As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 3 — A SEGUNDA CRIATURA
Às 6h02 da manhã, a cidade de Vale do Norte recebeu o primeiro alerta.
No início, ninguém levou a mensagem a sério.
Era apenas uma notificação emergencial nos telefones celulares, enviada pelo sistema estadual de proteção civil.
ATENÇÃO: EVITE DESLOCAMENTOS. PERMANEÇA EM LOCAL SEGURO.
Nenhuma explicação.
Nenhuma referência a terremotos.
Nenhuma menção às imagens que já começavam a circular clandestinamente pela internet.
As pessoas saíram de suas casas e foram trabalhar.
Ônibus começaram a circular.
Padarias abriram.
Crianças caminhavam para as escolas.
Vale do Norte ficava a quase cento e cinquenta quilômetros de Santa Aurora e, até aquela manhã, era conhecida como uma cidade industrial tranquila.
Tinha pouco mais de cem mil habitantes.
Era maior que Santa Aurora e possuía uma extensa zona industrial, uma estação ferroviária, um aeroporto regional e uma importante rodovia que ligava várias cidades.
Às 6h11, os primeiros cães começaram a latir.
Às 6h13, os pássaros abandonaram as árvores.
Às 6h15, os semáforos começaram a piscar.
Às 6h17, um caminhão perdeu o controle quando o asfalto tremeu.
O motorista conseguiu parar.
Saiu da cabine.
Olhou para a estrada.
Uma pequena rachadura atravessava a pista.
— Não...
A rachadura aumentou.
O homem deu dois passos para trás.
Então ouviu um som.
Grave.
Distante.
Profundo.
Ele olhou para os prédios.
As janelas começaram a vibrar.
O som cresceu.
Um estrondo atravessou a cidade.
E o chão se abriu.
A primeira rachadura apareceu na Avenida Industrial.
Depois outra.
Depois cinco.
Em menos de um minuto, dezenas de fissuras atravessavam as ruas.
As pessoas começaram a correr.
Um ônibus foi atingido quando uma parte da pista afundou.
O motorista freou.
Passageiros gritaram.
O veículo inclinou-se perigosamente.
— Saiam! Saiam do ônibus!
As portas abriram.
As pessoas desceram correndo.
Uma mulher segurava uma criança.
Um homem carregava uma mochila.
Um idoso tentava caminhar enquanto era ajudado por dois desconhecidos.
Ninguém sabia o que estava acontecendo.
Então veio o rugido.
Dessa vez, não parecia distante.
Parecia estar debaixo dos pés de todos.
As pessoas congelaram.
O som continuou.
Um rugido longo.
Violento.
Animal.
Mas havia alguma coisa diferente nele.
Parecia existir uma espécie de vibração dentro do som, como se a criatura estivesse emitindo uma frequência capaz de atravessar concreto e metal.
Um prédio industrial perdeu parte das janelas.
Alarmes começaram a tocar.
E então o asfalto explodiu.
Uma enorme quantidade de terra e concreto foi lançada para cima.
Uma nuvem de poeira cobriu a avenida.
Algo surgiu no meio dela.
Primeiro, uma cabeça.
Depois os ombros.
A criatura levantou-se lentamente.
Tinha quase quatro metros de altura.
Seu corpo era mais largo que o monstro visto em Santa Aurora.
As placas que cobriam sua pele eram escuras, mas apresentavam linhas azuladas que pulsavam como veias luminosas.
Seus braços terminavam em mãos enormes.
Os olhos eram completamente negros.
Nenhuma luz.
Nenhum brilho.
Apenas dois círculos escuros.
A criatura olhou para os prédios.
Depois abriu a boca.
O rugido seguinte derrubou pessoas no chão.
E Vale do Norte entrou em pânico.
Às 6h29, todas as estradas que saíam da cidade começaram a ficar congestionadas.
Milhares de pessoas tentavam fugir ao mesmo tempo.
Carros ocupavam todas as pistas.
Alguns motoristas dirigiam pelos acostamentos.
Outros abandonaram os veículos e começaram a correr.
Famílias carregavam malas.
Motociclistas passavam entre os carros.
Caminhões bloqueavam cruzamentos.
A cidade inteira parecia estar tentando escapar por quatro grandes rodovias.
Um homem gritava pela janela:
— VÃO PARA O SUL!
Outro respondia:
— A ESTRADA ESTÁ BLOQUEADA!
— ENTÃO VÁ PARA O LESTE!
— NÃO TEM COMO!
Helicópteros sobrevoavam a região.
As imagens transmitidas pelas câmeras aéreas mostravam uma situação assustadora.
A criatura caminhava pela zona industrial.
Cada passo fazia o chão tremer.
Galpões eram derrubados.
Torres de comunicação caíam.
Veículos eram empurrados como brinquedos.
Mas ela não parecia estar perseguindo as pessoas.
Estava seguindo uma direção específica.
Sempre para leste.
Como se soubesse exatamente para onde queria ir.
No centro de comando montado às pressas em uma base militar, oficiais observavam o deslocamento.
— Distância até a rodovia principal?
— Oito quilômetros.
— Velocidade?
— Aproximadamente trinta quilômetros por hora.
— Está acelerando.
O general responsável pela operação aproximou-se da tela.
— Para onde ela está indo?
Um operador ampliou o mapa.
— Ainda não sabemos.
— Então descubram.
Outro oficial entrou na sala.
— Senhor, temos milhares de civis na rodovia.
— Quantos?
— Não sabemos.
— Estabeleçam um corredor de evacuação.
— E a criatura?
O general olhou para a imagem.
— Nós vamos pará-la antes que alcance a estrada.
Às 6h47, os primeiros veículos militares chegaram.
Tanques foram posicionados na Avenida Industrial.
Caminhões blindados fecharam os acessos.
Soldados desembarcaram.
Helicópteros de ataque sobrevoaram a área.
Um comandante recebeu autorização para disparar.
— Alvo confirmado.
O piloto do primeiro helicóptero ajustou a mira.
— Confirmado.
— Fogo.
Mísseis foram lançados.
Os projéteis atingiram a criatura no peito.
Uma sequência de explosões iluminou a manhã.
Uma onda de calor atravessou a avenida.
Soldados abaixaram-se.
Os civis que ainda estavam próximos gritaram.
Durante alguns segundos, ninguém viu nada além de fumaça.
— Alvo atingido — disse o piloto.
Silêncio.
A fumaça começou a desaparecer.
A criatura continuava em pé.
Uma parte das placas do peito estava rachada.
Mas não havia sangue.
Ela olhou para o helicóptero.
O piloto ficou imóvel.
— Isso não é possível.
A criatura abriu a boca.
Um som grave saiu de sua garganta.
O helicóptero começou a vibrar.
— O que está acontecendo?
— Não sei!
Os instrumentos começaram a falhar.
— Perdi controle!
O helicóptero caiu.
Outro piloto tentou afastar-se.
A criatura ergueu um dos braços.
Um movimento simples.
O ar pareceu comprimir-se.
O segundo helicóptero foi atingido por uma força invisível e lançado contra um prédio.
Explodiu.
Os soldados na avenida ficaram paralisados.
O comandante gritou:
— TODAS AS UNIDADES, RECUAR!
Mas já era tarde.
A criatura começou a caminhar em direção às tropas.
O primeiro tanque disparou.
O projétil atingiu a criatura no abdômen.
Ela cambaleou.
Caiu de um joelho.
Os soldados comemoraram.
— Acertamos!
A criatura colocou a mão no chão.
Levantou-se.
Então continuou andando.
Outro tanque disparou.
Depois outro.
As explosões cobriram a rua.
Mas a criatura avançava.
Os soldados começaram a perceber que os ataques não estavam funcionando.
— Recarregar!
— Estamos sem munição!
— Segunda linha!
Metralhadoras pesadas começaram a disparar.
As balas ricocheteavam nas placas.
Algumas penetravam superficialmente.
A criatura nem diminuía a velocidade.
— RPG!
Foguetes foram lançados.
Um deles atingiu o pescoço.
A criatura gritou.
Por um instante, pareceu ferida.
Então suas placas começaram a se fechar.
Como se o próprio corpo estivesse se reconstruindo.
Um soldado abaixou a arma.
— Ela está se curando...
O comandante ouviu.
— Não parem!
— Senhor, não está funcionando!
— Continuem atirando!
A criatura avançou.
Um tanque foi atingido pelo braço e virou de lado.
Outro disparou à queima-roupa.
A explosão abriu uma enorme ferida no peito do monstro.
Dessa vez, ele recuou.
Soldados gritaram.
— Funcionou!
Mas a comemoração durou pouco.
As linhas azuladas sob a pele da criatura começaram a brilhar.
A ferida fechou.
Completamente.
O comandante olhou para os soldados.
— Todo mundo recua.
— Senhor?
— AGORA!
Às 7h12, as estradas estavam completamente congestionadas.
A notícia da criatura já havia se espalhado.
Celulares exibiam vídeos.
Redes de comunicação estavam sobrecarregadas.
Algumas emissoras interromperam a programação.
As primeiras imagens oficiais começaram a aparecer.
O governo confirmava que havia um "animal de grandes proporções" causando destruição.
Mas ninguém acreditava mais na expressão.
As pessoas tinham visto.
Milhares haviam testemunhado.
Era uma criatura.
E ela não podia ser detida pelas armas convencionais.
Na rodovia norte, uma família abandonou o carro depois que a fila ficou parada.
— Vamos andando!
— Mas para onde?
— Qualquer lugar longe daqui!
O pai pegou o filho pela mão.
A mãe carregou uma mochila.
Eles começaram a caminhar.
Ao redor deles, centenas faziam o mesmo.
A rodovia parecia uma cidade inteira em movimento.
Pessoas choravam.
Outras ligavam para parentes.
Algumas tentavam voltar.
Outras procuravam caminhos alternativos.
Um caminhão bateu contra outro.
Uma ambulância ficou presa.
Um homem subiu no teto do carro para enxergar a estrada.
— Está vindo!
As pessoas olharam para trás.
A criatura havia chegado à região industrial.
Ainda estava a quilômetros de distância.
Mas seu rugido podia ser ouvido.
A multidão entrou em pânico.
Todos começaram a correr.
No centro de operações, um novo alerta apareceu.
Um técnico levantou-se.
— General.
— O que foi?
— Temos atividade subterrânea.
— Onde?
O técnico apontou para o mapa.
— Atrás da criatura.
O general franziu a testa.
— Explique.
— Há um segundo epicentro.
— Distância?
— Aproximadamente três quilômetros.
— Isso é outro terremoto?
O técnico ampliou os dados.
— Não.
— Como sabe?
— O padrão é idêntico ao de Santa Aurora.
O general ficou em silêncio.
— Temos certeza?
— Sim.
Um segundo operador aproximou-se.
— Senhor, o epicentro está se aproximando da superfície.
— Quanto tempo?
— Talvez alguns minutos.
O general olhou para a tela.
— Retirem todas as tropas.
— E os civis?
Ele não respondeu imediatamente.
Porque havia milhares de pessoas na rodovia.
E o segundo ponto subterrâneo estava exatamente atrás delas.
Às 7h24, o primeiro sinal apareceu.
Uma vibração.
Depois outra.
Os civis na rodovia começaram a sentir.
— O chão está tremendo.
Uma mulher segurou o marido.
— De novo?
Os carros começaram a balançar.
Alguns alarmes dispararam.
As pessoas olharam para trás.
Nada.
A criatura ainda estava distante.
Então a terra atrás das tropas se levantou.
Uma elevação atravessou o asfalto.
Soldados perceberam.
— O que é isso?
A elevação avançou.
Como uma onda.
Passou por baixo de um tanque.
O veículo saltou.
Caiu de lado.
Os soldados correram.
— TODO MUNDO PARA TRÁS!
O chão explodiu.
Uma nuvem de poeira cobriu a estrada.
Um helicóptero tentou subir.
A onda de impacto atingiu a aeronave.
O piloto perdeu controle.
O helicóptero caiu sobre um campo próximo.
A multidão começou a fugir.
Não havia mais ordem.
Não havia mais direção.
Apenas desespero.
Então alguma coisa surgiu no meio da poeira.
Uma mão.
Depois outra.
Mas dessa vez as mãos eram diferentes.
Mais finas.
Mais longas.
A criatura que emergiu do chão tinha quase cinco metros de altura.
Seu corpo era mais estreito que o primeiro monstro.
As placas de sua pele eram cinzentas.
E havia dezenas de pequenas aberturas ao longo do pescoço e dos braços.
Elas se abriram.
Fecharam.
Abriram novamente.
Como brânquias.
A criatura ergueu a cabeça.
Olhou para os soldados.
Depois para a primeira criatura.
Os dois monstros ficaram separados por algumas centenas de metros.
A primeira criatura parou.
A segunda também.
Por alguns segundos, nenhuma delas se moveu.
Os soldados ficaram observando.
O comandante percebeu alguma coisa.
— Elas estão se comunicando.
— Como?
Um soldado apontou.
A primeira criatura soltou um som baixo.
A segunda respondeu.
Depois a primeira repetiu.
A segunda respondeu novamente.
Não pareciam rugidos de ataque.
Pareciam mensagens.
O comandante sentiu um arrepio.
— Elas estão conversando.
Daniel recebeu as imagens às 7h31.
Estava ainda na estrada de saída de Santa Aurora quando seu telefone começou a vibrar.
Uma mensagem.
Depois outra.
Um vídeo.
Ele abriu.
A gravação mostrava a criatura de Vale do Norte.
Depois mostrava a segunda surgindo atrás das tropas.
Daniel ficou imóvel.
Ricardo olhou para a tela.
— É igual.
— Não.
Daniel ampliou.
— Não é igual.
— Como assim?
— Veja as placas.
A primeira criatura tinha linhas azuis sob a pele.
A segunda não.
— São espécies diferentes? — perguntou Ricardo.
Daniel balançou a cabeça.
— Talvez.
Ele voltou a imagem.
As duas criaturas estavam frente a frente.
Daniel percebeu algo.
No momento em que a segunda surgiu, a primeira havia parado de atacar os soldados.
Isso significava que os monstros não estavam simplesmente destruindo tudo.
Eles estavam seguindo alguma lógica.
Daniel abriu o mapa que havia salvo.
Marcou Santa Aurora.
Depois Vale do Norte.
Ligou as duas cidades.
A linha seguia para leste.
Ele ampliou.
Havia uma terceira cidade no caminho.
Pequena.
Quase esquecida.
— Ricardo...
— O quê?
— Precisamos chegar aqui.
— Onde?
Daniel apontou para o mapa.
— Pedra Branca.
Ricardo franziu a testa.
— Por quê?
— Porque, se meu cálculo estiver certo, o próximo terremoto vai acontecer lá.
Às 7h38, em Pedra Branca, uma menina acordou assustada.
Ela estava sentada no banco traseiro de um carro enquanto a mãe dirigia pela avenida principal.
— Mamãe?
— O que foi?
— Tem alguém batendo embaixo do carro.
A mãe olhou pelo retrovisor.
— Não tem ninguém.
A menina insistiu.
— Tem sim.
Ela colocou a mão no banco.
— Está fazendo assim.
Toc.
Toc.
Toc.
A mãe ficou em silêncio.
Então ouviu.
Toc.
Toc.
Toc.
O carro começou a vibrar.
A motorista pisou no freio.
Os veículos atrás começaram a buzinar.
— O que está acontecendo?
A menina apontou para o chão.
— Está vindo.
Uma rachadura apareceu diante do carro.
Depois outra.
O asfalto começou a se abrir.
A mãe tentou dar ré.
Mas o trânsito estava parado.
Então um som veio debaixo da avenida.
Um rugido.
Muito mais profundo que os anteriores.
As pessoas saíram dos veículos.
Algumas começaram a correr.
A menina olhou pela janela.
No fim da rua, uma placa caiu.
Depois um poste.
E então o chão começou a se elevar.
Em Vale do Norte, os dois monstros continuavam imóveis.
Os soldados haviam recuado.
A maioria dos civis já havia deixado a região.
O comandante observava as criaturas pelo binóculo.
A primeira deu um passo.
A segunda respondeu.
Então as duas viraram simultaneamente para o leste.
Na direção de Pedra Branca.
O comandante abaixou o binóculo.
— Elas sabem.
Um oficial aproximou-se.
— Sabem o quê?
Ele apontou para a estrada.
— Para onde estão indo.
No céu, os helicópteros restantes receberam uma nova transmissão.
Um operador anunciou:
— General, detectamos outro evento sísmico.
— Onde?
O operador hesitou.
— Pedra Branca.
O general fechou os olhos.
— Quantas criaturas?
O operador olhou para a tela.
— Ainda não sabemos.
Daniel acelerava pela estrada.
O carro avançava entre veículos abandonados.
Ricardo segurava o mapa.
— Se estiver certo, chegaremos antes da criatura.
Daniel não respondeu.
— Daniel?
Ele olhou para o horizonte.
Uma coluna de poeira subia ao longe.
— Talvez não.
— O quê?
Daniel apontou.
A estrada começou a tremer.
Pedras pequenas saltaram do asfalto.
Os instrumentos do carro começaram a falhar.
O rádio emitiu apenas estática.
Depois uma voz.
Fraca.
Quase incompreensível.
— ...não...
Daniel aumentou o volume.
— Repita.
A voz voltou.
— Não deixem...
Estática.
— Não deixem que cheguem...
Daniel olhou para Ricardo.
— Quem está falando?
O rádio respondeu sozinho.
— ...à porta...
Então desligou.
O carro parou.
Daniel tentou ligar novamente.
Nada.
À frente, o asfalto começou a rachar.
Ricardo olhou para ele.
— A gente volta?
Daniel respirou fundo.
— Não.
— Por quê?
Daniel olhou para Pedra Branca.
— Porque já começou.
A quilômetros dali, a cidade inteira ouviu um estrondo.
Os prédios começaram a tremer.
As janelas quebraram.
A avenida principal abriu-se de ponta a ponta.
E algo gigantesco começou a empurrar a terra de baixo para cima.
Mas dessa vez, a criatura que estava prestes a surgir era diferente de todas as anteriores.
Porque, muito antes de sua cabeça aparecer, uma enorme estrutura óssea atravessou o asfalto.
Depois outra.
E outra.
Como se aquilo que estivesse abaixo de Pedra Branca não tivesse apenas um corpo.
Como se tivesse uma carapaça gigantesca.
A população começou a fugir.
Sirenes tocaram.
Helicópteros se aproximaram.
Os militares receberam ordens para preparar uma nova linha de defesa.
E, a centenas de quilômetros dali, os sensores subterrâneos registraram algo ainda mais assustador.
Enquanto as criaturas surgiam na superfície, outras dezenas de sinais começaram a se mover abaixo da terra.
Todos seguindo a mesma direção.
Todos convergindo para um único ponto.
E Daniel, olhando para o mapa dentro do carro parado, finalmente percebeu que Santa Aurora e Vale do Norte não eram o início daquilo.
Eram apenas os primeiros pontos de uma sequência muito maior.
A cidade seguinte seria apenas mais uma etapa.
Porque, abaixo de toda aquela região, havia uma rede de túneis gigantescos.
E os monstros não estavam simplesmente emergindo.
Estavam seguindo por aquela rede.
Indo em direção a alguma coisa.
Algo que Daniel ainda não conseguia identificar.
Então o chão diante dele explodiu.
Uma sombra gigantesca surgiu entre a poeira.
Daniel abriu a porta do carro.
Ricardo gritou:
— DANIEL!
Ele virou-se.
Por trás da primeira criatura, uma segunda sombra começou a se levantar.
E, muito mais distante, outra.
Depois outra.
Depois outra.
Os olhos de Daniel se arregalaram.
Não eram dois monstros.
Não eram três.
As montanhas ao redor começaram a estremecer.
E, no horizonte, dezenas de pontos de luz apareceram no escuro das fissuras abertas.
Um após outro.
Como olhos despertando.
Daniel deu um passo para trás.
Pela primeira vez desde o início dos acontecimentos, compreendeu que talvez a pergunta nunca tivesse sido quantas criaturas existiam.
A pergunta era quantas ainda estavam dormindo.
E, enquanto a terra continuava se abrindo ao redor deles, uma enorme sombra passou sob a estrada.
Algo ainda maior estava se aproximando por baixo.
E desta vez, nenhum dos monstros na superfície parecia disposto a enfrentá-lo.
Eles simplesmente se afastaram.
Como se estivessem esperando.
Como se soubessem que aquilo que estava vindo era muito mais perigoso do que eles.
E então, debaixo de Pedra Branca, alguma coisa começou a bater.
Uma vez.
Duas.
Três.
A cada pancada, a cidade inteira estremecia.
Até que, na quarta...
A terra começou a se partir ao meio.

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