As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 6 — A ESTAÇÃO DE METRÔ

 O primeiro sinal de que alguma coisa estava errada foi o silêncio.

Naquela manhã, a estação central de Santa Aurora deveria estar cheia.

Mesmo com os tremores que haviam atingido a cidade durante a madrugada, centenas de pessoas ainda dependiam do metrô para chegar ao trabalho, às escolas e aos hospitais. Mas, pouco depois das oito horas, os trens pararam de circular.

As luzes piscaram.

Depois, apagaram.

Um estrondo percorreu os túneis.

E tudo ficou escuro.

— Todo mundo para trás! — gritou um funcionário.

A voz ecoou pela plataforma.

Algumas pessoas começaram a chorar. Outras levantaram os celulares, tentando iluminar o caminho. Havia crianças, idosos, trabalhadores, estudantes. Aproximadamente cento e cinquenta pessoas estavam presas naquela estação.

Um trem havia parado entre duas plataformas depois que os trilhos sofreram uma deformação causada por um pequeno desabamento.

As portas foram abertas manualmente.

Os passageiros saíram e chegaram à plataforma poucos minutos antes de outro tremor sacudir o subterrâneo.

Pedaços de concreto caíram do teto.

Uma mulher gritou.

— A estação vai desabar!

— Não vai! — respondeu um segurança. — Fiquem calmos!

Mas ele próprio não parecia acreditar no que dizia.

As pessoas começaram a se reunir perto das escadas.

A saída principal estava bloqueada.

Uma enorme placa de concreto havia caído sobre o corredor que levava à rua.

Tentaram removê-la.

Não conseguiram.

Então veio o primeiro som.

Um ruído baixo.

Distante.

Parecia um ronco.

As pessoas pararam de falar.

O som desapareceu.

Durante alguns segundos, ninguém se mexeu.

Então voltou.

Mais forte.

GRRRRRRRR...

O chão vibrou levemente.

— O que foi isso? — perguntou uma garota.

Ninguém respondeu.

O funcionário do metrô olhou para os trilhos.

O som parecia vir de lá.

— Deve ser algum equipamento — disse ele.

— Equipamento não faz esse barulho — respondeu um homem.

Outro som veio do túnel.

Dessa vez, parecia um grito.

Longo.

Metálico.

Depois outro respondeu de algum lugar muito mais distante.

E outro.

E outro.

As pessoas perceberam que não era uma única criatura.

Havia alguma coisa nos túneis.

Talvez várias coisas.

Uma criança começou a chorar.

— Mãe, tem alguém lá embaixo?

A mulher abraçou o filho.

— Não olhe para lá.

As luzes de emergência se acenderam.

Vermelhas.

O ambiente ficou ainda mais assustador.

Nas paredes, pequenas rachaduras começaram a aparecer.

Uma delas se estendeu lentamente pelo concreto.

Então parou.

Os celulares começaram a perder sinal.

Primeiro um.

Depois outro.

Até que nenhuma ligação conseguiu ser completada.

O sistema de comunicação da estação também estava morto.

Os funcionários tentaram usar os rádios.

Só ouviram estática.

E, por alguns segundos, uma respiração.

Muito lenta.

Muito pesada.

— Tem alguém usando nossa frequência — disse um funcionário.

— Quem?

Ele não respondeu.

A respiração continuou.

Depois uma voz distorcida surgiu.

— ...não...

Todos olharam para o rádio.

— O que foi isso?

A voz voltou.

— ...não abram...

O rádio apagou.

Ninguém falou durante vários segundos.


Na superfície, Daniel observava a entrada da estação.

Uma multidão havia se formado do lado de fora.

Policiais impediam que as pessoas se aproximassem.

Ambulâncias chegavam.

Helicópteros sobrevoavam a região.

O caos aumentava a cada minuto.

Daniel segurava uma câmera pequena.

Ao lado dele, Helena analisava um mapa impresso da rede subterrânea.

Ricardo estava sentado dentro de uma viatura, tentando restabelecer comunicação com outros técnicos.

— Quantas pessoas estão lá dentro? — perguntou Daniel.

— Pelo menos cento e cinquenta — respondeu Helena.

— E ninguém conseguiu entrar?

— Não pela entrada principal.

Daniel olhou para o prédio.

— Então entramos por outro lugar.

Helena levantou os olhos.

— Daniel...

— O quê?

— Você ouviu os sons.

— Ouvi.

— Então sabe que não podemos simplesmente entrar.

— Existem pessoas presas lá.

Helena ficou em silêncio.

Daniel percebeu que ela já havia tomado uma decisão.

— Existe outro acesso — disse ela.

Ricardo saiu da viatura.

— Não me diga que vocês estão pensando no que estou pensando.

— Depende — respondeu Daniel. — O que você está pensando?

— Que vocês vão entrar naquele buraco.

Helena dobrou o mapa.

— Existe um túnel de serviço a aproximadamente trezentos metros daqui.

— Ele leva até a estação?

— Leva ao sistema de ventilação.

Ricardo balançou a cabeça.

— Isso é uma péssima ideia.

Daniel olhou para ele.

— Você tem uma ideia melhor?

Ricardo suspirou.

— Não.

— Então vamos.


O acesso ao túnel de manutenção ficava escondido atrás de um depósito abandonado.

Uma porta de metal enferrujada dava acesso a uma escada estreita.

Helena abriu a porta.

Um cheiro úmido subiu do subterrâneo.

Daniel ligou a lanterna.

— Faz quanto tempo que ninguém usa isso?

— Pelo menos oito anos.

Ricardo olhou para baixo.

— Ótimo.

Desceram.

A escada terminava em um corredor estreito.

Tubulações passavam pelo teto.

Água pingava de alguns canos.

O som da cidade desapareceu atrás deles.

A cada passo, o silêncio parecia ficar mais pesado.

Daniel caminhava na frente.

Helena vinha logo atrás.

Ricardo fechava o grupo.

— Você tem certeza de que esse túnel ainda está conectado à estação? — perguntou Daniel.

— Não.

Daniel parou.

— Como assim?

— Os mapas são antigos.

— Helena.

— As estruturas subterrâneas mudaram.

Ricardo apontou para as paredes.

— E eu acho que não foi só o terremoto.

Uma rachadura atravessava o corredor.

Ao redor dela havia pequenas marcas circulares.

Helena se aproximou.

Passou os dedos sobre o concreto.

— Isso não estava nos mapas.

— Você já viu essas marcas — disse Daniel.

Ela não respondeu imediatamente.

— Sim.

— Onde?

— No primeiro túnel que encontrei onze anos atrás.

Daniel sentiu um arrepio.

— Então elas são feitas pelas criaturas?

— Não sei.

Um barulho veio de algum lugar à frente.

Toc.

Toc.

Toc.

Os três congelaram.

O som parou.

Daniel apagou a lanterna.

Todos ficaram em silêncio.

Então veio novamente.

Toc.

Toc.

Toc.

Parecia alguma coisa batendo contra uma superfície.

Ricardo sussurrou:

— Temos que voltar.

Helena levantou a mão.

— Espera.

Ela ouviu atentamente.

O som continuou.

Mas havia outro ruído por trás dele.

Uma vibração.

Baixa.

Constante.

— Não é uma criatura — disse Helena.

— Como você sabe?

— Porque está tentando abrir alguma coisa.

Um estrondo ecoou.

Depois outro.

O corredor tremeu.

Poeira caiu do teto.

— Agora é uma criatura — disse Ricardo.

Eles correram.


Dentro da estação, o pânico aumentava.

Os passageiros estavam reunidos em uma das plataformas.

O funcionário responsável pelo local tentava manter todos afastados dos trilhos.

Mas ninguém conseguia parar de olhar para o túnel.

Havia alguma coisa lá.

Os sons estavam ficando mais próximos.

GRRRRRRR...

Uma mulher segurou o braço do marido.

— Eles estão vindo.

— Quem?

Ela apontou.

Do fundo do túnel surgiu um movimento.

Uma sombra.

Depois desapareceu.

Um homem levantou o celular.

— Eu vi alguma coisa.

— Todo mundo para trás! — gritou o segurança.

As pessoas recuaram.

O túnel ficou silencioso.

Então os trilhos começaram a vibrar.

Uma pequena pedra caiu.

Depois outra.

Um pedaço do teto desabou.

E alguma coisa atravessou a parede.

A criatura surgiu com uma violência brutal.

O concreto explodiu.

Pedaços de parede voaram sobre a plataforma.

As pessoas correram.

O monstro era diferente daqueles vistos anteriormente.

Tinha quase quatro metros de altura.

Seu corpo era coberto por placas escuras, mas havia linhas azuladas pulsando entre elas.

Os braços eram longos.

As mãos terminavam em garras.

Seus olhos eram pequenos e completamente brancos.

A criatura abriu a boca.

Um som ensurdecedor tomou conta da estação.

Vários passageiros caíram no chão.

As lâmpadas estouraram.

A criatura avançou.

Um homem tentou correr pela plataforma.

A garra passou perto dele e atingiu uma coluna.

O concreto se partiu.

— CORRAM!

As pessoas começaram a empurrar umas às outras.

Uma criança caiu.

A mãe voltou para pegá-la.

— Filho!

O monstro virou a cabeça.

Um funcionário correu e puxou a mulher.

— Vamos!

A criatura atacou novamente.

A plataforma inteira tremeu.


Daniel ouviu o estrondo no túnel.

— Isso veio da estação.

Helena correu.

— Mais rápido!

Os três avançaram pelo corredor.

Uma porta apareceu à frente.

Helena abriu.

Do outro lado havia uma sala técnica.

O som dos gritos podia ser ouvido através das paredes.

— Estamos perto — disse Daniel.

Uma explosão fez a sala inteira tremer.

Ricardo quase caiu.

— Aquilo foi uma bomba?

— Não — respondeu Helena.

Outro rugido.

Muito mais próximo.

Daniel olhou para o teto.

— Precisamos chegar até eles.

Helena abriu uma segunda porta.

Um corredor de serviço levava até uma grade metálica.

Do outro lado estava a estação.

Daniel olhou através das barras.

Pessoas corriam.

A criatura estava no centro da plataforma.

— Meu Deus...

Helena ficou pálida.

— Ela está dentro da estação.

Daniel procurou uma maneira de abrir a grade.

— Tem uma trava.

Ricardo tentou forçar.

Nada.

— Precisamos de alguma coisa para cortar isso.

Helena olhou ao redor.

— Aqui.

Ela apontou para uma caixa de ferramentas.

Ricardo abriu.

Encontrou uma ferramenta elétrica portátil.

— Isso serve.

Ele começou a cortar.

O barulho atraiu a criatura.

O monstro virou a cabeça.

Seus olhos brancos encontraram os três.

Ricardo parou.

— Ela viu a gente.

A criatura avançou.

Daniel recuou.

— Continua!

Ricardo voltou a cortar.

A grade começou a se soltar.

A criatura bateu contra uma coluna.

A estação tremeu.

Pedaços do teto caíram.

— Mais rápido!

A ferramenta soltou faíscas.

A grade finalmente caiu.

Daniel passou primeiro.

— Vamos!

Helena entrou.

Ricardo veio logo atrás.

— Para onde?

Helena apontou para o outro lado da plataforma.

— Existe uma saída de emergência.

— Está bloqueada.

— Então vamos desbloquear.

O grupo correu.

Pessoas tentavam fugir em todas as direções.

Daniel viu a criança que havia caído.

A menina estava escondida atrás de um banco.

Ele correu até ela.

— Ei!

A menina olhou para ele, chorando.

— Minha mãe...

Daniel procurou ao redor.

Uma mulher apareceu.

— Aqui!

Ela correu e abraçou a filha.

— Obrigada!

— Sigam aquela mulher! — gritou Daniel, apontando para Helena.

Helena já estava abrindo uma porta lateral.

— TODOS PARA CÁ!

Algumas pessoas ouviram.

Outras continuaram correndo.

A criatura rugiu novamente.

A plataforma tremeu.

Daniel olhou para trás.

O monstro avançava.

Então aconteceu algo estranho.

A criatura parou.

Levantou a cabeça.

Como se tivesse ouvido alguma coisa.

Helena percebeu.

— Daniel...

— O quê?

— Olhe.

A criatura estava olhando para o chão.

Não para eles.

Para os trilhos.

O concreto começou a vibrar.

Uma fissura apareceu entre os trilhos.

A criatura recuou.

Pela primeira vez desde que havia surgido, parecia assustada.

Daniel sentiu o estômago apertar.

— O que está vindo?

Helena não respondeu.

A fissura aumentou.

Então um som surgiu debaixo da estação.

Não era um rugido.

Era muito mais profundo.

Parecia o som de milhares de vozes falando ao mesmo tempo.

A criatura recuou ainda mais.

E fugiu.

Ela atravessou uma parede lateral e desapareceu em outro túnel.

As pessoas ficaram imóveis.

— Ela está fugindo — disse Ricardo.

Daniel olhou para Helena.

— Fugindo de quê?

Antes que Helena pudesse responder, uma parte do piso desabou.

Um buraco abriu no meio da plataforma.

De dentro dele veio uma corrente de ar quente.

E um cheiro horrível.

Helena segurou Daniel pelo braço.

— Não podemos ficar aqui.

— Mas e as pessoas?

— Temos que tirá-las daqui agora!

Ela correu para a porta de manutenção.

— TODOS! ENTREM!

As pessoas começaram a passar.

Uma por uma.

O túnel era estreito.

Alguns precisavam andar de lado.

Outros ajudavam crianças e idosos.

Daniel ficou para trás.

O som subterrâneo continuava.

Cada vez mais forte.

Ricardo apareceu.

— Daniel!

— Vá!

— Não!

— Leve as pessoas!

Ricardo hesitou.

Então correu.

Daniel ficou sozinho na plataforma.

Olhou para o buraco.

O vento quente subia de dentro dele.

Por um instante, algo se moveu lá embaixo.

Dois pontos luminosos apareceram na escuridão.

Não eram brancos.

Não eram vermelhos.

Eram amarelos.

Enormes.

Daniel deu um passo para trás.

Os pontos desapareceram.

Ele ouviu uma voz.

Não vinha de rádio.

Não vinha de uma pessoa.

Parecia surgir diretamente dentro da estação.

— Vocês abriram o caminho...

Daniel ficou imóvel.

— Quem está aí?

Nenhuma resposta.

Então o chão tremeu violentamente.

Daniel correu para a porta.

— HELENA!

Uma enorme rachadura atravessou a plataforma atrás dele.

A parede começou a desmoronar.

Daniel entrou no túnel.

Ricardo fechou a porta.

Todos continuaram correndo.

O túnel de manutenção parecia interminável.

Centenas de pessoas avançavam lentamente pela escuridão.

Algumas choravam.

Outras rezavam.

Ninguém sabia para onde estavam indo.

Helena caminhava à frente, segurando o mapa.

— Tem uma saída a quase quatrocentos metros.

— E se estiver bloqueada? — perguntou Ricardo.

— Então encontraremos outra.

Daniel olhou para trás.

A porta metálica permanecia fechada.

Por enquanto.

Então veio um som.

BUM.

A porta se moveu.

Todos pararam.

BUM.

A estrutura metálica se curvou.

— Continuem! — gritou Helena.

BUM!

A porta quase saiu das dobradiças.

As pessoas correram.

Daniel segurou uma criança pela mão.

Ricardo ajudou um homem ferido.

Helena continuava guiando o grupo.

A porta finalmente se abriu.

Um rugido atravessou o túnel.

Algo entrou.

Mas ninguém olhou para trás.

Eles continuaram correndo.

Mais à frente, uma luz apareceu.

A saída.

— Estamos chegando! — gritou Helena.

As pessoas aceleraram.

Daniel viu uma escada.

Subiram.

Um.

Dois.

Dez.

Vinte.

Até que a primeira pessoa abriu uma tampa metálica.

A luz do dia invadiu o túnel.

Todos começaram a sair.

Daniel subiu por último.

Quando colocou os pés na rua, respirou profundamente.

Helena apareceu logo depois.

Ricardo também.

Os sobreviventes estavam espalhados pela calçada.

Ambulâncias chegaram minutos depois.

Mas Daniel não conseguia comemorar.

Ele olhava para a tampa metálica.

Algo estava errado.

Helena percebeu.

— O que foi?

Daniel apontou para o chão.

— O túnel não terminava onde você disse.

— Como assim?

— Quando estávamos lá embaixo...

Ele respirou fundo.

— Eu vi outra passagem.

Helena ficou séria.

— Onde?

— Atrás da estação.

— Isso é impossível.

— Eu sei.

Daniel pegou a câmera.

— E não era um túnel de manutenção.

Helena ficou em silêncio.

— O que era?

Daniel mostrou uma fotografia que havia conseguido tirar pouco antes de fugir.

A imagem estava escura e tremida.

Mas era possível ver uma enorme parede subterrânea.

No centro dela havia uma porta circular.

E ao redor da porta estavam gravados os mesmos símbolos encontrados nos túneis antigos.

Helena ficou pálida.

— Não...

— Você conhece isso?

Ela não respondeu.

— Helena?

A cientista aproximou a imagem dos olhos.

— Essa porta...

— O que tem ela?

Helena demorou alguns segundos para responder.

— Eu encontrei uma igual onze anos atrás.

Daniel sentiu um frio percorrer o corpo.

— E o que havia atrás dela?

Helena levantou os olhos.

— Nada.

Daniel franziu a testa.

— Nada?

— Na época, achávamos que era apenas uma estrutura antiga.

Ela olhou para a estação.

— Mas agora eu sei que não era uma porta.

— Então o que era?

Helena respondeu quase num sussurro:

— Era uma barreira.

Antes que Daniel pudesse perguntar contra o quê, todos os celulares da rua começaram a tocar ao mesmo tempo.

Uma mensagem apareceu nas telas.

Sem remetente.

Sem número.

Apenas uma frase.

A PRIMEIRA BARREIRA CAIU.

Daniel levantou lentamente os olhos.

Ao longe, outro terremoto começou.

Mas dessa vez não veio de Santa Aurora.

O chão inteiro da cidade começou a tremer.

E, sob os pés de milhões de pessoas, alguma coisa começou a se mover.

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