As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 7 — A FUGA
A cidade começou a tremer antes mesmo que Daniel conseguisse entender o significado da mensagem.
A PRIMEIRA BARREIRA CAIU.
As palavras permaneciam na tela do celular, brilhando por alguns segundos.
Então desapareceram.
Todos os aparelhos ao redor fizeram o mesmo.
Um após o outro, as mensagens sumiram.
Daniel ergueu os olhos.
As pessoas na rua gritavam.
Carros tentavam deixar a região ao mesmo tempo, presos em congestionamentos que se espalhavam por quilômetros. Sirenes cortavam o ar. Helicópteros sobrevoavam os prédios.
E então veio o segundo tremor.
Mais forte.
Um poste caiu.
Vidros se quebraram em vários edifícios.
— Todo mundo para longe das construções! — gritou um policial.
Helena segurou o braço de Daniel.
— Precisamos sair daqui.
— Para onde?
— Qualquer lugar longe da cidade.
Ricardo apareceu carregando uma mochila.
— Conseguiram organizar um comboio.
Daniel olhou para ele.
— Quem?
— Defesa Civil. Eles estão retirando os sobreviventes para uma área militar a cinquenta quilômetros daqui.
Helena balançou a cabeça.
— Cinquenta quilômetros não serão suficientes.
— Por quê?
Ela apontou para o horizonte.
Uma nuvem de poeira se levantava no centro de Santa Aurora.
— Porque alguma coisa está vindo.
Em menos de vinte minutos, o comboio começou a deixar a cidade.
Eram oito caminhões, quatro ambulâncias, dois veículos militares e três ônibus lotados de sobreviventes.
Daniel estava em um dos veículos militares com Helena, Ricardo e outras pessoas resgatadas da estação.
O motorista mantinha os olhos fixos na estrada.
— Quanto tempo até chegarmos à base? — perguntou Daniel.
— Aproximadamente quarenta minutos.
Helena olhou pela janela.
A cidade desaparecia lentamente atrás deles.
Mas o tremor continuava.
Pequenos solavancos percorriam o asfalto.
— Isso não é normal — disse ela.
Ricardo segurava um rádio.
— Nada do que está acontecendo é normal.
Um soldado sentado atrás deles tentou fazer contato com a base.
— Unidade sete para comando. Estamos deixando Santa Aurora. Solicito confirmação da rota.
Só veio estática.
— Comando, respondam.
Nada.
Ele tentou novamente.
— Unidade sete para comando.
Uma voz finalmente apareceu.
Fraca.
— ...não sigam pela rodovia...
O soldado aproximou o rádio.
— Repita.
— ...não sigam...
A transmissão foi interrompida.
— O que foi isso? — perguntou Daniel.
O soldado não respondeu.
Helena pegou o mapa.
— Qual é a rota?
O motorista apontou.
— Rodovia 12.
Helena ficou imóvel.
— Não.
— O quê?
— Essa estrada passa exatamente sobre uma das redes subterrâneas.
Daniel olhou para ela.
— Como você sabe?
— Porque está nos mapas.
Ela abriu uma pasta.
Havia dezenas de folhas.
Linhas vermelhas cruzavam o mapa da região.
Uma delas acompanhava a rodovia.
— Se os monstros estiverem usando esses túneis...
Um estrondo interrompeu a frase.
O comboio inteiro balançou.
Um dos ônibus freou bruscamente.
O motorista do veículo militar pisou no freio.
— O que aconteceu?
Pelo rádio veio um grito.
— Tem alguma coisa na estrada!
Daniel abriu a porta.
— Fiquem dentro! — ordenou o soldado.
Mas ele já estava olhando pela janela.
A aproximadamente duzentos metros, uma grande rachadura atravessava a rodovia.
O asfalto havia se elevado.
Um caminhão estava tombado.
Pessoas corriam.
— Voltem! — gritou alguém.
Outro estrondo.
A rachadura aumentou.
E então alguma coisa surgiu.
Primeiro uma garra.
Depois uma cabeça.
O asfalto explodiu.
A criatura apareceu no meio da estrada.
Era enorme.
Maior do que aquela que havia atacado a estação.
Seu corpo tinha placas negras, grossas e irregulares.
Quatro olhos avermelhados estavam distribuídos ao redor da cabeça.
Ela abriu a boca.
O som produzido fez os vidros dos veículos vibrarem.
— É uma delas! — gritou alguém.
Os soldados começaram a atirar.
As armas dispararam.
Rajadas atingiram as placas do monstro.
A criatura cambaleou.
Mas não caiu.
— CONTINUEM ATIRANDO!
Mais tiros.
A criatura avançou.
Um caminhão militar tentou escapar.
O monstro golpeou o veículo.
O caminhão girou na pista e bateu contra uma barreira.
As pessoas começaram a fugir.
Daniel saiu do veículo.
— Para onde?
Helena apontou para uma estrada lateral.
— Temos que sair da rodovia!
— A estrada está bloqueada!
— Então tirem os veículos do caminho!
Soldados começaram a orientar os motoristas.
O comboio entrou em movimento novamente.
A criatura avançou atrás deles.
Seu corpo desaparecia parcialmente na poeira levantada pelos veículos.
Daniel olhou para trás.
— Ela está nos seguindo.
Helena confirmou.
— Sim.
— Por quê?
— Ainda não sei.
O comboio acelerou.
A perseguição durou quase dez minutos.
A criatura corria de maneira estranha.
Não parecia usar apenas as pernas.
Em alguns momentos, mergulhava parcialmente no chão, desaparecia por dois ou três segundos e reaparecia metros adiante.
— Ela está usando o subterrâneo! — disse Helena.
Daniel olhou para ela.
— Então como consegue acompanhar a gente?
— Não está acompanhando.
— O quê?
— Está antecipando nossa rota.
Ela apontou para o chão.
— Ela sabe onde estamos.
Um soldado ouviu.
— Como?
Helena ficou pensativa.
— Vibração.
— O quê?
— Vibração.
Ela abriu uma pequena caixa que carregava.
Dentro havia instrumentos científicos.
— Essas criaturas vivem no subsolo. Não precisam enxergar como nós. Elas devem perceber movimento através das estruturas.
Daniel entendeu.
— Os veículos.
— Sim.
— Motores?
— Motores. Pneus. Passos. Tudo.
Ricardo olhou para trás.
— Então estamos praticamente anunciando onde estamos.
Helena assentiu.
— Exatamente.
O monstro rugiu novamente.
Os veículos vibraram.
Helena ficou pálida.
— Desliguem os motores.
O soldado riu nervosamente.
— O quê?
— Desliguem tudo!
— No meio da estrada?
— AGORA!
O motorista desligou o motor.
Os outros veículos continuaram avançando.
Helena correu até o rádio.
— Ordene que parem!
O soldado transmitiu.
— Todos os veículos, desliguem os motores imediatamente!
Alguns obedeceram.
Outros continuaram.
O comboio ficou parcialmente silencioso.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
A criatura parou.
Daniel observou.
Ela estava a cerca de trezentos metros.
O monstro levantou a cabeça.
Girou lentamente.
Como se estivesse procurando alguma coisa.
— Funcionou — sussurrou Helena.
Mas então um dos ônibus continuou andando.
O motor fazia um ruído constante.
A criatura virou imediatamente.
E correu na direção dele.
— PAREM O ÔNIBUS! — gritou Helena.
Tarde demais.
A criatura saltou.
O impacto atingiu a traseira do ônibus.
O veículo foi levantado parcialmente.
Pessoas gritaram dentro dele.
Soldados dispararam.
O monstro soltou o veículo.
O ônibus caiu de lado.
Daniel correu.
— Precisamos ajudar!
Helena tentou segurá-lo.
— Daniel!
Ele continuou.
Ricardo o acompanhou.
Os dois chegaram ao ônibus.
Uma janela havia quebrado.
Passageiros tentavam sair.
— Pela lateral! — gritou Daniel.
Eles começaram a retirar as pessoas.
Uma criança estava presa pelo cinto.
Ricardo conseguiu soltá-la.
— Vai ficar tudo bem.
O rugido da criatura ecoou atrás deles.
Daniel olhou.
O monstro avançava novamente.
Helicópteros apareceram no céu.
Três aeronaves militares.
— Finalmente — disse um soldado.
Os helicópteros abriram fogo.
Mísseis foram lançados.
O primeiro atingiu o chão perto da criatura.
Uma explosão gigantesca levantou poeira.
O segundo acertou diretamente o monstro.
A explosão iluminou a estrada.
Todos se abaixaram.
Por alguns segundos, apenas fumaça.
Então uma silhueta apareceu.
A criatura ainda estava de pé.
Parte das placas havia sido destruída.
Sangue escuro escorria pelo corpo.
Mas os ferimentos começaram a se fechar.
Helena ficou horrorizada.
— Regeneração...
Outro helicóptero disparou.
A criatura abriu a boca.
Um som agudo atravessou a área.
O helicóptero perdeu estabilidade.
— O que está acontecendo? — perguntou Daniel.
A aeronave girou.
O piloto conseguiu recuperar o controle.
— Eles estão emitindo alguma frequência — disse Helena.
— Como um ataque?
— Não.
Ela olhou para o monstro.
— É comunicação.
Os helicópteros continuaram atacando.
Metralhadoras pesadas dispararam.
A criatura recuou.
Um míssil atingiu seu ombro.
Ela caiu de joelhos.
Os soldados comemoraram.
— Derrubamos!
Helena não comemorou.
— Não.
Daniel olhou para ela.
— Por quê?
— Porque ela não está tentando lutar.
O monstro levantou a cabeça.
Seus quatro olhos estavam voltados para o chão.
Então começou a cavar.
— Ela está fugindo — disse Helena.
As garras entraram no asfalto.
Pedaços de concreto foram lançados para todos os lados.
— Atirem! — ordenou um comandante.
Os helicópteros dispararam novamente.
Mas a criatura já estava desaparecendo.
Seu corpo mergulhou na abertura.
O chão desabou.
E ela sumiu.
Silêncio.
Restou apenas uma enorme cratera no meio da estrada.
Os helicópteros ficaram sobrevoando o local.
Os soldados apontavam as armas para o buraco.
Daniel se aproximou.
Helena correu atrás dele.
— Não chegue perto.
Ele parou.
— Ela desapareceu.
— Não.
Helena se ajoelhou perto da cratera.
Colocou um pequeno equipamento no chão.
O aparelho começou a registrar dados.
— Está se movendo.
Daniel franziu a testa.
— Onde?
Helena olhou para a tela.
— Para baixo.
— Quanto?
Ela aumentou o sinal.
— Cinquenta metros.
Esperaram.
O sinal continuou descendo.
— Setenta.
Mais alguns segundos.
— Cem.
Daniel olhou para o buraco.
— Ela está cavando?
— Não.
— Então?
Helena observou os números.
— Está usando uma passagem subterrânea.
Ricardo chegou.
— Para onde?
Helena ampliou o mapa.
Uma linha começou a aparecer.
O equipamento estava detectando vibrações.
A linha seguia para o norte.
Depois virou.
Depois mudou novamente.
— Isso não faz sentido — disse Helena.
— Por quê?
— A criatura está se movimentando debaixo da gente.
Daniel olhou para a estrada.
— Ela está seguindo o comboio?
— Não.
Helena apontou para a tela.
— Está indo na direção da cidade.
Todos ficaram em silêncio.
Daniel entendeu.
— Ela não estava perseguindo a gente.
Helena assentiu.
— Não.
— Então por que atacou?
— Porque os nossos veículos estavam bloqueando o caminho dela.
Daniel olhou para a enorme cratera.
— Ela estava fugindo.
— Sim.
— Fugindo de quê?
Helena não respondeu.
O rádio de um dos soldados começou a transmitir.
— Unidade aérea para todas as forças. Detectamos atividade subterrânea em vários pontos.
Uma pausa.
— Repito. Várias atividades subterrâneas.
Outro soldado levantou o rádio.
— Quantas?
A resposta demorou.
— Não conseguimos determinar.
A transmissão foi interrompida.
Então outra voz surgiu.
— Temos movimento sob a rodovia norte.
Um segundo rádio começou a tocar.
— Movimento sob o setor leste.
Outro:
— Movimento próximo ao aeroporto.
Outro:
— Movimento sob a base militar.
Daniel olhou para Helena.
— Quantas?
Ela fechou os olhos.
— Muitas.
Um dos soldados apontou para o horizonte.
— Olhem!
Todos se viraram.
A alguns quilômetros dali, uma nuvem de poeira subia do chão.
Depois outra.
E outra.
Pequenas colunas de terra surgiam em diferentes pontos da paisagem.
Algo estava se movendo abaixo deles.
Helena pegou seu mapa.
As marcas começaram a aparecer.
Uma após outra.
Ela conectou os pontos.
Seu rosto mudou.
— Não...
Daniel se aproximou.
— O que foi?
Helena desenhou uma linha entre as regiões.
Depois outra.
As linhas formavam uma gigantesca rede.
— Eles estão seguindo os túneis.
— Todos?
— Sim.
— Para onde?
Helena apontou para o centro do mapa.
— Para aqui.
Daniel reconheceu a localização.
Era a região montanhosa onde Helena havia encontrado a primeira porta onze anos antes.
— A barreira.
Ela assentiu.
— A barreira.
Ricardo olhou para os sobreviventes.
— Então eles estão todos indo para lá?
Helena respondeu:
— Não.
— Então o que estão fazendo?
Ela observou os sinais.
As criaturas estavam se afastando umas das outras.
Algumas seguiam para o norte.
Outras para o sul.
Outras para leste e oeste.
— Estão se espalhando — disse Helena.
Daniel ficou confuso.
— Por quê?
Helena encarou o mapa.
— Porque alguma coisa está vindo.
O chão tremeu.
Todos ficaram imóveis.
Uma vibração percorreu a estrada.
Depois outra.
Mais forte.
A cratera deixada pela criatura começou a aumentar.
Pedaços do asfalto caíram para dentro.
Helena pegou um sensor.
A tela começou a registrar uma frequência.
— Isso não é uma criatura.
Daniel olhou para ela.
— Como sabe?
— O padrão.
Ela mostrou o equipamento.
— Os monstros produzem vibrações irregulares. Essa...
Ela apontou para os números.
— Essa é perfeitamente regular.
— Como uma máquina?
— Não.
Helena engoliu em seco.
— Como um coração.
O som subterrâneo começou.
Tum.
Tum.
Tum.
Cada batida fazia a estrada vibrar.
As pessoas recuaram.
Os helicópteros se afastaram.
Os soldados apontaram as armas para o chão.
Daniel olhou para Helena.
— O que está acontecendo?
Ela não respondeu.
O equipamento apitou.
Na tela apareceu uma nova leitura.
Depois outra.
E outra.
Helena percebeu que os sinais não estavam apenas sob a estrada.
Estavam surgindo em dezenas de lugares.
Centenas.
Talvez milhares.
— Daniel...
— O quê?
Ela levantou lentamente os olhos.
— Não são apenas os monstros que conseguem sentir vibrações.
— Então quem?
Antes que Helena respondesse, todas as criaturas subterrâneas detectadas pelos sensores pararam ao mesmo tempo.
Por alguns segundos, não houve movimento.
Nenhum.
Como se o planeta inteiro tivesse prendido a respiração.
Então uma única vibração percorreu o subterrâneo.
Começou sob a região montanhosa.
Passou pelas cidades.
Atravessou a rodovia.
Chegou até a costa.
E continuou avançando.
Helena observou a leitura.
— Está vindo em nossa direção.
Daniel olhou para o horizonte.
— Quanto tempo?
Ela não conseguiu responder.
O chão se abriu a centenas de metros do comboio.
Não surgiu uma criatura.
Surgiu uma enorme coluna de vapor quente.
Depois outra.
E outra.
A terra começou a rachar em uma linha que se estendia pela paisagem.
Helena percebeu que as rachaduras não eram aleatórias.
Elas formavam um caminho.
Um caminho que apontava diretamente para eles.
— Todos para os veículos! — gritou ela.
As pessoas correram.
Os motores foram ligados.
O comboio começou a se mover.
Daniel entrou no veículo e olhou pela janela.
No retrovisor, a estrada continuava se partindo.
Alguma coisa gigantesca avançava por baixo dela.
Mas não estava seguindo os veículos.
Estava seguindo as vibrações.
E, naquele momento, todos os motores do comboio estavam ligados.
O som se espalhava pelo chão.
Helena percebeu tarde demais.
— Desliguem tudo!
O motorista olhou para ela.
— O quê?
— DESLIGUEM OS MOTORES!
Mas já era tarde.
A terra explodiu atrás deles.
E uma sombra gigantesca começou a surgir sob a estrada.

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