O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 10 — A VOLTA AO REFÚGIO

O carro permaneceu parado durante alguns segundos no meio da estrada.

Rafael segurava o volante com tanta força que os dedos começavam a doer. À frente, a estrada parecia vazia. Atrás deles, entre as árvores, dezenas de olhos vermelhos permaneciam imóveis.

Nenhuma criatura avançava.

Nenhuma emitia som.

Era como se todas estivessem esperando.

Esperando por ele.

— Temos que ir embora — disse Lívia.

Rafael olhou para Samuel.

— Você consegue fazer alguma coisa com esse aparelho?

— Talvez.

— Talvez não é uma resposta.

Samuel apertou o dispositivo contra o peito.

— Se eu tentar interferir no sinal, posso chamar a atenção delas.

— E se não fizer nada?

— Elas continuarão seguindo você.

Davi engoliu em seco.

— Então faça alguma coisa.

Samuel olhou para o garoto.

Depois para Rafael.

— Ligue o carro.

Rafael não precisou ouvir duas vezes.

Girou a chave.

O motor demorou alguns segundos para responder. O veículo tremeu, tossiu e finalmente voltou a funcionar.

Assim que os faróis acenderam, os olhos vermelhos desapareceram.

Rafael pisou no acelerador.

O carro disparou pela estrada.

Durante vários minutos, ninguém falou.

As árvores passavam rapidamente pelas janelas. A noite começava a cair, e o céu adquiria uma coloração escura, quase roxa.

Rafael olhou pelo retrovisor.

Nada.

— Elas estão vindo?

Samuel observou a estrada atrás deles.

— Não vejo nenhuma.

— Isso significa que desistiram?

— Não.

— Então?

— Estão mantendo distância.

Lívia soltou uma risada nervosa.

— Ótimo. Agora temos monstros que sabem nos seguir sem precisar correr atrás.

Samuel não respondeu.

Davi estava olhando pela janela.

— Rafael...

— O quê?

— A montanha está ficando para trás.

Rafael olhou rapidamente.

A montanha permanecia no horizonte.

Mas havia alguma coisa diferente.

Uma pequena luz vermelha brilhava no topo.

Depois apagava.

Acendia novamente.

Três vezes.

Samuel viu.

— Não olhe para ela.

Rafael franziu a testa.

— Por quê?

— Porque talvez ela esteja olhando para você também.

Rafael voltou os olhos para a estrada.

Pouco depois, o rádio do carro começou a transmitir estática.

Todos ficaram tensos.

A interferência aumentou.

Então uma voz surgiu.

— Rafael...

Ele reconheceu imediatamente.

Helena.

Rafael levou a mão ao rádio.

— Helena?

A resposta veio entre ruídos.

— Não levem o dispositivo para o Refúgio.

Samuel fechou os olhos.

— Ela sabe.

Lívia olhou para ele.

— Sabe o quê?

— Que estamos voltando.

A voz continuou:

— Se vocês levarem aquilo para perto de muitas pessoas, poderão trazer algo junto.

Rafael aproximou-se do rádio.

— O quê?

Silêncio.

— Helena!

A transmissão voltou por alguns segundos.

— Não é um Condutor que vocês devem temer.

A voz desapareceu.

Rafael bateu no painel.

— Droga!

Davi perguntou:

— O que ela quis dizer?

Samuel olhou para o aparelho.

— Que existe alguma coisa acima dos Condutores.

Lívia ficou séria.

— E você sabe o que é?

Samuel não respondeu.

Rafael olhou para ele.

— Samuel.

— Não.

— Você sabe?

— Eu tenho uma suspeita.

— Qual?

Samuel fitou a estrada.

— Que os Condutores também estão sendo conduzidos.

Ninguém respondeu.

A viagem continuou em silêncio.

Depois de quase duas horas, as primeiras estruturas do Refúgio apareceram no horizonte.

Rafael sentiu um alívio imediato.

As muralhas improvisadas ainda estavam lá.

Torres de observação haviam sido reconstruídas depois do último ataque. Barris metálicos protegiam as entradas. Placas de madeira e restos de veículos reforçavam os pontos mais frágeis.

Havia homens armados nas torres.

Quando o carro se aproximou, um deles apontou uma lanterna.

— Identifiquem-se!

Rafael abriu a janela.

— Rafael! Lívia! Davi!

Houve uma pausa.

Então o portão começou a abrir.

Quando o veículo entrou, dezenas de moradores se aproximaram.

Alguns correram até o carro.

— Eles voltaram!

— Conseguiram os medicamentos?

— E o hospital?

— Onde estavam?

Rafael saiu.

Lívia ajudou Davi a descer.

Samuel permaneceu dentro do veículo por alguns segundos, observando a multidão.

Rafael abriu a porta traseira.

— Vamos.

Samuel hesitou.

— Talvez seja melhor eu ficar aqui.

— Não.

— Rafael...

— Você vai contar tudo.

Samuel saiu.

A presença dele provocou silêncio entre alguns moradores.

Muitos ainda se lembravam de quando ele havia aparecido no hospital.

Alguns confiavam nele.

Outros não.

Augusto surgiu no meio da multidão.

O líder do Refúgio parecia ainda mais cansado do que quando Rafael partira.

— Vocês demoraram.

Rafael entregou a mochila.

— Encontramos os medicamentos.

Augusto abriu.

Ao perceber a quantidade de caixas, seus olhos mudaram.

— Isso vai ajudar o doutor.

— Precisamos levar imediatamente para a enfermaria.

— Álvaro!

Um homem apareceu.

— Leve tudo para o médico.

Álvaro pegou a mochila.

Rafael segurou uma caixa.

— Essa fica comigo.

— Por quê?

— É para Mariana.

Augusto assentiu.

— Vá.

Rafael correu.

Mariana estava deitada em um quarto improvisado, coberta por um cobertor.

Quando Rafael entrou, ela abriu os olhos.

— Você voltou.

Ele sorriu.

— Voltei.

— Trouxe?

Rafael mostrou a caixa.

Mariana fechou os olhos por alguns segundos, aliviada.

— Eu sabia que você conseguiria.

Rafael sentou ao lado dela.

— Ainda não acabou.

— Eu sei.

Ele segurou a mão da irmã.

— Mas agora temos o remédio.

Mariana olhou para ele.

— E o que aconteceu?

Rafael ficou em silêncio.

Ela percebeu.

— Alguma coisa aconteceu.

— Depois eu conto.

— Rafael.

Ele respirou fundo.

— Descobrimos algumas coisas sobre os monstros.

Mariana o observou.

— Coisas ruins?

— Ainda não sei.

Ela apertou sua mão.

— Então tome cuidado.

Rafael ficou mais alguns segundos ao lado dela antes de voltar para a área central do Refúgio.

Quando chegou, a discussão já havia começado.

Augusto estava reunido com Lívia, Samuel, Álvaro e outros moradores.

Rafael entrou.

— Precisamos conversar.

Augusto apontou para uma cadeira.

— Sente-se.

Rafael permaneceu de pé.

— Não. Isso precisa ser ouvido por todos.

As pessoas começaram a se aproximar.

Rafael contou sobre a cidade abandonada.

Contou sobre a transmissão.

Contou sobre Helena.

Depois falou dos Condutores.

O silêncio ficou pesado.

— Pessoas controlando monstros? — perguntou um dos moradores.

— Não exatamente — respondeu Rafael. — Samuel explicou que elas conseguem transmitir sinais, emoções e comandos.

Um homem mais velho soltou uma risada.

— Isso é absurdo.

Rafael olhou para ele.

— Eu também achava.

— Então por que está acreditando?

— Porque vi os monstros pararem juntos.

— E isso prova o quê?

— Que alguém estava comandando.

Outro morador se manifestou:

— Ou talvez eles estivessem apenas migrando.

Lívia cruzou os braços.

— E por que todos pararam exatamente ao mesmo tempo?

— Coincidência.

— Todos olharam para nós ao mesmo tempo.

— Animais fazem isso.

Samuel finalmente falou:

— Não daquele jeito.

O homem virou-se para ele.

— Ah, claro. Agora devemos acreditar no especialista.

Samuel não respondeu.

O homem continuou:

— Desde que você apareceu, só temos histórias de monstros, máquinas e sinais misteriosos.

Outro morador concordou.

— Ele está provocando pânico.

— Talvez queira que todos saiam daqui.

— Talvez esteja trabalhando para eles.

A tensão aumentou.

Lívia deu um passo à frente.

— Cuidado com o que estão dizendo.

— Eu vi o que aconteceu na cidade — respondeu o homem. — Ele sabia demais. Sabia onde os monstros estavam. Sabia como eles funcionavam. E agora aparece com essa história de pessoas controlando criaturas?

Augusto levantou a mão.

— Chega.

Todos ficaram quietos.

— Nós não vamos decidir nada baseados em medo — disse Augusto. — Nem contra Samuel, nem a favor dele.

Rafael olhou para o líder.

— Então precisamos verificar.

— Como?

Rafael apontou para Samuel.

— Ele sabe mais do que nós.

Augusto olhou para Samuel.

— É verdade?

Samuel permaneceu calado.

— Samuel.

— Sim.

A resposta provocou murmúrios.

— Quanto mais? — perguntou Augusto.

— Muito mais.

— Então fale.

Samuel olhou ao redor.

— Existem criaturas que respondem aos sinais.

— Isso nós sabemos.

— Existem humanos capazes de transmitir esses sinais.

— Condutores.

— Sim.

— Quantos?

— Não sei.

— Onde estão?

Samuel hesitou.

— Muitos estão nas montanhas.

A palavra provocou inquietação.

Alguns moradores olharam na direção das muralhas.

As montanhas não eram visíveis dali durante a noite, mas todos sabiam onde estavam.

— E eles podem controlar qualquer monstro? — perguntou alguém.

— Não.

— Então quais conseguem?

— Depende da criatura e da intensidade da ligação.

— E você?

Silêncio.

Samuel olhou para o chão.

— Eu consigo perceber alguns sinais.

Um murmúrio atravessou a sala.

Rafael observou Samuel.

— E controlar?

Samuel demorou.

— Às vezes.

O homem que acusara Samuel de provocar pânico apontou para ele.

— Está vendo?

Augusto franziu a testa.

— Vendo o quê?

— Ele admite que pode controlar monstros!

— Eu disse que consigo perceber sinais — respondeu Samuel.

— Você acabou de dizer que às vezes consegue controlar!

— Em circunstâncias específicas.

— Então você é um deles.

Samuel não respondeu.

O homem deu um passo para trás.

— Ele é um Condutor.

Algumas pessoas recuaram.

Outras começaram a falar ao mesmo tempo.

Rafael ergueu a voz.

— Chega!

O salão ficou silencioso.

— Se Samuel quisesse nos entregar aos monstros, já teria feito isso.

O homem respondeu:

— Como você sabe?

Rafael apontou para a porta.

— Porque hoje tivemos a chance perfeita para ele fazer isso.

Todos olharam para ele.

— Um grupo inteiro de criaturas passou por nós. Poderiam ter atacado. Não atacaram.

— Porque Samuel mandou?

Rafael olhou para Samuel.

— Não.

Samuel respondeu:

— Eu não mandei.

— Então quem mandou?

Ninguém respondeu.

Augusto se levantou.

— A partir de agora, ninguém sai sozinho.

Alguns moradores protestaram.

— Precisamos reforçar as muralhas — continuou ele. — E ninguém deve usar qualquer dispositivo de sinal sem autorização.

Samuel colocou o aparelho sobre a mesa.

— Isso precisa ser destruído.

Augusto olhou para o objeto.

— Tem certeza?

— Sim.

Rafael observou o dispositivo.

— Helena disse para não levá-lo ao Refúgio.

Todos ficaram tensos.

— Helena? — perguntou Augusto.

Rafael explicou sobre a transmissão.

O líder ficou pensativo.

— Então existe alguém observando vocês.

— Provavelmente.

— E sabe que estamos aqui.

— Sim.

Augusto olhou para as muralhas.

— Então vamos descobrir o que ela pretende.

A reunião terminou pouco depois.

A maioria dos moradores voltou para suas casas.

Alguns ainda conversavam sobre os Condutores.

Outros olhavam para Samuel com desconfiança.

Rafael caminhou ao lado dele.

— Você deveria ter contado antes.

— Eu sei.

— Por que não contou?

Samuel parou.

— Porque eu sabia que isso aconteceria.

— O quê?

— Pessoas com medo procuram alguém para culpar.

Rafael olhou para ele.

— E você é esse alguém?

Samuel respondeu:

— Talvez.

Antes que Rafael pudesse perguntar mais, um sino tocou na torre.

Uma vez.

Depois outra.

Rafael ergueu a cabeça.

Um dos vigias gritava.

— Movimento no setor norte!

Todos correram.

Rafael e Lívia chegaram primeiro.

— O que aconteceu? — perguntou Augusto.

O vigia apontou para fora.

— Nada.

— Como assim?

— Eu ouvi alguma coisa.

— E viu?

— Não.

Rafael examinou a escuridão.

Nenhum monstro.

Nenhum movimento.

Apenas árvores.

— Então por que tocou o sino?

O vigia engoliu em seco.

— Porque achei que alguém estava chamando.

Rafael franziu a testa.

— Chamando quem?

O homem apontou para a muralha.

— Eles.

Todos olharam.

Havia uma marca na parte externa da parede.

Rafael aproximou-se.

Era um símbolo.

Linhas geométricas formavam um desenho circular, cortado por três traços verticais.

O mesmo padrão que aparecia nos corpos dos monstros.

Lívia ficou pálida.

— Isso não estava aqui.

Augusto tocou a parede.

— Quem fez isso?

Ninguém respondeu.

A marca parecia recém-desenhada.

A superfície ainda estava úmida.

Rafael passou a lanterna sobre ela.

Havia pequenas gotas vermelhas escorrendo pelas linhas.

Samuel chegou por último.

Quando viu o símbolo, parou.

— Não...

Rafael virou-se.

— Você conhece?

Samuel não respondeu.

— Samuel.

Ele aproximou-se lentamente da parede.

Seus olhos estavam fixos no desenho.

— Esse não é um símbolo de comando.

Augusto franziu a testa.

— Então o que é?

Samuel tocou uma das linhas.

— É um símbolo de identificação.

Lívia perguntou:

— Identificação de quê?

Samuel olhou para Rafael.

— De uma presença.

Rafael sentiu um arrepio.

— Nossa?

Samuel balançou a cabeça.

— Não.

Ele apontou para o símbolo.

— Eles marcaram o Refúgio.

— Quem?

Samuel ficou olhando para a escuridão além da muralha.

— Os Condutores.

Um ruído baixo surgiu do lado de fora.

Todos ficaram imóveis.

Outro ruído.

Mais próximo.

Rafael levantou a arma.

As lanternas foram apagadas.

O Refúgio mergulhou no escuro.

Então, no alto da muralha, uma pequena luz vermelha apareceu.

Depois outra.

E outra.

Três pontos.

Exatamente iguais aos olhos da máquina que havia surgido nos túneis.

Davi apareceu correndo atrás deles.

— Rafael!

— Volte para dentro!

— Tem alguma coisa lá fora!

— Davi!

O garoto apontou para a escuridão.

— Não é um monstro.

Rafael virou-se.

— Como você sabe?

Davi respondeu:

— Porque está falando.

Todos ficaram em silêncio.

Então uma voz atravessou a noite.

Fraca.

Distante.

Mas perfeitamente compreensível.

— Rafael...

Era a voz de Helena.

E, dessa vez, não vinha do rádio.

Vinha do outro lado da muralha.

— Não deixem Samuel entrar nas montanhas.

Rafael olhou para Samuel.

Samuel estava completamente imóvel.

A voz continuou:

— Porque quando ele chegar lá, eles vão saber onde encontrar vocês.

Depois, tudo ficou silencioso.

As três luzes vermelhas desapareceram.

E, na parte externa da muralha, o estranho símbolo começou lentamente a brilhar.

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