O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 11 — O PRIMEIRO CONDUTOR
Ninguém se moveu.
A marca vermelha continuava brilhando na parte externa da muralha, lançando uma luz fraca sobre as pedras e os pedaços de metal que haviam sido usados para reforçar a estrutura.
Rafael mantinha a arma apontada para a escuridão.
Ao lado dele, Lívia segurava o rifle com as duas mãos.
Augusto havia ordenado que todos permanecessem em silêncio, mas o silêncio era impossível. Crianças choravam dentro das casas. Pessoas sussurravam atrás das barricadas. Alguns moradores se apertavam uns contra os outros, tentando enxergar alguma coisa através das frestas.
Samuel continuava olhando para o símbolo.
— Não é Helena — murmurou.
Rafael virou-se.
— Como sabe?
— Porque ela não faria isso.
— Você acabou de dizer que a voz veio daqui.
— Eu disse que parecia a voz dela.
— Então quem está falando?
Samuel não respondeu.
Um som pesado surgiu do outro lado da muralha.
Tum.
Todos estremeceram.
Tum.
O chão vibrou.
Rafael ergueu a arma.
— Todo mundo para trás!
Mais um passo.
Tum.
As árvores além da muralha começaram a se mover.
Galhos quebraram.
Folhas foram esmagadas.
Algo enorme estava se aproximando.
Os moradores que estavam na torre recuaram.
— É um gigante! — alguém gritou.
O pânico se espalhou.
Augusto subiu rapidamente os degraus da torre.
— Não atirem até eu mandar!
— Se ele chegar perto, estamos mortos! — gritou um dos guardas.
— Esperem!
Rafael olhou para Samuel.
— É um dos monstros?
Samuel parecia confuso.
— Sim.
— Então por que você está com essa cara?
— Porque não deveria estar aqui.
— Por quê?
— Essa espécie não costuma se aproximar de comunidades humanas.
Outro estrondo.
Uma árvore caiu.
Então a criatura apareceu.
Era gigantesca.
Mais alta que as torres improvisadas do Refúgio, com o corpo coberto por placas grossas e escuras. Quatro membros sustentavam seu peso, mas as patas dianteiras eram longas e terminavam em garras enormes.
Havia marcas vermelhas espalhadas pelo pescoço e pelo peito.
Os mesmos desenhos.
Os mesmos sinais.
O monstro avançou até ficar a poucos metros da muralha.
Rafael preparou-se para o ataque.
Mas a criatura parou.
Não atacou.
Não rugiu.
Apenas permaneceu imóvel.
Então uma voz surgiu atrás deles.
— Bonito, não é?
Todos se viraram.
Um homem estava parado sobre uma das plataformas internas da muralha.
Ninguém havia percebido quando ele chegara.
Tinha aproximadamente quarenta anos. Barba curta, cabelos escuros e roupas gastas, cobertas por uma camada de poeira. Carregava uma mochila pequena nas costas e uma faca presa à cintura.
Não parecia assustado.
Pelo contrário.
Estava sorrindo.
Rafael apontou a arma.
— Quem é você?
O homem ergueu as mãos.
— Meu nome é Victor.
Augusto se aproximou.
— Como entrou?
Victor apontou para uma abertura na parte inferior da muralha.
— Existem lugares onde essa construção é mais fraca do que vocês imaginam.
Lívia manteve o rifle apontado.
— Afaste-se da parede.
Victor olhou para ela.
— Se eu quisesse matar alguém, você acha que teria vindo sozinho?
Rafael respondeu:
— Não sabemos se veio sozinho.
Victor sorriu.
— Não.
Ele apontou para o gigante do lado de fora.
— Eu vim acompanhado.
Todos olharam para a criatura.
Davi apareceu entre os moradores.
— Ele está controlando o monstro?
Samuel ficou pálido.
Victor virou o rosto.
— Finalmente alguém inteligente.
Samuel avançou.
— Você não deveria estar aqui.
Victor olhou para ele.
— Samuel.
Rafael percebeu a reação.
— Vocês se conhecem?
Victor soltou uma pequena risada.
— Conheço.
Samuel fechou os punhos.
— Há quanto tempo?
— Desde antes de você começar a fingir que não sabia o que estava acontecendo.
Alguns moradores começaram a murmurar.
Augusto aproximou-se.
— Explique quem é você.
Victor caminhou tranquilamente pela plataforma.
— Eu sou um Condutor.
A palavra provocou silêncio.
Rafael sentiu um arrepio.
— O primeiro? — perguntou.
Victor olhou para ele.
— Não.
Samuel respondeu:
— Não é.
Victor sorriu.
— Mas fui um dos primeiros.
Rafael abaixou um pouco a arma.
— Você consegue controlar aquela coisa?
Victor olhou para o monstro.
— Aquela coisa tem nome.
— Você deu um nome para um monstro?
— Não. Ele tinha um antes de vocês aprenderem a chamá-los simplesmente de monstros.
Rafael não gostou da resposta.
— E qual é?
Victor olhou para a criatura.
— Eu o chamo de Brutus.
O gigante permaneceu imóvel.
Victor estendeu a mão.
A criatura abaixou lentamente a cabeça.
Alguns moradores recuaram.
O monstro estava obedecendo.
Não havia dúvida.
Victor aproximou-se da muralha.
— Ele não vai atacar.
Augusto perguntou:
— Como podemos ter certeza?
— Porque eu não mandei.
— E se você mandar?
Victor olhou para ele.
— Então ele atacará.
A resposta foi tão simples que ninguém teve coragem de falar.
Rafael se aproximou.
— Você poderia fazer isso com todos eles?
— Não.
— Quantos consegue controlar?
— Depende.
— De quê?
— Da criatura. Da distância. Da intensidade do sinal.
Samuel interrompeu:
— E do estado mental do Condutor.
Victor lançou um olhar para ele.
— Ainda ensinando os outros a ter medo?
— Ainda tentando impedir que pessoas morram.
Victor riu.
— Você continua fazendo isso?
— Sim.
— E continua chegando tarde.
Samuel ficou em silêncio.
Rafael percebeu que havia uma história entre os dois.
— O que aconteceu entre vocês?
Victor ignorou a pergunta.
Olhou para Augusto.
— Quero conversar.
— Aqui?
— Aqui.
Augusto apontou para o salão.
— Desça.
Victor desceu.
O gigante permaneceu do lado de fora.
As pessoas abriram espaço.
Quando Victor entrou no salão principal, os moradores se afastaram como se ele carregasse alguma doença.
Ele não pareceu incomodado.
Olhou para as paredes, para os geradores, para as caixas de suprimentos.
— Vocês estão sobrevivendo.
Augusto respondeu:
— Estamos.
— Por enquanto.
Rafael cruzou os braços.
— O que você quer?
Victor olhou para ele.
— Comida.
Algumas pessoas trocaram olhares.
— Quanto? — perguntou Augusto.
— O suficiente para mim e para alguns outros.
Rafael estreitou os olhos.
— Outros?
— Existem pessoas comigo.
— Onde?
— Seguras.
— Quantas?
— Não importa.
Augusto respondeu:
— Importa para nós.
Victor sorriu.
— Vocês têm medo de dividir o que possuem.
— Temos pouco.
— Eu sei.
Ele caminhou até uma mesa.
— Sei que possuem comida para algumas semanas.
Augusto ficou tenso.
— Como sabe?
— Porque observei vocês.
Lívia segurou o rifle com mais força.
— Há quanto tempo?
— Tempo suficiente.
Rafael sentiu um frio no estômago.
— Você estava nos observando quando voltamos?
— Sim.
— E quando os monstros cercaram a estrada?
— Também.
— Você mandou eles nos seguirem?
Victor sorriu.
— Não exatamente.
Samuel respondeu:
— Você usou o sinal.
Victor olhou para ele.
— Eu queria saber quem estava carregando o dispositivo.
Rafael percebeu.
— Era você.
— Sim.
— Por quê?
Victor ficou sério.
— Porque aquele aparelho não deveria ter voltado a funcionar.
Samuel interveio:
— Você sabe quem o ativou.
— Sei.
— Quem?
Victor não respondeu.
Rafael avançou um passo.
— Fale.
Victor o encarou.
— Você ainda não está pronto.
Rafael ficou irritado.
— Todo mundo diz isso.
Victor sorriu novamente.
— Porque é verdade.
Augusto bateu a mão sobre a mesa.
— Chega de enigmas. Você entrou no nosso Refúgio, trouxe uma criatura gigantesca até nossa muralha e agora exige comida. Diga exatamente o que quer.
Victor olhou diretamente para ele.
— Quero um acordo.
— Qual?
— Vocês me dão comida.
— E em troca?
Victor apontou para fora.
— Eu protejo o Refúgio.
Ninguém respondeu.
Victor continuou:
— Nenhuma criatura se aproximará sem minha autorização.
Augusto perguntou:
— E quanto tempo duraria essa proteção?
— Enquanto vocês cumprirem a parte de vocês.
— E qual é essa parte?
Victor olhou para os moradores.
— Obediência.
Um murmúrio atravessou o salão.
Rafael deu um passo à frente.
— Não.
Victor virou-se.
— Você não é o líder.
— Mas conheço pessoas que morreram tentando defender esse lugar.
— E eu posso impedir que outras morram.
— Cobrando comida?
— Cobrando sobrevivência.
Lívia se aproximou.
— Isso não é proteção. É extorsão.
Victor sorriu.
— Chame como quiser.
Ele caminhou até uma abertura na parede.
— Vocês acham que os monstros são o maior problema.
Olhou para a escuridão.
— Não são.
Rafael perguntou:
— Então qual é?
Victor não respondeu.
Em vez disso, levantou a mão.
Do lado de fora, Brutus ergueu a cabeça.
As marcas vermelhas no peito começaram a brilhar.
Os moradores recuaram.
Victor fechou os olhos.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então todas as criaturas escondidas na floresta começaram a responder.
Primeiro uma.
Depois outra.
Depois várias.
Os sons se espalharam pela noite.
Rugidos distantes.
Batidas.
Gritos estranhos.
Rafael sentiu a pele arrepiar.
Victor abriu os olhos.
— Eles estão aqui.
Augusto ficou imóvel.
— Quantos?
Victor respondeu:
— Muitos.
— Você trouxe todos eles?
— Não.
— Então quem trouxe?
Victor olhou para Samuel.
— Essa é a pergunta certa.
Samuel empalideceu.
Rafael percebeu.
— Samuel?
— Não fui eu.
Victor deu uma risada.
— Claro que não.
— O que está acontecendo? — perguntou Lívia.
Victor caminhou de volta para o centro do salão.
— Alguém está testando vocês.
— Quem?
— Ainda não sei.
— Você sabe mais do que está dizendo — disse Rafael.
Victor assentiu.
— Todos sabemos mais do que dizemos.
Samuel ficou furioso.
— Não transforme isso em um jogo.
Victor aproximou-se dele.
— Para você, talvez seja tarde demais para jogos.
— O que isso significa?
Victor baixou a voz.
— Você sabe.
Samuel ficou em silêncio.
Rafael percebeu algo.
— O que vocês dois sabem sobre mim?
Victor olhou para Rafael.
— Mais do que você imagina.
O coração de Rafael acelerou.
— Explique.
Victor não respondeu.
Em vez disso, apontou para a muralha.
— Aquele símbolo não foi colocado para marcar o Refúgio.
Rafael franziu a testa.
— Então para quê?
— Para marcar você.
O salão inteiro ficou silencioso.
Rafael sentiu todos os olhares sobre ele.
— Por quê?
Victor respondeu:
— Porque você carrega alguma coisa.
— O quê?
— Ainda não sei.
Samuel murmurou:
— Eu sei.
Rafael virou-se.
— Você sabia?
Samuel não respondeu.
— Samuel!
— Eu suspeitava.
— Do quê?
Victor interrompeu:
— Não agora.
Rafael apontou a arma para Victor.
— Você não vai continuar escondendo isso.
Victor não demonstrou medo.
— Abaixe a arma.
— Não.
— Rafael.
— Diga o que sabe.
Victor olhou para o cano.
— Se eu quisesse que aquele monstro atacasse, você acha que estaria vivo?
Rafael não respondeu.
Victor virou-se para a saída.
— Pense no que eu ofereci.
Augusto falou:
— Não aceitamos.
Victor parou.
— Ainda.
— Não vamos entregar nossa comida.
— Então preparem-se.
Ele saiu.
Rafael, Lívia e Samuel o seguiram até a muralha.
Victor caminhou até a abertura.
Brutus ainda estava ali.
O gigante abaixou a cabeça quando ele se aproximou.
Victor colocou uma mão sobre as placas do pescoço da criatura.
— Vamos.
O monstro virou-se.
Antes de partir, Victor olhou para Rafael.
— Vocês têm até amanhã à noite.
— Para quê?
— Para decidir se querem proteção.
— E se recusarmos?
Victor sorriu.
— Então vou retirar a minha proteção.
Ele entrou na floresta.
Brutus o seguiu.
Os dois desapareceram entre as árvores.
Durante vários minutos, ninguém falou.
Então Augusto respirou fundo.
— Fechem todos os portões.
Os guardas obedeceram.
Rafael permaneceu olhando para a floresta.
— Ele poderia ter matado todos nós.
Samuel respondeu:
— Poderia.
— Mas não matou.
— Ainda não.
Lívia olhou para Samuel.
— Você realmente conhece aquele homem.
Samuel permaneceu calado.
Rafael virou-se.
— Agora você vai contar.
— Não aqui.
— Onde então?
— Em algum lugar onde as paredes não possam ouvir.
Rafael franziu a testa.
— As paredes?
Samuel olhou para a muralha.
— Você acha que aquele símbolo desapareceu?
Rafael olhou.
O desenho ainda estava lá.
Mas havia uma diferença.
Uma das linhas havia mudado de posição.
Como se estivesse sendo redesenhada diante dos olhos deles.
Samuel ficou pálido.
— Não...
Lívia percebeu.
— O que foi?
Samuel apontou.
— O símbolo está mudando.
Rafael se aproximou.
As linhas vermelhas começaram a se reorganizar lentamente.
Formaram um círculo.
Depois três linhas.
Depois uma quarta.
E finalmente surgiu uma forma que parecia uma seta.
Apontando para dentro do Refúgio.
Rafael sentiu um peso no peito.
— Isso significa alguma coisa?
Samuel respondeu:
— Sim.
— O quê?
— A marca mudou.
— E daí?
Samuel olhou para as casas.
Para a enfermaria.
Para as pessoas.
Para a escuridão.
— Antes, ela dizia que alguém estava aqui.
Rafael perguntou:
— E agora?
Samuel respondeu em voz baixa:
— Agora está dizendo que alguma coisa já entrou.
Rafael imediatamente sacou a arma.
Lívia fez o mesmo.
Augusto gritou para os guardas revistarem as entradas.
Moradores começaram a sair das casas, assustados.
E então veio um grito.
Do outro lado do Refúgio.
Depois outro.
Rafael correu.
Lívia o acompanhou.
Samuel ficou alguns segundos parado diante do símbolo.
Quando finalmente começou a correr atrás deles, percebeu algo que nenhum dos outros havia notado.
Uma pequena luz vermelha estava brilhando no centro do desenho.
E, muito longe dali, nas montanhas, outra luz respondeu.
Depois outra.
E outra.
Como se uma cadeia de sinais estivesse sendo transmitida de um ponto ao outro.
Samuel parou.
Olhou para as montanhas.
— Eles começaram — murmurou.
Então ouviu um som atrás de si.
Passos.
Samuel virou-se.
No fim da rua, entre as sombras das casas, havia uma silhueta humana.
A pessoa estava parada.
Imóvel.
E três pequenos pontos vermelhos brilhavam no peito.
Samuel não conseguiu respirar.
A silhueta ergueu lentamente uma das mãos.
As luzes vermelhas piscaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então a figura desapareceu na escuridão.
Samuel correu atrás dela.
Mas quando chegou ao lugar, não havia ninguém.
Apenas uma nova marca vermelha desenhada no chão.
E, no centro dela, uma única palavra escrita de forma irregular:
CONDUTOR.

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