O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 16 — O TÚNEL

 Na manhã seguinte, o Refúgio parecia uma comunidade derrotada.

 O medo de Brutus foi a primeira coisa que Rafael não conseguiu explicar naquela noite. O gigante, capaz de derrubar uma muralha e esmagar veículos com as próprias mãos, havia recuado diante de algo que ninguém conseguia ver. E, se até as criaturas de Victor estavam assustadas, talvez o verdadeiro perigo não estivesse no cerco.

Estava debaixo do Refúgio.

Rafael passou as horas seguintes observando a fissura que atravessava o pátio. A cada novo tremor, a abertura revelava mais um pedaço da superfície metálica enterrada sob as fundações. Não parecia uma placa colocada ali por acaso. Havia linhas gravadas no metal, formando círculos concêntricos em torno de um símbolo vermelho.

Samuel examinou as marcas sem tocar nelas. O aparelho em suas mãos respondia com pulsações regulares, como se reconhecesse alguma coisa antiga.

— Isso não fazia parte da estação ferroviária — afirmou Augusto.

— Como pode ter certeza? — perguntou Rafael.

— Porque conheço os projetos originais. A construção dos túneis foi interrompida antes de chegarem a esta área. Quando transformamos a estação em abrigo, não havia nenhuma estrutura registrada sob o pátio.

Rafael olhou para a abertura.

— Então alguém construiu isso depois.

Samuel balançou a cabeça.

— Ou a estação foi construída em cima de algo que já existia.

Naquele instante, uma corrente de ar frio subiu da fissura, trazendo consigo um cheiro de terra molhada, ferrugem e alguma coisa que lembrava carne apodrecida.

E, no fundo da escuridão, uma luz amarela piscou três vezes.

Lívia aproximou-se, ajustando a alça do rifle.

— Se existe uma passagem lá embaixo, precisamos descobrir aonde ela leva antes que Victor decida atacar de verdade.

Rafael concordou. Talvez aquele túnel fosse a única oportunidade de retirar os moradores do Refúgio sem atravessar o cerco. Mas, antes de transformar a passagem em rota de fuga, precisariam descobrir quem a construíra, por que fora escondida e o que estava se movendo nas profundezas.

Porque uma saída desconhecida também podia ser uma armadilha.

Augusto mandou isolar o pátio e proibiu qualquer pessoa de se aproximar da fissura sem autorização. Dois guardas posicionaram barricadas ao redor da abertura, enquanto outros retiravam os moradores dos alojamentos mais próximos. A ordem provocou protestos. Muitos sobreviventes já estavam assustados com os monstros que cercavam a comunidade, e descobrir que havia uma estrutura desconhecida sob seus pés só aumentava o pânico.

Rafael compreendia a preocupação de Augusto, mas não podia ignorar a possibilidade de encontrar uma saída.

— Temos três dias — disse ele, quando os dois se reuniram com Lívia e Samuel perto da antiga sala de manutenção. — Talvez menos, se Victor resolver atacar antes do prazo.

— E você quer explorar uma passagem que pode estar cheia de criaturas — respondeu Augusto.

— Quero saber se existe uma rota que nos permita retirar as crianças, os feridos e quem não conseguir lutar.

— Se o túnel terminar embaixo da floresta, podemos acabar levando todos diretamente para uma armadilha.

— Se não verificarmos, nunca saberemos.

Augusto apoiou as mãos sobre a mesa. O rosto cansado mostrava que ele vinha dormindo pouco desde o primeiro ataque.

— E quem vai fazer essa exploração?

— Eu vou — respondeu Lívia, antes que Rafael pudesse falar.

Ela já havia separado uma mochila, duas lanternas, cordas, uma pequena quantidade de explosivos improvisados e ferramentas para abrir passagens bloqueadas.

— Conheço os sinais de perigo e sei rastrear criaturas em ambientes fechados. Se houver alguma coisa lá embaixo, prefiro ser a primeira a encontrá-la.

— Você não vai sozinha — disse Rafael.

— Eu não disse que iria.

Lívia apontou para Davi, que estava sentado perto da porta, examinando um mapa antigo.

— O garoto conhece os canais de drenagem e consegue reconhecer as estruturas que passam por baixo da estação. Pode nos ajudar a identificar o caminho sem precisar entrar em todas as passagens.

Rafael virou-se para ele.

— Nem pensar.

Davi levantou os olhos.

— Eu nem falei nada!

— Não precisa. Já sei o que está pensando.

— Então sabe que posso ajudar.

— Também sei que você tem onze anos e que existem monstros lá embaixo.

O garoto apertou os lábios, frustrado.

— E existem monstros aqui em cima também.

Ninguém respondeu imediatamente.

A frase atingiu Rafael de maneira dolorosa porque era verdade. O Refúgio já não oferecia a segurança que deveria. As muralhas estavam danificadas, os alimentos eram insuficientes e centenas de criaturas aguardavam do lado de fora. Sob o pátio, alguma coisa desconhecida parecia estar despertando.

Mesmo assim, Rafael não queria arriscar a vida de Davi.

— Você vai ajudar com os mapas — decidiu. — Mas ficará aqui com Augusto. Se encontrarmos uma passagem, precisaremos que alguém organize a evacuação.

Davi pareceu prestes a discutir, mas finalmente assentiu.

Samuel colocou o aparelho vermelho sobre a mesa.

— Eu também vou.

Lívia cruzou os braços.

— Você mal consegue explicar o que esse aparelho faz.

— Justamente por isso preciso acompanhá-los. O sinal que recebemos vem de baixo. Se houver algum equipamento antigo no túnel, talvez eu consiga descobrir como ele funciona.

Rafael observou o pesquisador por alguns segundos.

Samuel havia escondido informações importantes desde que se conheceram. Sua ligação com os sinais, o passado no hospital e a maneira como reconhecia os símbolos continuavam levantando dúvidas. Mas também era a única pessoa do grupo que compreendia parte da tecnologia dos Condutores.

— Você ficará no meio da equipe — decidiu Rafael. — E, se perceber qualquer coisa estranha, vai nos contar imediatamente.

Samuel assentiu.

Não pareceu ofendido com a desconfiança.

Talvez porque soubesse que a merecia.


A entrada do túnel foi encontrada duas horas depois, atrás de uma parede falsa no antigo depósito ferroviário.

O lugar ficava abaixo da ala norte, em uma parte da estação que havia sido abandonada muito antes da chegada dos monstros. Caixas apodrecidas, ferramentas enferrujadas e peças de máquinas cobriam o chão. Uma fileira de armários tombados escondia uma porta estreita, quase inteiramente coberta por camadas de poeira.

Quando Lívia afastou os últimos objetos, revelou-se uma superfície metálica sem maçaneta.

Havia um símbolo gravado no centro.

O mesmo símbolo vermelho encontrado nas criaturas.

— Alguém realmente queria esconder isso — murmurou ela.

Samuel aproximou o dispositivo da porta.

A tela acendeu imediatamente.

Três linhas de caracteres surgiram, seguidas por uma sequência de números que desapareceu antes que ele pudesse registrá-la.

Um ruído veio de dentro da parede.

As travas se soltaram uma a uma.

A porta abriu alguns centímetros, liberando um sopro de ar gelado.

Rafael apontou a lanterna para a abertura.

Uma escadaria descia em direção à escuridão. Os degraus eram estreitos e estavam cobertos por uma camada de poeira fina, mas havia marcas recentes no centro, como se alguma coisa tivesse passado por ali.

— Essas marcas são novas — disse Lívia, ajoelhando-se para examiná-las.

— Pegadas? — perguntou Rafael.

— Não exatamente.

Ela iluminou o chão.

As marcas tinham o formato de sulcos paralelos, acompanhados por pequenos pontos circulares.

Samuel se aproximou.

— Rodas.

— De algum veículo? — perguntou Rafael.

— Talvez. Mas não são marcas de pneus comuns. Veja a distância entre os sulcos.

Rafael observou a escadaria. Os rastros desapareciam na escuridão, seguindo para baixo.

— Então alguém usou esse túnel recentemente.

— Ou alguma coisa — acrescentou Lívia.

A equipe se preparou para descer.

Lívia assumiu a liderança, seguida por Rafael e Samuel. Dois guardas experientes, Elias e Mauro, completavam o grupo. Cada um carregava uma arma, uma lanterna e uma máscara improvisada para filtrar a poeira. Uma corda foi presa à entrada e desenrolada conforme avançavam, permitindo que encontrassem o caminho de volta caso as luzes falhassem.

Antes de entrar, Rafael olhou para a escadaria pela última vez.

Pensou em Mariana, que ainda se recuperava no alojamento médico. Pensou nas crianças escondidas nos abrigos e nos moradores que esperavam que ele encontrasse uma maneira de mantê-los vivos.

Não podia prometer que aquele túnel os salvaria.

Mas precisava descobrir se havia uma chance.

E desceu.


A escadaria parecia interminável.

Depois de quase dez minutos, as paredes de concreto deram lugar a blocos de pedra escura. O ar tornou-se mais frio, e o som distante das vozes do Refúgio desapareceu completamente.

No fundo, encontraram um corredor largo o suficiente para permitir a passagem de dois veículos lado a lado. Trilhos antigos atravessavam o chão, cobertos por ferrugem e pequenos fragmentos de rocha. Tubulações percorriam o teto, algumas rompidas, outras ainda intactas.

Lívia ergueu a mão, ordenando que todos parassem.

— Escutem.

Um ruído distante ecoava pelo túnel.

Parecia água correndo.

Mas, por baixo dele, havia outro som: um arrastar lento, interrompido por estalos metálicos.

Rafael apontou a lanterna para a curva à frente.

Nada se moveu.

— Pode ser alguma máquina antiga — sussurrou Samuel.

— Ou alguma coisa usando uma máquina antiga — respondeu Lívia.

Ela avançou devagar, examinando o chão e as paredes. Rafael a acompanhou, mantendo a arma pronta.

Depois da curva, encontraram a primeira bifurcação.

O corredor principal seguia para a esquerda. À direita, uma passagem estreita terminava em uma porta parcialmente caída. Havia símbolos gravados sobre o batente, quase apagados pelo tempo.

Samuel aproximou-se para examiná-los.

— Não são os mesmos que aparecem nos monstros.

— O que significam? — perguntou Rafael.

— Ainda não sei.

Ele passou os dedos sobre as marcas.

— Mas parecem instruções. Talvez indiquem uma área de acesso restrito.

Lívia apontou a lanterna para a porta caída.

— Então vamos descobrir por que era restrita.

A passagem levava a uma sala pequena, cheia de armários metálicos. Muitos haviam sido abertos à força. Papéis amarelados estavam espalhados pelo chão, misturados a ferramentas, embalagens vazias e pedaços de equipamentos eletrônicos.

No canto havia uma mesa com um esqueleto sentado atrás dela.

Rafael parou.

O cadáver vestia um uniforme escuro, semelhante aos antigos uniformes ferroviários, mas trazia no peito uma insígnia desconhecida: um círculo atravessado por três linhas.

Lívia examinou a sala antes de se aproximar.

— Não vejo sinais de luta recente.

Samuel se ajoelhou junto ao esqueleto.

— Essas pessoas estavam aqui muito antes de o Refúgio existir.

Rafael apontou para os papéis.

— Talvez encontremos alguma coisa que explique a passagem.

Ele começou a examinar os documentos, tomando cuidado para não destruí-los. A maioria estava deteriorada demais para ser lida, mas alguns diagramas permaneciam relativamente preservados.

Havia desenhos de túneis, mapas subterrâneos e esquemas de máquinas instaladas em grandes câmaras.

Em uma das folhas, Rafael encontrou a planta de uma estrutura circular localizada muito abaixo da estação.

A estrutura era enorme.

E havia várias linhas ligando-a a outros pontos subterrâneos.

— Samuel, venha ver isto.

O pesquisador se aproximou e ficou imóvel.

— Esse desenho...

— Você conhece?

— Não. Mas já vi algo parecido.

Ele retirou do bolso um pequeno caderno e folheou algumas páginas. Entre suas anotações, havia uma cópia rudimentar do símbolo encontrado na porta.

Rafael percebeu.

— Você já conhecia esse lugar.

Samuel fechou o caderno.

— Conhecia o símbolo. Não o túnel.

— Está mentindo novamente?

— Não. Há anos, durante minhas pesquisas, encontrei referências a instalações subterrâneas construídas antes do colapso. A maioria foi classificada como projeto militar. Nunca consegui descobrir o que faziam.

— E você achou melhor não contar isso?

Samuel sustentou o olhar de Rafael.

— Eu não sabia que uma dessas instalações ficava sob o Refúgio.

Antes que Rafael pudesse insistir, Lívia chamou a atenção de todos.

Ela estava parada diante de um armário aberto. Dentro havia uma mochila ressecada, um cantil vazio e uma fotografia quase destruída.

Lívia retirou a imagem com cuidado.

Mostrava seis pessoas diante da entrada do túnel. Todas usavam roupas de sobreviventes, e duas carregavam armas improvisadas.

No verso, havia uma data.

A fotografia fora tirada apenas alguns meses depois do início do desastre.

Rafael sentiu o peito apertar.

— Alguém tentou escapar por aqui.

Lívia examinou o rosto das pessoas.

— Ou alguém tentou chegar a algum lugar.

Ela virou a fotografia para a frente novamente.

Uma das figuras havia sido riscada com tinta vermelha.

Sobre o rosto, alguém desenhara o símbolo dos Condutores.


O primeiro corpo foi encontrado a menos de cinquenta metros da sala.

Estava caído junto aos trilhos, parcialmente coberto por uma camada de poeira. Os ossos dos braços e das pernas estavam quebrados, mas não havia sinais de mordidas. Uma pequena bolsa permanecia presa à cintura, contendo algumas moedas, um canivete e um pedaço de papel dobrado.

Rafael abriu o papel.

A mensagem era curta.

Não sigam as luzes. Elas sabem que estamos aqui.

Ele mostrou a frase a Lívia.

— Quem escreveu isso sabia que havia alguma coisa no túnel.

— Ou descobriu tarde demais — respondeu ela.

Continuaram avançando.

O corredor principal descia gradualmente, e a temperatura parecia cair a cada curva. As paredes apresentavam marcas de ferramentas, riscos profundos e manchas escuras que Rafael preferiu não examinar de perto.

Em alguns trechos, havia objetos espalhados pelo chão: garrafas quebradas, sapatos, mochilas vazias e armas enferrujadas.

Em outros, encontravam restos humanos.

Alguns cadáveres estavam agrupados perto de portas fechadas. Outros se encontravam espalhados ao longo dos trilhos, como se seus donos tivessem tentado fugir até o último instante.

Mauro parou junto a um corpo encostado na parede.

— Este aqui está segurando alguma coisa.

Entre os dedos ossudos havia uma pequena chave de metal.

Rafael retirou-a cuidadosamente.

Na parede atrás do cadáver, alguém havia gravado uma mensagem usando uma ferramenta afiada:

A SAÍDA NÃO É UMA SAÍDA.

Lívia leu as palavras em silêncio.

— Talvez o túnel não leve para fora.

— Precisamos continuar — disse Rafael.

Ela apontou a lanterna para a escuridão.

— Se essas pessoas morreram tentando escapar, precisamos descobrir o que as impediu.

Samuel examinou o dispositivo.

A tela mostrava uma linha vermelha avançando lentamente, acompanhada por um sinal intermitente.

— Estamos nos aproximando de uma fonte de energia.

— Isso é bom? — perguntou Elias.

— Não sei.

— Você nunca sabe — resmungou o guarda.

Samuel não respondeu.

O sinal ficou mais forte à medida que avançavam. Logo, começaram a ouvir ruídos que não pareciam vir de máquinas. Eram sons baixos, semelhantes a sussurros, que surgiam de diferentes partes do corredor.

Rafael ouviu o próprio nome.

Virou-se imediatamente.

— Quem falou?

Os outros o encararam.

— Ninguém falou nada — disse Lívia.

O sussurro voltou.

Dessa vez, Rafael teve certeza de que vinha da parede.

Rafael...

Ele recuou um passo.

— Estamos indo embora — declarou Mauro. — Não vou continuar descendo com essa coisa chamando a gente.

— Ainda não encontramos uma saída — respondeu Rafael.

— E talvez nunca encontremos!

Lívia levantou o rifle.

— Silêncio.

Todos pararam.

Do outro lado da parede, alguma coisa arranhou o concreto.

Uma vez.

Duas.

Três.

Depois, o som se afastou.

Samuel verificou o aparelho.

— Não há sinal de movimento no corredor.

— Então o que estava ali? — perguntou Elias.

Samuel olhou para as paredes.

— Talvez não estivesse no corredor.

Rafael não gostou da resposta, mas continuou andando.

Alguns minutos depois, chegaram a uma câmara ampla, sustentada por colunas de pedra. O teto desaparecia na escuridão, e os trilhos terminavam diante de uma plataforma circular.

Ao redor dela, dezenas de restos humanos estavam dispostos em fileiras.

Não pareciam vítimas de um ataque aleatório.

Os corpos haviam sido organizados.

Alguns estavam sentados junto às paredes. Outros se encontravam ajoelhados diante da plataforma, com as mãos estendidas na direção de um símbolo gravado no chão.

No centro da câmara havia uma estrutura metálica, semelhante a um pedestal, atravessada por cabos grossos que desapareciam nas paredes.

Rafael sentiu o estômago revirar.

— O que aconteceu aqui?

Samuel aproximou-se lentamente.

— Parece um local de transmissão.

— Igual à estação que encontramos sob os alojamentos?

— Talvez mais antigo.

O pesquisador apontou para os cabos.

— A estação do Refúgio pode ter sido construída para se conectar a esta estrutura. Ou as duas podem fazer parte do mesmo sistema.

Lívia examinou os restos humanos.

— Essas pessoas não tentaram fugir. Vieram para cá.

Rafael compreendeu o que ela queria dizer.

As marcas no chão indicavam que os corpos haviam sido arrastados até a plataforma. Alguns crânios apresentavam pequenas perfurações na base, semelhantes às marcas deixadas pelo filamento luminoso que a criatura retirara de Nestor.

— Eles estavam extraindo alguma coisa dessas pessoas — disse Rafael.

Samuel permaneceu em silêncio.

— As memórias — acrescentou Rafael. — Como fizeram com Nestor.

O pesquisador assentiu lentamente.

— Talvez. Mas não sabemos se foi o mesmo processo.

Um ruído metálico ecoou atrás deles.

Mauro virou-se, apontando a arma para o corredor.

— Temos companhia.

Uma pequena luz vermelha surgiu na escuridão.

Depois outra.

Lívia posicionou-se diante de Rafael.

A luz desapareceu.

No mesmo instante, o aparelho de Samuel emitiu um sinal agudo, e todas as luzes da câmara se acenderam.

Não eram lâmpadas comuns. Pequenos pontos luminosos estavam embutidos nas paredes, formando linhas que convergiam para a plataforma central.

E, quando a iluminação revelou toda a extensão da câmara, Rafael percebeu as pinturas.


As paredes estavam cobertas por imagens antigas.

Algumas haviam sido feitas com pigmentos escuros, outras com uma substância avermelhada que continuava brilhando fracamente. As pinturas percorriam toda a câmara, organizadas em sequências que pareciam contar uma história.

Na primeira, figuras humanas apareciam reunidas ao redor de grandes criaturas. Os monstros tinham formas diferentes: alguns pareciam animais enormes, outros possuíam corpos alongados e membros semelhantes aos de insetos.

Os humanos não estavam fugindo deles.

Estavam conduzindo-os.

Uma figura segurava um bastão acima da cabeça, enquanto uma criatura gigantesca se ajoelhava diante dela. Outras pessoas levantavam as mãos, e vários monstros se moviam na mesma direção.

Na pintura seguinte, os humanos apareciam diante de uma cidade cercada por muralhas. Criaturas patrulhavam os arredores, enquanto grupos de pessoas trabalhavam juntas para construir estruturas semelhantes às torres de vigilância do Refúgio.

Rafael aproximou a lanterna.

— São Condutores.

Samuel observou os desenhos.

— Ou os primeiros humanos que aprenderam a controlar os sinais.

A sequência continuava.

Em uma das imagens, homens e mulheres estavam conectados a criaturas por linhas vermelhas que saíam de suas cabeças. Não havia fios físicos. As linhas pareciam representar uma ligação invisível entre as mentes.

Em outra, uma figura humana estendia as mãos para um monstro ferido. A criatura abaixava a cabeça, e várias pessoas se aproximavam para tratar suas feridas.

As imagens não mostravam uma batalha.

Mostravam cooperação.

Lívia passou a mão perto de uma pintura, sem tocá-la.

— Então eles viviam juntos.

— Pelo menos alguns deles — respondeu Samuel.

Rafael continuou examinando a parede.

A sequência seguinte era diferente.

As figuras humanas apareciam divididas em grupos. Algumas mantinham os vínculos com os monstros; outras apontavam armas para as criaturas. No centro da imagem, um homem erguia um símbolo vermelho sobre uma multidão ajoelhada.

Ao redor dele, os monstros se curvavam.

Mas os seres humanos também.

— Isso não é controle — murmurou Rafael. — É submissão.

Samuel assentiu.

— Talvez alguém tenha descoberto como usar a conexão para dominar não apenas as criaturas, mas também outras pessoas.

A pintura seguinte mostrava uma grande estrutura subterrânea, idêntica à plataforma no centro da câmara. Ao redor dela, figuras humanas estavam deitadas, enquanto linhas vermelhas ligavam seus corpos a um círculo central.

Acima da estrutura, um desenho representava uma criatura enorme, tão grande que seu corpo ultrapassava os limites da pintura.

Não tinha olhos visíveis.

Apenas um símbolo vermelho no centro da cabeça.

Rafael sentiu a mesma pressão mental que experimentara diante da criatura de três luzes.

— Essa coisa está relacionada ao que está debaixo do Refúgio.

Samuel não respondeu.

Na última sequência, as figuras humanas fugiam de uma cidade em chamas. Algumas carregavam crianças. Outras eram perseguidas por monstros que antes pareciam obedecer-lhes.

No fim da parede, uma frase estava gravada em caracteres que Samuel não conseguiu traduzir.

Abaixo dela, alguém acrescentara palavras muito mais recentes, escritas com tinta escura.

Lívia aproximou a lanterna.

As letras eram irregulares, como se tivessem sido feitas às pressas.

NÓS OS ENSINAMOS A OBEDECER. ELES APRENDERAM A ESCOLHER.

Rafael leu a frase em voz alta.

Davi teria compreendido imediatamente o significado, pensou ele. As criaturas não eram apenas armas que alguém havia aprendido a controlar. Talvez tivessem desenvolvido uma vontade própria. Talvez os Condutores não fossem os verdadeiros mestres.

Samuel aproximou-se do centro da câmara.

O dispositivo em suas mãos começou a vibrar.

— Há outra coisa aqui.

Ele caminhou até o pedestal metálico e examinou a superfície. Pequenas inscrições estavam gravadas ao redor da base, acompanhadas por símbolos semelhantes aos encontrados no corpo dos monstros.

Rafael ficou ao lado dele.

— O que está escrito?

— Não consigo traduzir tudo. Mas este símbolo aparece repetidamente.

Samuel apontou para um desenho que lembrava um círculo aberto, atravessado por três linhas.

— Nas anotações antigas, esse sinal é associado a uma palavra que pode significar vínculo, ligação ou passagem.

— Passagem para onde?

— Não sei.

O pesquisador passou o aparelho sobre o pedestal.

A tela ficou completamente branca.

Então surgiu uma imagem.

O desenho de um mapa.

Rafael reconheceu a forma do terreno imediatamente. A representação mostrava a estação ferroviária, as muralhas do Refúgio e as construções ao redor. Linhas vermelhas percorriam o subsolo, conectando a cisterna, os alojamentos e a câmara em que estavam.

Mas havia muito mais.

O túnel continuava para além da câmara, atravessando a região e seguindo em direção às montanhas.

E, no fim da linha, havia um símbolo que pulsava com uma luz vermelha intensa.

— Essa é a nossa rota de fuga — disse Lívia.

Samuel ampliou o mapa.

— Talvez. Mas olhem para isso.

Pequenos pontos apareceram ao longo da linha subterrânea. Eram dezenas, talvez centenas. Alguns estavam imóveis. Outros se deslocavam lentamente na direção da câmara.

Rafael sentiu a garganta secar.

— O que são esses pontos?

Samuel observou o aparelho por alguns segundos.

— Não sei dizer se representam pessoas, criaturas ou sinais ativos.

Um dos pontos mudou de direção.

Depois outro.

E outro.

Todos começaram a avançar na direção deles.

— Temos que sair daqui — disse Lívia.

Rafael concordou imediatamente.

— Recolham o equipamento. Vamos voltar pelo caminho que viemos.

Mas, quando se virou, percebeu que Mauro havia desaparecido.

O guarda estivera perto da entrada da câmara segundos antes. Agora, restava apenas sua lanterna caída no chão, ainda acesa.

— Mauro? — chamou Elias.

Nenhuma resposta.

Lívia ergueu o rifle.

— Ninguém se afasta da equipe!

Um ruído veio do outro lado da plataforma.

Passos lentos.

Depois, a voz de Mauro ecoou na escuridão.

— Encontrei a saída.

Rafael apontou a lanterna na direção do som.

O guarda estava parado diante de uma passagem estreita, aberta na parede oposta. Atrás dele havia uma escadaria que subia, iluminada por pequenas luzes amarelas.

— Como chegou aí? — perguntou Rafael.

Mauro não respondeu.

Seu rosto estava parcialmente escondido pela sombra, mas sua postura parecia estranha. Os braços pendiam ao lado do corpo, rígidos demais, e a cabeça permanecia ligeiramente inclinada.

Samuel levantou o dispositivo.

A tela explodiu em luz vermelha.

— Não se aproxime dele! — gritou.

Mauro ergueu o rosto.

Seus olhos estavam completamente vermelhos.

— A saída está aberta — disse o guarda, com uma voz que não parecia pertencer a ele. — O caminho para o hospedeiro está preparado.

Lívia apontou o rifle.

— Mauro, afaste-se da passagem!

O homem sorriu.

Um sorriso vazio, sem qualquer vestígio de reconhecimento.

Atrás dele, as luzes amarelas se apagaram uma a uma.

E alguma coisa enorme começou a descer a escadaria.

Rafael ouviu o primeiro impacto, seguido por um segundo, muito mais pesado. A estrutura inteira tremeu. Poeira caiu do teto, e os pontos vermelhos no mapa de Samuel aceleraram, convergindo para a câmara.

— Corram! — gritou Rafael.

A equipe começou a recuar.

Mauro permaneceu na passagem, bloqueando a única rota visível para fora da câmara. Sua boca se abriu, mas a voz que saiu não era humana.

— Vocês não precisam fugir.

As paredes começaram a vibrar.

— O caminho sempre esteve aberto.

Rafael agarrou Samuel pelo braço e puxou-o para o corredor dos trilhos. Lívia cobriu a retirada, enquanto Elias tentava alcançar Mauro sem se aproximar demais da passagem.

Então a criatura apareceu.

Primeiro, uma mão gigantesca envolveu a borda da abertura. Os dedos eram cobertos por placas negras, e linhas vermelhas pulsavam entre as articulações. Depois surgiu um braço comprido, seguido por uma cabeça sem olhos, marcada pelo mesmo símbolo que aparecia nas pinturas.

A criatura se arrastou para dentro da câmara.

Era a mesma figura representada acima da estrutura subterrânea, mas agora Rafael podia ver sua verdadeira dimensão. O corpo ocupava quase toda a passagem, e os membros se dobravam em ângulos impossíveis para atravessar o espaço estreito.

Mauro ajoelhou-se diante dela.

A criatura baixou a cabeça e tocou a testa do guarda com um dedo.

Um clarão vermelho iluminou a câmara.

Quando a luz desapareceu, Mauro estava imóvel no chão.

A criatura ergueu lentamente a cabeça e virou-se na direção de Rafael.

O dispositivo de Samuel emitiu um último sinal.

Na tela, uma mensagem surgiu:

ROTA DE FUGA IDENTIFICADA.

Logo abaixo, apareceu outra.

ROTA DE FUGA BLOQUEADA.

Rafael apertou o braço de Samuel.

— Precisamos encontrar outro caminho!

O pesquisador olhou para o mapa. Seus dedos tremiam enquanto ele tentava ampliar a imagem.

— Existe uma segunda passagem — disse. — Mais estreita. Ela se conecta a uma área próxima das montanhas.

— Então vamos!

Samuel ergueu os olhos.

— Rafael, você não está entendendo. A passagem não leva apenas para fora do Refúgio.

Ele apontou para um símbolo que acabara de aparecer no mapa.

Era uma figura humana cercada por linhas vermelhas.

Abaixo dela, uma palavra surgiu lentamente.

ESCOLHIDO.

O chão tremeu novamente.

Atrás deles, a criatura avançou um passo.

E, pela primeira vez, Rafael ouviu a voz dentro da própria cabeça antes mesmo de sentir a presença.

Finalmente encontramos o caminho de volta.

Ele não sabia quem estava falando.

Mas reconheceu a sensação que acompanhava aquelas palavras.

Era a mesma que sentira quando a criatura de três luzes o identificara diante do Refúgio.

A mesma presença que parecia procurar alguma coisa dentro de sua memória.

E agora, vindo das profundezas, ela estava muito mais próxima.

Rafael olhou para a passagem que levava às montanhas, depois para a criatura que bloqueava o caminho de volta.

Não havia tempo para compreender as pinturas, descobrir quem construíra o túnel ou decifrar o significado do símbolo.

Precisavam sobreviver.

Lívia apontou para uma abertura estreita entre duas colunas, quase escondida atrás de uma pilha de pedras.

— Por ali! Agora!

Rafael empurrou Samuel na direção da abertura e correu atrás dele. Elias foi o último a atravessar. Antes de desaparecer na passagem, olhou para trás.

A criatura não os perseguiu imediatamente.

Permaneceu junto ao pedestal, observando as pinturas nas paredes.

Então ergueu uma das mãos.

Todas as figuras humanas representadas na pedra começaram a brilhar em vermelho.

E, do outro lado da câmara, dezenas de olhos se abriram na escuridão.

A exploração do túnel havia revelado uma possível rota de fuga, mas também mostrara que o Refúgio fora construído sobre algo muito mais antigo do que qualquer um deles imaginava.

Algo que conhecia os humanos.

Algo que conhecia os Condutores.

E algo que, por algum motivo, parecia reconhecer Rafael.

Enquanto a equipe avançava pelo corredor estreito, um novo tremor percorreu as profundezas. A passagem atrás deles começou a desabar, bloqueando o retorno.

À frente, a escuridão se estendia em direção às montanhas.

Samuel iluminou o mapa uma última vez.

A segunda rota estava marcada em vermelho.

E, ao lado dela, surgiu uma mensagem que fez o pesquisador parar de andar.

ACESSO AO NÚCLEO AUTORIZADO.

Ele não contou imediatamente aos outros.

Mas Rafael percebeu o medo em seu rosto.

— O que foi?

Samuel apagou a tela.

— Precisamos continuar.

— Samuel, o que você viu?

O pesquisador olhou para ele, hesitante.

— Vi uma coisa que não deveria existir.

Antes que Rafael pudesse exigir uma explicação, um som ecoou à frente.

Passos.

Vários passos.

Lentos, ritmados, aproximando-se pelo túnel.

Lívia ergueu o rifle. Elias levantou a lanterna. Rafael posicionou-se diante de Samuel.

Uma luz amarela surgiu na curva adiante.

Depois outra.

E, por trás delas, uma voz humana chamou pelo nome de Rafael.

Era a voz de Mariana.

— Rafael... finalmente encontrei você.

Ele ficou paralisado.

Porque sua irmã estava no Refúgio, a quilômetros de distância, cercada por muralhas e guardas.

E a voz que vinha da escuridão parecia exatamente a dela.


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