As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 8 — O PADRÃO
A estrada desapareceu atrás deles.
A explosão levantou uma parede de terra, pedras e poeira que cobriu os veículos do comboio. O motorista perdeu o controle por alguns segundos, e o caminhão militar derrapou para o acostamento.
Daniel bateu contra a lateral.
— Segura!
Helena agarrou o painel.
Outro impacto veio de baixo.
O veículo inteiro saltou.
Por um instante, parecia que alguma coisa estava tentando atravessá-lo.
Então tudo parou.
O motorista recuperou o controle.
— Continuem! — gritou Helena. — Não parem!
Os veículos aceleraram.
Atrás deles, a estrada estava completamente destruída.
Mas a criatura não apareceu.
Daniel olhou pelo vidro traseiro.
A poeira começava a baixar.
Havia apenas uma enorme rachadura atravessando o asfalto.
— Ela sumiu.
Helena estava olhando para um equipamento portátil.
— Não.
— O quê?
— Ainda está aqui.
Daniel olhou para a tela.
Uma linha irregular se movia lentamente.
— Onde?
Helena virou o equipamento.
— Debaixo de nós.
Um silêncio tomou conta do veículo.
Ricardo olhou para o chão.
— Está nos seguindo?
— Não exatamente.
— Então o que está fazendo?
Helena analisou os números.
— Está acompanhando as vibrações.
Daniel franziu a testa.
— Os motores?
— Sim.
— Então desligamos os motores.
— Não podemos fazer isso agora. Estamos em movimento.
Ricardo olhou pela janela.
— Então temos um problema.
Helena assentiu.
— Temos.
O comboio continuou avançando.
Durante os minutos seguintes, nada aconteceu.
Nenhum rugido.
Nenhuma explosão.
Nenhum novo tremor.
A criatura parecia ter desaparecido.
Mas Helena não relaxava.
Ela permanecia olhando para o equipamento.
Os números subiam e desciam.
Até que ela percebeu alguma coisa.
— Esperem.
Daniel olhou para ela.
— O que foi?
— Quero os registros dos últimos tremores.
— Agora?
— Agora.
Ricardo abriu a mochila e entregou a ela um computador portátil.
Helena começou a conectar os equipamentos.
Os dados começaram a aparecer na tela.
Frequência.
Intensidade.
Profundidade.
Localização.
Horário.
Daniel se aproximou.
— Você está comparando os terremotos?
— Todos.
— Desde Santa Aurora?
— Desde antes.
Ela abriu arquivos antigos.
Centenas de registros apareceram.
Alguns eram de pequenos tremores.
Outros, de terremotos conhecidos.
Helena começou a organizar os dados.
— Olhem para isso.
Daniel viu uma sequência de gráficos.
— O quê?
— Santa Aurora.
Ela apontou para o primeiro registro.
— O primeiro grande abalo aconteceu às 2h17.
Depois mostrou outro.
— Vale do Norte.
Outro.
— Pedra Branca.
Outro.
— E depois os eventos próximos à estação.
Os gráficos foram colocados lado a lado.
Daniel observou.
— Estão aumentando.
— Exatamente.
Ricardo aproximou-se.
— A intensidade?
— A intensidade, a duração e a profundidade.
Helena abriu outro gráfico.
— E existe mais uma coisa.
Ela marcou os pontos.
Os intervalos entre os tremores também estavam diminuindo.
Daniel ficou em silêncio.
— Quanto?
— No começo, horas.
Depois minutos.
Agora...
Ela olhou para os dados mais recentes.
— Alguns estão acontecendo com poucos segundos de diferença.
O motorista ouviu.
— Isso significa que os terremotos vão continuar?
Helena respondeu:
— Não.
Todos olharam para ela.
— Eles vão piorar.
Duas horas depois, o comboio chegou a uma antiga instalação militar localizada no interior.
O local havia sido transformado temporariamente em centro de evacuação.
Centenas de pessoas estavam sendo recebidas.
Médicos atendiam feridos.
Militares organizavam alimentos e água.
Helicópteros pousavam e decolavam continuamente.
Daniel desceu do veículo.
A primeira coisa que fez foi olhar para o chão.
Nenhuma rachadura.
Por enquanto.
Helena foi diretamente para um prédio administrativo.
— Precisamos de uma sala.
Um oficial conduziu os três para dentro.
— Aqui é a central de monitoramento.
Havia computadores, mapas e telas mostrando imagens sísmicas de várias regiões.
Helena sentou diante de um dos terminais.
— Preciso de acesso aos registros nacionais.
O oficial hesitou.
— Esses dados são classificados.
— Então peça autorização.
— Quem é você?
Daniel respondeu:
— A pessoa que está tentando descobrir por que suas cidades estão sendo destruídas.
O oficial encarou Helena.
Ela não desviou o olhar.
Depois de alguns segundos, ele entregou um cartão.
— Cinco minutos.
— Vai ser suficiente.
Ela conectou o cartão.
Os arquivos começaram a aparecer.
Dados de estações sísmicas de todo o país.
Helena começou a cruzar as informações.
Daniel observava.
— Você disse que os terremotos estão aumentando.
— Sim.
— Mas por quê?
— Ainda não sei.
Ela abriu outro arquivo.
— Quero saber o que aconteceu antes de cada ataque.
Daniel entendeu.
— As criaturas.
— Exatamente.
Ela procurou os horários.
O primeiro ataque em Santa Aurora.
O segundo em Vale do Norte.
A criatura de Pedra Branca.
O ataque na estação.
A perseguição na rodovia.
Helena começou a registrar os momentos.
— Antes de Santa Aurora...
Ela verificou.
— Uma vibração de magnitude baixa.
— Quanto tempo antes?
— Quarenta e três minutos.
Depois analisou Vale do Norte.
— Aqui, vinte e sete minutos.
Pedra Branca.
— Dezoito.
A estação.
— Onze.
Daniel sentiu um arrepio.
— E a criatura da estrada?
Helena abriu os dados.
— Três minutos.
Ricardo ficou olhando para os números.
— Então os ataques acontecem depois dos terremotos.
Helena corrigiu:
— Depois das grandes vibrações.
Daniel apontou para o gráfico.
— Isso significa que os terremotos estão acordando as criaturas.
Helena não respondeu imediatamente.
Ela voltou aos registros mais antigos.
— Talvez.
— O que mais poderia ser?
— Um sinal.
Daniel franziu a testa.
— Um sinal para quem?
Helena apontou para o subterrâneo.
— Para elas.
Durante quase quatro horas, Helena não saiu da sala.
Os registros foram sendo adicionados ao mapa.
Cada terremoto recebia uma marca.
Cada ataque, outra.
No início, as marcas pareciam aleatórias.
Mas, quando Helena conectou os pontos, uma forma começou a surgir.
Uma espiral.
Daniel se aproximou.
— Isso estava aí o tempo todo?
— Sim.
— Você não percebeu antes?
— Eu estava olhando para os epicentros.
— E agora?
— Agora estou olhando para a sequência.
A espiral atravessava várias regiões.
Santa Aurora estava em uma das extremidades.
Vale do Norte aparecia depois.
Pedra Branca mais adiante.
Depois a estação.
E os eventos seguintes.
Tudo formava uma trajetória.
Daniel apontou para o centro.
— Para onde isso está indo?
Helena aumentou o mapa.
A linha continuava.
Passava por áreas rurais.
Atravessava montanhas.
Seguia sob um rio.
E finalmente chegava a uma enorme área urbana.
Daniel reconheceu.
— Não.
Helena ficou em silêncio.
— Isso é impossível.
Ricardo aproximou-se.
— Que cidade é essa?
Daniel respondeu:
— São Paulo.
Helena ampliou a imagem.
A linha terminava exatamente sob a região metropolitana.
Uma das maiores concentrações urbanas do continente.
Milhões de pessoas.
Milhões de veículos.
Milhões de fontes de vibração.
Helena ficou pálida.
— O próximo grande abalo vai acontecer lá.
As informações foram levadas imediatamente às autoridades.
Mas ninguém queria acreditar.
Um general entrou na sala acompanhado por dois oficiais.
— Doutora Vasconcelos, explique novamente.
Helena mostrou o mapa.
— Os terremotos não estão acontecendo de maneira aleatória.
— Isso nós sabemos.
— Não. Vocês não entenderam.
Ela apontou para a sequência.
— Cada grande vibração é seguida por atividade subterrânea. Depois, uma criatura aparece.
O general cruzou os braços.
— Coincidência?
— Não.
— Por que tem tanta certeza?
Helena mostrou outro gráfico.
— Porque os intervalos estão diminuindo.
— E daí?
— A primeira criatura apareceu quarenta e três minutos depois de uma grande vibração.
Ela apontou para os outros registros.
— Depois foram vinte e sete minutos. Dezoito. Onze. Três.
O general ficou olhando.
— E o próximo?
Helena respondeu:
— Ainda não sabemos.
— Então como pode dizer que será São Paulo?
Ela abriu o mapa.
— Porque os epicentros estão seguindo uma rota.
O general aproximou-se.
— E qual é a intensidade prevista?
Helena hesitou.
— Não sabemos.
— Estime.
Ela olhou para Daniel.
Depois para Ricardo.
— Se o padrão continuar...
Ela abriu os cálculos.
O silêncio tomou a sala.
— Pode ser o maior abalo registrado nesta sequência.
O general empalideceu.
— Magnitude?
— Ainda não posso dar um número confiável.
— Mas?
Helena respirou profundamente.
— Grande o suficiente para afetar toda a região metropolitana.
Um oficial balançou a cabeça.
— Precisamos evacuar.
O general respondeu:
— Evacuar milhões de pessoas?
— Sim.
— Para onde?
Ninguém respondeu.
Enquanto as autoridades discutiam, Daniel saiu da sala.
Precisava de ar.
Encontrou um corredor quase vazio.
Helena apareceu alguns minutos depois.
— Você está bem?
— Não.
Ela parou ao lado dele.
— Eu também não.
— Você acha que estamos certos?
— Sobre o padrão?
— Sobre tudo.
Helena ficou em silêncio.
— Daniel, há onze anos eu encontrei uma estrutura subterrânea que não deveria existir.
— A porta.
— Sim.
— E agora?
— Agora acho que aquela estrutura fazia parte de alguma coisa muito maior.
Ela abriu uma pequena pasta.
Dentro havia fotografias antigas.
Daniel nunca havia visto aquelas imagens.
Eram de uma expedição.
Túneis.
Símbolos.
Estruturas circulares.
E uma fotografia mostrava uma parede coberta por centenas de marcas.
Helena apontou para uma delas.
— Isso estava atrás da primeira porta.
— O que significa?
— Não sei.
— Você nunca conseguiu traduzir?
— Não.
Ela virou outra fotografia.
Havia uma sequência de símbolos.
— Mas recentemente percebi uma coisa.
— O quê?
— Eles não são uma escrita.
Daniel olhou para a imagem.
— Então o que são?
— Frequências.
Ele franziu a testa.
— Como?
— Cada símbolo representa uma vibração diferente.
Daniel ficou imóvel.
— Você está dizendo que as paredes...
— Podem ter sido construídas para responder a vibrações específicas.
— Como uma espécie de código?
— Talvez.
Daniel lembrou da mensagem.
A PRIMEIRA BARREIRA CAIU.
— E se as criaturas não estiverem simplesmente sendo acordadas?
Helena levantou os olhos.
— Continue.
— E se alguém estiver chamando elas?
Ela ficou em silêncio.
A ideia parecia absurda.
Mas, naquele momento, poucas coisas ainda pareciam impossíveis.
No centro de monitoramento, um alarme começou a tocar.
Os dois correram de volta.
Todos estavam olhando para uma tela.
Uma estação sísmica acabara de registrar um novo tremor.
— Onde? — perguntou Helena.
Um técnico respondeu:
— Ao norte.
— Intensidade?
— Ainda está calculando.
Helena observou a tela.
A linha subia.
— Não...
Outro sensor disparou.
Depois outro.
Depois outro.
O mapa começou a preencher-se de pontos.
— Eles estão acontecendo ao mesmo tempo — disse Daniel.
Helena aproximou-se.
— Não.
— Não?
— Não estão ao mesmo tempo.
Ela ampliou os registros.
— Estão seguindo uma sequência.
Os pontos apareciam um após o outro.
Como uma onda.
A onda atravessava o mapa.
Em direção ao sul.
Em direção à metrópole.
O computador emitiu um alerta.
ATIVIDADE SÍSMICA ANORMAL DETECTADA.
Depois outro.
PROFUNDIDADE: 7,4 KM.
Helena ficou imóvel.
— Isso é muito raso.
Daniel entendeu.
— Está perto da superfície.
— Sim.
Outro alerta.
PROFUNDIDADE: 6,1 KM.
Outro.
4,8 KM.
Outro.
3,2 KM.
Os técnicos começaram a entrar em pânico.
— Está subindo!
Helena olhou para o mapa.
A atividade subterrânea estava se aproximando da região metropolitana.
— Quanto tempo?
Um técnico calculou.
— Se continuar nesse ritmo...
Ele parou.
— Diga.
— Menos de seis horas.
Silêncio.
O general imediatamente pegou o telefone.
— Comecem a evacuação.
A notícia chegou à televisão minutos depois.
As emissoras interromperam a programação.
Alertas apareceram nos celulares.
As autoridades pediam que moradores de determinadas regiões deixassem suas casas.
Mas milhões de pessoas não sabiam para onde ir.
As estradas começaram a congestionarar.
Estações de ônibus ficaram lotadas.
Aeroportos foram tomados por passageiros.
Nas redes sociais, imagens de rachaduras começaram a circular.
E, embaixo da cidade, ninguém conseguia ver o que estava acontecendo.
Daniel observava as transmissões.
— Vai ser um caos.
Helena estava olhando para outra tela.
— Não é isso que me preocupa.
— O quê?
Ela mostrou uma leitura sísmica.
Havia um sinal diferente.
Muito maior.
— O próximo abalo não será apenas um terremoto.
Daniel olhou para ela.
— Então o que será?
— Uma ruptura.
— De quê?
Helena não respondeu.
Na tela, o mapa mostrava milhares de linhas subterrâneas.
Todas convergiam para a mesma região.
A metrópole.
E, abaixo dela, havia uma área que não aparecia nos mapas oficiais.
Uma estrutura gigantesca.
Helena ampliou.
A imagem ficou distorcida.
Depois surgiu uma forma circular.
Era muito maior do que qualquer construção humana.
Daniel aproximou-se.
— Aquilo estava aí antes?
— Sim.
— E por que ninguém sabia?
— Porque ninguém procurou fundo o suficiente.
De repente, todos os monitores ficaram pretos.
As luzes da central se apagaram.
Um segundo depois, os computadores voltaram.
Mas uma única imagem aparecia em todas as telas.
Uma parede subterrânea.
Uma porta.
E os mesmos símbolos antigos.
Dessa vez, porém, havia algo diferente.
Um dos símbolos estava iluminado.
Depois outro.
E outro.
Como se alguma coisa estivesse ativando a sequência.
Helena recuou.
— Isso não está acontecendo sozinho.
Daniel olhou para ela.
— O que quer dizer?
Ela respondeu:
— Alguém está acionando as barreiras.
Um estrondo veio de muito longe.
As paredes da instalação tremeram.
Os sensores dispararam.
No mapa, uma nova linha surgiu.
Depois outra.
Depois outra.
Todas avançavam em direção à metrópole.
Helena observou os dados.
Seu rosto perdeu a cor.
— O padrão mudou.
Daniel sentiu um peso no peito.
— Como?
Ela apontou para a tela.
— Antes, as criaturas fugiam das vibrações.
— E agora?
Helena olhou para o mapa.
— Agora elas estão indo em direção a elas.
Um novo tremor atingiu a região.
Mais forte.
Os vidros da central vibraram.
E, a centenas de quilômetros dali, no subterrâneo da metrópole, alguma coisa abriu os olhos.

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