As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 5 — A CIENTISTA
Helena permaneceu diante do monitor sem dizer uma palavra.
A mensagem continuava na tela.
VOCÊS ACORDARAM O PRIMEIRO.
AGORA ELE ESTÁ CHAMANDO OS OUTROS.
O laboratório estava silencioso.
O único som vinha dos computadores de emergência, que funcionavam com energia independente.
Daniel aproximou-se da tela.
— Quem enviou isso?
Helena não respondeu.
— Helena.
Ela finalmente desviou os olhos.
— Eu não sei.
— Mas você já viu essa mensagem antes.
A cientista ficou imóvel.
Daniel percebeu.
— Já viu.
Helena respirou profundamente.
— Uma versão dela.
Ricardo cruzou os braços.
— Quando?
— Onze anos atrás.
Daniel ficou surpreso.
— Onze anos?
— Foi quando tudo começou.
Helena caminhou até uma mesa metálica.
Pegou uma pequena caixa e abriu.
Dentro havia fotografias antigas, mapas dobrados e documentos.
— Muito antes de Santa Aurora, já existiam sinais.
Ela colocou uma fotografia sobre a mesa.
Mostrava uma região montanhosa coberta por neve.
No centro havia uma enorme depressão no solo.
— Onde é isso?
— Cordilheira de Arken.
Daniel reconheceu o nome.
— A região onde desapareceram aqueles pesquisadores?
Helena assentiu.
— Dezessete pessoas desapareceram.
— Acidente?
— Foi o que disseram.
Helena colocou outra fotografia ao lado.
Era uma parede de rocha.
Nela havia uma abertura perfeitamente circular.
Daniel aproximou-se.
— Isso não parece natural.
— Não é.
Outra fotografia.
Desta vez, uma equipe de pesquisadores diante de um túnel.
As pessoas pareciam pequenas diante da passagem.
— Encontramos o primeiro túnel em 2015.
Ricardo perguntou:
— E o que havia lá dentro?
Helena olhou para ele.
— Nada que pudéssemos compreender.
Daniel pegou uma das fotografias.
— Então por que continuar investigando?
— Porque os túneis estavam se movendo.
Ele levantou os olhos.
— Como assim?
— No começo pensamos que fossem apenas cavernas subterrâneas. Depois percebemos que alguns mapas não coincidiam.
— Deslocamento geológico?
— Não.
Helena pegou um mapa antigo.
— O túnel tinha quatro quilômetros de extensão quando foi descoberto.
Ela colocou outro mapa ao lado.
— Seis meses depois, os sensores indicaram oito.
Daniel ficou em silêncio.
— O túnel aumentou?
— Não sabemos.
Helena apontou para outra região.
— Porque, quando tentamos acompanhar a estrutura, descobrimos outra passagem.
Ela colocou mais um mapa.
Depois outro.
Depois outro.
A mesa ficou coberta de documentos.
— Quantos existem? — perguntou Daniel.
— No começo, achávamos que eram dezenas.
Ela abriu um enorme mapa digital.
A imagem mostrava o planeta.
Linhas subterrâneas apareciam em diferentes regiões.
Algumas eram pequenas.
Outras atravessavam milhares de quilômetros.
Daniel aproximou-se lentamente.
— Isso...
Helena ampliou.
Uma linha saía de uma cadeia montanhosa.
Passava por baixo de vários países.
Desaparecia no oceano.
Depois reaparecia em outro continente.
Daniel ficou sem palavras.
— Não pode ser.
— Foi o que eu pensei.
— Isso atravessa o planeta.
— Não exatamente.
Helena ampliou novamente.
— Existem redes diferentes.
Uma delas cruzava parte do hemisfério norte.
Outra atravessava o sul.
Outra parecia seguir regiões próximas ao oceano.
— Quantos quilômetros?
— Ainda estamos calculando.
— Helena.
Ela hesitou.
— Provavelmente milhões.
Ricardo deu um passo para trás.
— Milhões?
— De quilômetros de túneis.
Daniel olhou novamente para o mapa.
— Então as criaturas podem viajar entre continentes sem aparecer na superfície.
Helena assentiu.
— Essa é minha hipótese.
— Hipótese?
— Ainda não podemos afirmar.
Daniel apontou para as marcações vermelhas.
— E isso?
— Eventos sísmicos registrados nas últimas horas.
— Todos relacionados às criaturas?
— Acredito que sim.
— Então elas estão se movimentando.
— Sim.
— Para onde?
Helena ficou olhando para o mapa.
— Ainda não sabemos.
Onze anos antes, Helena trabalhava em uma pequena estação de pesquisa localizada a centenas de quilômetros da cidade mais próxima.
Naquela época, os estudos eram simples.
Monitoramento sísmico.
Análise de falhas geológicas.
Medição de pressão subterrânea.
Nada extraordinário.
Até que um sensor começou a registrar uma sequência estranha.
O primeiro sinal ocorreu às 2h11.
Depois outro às 2h23.
Outro às 2h35.
Sempre com exatamente doze minutos de intervalo.
Helena inicialmente acreditou que fosse uma falha no equipamento.
Trocaram os sensores.
O padrão continuou.
Mudaram os computadores.
Continuou.
Instalaram equipamentos independentes.
Continuou.
Então perceberam que os sinais estavam se deslocando.
— Como uma onda? — perguntou Daniel.
— Não.
Helena balançou a cabeça.
— Como uma coisa caminhando.
Daniel ficou em silêncio.
— Quanto tempo vocês acompanharam?
— Três semanas.
— E onde terminou?
Helena olhou para o mapa.
— Sob uma montanha.
Ela colocou outra fotografia sobre a mesa.
Mostrava uma abertura gigantesca.
— Foi quando encontramos o primeiro túnel.
Daniel examinou a imagem.
— E entraram?
— Sim.
— Até onde?
Helena demorou.
— Sete quilômetros.
— Apenas sete?
— Não.
Ela apontou para uma marca vermelha.
— Sete quilômetros foi até onde conseguimos chegar.
— O túnel continuava?
— Muito além.
— Quanto?
— Não sabemos.
Daniel sentou-se.
— O que encontraram?
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
— Marcas.
— Pegadas?
— Não.
— Então?
— Marcas nas paredes.
Ela abriu outra fotografia.
Havia linhas profundas na pedra.
Pareciam arranhões.
Mas eram grandes demais.
— Isso foi feito por alguma criatura?
— Provavelmente.
— Provavelmente?
— Porque encontramos marcas semelhantes em outros continentes.
Daniel levantou-se novamente.
— Como vocês sabem?
Helena abriu um arquivo.
Fotografias de diferentes países apareceram.
Túneis.
Cavidades.
Marcas.
Todas parecidas.
— Durante anos, diferentes grupos científicos encontraram estruturas semelhantes.
— E ninguém percebeu?
— Alguns perceberam.
— E?
Helena fechou o arquivo.
— Os dados foram classificados.
Daniel entendeu.
— Governo.
— Em parte.
— Quem mais?
Helena olhou para o corredor.
— Pessoas que não queriam que ninguém continuasse procurando.
Um alerta começou a tocar.
Helena levantou a cabeça.
— O que foi?
Um técnico respondeu:
— Atividade sísmica.
— Onde?
Ele apontou para o monitor.
— No oceano.
Daniel aproximou-se.
— Magnitude?
— Quatro vírgula dois.
Helena franziu a testa.
— Profundidade?
O técnico hesitou.
— Dois quilômetros.
— Isso é impossível.
— Por quê?
— O sensor está registrando movimento horizontal.
Ela abriu outra tela.
Uma linha surgiu no mapa.
O ponto no oceano começou a se deslocar.
Daniel observou.
— Está andando.
Helena assentiu.
— Exatamente.
O ponto avançou.
Depois parou.
Um novo sinal apareceu.
Dez quilômetros distante.
Depois outro.
Depois outro.
Parecia uma sequência.
Como se alguma coisa estivesse atravessando o fundo do oceano.
Ricardo perguntou:
— Pode ser uma criatura?
Helena não respondeu.
O ponto desapareceu.
Então todos os sensores da instalação começaram a emitir alertas simultaneamente.
As luzes piscaram.
Daniel olhou para Helena.
— O que está acontecendo?
Ela correu até o painel.
— Algo está passando sob nós.
— A que profundidade?
— Quatrocentos metros.
— Tão perto?
Helena confirmou.
— Está vindo na nossa direção.
O primeiro impacto foi pequeno.
Uma vibração percorreu o chão.
Copos tremeram.
Computadores oscilaram.
Helena ficou olhando para o monitor.
— Não pode ser.
Daniel segurou a mesa.
— O que foi?
— O movimento mudou.
— Para onde?
— Para cima.
O segundo impacto foi muito mais forte.
As paredes estremeceram.
Uma lâmpada caiu.
Ricardo se protegeu.
— Todo mundo para trás!
O terceiro impacto fez o laboratório inteiro balançar.
Uma rachadura surgiu no piso.
Daniel olhou para baixo.
— Helena!
Ela não respondeu.
Estava olhando para o mapa.
O ponto havia parado.
Exatamente abaixo da instalação.
— Saiam daqui.
— O quê?
— Agora!
Um estrondo explodiu sob o prédio.
O chão levantou.
Equipamentos foram lançados para os lados.
Daniel caiu.
Ricardo bateu contra uma parede.
Helena segurou-se em uma bancada.
A rachadura no piso aumentou.
E alguma coisa apareceu dentro dela.
Não era uma criatura.
Era uma placa metálica.
Helena arregalou os olhos.
— Isso estava aqui?
Ela se aproximou.
Daniel gritou:
— Não chega perto!
Mas Helena já estava ajoelhada.
Limpou a poeira com a mão.
Havia símbolos gravados no metal.
Os mesmos símbolos das fotografias antigas.
Helena ficou pálida.
— Eles chegaram.
Daniel aproximou-se.
— Quem?
Helena olhou para ele.
— Não sei.
Outro impacto.
A placa começou a se mover.
Daniel puxou Helena para trás.
A estrutura abriu.
Por baixo dela havia uma cavidade.
Uma escuridão absoluta.
E então veio o som.
Respiração.
Lenta.
Pesada.
Profunda.
Ricardo sussurrou:
— Tem alguma coisa aí.
Helena não respondeu.
O som ficou mais alto.
Então dois olhos apareceram no fundo.
Não eram vermelhos.
Eram brancos.
Brilhantes.
Daniel deu um passo para trás.
A criatura não saiu.
Apenas ficou olhando.
Como se estivesse observando os três.
Depois os olhos desapareceram.
A placa fechou.
O chão parou de tremer.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Helena foi a primeira a falar.
— Precisamos ir.
Daniel olhou para ela.
— O que era aquilo?
— Não sei.
— Você reconheceu os símbolos.
— Sim.
— Então sabe alguma coisa.
Helena fechou os olhos.
— Sei o suficiente para saber que estamos em perigo.
— Explique.
Ela caminhou até outro monitor.
Abriu um arquivo antigo.
A imagem mostrava um túnel.
No final dele havia uma estrutura semelhante à placa que acabara de aparecer.
— Encontramos isso onze anos atrás.
Daniel aproximou-se.
— A mesma estrutura?
— Sim.
— E o que havia atrás?
Helena respondeu:
— Nada.
Daniel olhou para ela.
— Nada?
— Na época, conseguimos abrir apenas alguns centímetros.
— Por quê?
— Porque havia uma pressão enorme do outro lado.
— Pressão?
— Como se alguma coisa estivesse segurando a porta.
Daniel ficou em silêncio.
— Vocês tentaram abrir?
Helena assentiu.
— Tentamos.
— E?
— O túnel começou a tremer.
— Então pararam.
— Não.
Daniel franziu a testa.
— O que aconteceu?
— A porta abriu sozinha.
Helena mostrou uma gravação.
Era antiga.
A qualidade da imagem era ruim.
Um grupo de cientistas estava dentro de um túnel.
Uma enorme estrutura circular ocupava a parede.
Eles trabalhavam em equipamentos.
Um homem gritava:
— A pressão está aumentando!
Outro respondia:
— Desliguem!
As luzes piscavam.
A porta começava a se mover.
Pouco.
Depois mais.
Uma abertura negra surgiu.
Os cientistas recuaram.
Então a gravação sofreu interferência.
Por alguns segundos, tudo ficou escuro.
Quando a imagem voltou, a câmera estava no chão.
Não havia mais ninguém no túnel.
Daniel ficou horrorizado.
— Todos desapareceram?
— Sim.
— Dezessete pessoas?
— Dezessete.
— Nunca encontraram os corpos?
— Nunca.
A gravação terminou.
Daniel olhou para Helena.
— E você continuou estudando isso?
— Sim.
— Por quê?
— Porque eu precisava saber o que havia levado meus colegas.
Helena passou anos seguindo os sinais.
Descobriu que os túneis não eram isolados.
Eles estavam conectados.
Alguns atravessavam cadeias montanhosas.
Outros passavam sob desertos.
Outros desapareciam sob o oceano.
Ela comparou dados de terremotos registrados durante décadas.
Os padrões estavam lá.
Mas eram tão fracos que ninguém havia percebido.
Até agora.
— Os monstros estavam vivendo aqui embaixo — disse Daniel.
Helena assentiu.
— Provavelmente.
— Há quanto tempo?
— Talvez milhares ou milhões de anos.
— Como sobreviveram?
— Não sabemos.
— Do que se alimentam?
— Não sabemos.
— Quantos existem?
— Também não sabemos.
Daniel apontou para o mapa.
— Então o que você sabe?
Helena respondeu:
— Eles não estavam tentando chegar à superfície.
— Não?
— Não no começo.
— Então por que começaram?
Ela ampliou uma região.
— Porque alguma coisa mudou.
— O quê?
Helena mostrou os registros.
— Nas últimas semanas, os sinais subterrâneos aumentaram.
— Quanto?
— Cerca de quatrocentos por cento.
Daniel ficou em silêncio.
— O que aconteceu há três semanas?
Helena olhou para ele.
— Uma perfuração.
— Aquela de que você falou?
— Sim.
— Quem fez?
— Uma equipe internacional.
— Para quê?
— Procurar uma fonte de energia geotérmica.
Daniel entendeu.
— Eles perfuraram até os túneis.
— Sim.
— E acordaram as criaturas.
Helena assentiu.
— Provavelmente.
Daniel olhou novamente para o mapa.
— Então tudo isso começou por causa de uma perfuração.
— Talvez.
— E a mensagem dizia que nós acordamos o primeiro.
— Sim.
— Quem enviou?
Helena ficou em silêncio.
— Você sabe.
— Não.
— Helena.
Ela finalmente respondeu:
— Recebi a primeira mensagem há três semanas.
Daniel ficou surpreso.
— Antes dos terremotos?
— Sim.
— O que dizia?
Helena abriu um arquivo.
Havia uma mensagem.
Apenas uma frase:
PAREM DE CAVAR.
Daniel sentiu um arrepio.
— Quem mandou?
— Não havia identificação.
— E você ignorou?
Helena olhou para ele.
— Não.
— Então por que não contou a ninguém?
Ela demorou.
— Porque, no dia seguinte, a pessoa que enviou a mensagem apareceu morta.
Silêncio.
Ricardo perguntou:
— Quem era?
— Um dos cientistas da perfuração.
Daniel respirou fundo.
— Como morreu?
Helena respondeu:
— Dentro do túnel.
Um estrondo interrompeu a conversa.
Muito mais forte que os anteriores.
Todos os monitores tremeram.
O chão se inclinou.
Helena segurou a bancada.
— Outro terremoto.
Daniel caiu contra a parede.
— Magnitude?
O técnico olhou para os sensores.
Seu rosto mudou.
— Não consigo calcular.
— Por quê?
— O sinal é grande demais.
Outro impacto.
O prédio inteiro gemeu.
Parte do teto desabou.
Alarmes começaram a tocar.
— Evacuação! — gritou Helena.
As portas de emergência abriram.
Todos correram pelo corredor.
Daniel olhou para trás.
O laboratório estava se partindo.
Uma enorme rachadura atravessava o chão.
E, dentro dela, algo estava se movendo.
Muito rápido.
Helena gritou:
— NÃO OLHE!
Daniel olhou mesmo assim.
Uma massa escura passou pela abertura.
Não era possível ver o corpo inteiro.
Mas era enorme.
Muito maior que qualquer criatura registrada até então.
O chão começou a ceder.
— CORRAM!
Eles alcançaram a saída.
No instante em que saíram, o laboratório inteiro afundou.
Uma nuvem de poeira cobriu a floresta.
Árvores caíram.
A montanha tremeu.
E, por alguns segundos, houve silêncio.
Daniel olhou para Helena.
Ela estava coberta de poeira.
— O que foi aquilo?
Helena respirou com dificuldade.
— Um deles.
— Um dos monstros?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Daniel ficou imóvel.
— Então o que era?
Helena olhou para a montanha.
Uma nova rachadura atravessava o solo.
Muito distante, algo rugiu.
Helena respondeu:
— Algo que os outros monstros estão tentando evitar.
Daniel sentiu o estômago gelar.
Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, todos os telefones começaram a tocar simultaneamente.
Alertas de emergência.
Centenas.
Daniel pegou o celular.
A primeira mensagem dizia:
NOVO TERREMOTO REGISTRADO.
Depois:
EPICENTRO: OCEANO.
Depois:
MAGNITUDE: 6,9.
E então uma última mensagem apareceu.
EVENTOS SÍSMICOS DETECTADOS EM QUARENTA E DOIS PAÍSES.
Helena olhou para a tela.
— Não...
Daniel levantou os olhos.
— O que foi?
Ela apontou para o mapa que ainda aparecia no tablet.
Os pontos estavam se acendendo.
Um.
Dois.
Dez.
Cinquenta.
Cem.
Centenas.
Todos os túneis subterrâneos começavam a registrar movimento.
Helena sussurrou:
— A rede inteira está acordando.
Então veio outro alerta.
Dessa vez, não era sísmico.
Era de comunicação.
Uma transmissão desconhecida havia invadido os canais de emergência do planeta.
Todas as telas disponíveis começaram a exibir a mesma imagem.
Um túnel.
Uma porta.
Uma criatura parada diante dela.
Atrás da criatura havia uma escuridão imensa.
E, no centro daquela escuridão, alguma coisa enorme se movia.
A imagem durou apenas cinco segundos.
Depois surgiu uma frase.
NÃO SÃO ELES QUE ESTÃO INVADINDO O MUNDO.
A frase desapareceu.
Outra apareceu.
ELES ESTÃO FUGINDO.
Daniel ficou olhando para a tela.
Helena perdeu completamente a cor do rosto.
— Fugindo de quê? — perguntou Ricardo.
Helena não respondeu.
Porque, naquele instante, o mapa subterrâneo mostrou uma nova movimentação.
Algo estava vindo.
Não de baixo para cima.
Estava vindo de muito mais longe.
Atravessando os túneis.
Passando de continente em continente.
E os sinais das criaturas começaram a se afastar dele.
Todas.
Ao mesmo tempo.
Como se milhares de seres estivessem fugindo da mesma coisa.
Daniel olhou para Helena.
— Você sabia disso?
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Um estrondo veio do subsolo.
Depois outro.
A montanha diante deles começou a rachar.
Helena segurou o braço de Daniel.
— Precisamos chegar à cidade.
— Por quê?
Ela apontou para o horizonte.
Ao longe, uma segunda montanha começou a desmoronar.
Depois uma terceira.
E uma quarta.
Como dominós gigantes.
— Porque os túneis não estão apenas atravessando os continentes.
Ela respirou fundo.
— Eles estão conectados.
Daniel olhou para o mapa.
— E se alguma coisa estiver passando por eles...
Helena completou:
— Ela pode chegar a qualquer lugar.
O chão tremeu novamente.
Muito mais forte.
E, em algum ponto distante do planeta, uma nova porta subterrânea começou a se abrir.
Mas, dessa vez, não havia nenhuma criatura diante dela.
Havia apenas uma sombra gigantesca.
Uma sombra tão grande que ocupava todo o túnel.
E, quando dois olhos surgiram dentro da escuridão, milhares de criaturas espalhadas sob a crosta terrestre começaram simultaneamente a fugir.
Enquanto isso, na superfície, governos preparavam seus exércitos contra os monstros.
Sem saber que talvez estivessem se preparando para lutar contra as criaturas erradas.

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