa estava vazia.

Gavetas haviam sido abertas.

Papéis estavam espalhados.

Um computador estava no chão.

Ricardo correu até o quarto.

O esconderijo estava vazio.

— Não...

— O cartão?

— Levaram.

Daniel fechou os olhos.

Então percebeu alguma coisa.

Uma luz piscando no corredor.

Era uma câmera doméstica.

Ricardo a instalara semanas antes.

Ele ligou o monitor.

A gravação estava disponível.

Daniel avançou rapidamente.

Às 4h28, três homens entraram na casa.

Todos vestiam roupas escuras.

Um deles carregava um equipamento.

Eles procuraram por alguma coisa.

Depois encontraram o cartão.

Ricardo ficou imóvel.

— Eles sabiam.

Daniel continuou assistindo.

Um dos homens olhou diretamente para a câmera.

Então a gravação terminou.

— Eles sabiam que você tinha feito uma cópia — disse Daniel.

Ricardo respondeu:

— Não.

Ele apontou para a tela.

— Eles sabiam que eu tinha visto as imagens.

Daniel voltou a gravação.

O homem que havia olhado para a câmera parecia usar um pequeno dispositivo no ouvido.

Antes de sair, falou alguma coisa.

Não havia áudio suficiente.

Daniel aumentou o volume.

Ruído.

Estática.

Depois uma frase quase inaudível.

— Não deixem chegar ao setor sete.

Daniel parou.

— Setor sete?

Ricardo olhou para ele.

— O que é isso?

— Não sei.

Daniel voltou ao computador.

— Mas alguém sabe.


Naquela mesma hora, em um centro de comando improvisado fora da cidade, um grupo de pessoas observava imagens de satélite.

Uma mulher apontou para a tela.

— Novo deslocamento.

Um operador ampliou a imagem.

— Magnitude quatro vírgula oito.

— Epicentro?

— Setor industrial.

— Profundidade?

O operador hesitou.

— Oitocentos metros.

A mulher ficou em silêncio.

— Muito raso.

— Sim.

Outro operador falou:

— Temos movimento subterrâneo.

— Em que direção?

— Norte.

Ela olhou para o mapa.

— De novo.

— Sim.

— Está seguindo a rota.

Um homem atrás dela perguntou:

— Devemos informar a população?

Ela virou-se.

— Não.

— Mas se continuar...

— Ainda não.

— E as criaturas?

A mulher olhou para a tela.

Uma imagem congelada mostrava a criatura saindo da Avenida Central.

— Não são criaturas.

O homem franziu a testa.

— Então o que são?

Ela demorou para responder.

— Ainda não sabemos.


Daniel voltou à universidade.

Ricardo insistiu em acompanhá-lo.

O laboratório subterrâneo era o único lugar onde poderiam analisar os registros.

Daniel conectou os sensores.

— Veja isso.

O mapa apareceu.

Os pontos de atividade subterrânea estavam aumentando.

— Quantos? — perguntou Ricardo.

— Vinte e três.

— Vinte e três criaturas?

— Não sei.

Daniel ampliou uma região.

— Olhe os intervalos.

Ricardo observou.

— O que tem?

— Eles não estão acontecendo aleatoriamente.

Daniel marcou cada epicentro.

Depois ligou os pontos.

Uma linha apareceu.

Era quase perfeita.

Os terremotos estavam desenhando uma trajetória.

Daniel continuou.

O próximo ponto apareceu automaticamente.

Ele estava a nove quilômetros dali.

Depois outro.

E outro.

— Eles estão indo para algum lugar — disse Ricardo.

— Sim.

— Para onde?

Daniel ampliou o mapa.

A trajetória seguia para fora da cidade.

Depois fazia uma curva.

E retornava.

Daniel arregalou os olhos.

— Não.

— O quê?

— Eles estão circulando.

— Circulando o quê?

Daniel aumentou a escala.

No centro do desenho havia uma área sem atividade.

Uma região subterrânea onde nenhum tremor havia sido registrado.

Ele reconheceu o local.

— A antiga mina.

Ricardo ficou olhando.

— Aquela mina foi fechada há cinquenta anos.

— Eu sei.

— Então por que os terremotos estão formando um círculo em volta dela?

Daniel não respondeu.


Às 5h16, ocorreu o maior tremor desde o início da madrugada.

O chão se moveu violentamente.

Parte do telhado da universidade desabou.

Computadores caíram.

Ricardo foi lançado contra uma parede.

Daniel segurou a mesa.

Um estrondo atravessou o prédio.

Depois outro.

A energia acabou.

O laboratório ficou completamente escuro.

— Daniel!

— Estou aqui!

— Você está bem?

— Sim!

Um som começou a surgir abaixo deles.

Não era um rugido.

Era algo diferente.

Um som metálico.

Como se enormes placas estivessem raspando umas nas outras.

Daniel pegou uma lanterna.

— Temos que sair.

Eles subiram as escadas.

Quando chegaram ao primeiro andar, encontraram uma enorme rachadura atravessando o corredor.

Ela não estava ali antes.

Daniel iluminou a abertura.

A rachadura continuava descendo.

Muito fundo.

Então alguma coisa se moveu.

Ricardo recuou.

— Você viu?

Daniel assentiu.

— Vi.

Um ruído veio de dentro.

Depois outro.

Daniel apontou a lanterna.

Por um breve instante, viu uma superfície coberta de placas escuras.

Ela desapareceu.

— Vamos.

Os dois correram.


Às 5h31, as primeiras imagens começaram a circular secretamente entre jornalistas de outras cidades.

Um vídeo de poucos segundos.

Uma criatura emergindo do chão.

Pessoas correndo.

Uma viatura sendo destruída.

Depois a gravação terminava.

Daniel recebeu o arquivo no celular.

Não sabia quem havia enviado.

Mas reconheceu a câmera.

Era uma das gravações da prefeitura.

Ele abriu.

A imagem mostrava a Avenida Central pouco antes do ataque.

A rua estava vazia.

Nada acontecia.

Então uma rachadura surgiu.

A câmera tremeu.

O chão abriu.

A criatura apareceu.

Daniel assistiu novamente.

Dessa vez, percebeu algo.

Antes de surgir, a criatura havia parado.

Como se estivesse esperando.

Então olhou diretamente para a câmera.

Por um segundo, seus olhos vermelhos ficaram perfeitamente alinhados com a lente.

Daniel pausou a imagem.

— Ela sabia.

Ricardo aproximou-se.

— Sabia o quê?

— Que estava sendo observada.

Daniel ampliou a imagem.

Havia algo atrás da criatura.

Uma segunda forma.

Muito maior.

Quase invisível dentro da poeira.

Ele aumentou o contraste.

Ricardo ficou sem palavras.

A silhueta ocupava quase toda a rua.

— Isso é impossível...

Daniel olhou para o relógio.

5h34.

Então o computador de emergência emitiu um alerta.

Novo tremor.

Epicentro: setor industrial.

Profundidade: seiscentos metros.

Daniel abriu o mapa.

O ponto apareceu.

Depois outro alerta.

Novo tremor.

Profundidade: quatrocentos metros.

Outro.

Duzentos metros.

Daniel começou a entender.

— Estão subindo.

Ricardo ficou pálido.

— Quem?

Daniel observou os pontos se aproximando da superfície.

— Não sei.

Um quarto alerta apareceu.

Depois um quinto.

Os tremores estavam acontecendo em sequência.

Cada vez mais rasos.

Cada vez mais próximos do centro da cidade.

Daniel percebeu que o padrão não era apenas uma rota.

Era uma contagem regressiva.

Os terremotos estavam marcando etapas.

E o último ponto do mapa estava exatamente abaixo da prefeitura.

Daniel pegou o casaco.

— Temos que ir.

— Para onde?

Ele olhou para o mapa.

— Para a prefeitura.

— Por quê?

Daniel apontou para a tela.

— Porque alguma coisa vai sair de lá.

Antes que Ricardo pudesse responder, todas as luzes da cidade se apagaram.

Então um som gigantesco veio debaixo deles.

Não era um rugido.

Era um grito.

A terra começou a se levantar.

As ruas se deformaram.

Prédios tremeram.

E, no centro de Santa Aurora, a prefeitura começou a afundar lentamente.

Daniel e Ricardo correram em direção à rua.

Atrás deles, o chão abriu uma enorme fissura.

Por alguns segundos, tudo ficou silencioso.

Então algo bateu contra o concreto abaixo da prefeitura.

Uma vez.

Duas.

Três.

Na quarta pancada, o prédio inteiro estremeceu.

Daniel olhou para o mapa.

O último ponto havia acabado de desaparecer.

E uma nova marca surgiu.

Não embaixo da cidade.

Mas diretamente sobre ela.

Como se alguma coisa tivesse finalmente alcançado a superfície.

Daniel levantou os olhos.

No horizonte, entre os prédios escuros, uma enorme sombra começou a se erguer.

E dessa vez, não havia apenas dois olhos vermelhos.

Havia dezenas.

E todos estavam olhando para Santa Aurora.

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