O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 2 — A COLÔNIA

 Rafael não conseguiu reconhecer a mulher imediatamente.

A figura cambaleava entre os automóveis destruídos, deixando pequenas manchas de sangue no asfalto. A roupa estava rasgada, o cabelo grudava no rosto sujo e uma das mãos apertava um objeto metálico contra o peito. Atrás dela, a neblina se movimentava de maneira estranha, como se alguma coisa enorme estivesse atravessando lentamente a avenida.

— Rafael! — gritou a mulher novamente.

Ele se aproximou da abertura da barricada.

— Quem é você?

A mulher ergueu a cabeça. Por um instante, seus olhos se encontraram.

— Sou eu! Lívia!

Rafael sentiu o coração disparar.

Conhecia aquela mulher. Lívia era uma das melhores caçadoras do Refúgio, uma sobrevivente que conseguia atravessar bairros inteiros sem deixar rastros. Havia desaparecido quatro dias antes, durante uma expedição ao norte da cidade.

Todos acreditavam que estivesse morta.

— Abram a porta! — ordenou Rafael.

Álvaro segurou seu braço.

— Está maluco? Tem alguma coisa atrás dela!

— Eu sei quem ela é!

— E se aquela coisa estiver seguindo a mulher?

Um rugido distante interrompeu a discussão.

Lívia tropeçou e caiu de joelhos.

Rafael não esperou mais. Pegou uma barra de ferro e começou a retirar os obstáculos da passagem. Dois homens o ajudaram, enquanto Álvaro gritava para que os demais mantivessem as armas preparadas.

A porta se abriu apenas o suficiente para permitir a passagem de uma pessoa.

— Corre! — berrou Rafael.

Lívia levantou-se com dificuldade e atravessou a abertura. No instante em que entrou, Rafael agarrou seu braço e a puxou para dentro.

A porta foi fechada.

Do lado de fora, alguma coisa atingiu a barricada.

O impacto lançou poeira pelo corredor e fez as lâmpadas piscarem.

Lívia caiu no chão, respirando com dificuldade.

— Tranque tudo! — gritou Álvaro.

Os sobreviventes empurraram novamente as estruturas metálicas contra a entrada. Um segundo golpe atingiu a barricada, seguido por um ruído de arranhões que percorreu toda a extensão da parede.

Depois, silêncio.

Rafael se ajoelhou ao lado de Lívia.

— O que aconteceu com você?

Ela tentou responder, mas começou a tossir. Havia um corte profundo na testa e marcas escuras ao redor do pescoço.

— Água — pediu.

Uma menina trouxe uma garrafa. Lívia bebeu alguns goles e fechou os olhos.

Rafael examinou o objeto metálico que ela segurava. Era um pequeno dispositivo eletrônico, protegido por uma carcaça amassada. Uma luz vermelha piscava na lateral.

— O que é isso?

Lívia apertou o aparelho contra o peito.

— Não sei. Encontrei perto da rodovia.

Álvaro aproximou-se.

— Você estava sendo perseguida por aquele gigante?

— Não era só ele.

A resposta fez todos ficarem em silêncio.

Lívia olhou para a porta reforçada.

— Existem outros. Muitos outros.

Naquela noite, ninguém conseguiu dormir direito.

O retorno ao Refúgio aconteceu na manhã seguinte.

A comunidade ficava a quase doze quilômetros do supermercado, escondida nos túneis e nas estruturas abandonadas de uma antiga estação ferroviária. Os sobreviventes haviam transformado o lugar em uma pequena fortaleza, utilizando vagões, contêineres e placas de concreto para construir muralhas ao redor das entradas.

Rafael conhecia cada corredor daquele lugar.

Conhecia as crianças que brincavam perto dos reservatórios, os idosos que cuidavam das pequenas plantações subterrâneas e os homens que passavam horas consertando armas improvisadas.

Aquele era o único lar que lhe restava.

E Mariana estava esperando por ele.

O grupo partiu pouco depois do amanhecer. Rafael carregava a mochila cheia de medicamentos e alimentos, enquanto Lívia caminhava apoiada no ombro de Álvaro. Quatro homens armados seguiam à frente, verificando os cruzamentos.

A cidade parecia ainda mais silenciosa do que no dia anterior.

As ruas estavam cobertas por uma camada de poeira cinzenta. Em alguns pontos, o asfalto havia sido arrancado, revelando tubulações retorcidas. Os edifícios mais próximos do supermercado apresentavam grandes buracos nas fachadas.

Rafael olhou para o céu.

Não havia sinal do gigante.

Mesmo assim, continuou atento.

— Quanto tempo até o Refúgio? — perguntou Lívia.

— Duas horas, se não encontrarmos problemas.

— Então precisamos chegar antes do anoitecer.

Álvaro olhou para ela.

— Por quê?

Lívia demorou a responder.

— Porque eles estão mudando.

Rafael diminuiu o passo.

— Os monstros?

Ela assentiu.

— Durante os primeiros meses, eles apareciam à noite. Ficavam escondidos nos prédios, nos túneis, em qualquer lugar onde não pudéssemos vê-los. Depois começaram a sair ao amanhecer. Agora aparecem até com o sol alto.

— Talvez estejam apenas procurando comida — sugeriu um dos homens.

Lívia lançou-lhe um olhar sério.

— Não estavam caçando animais.

— Então o quê?

Ela parou.

— Estavam procurando pessoas.

Ninguém respondeu.

O grupo continuou avançando.

Quando finalmente alcançaram a região da estação ferroviária, o sol já começava a desaparecer atrás das nuvens. A muralha do Refúgio surgiu entre os edifícios, formada por placas de aço, contêineres e pedaços de concreto retirados das construções destruídas.

Torres improvisadas erguiam-se acima das barricadas. Em cada uma delas, dois vigias observavam os arredores com binóculos e rifles.

Uma bandeira azul, desbotada pelo tempo, tremulava sobre a entrada principal.

Rafael sentiu um alívio profundo.

— Chegamos.

Um dos vigias reconheceu o grupo e acionou o mecanismo de abertura. As placas metálicas foram afastadas lentamente, revelando o corredor protegido que levava ao interior da comunidade.

Assim que Rafael atravessou o portão, dezenas de pessoas se aproximaram.

— Eles voltaram!

— Rafael!

— Encontraram comida?

Uma menina correu em sua direção e abraçou sua cintura.

Era Sofia, uma das crianças que viviam no abrigo. Tinha nove anos e perdera os pais durante a primeira invasão.

Rafael acariciou seus cabelos.

— Trouxe algumas coisas.

O sorriso da menina desapareceu quando ela percebeu o sangue na roupa de Lívia.

— Ela está machucada?

— Está, mas vai ficar bem.

Um médico apareceu com dois ajudantes e levou a caçadora para a enfermaria. Rafael entregou a mochila a uma mulher responsável pelos estoques e perguntou imediatamente por Mariana.

— Ela está no alojamento — respondeu a mulher. — A febre piorou durante a noite.

Rafael não esperou mais.

Correu pelos corredores da estação, desviando das pessoas que carregavam caixas e ferramentas. O cheiro de fumaça dos fogões improvisados misturava-se ao odor de umidade das paredes.

Quando entrou no alojamento, encontrou a irmã deitada sobre um colchão, coberta por um cobertor fino.

Mariana abriu os olhos.

— Rafa?

Ele se ajoelhou ao lado dela.

— Estou aqui.

— Pensei que você não fosse voltar.

Rafael segurou sua mão.

— Eu prometi.

Ela tentou sorrir, mas uma tosse interrompeu o movimento.

Ele retirou os medicamentos da mochila e os entregou ao médico, que examinou as embalagens com cuidado.

— Talvez consigamos controlar a infecção — disse o homem. — Mas precisamos começar imediatamente.

Rafael fechou os olhos por um instante.

Pela primeira vez em vários dias, sentiu que ainda havia alguma esperança.

Entretanto, quando saiu da enfermaria, percebeu que alguma coisa estava diferente.

As pessoas estavam reunidas no pátio central, discutindo em voz alta. Homens arrastavam placas metálicas, enquanto outros reforçavam as entradas dos túneis.

No centro da agitação estava Augusto, o líder do Refúgio.

Era um homem de quase sessenta anos, alto, de cabelos grisalhos e rosto marcado por cicatrizes. Antes do colapso, trabalhara como engenheiro civil. Desde que assumira a liderança da comunidade, havia organizado a construção das muralhas e a distribuição dos recursos.

Augusto observava um grupo de moradores discutindo diante dos depósitos.

— Não temos comida suficiente para mais duas semanas! — gritava um homem. — E vocês querem fechar as expedições?

— Se continuarmos perdendo pessoas, não haverá ninguém para comer o que restar! — respondeu Augusto.

Rafael aproximou-se.

— O que aconteceu?

Um dos moradores apontou para as muralhas.

— Encontraram marcas de garras perto da entrada norte.

Outro homem acrescentou:

— E os vigias disseram que ouviram rugidos durante a madrugada.

Augusto ergueu uma das mãos, exigindo silêncio.

— Escutem! A partir de hoje, nenhuma expedição poderá sair sem minha autorização. Não enviaremos grupos para procurar objetos inúteis, peças de máquinas ou qualquer outra coisa que não seja absolutamente necessária.

— E os alimentos? — perguntou uma mulher.

— Vamos racionar.

Um murmúrio de indignação percorreu o pátio.

— Já estamos racionando!

— As crianças estão passando fome!

— Não podemos ficar escondidos para sempre!

Augusto permaneceu imóvel.

Rafael sabia que aquelas reclamações eram legítimas. Os estoques estavam quase vazios. As plantações subterrâneas produziam apenas uma pequena quantidade de vegetais, e a água precisava ser filtrada antes do consumo.

Sem expedições, a comunidade poderia morrer de fome.

Mas sair significava enfrentar as criaturas.

— Augusto — chamou Rafael.

O líder virou-se.

— Você voltou.

— Encontrei comida e medicamentos no supermercado. Mas havia um gigante na região.

O pátio ficou silencioso.

— Quão perto? — perguntou Augusto.

— Perto o suficiente para atacar a entrada.

Algumas pessoas começaram a falar ao mesmo tempo.

Augusto ergueu a mão novamente.

— E você viu alguma outra criatura?

Rafael hesitou.

— Vi várias silhuetas ao longe.

Lívia surgiu na entrada do pátio, com um curativo na testa. O médico havia permitido que ela saísse da enfermaria depois de limpar seus ferimentos.

— Eu vi mais do que isso — disse ela.

Todos se viraram.

Lívia caminhou até o centro da comunidade.

— Durante minha última expedição, encontrei um grupo de criaturas perto da rodovia. Eram menores do que os gigantes, mas estavam se movimentando em formação.

— Formação? — repetiu Augusto.

— Como soldados.

Um homem soltou uma risada nervosa.

— Monstros não são soldados.

Lívia encarou-o.

— Então explique por que estavam cercando um acampamento humano.

O homem ficou calado.

Ela continuou:

— Durante o dia, vi três criaturas atravessando uma área aberta. Não estavam fugindo do sol, nem procurando abrigo. Caminhavam diretamente para uma antiga instalação militar.

— Talvez estivessem seguindo algum cheiro — sugeriu Rafael.

— Talvez. Mas havia outra coisa.

Lívia retirou do bolso o dispositivo metálico que encontrara perto da rodovia.

A pequena luz vermelha continuava piscando.

— Encontrei isso perto de uma carcaça de monstro. Quando me aproximei, as criaturas começaram a gritar. Uma delas veio diretamente na minha direção.

Augusto pegou o objeto.

— Você sabe o que faz?

— Não.

O líder examinou a carcaça e a luz vermelha.

— Vamos entregar isso aos técnicos.

Lívia segurou seu braço.

— Não é só o aparelho. Existe alguma coisa naquela região. Alguma coisa que está atraindo os monstros.

Augusto olhou para as muralhas.

— Precisamos descobrir o que é.

— Não! — respondeu Rafael. — Se eles estão se aproximando, não podemos mandar mais pessoas para lá.

— E se essa coisa estiver vindo para cá? — perguntou Lívia.

Ninguém teve uma resposta.

O líder guardou o dispositivo e ordenou que os moradores reforçassem as entradas. As expedições estavam suspensas até segunda ordem.

A decisão provocou novos protestos.

Alguns moradores temiam morrer de fome. Outros acreditavam que o Refúgio estava sendo cercado e que permanecer ali seria uma sentença de morte.

Rafael observou a discussão, sentindo o peso da mochila vazia sobre os ombros.

Ele havia conseguido salvar Mariana, mas não sabia por quanto tempo.

Naquela tarde, os trabalhos nas muralhas continuaram sem interrupção.

Homens e mulheres transportaram chapas metálicas, instalaram armadilhas e reforçaram os portões com vigas retiradas dos trilhos antigos. Os vigias receberam munição extra, e as crianças foram proibidas de se aproximar das entradas.

Rafael ajudou a erguer uma barricada perto do acesso norte.

Enquanto trabalhava, percebeu que os moradores estavam assustados.

Não era apenas medo dos monstros.

Era a sensação de que o mundo estava mudando novamente, e ninguém sabia o que viria depois.

Ao anoitecer, o Refúgio ficou quase completamente silencioso.

As luzes foram apagadas em vários setores para economizar energia. Os geradores funcionavam em potência reduzida, e os vigias receberam ordens para não utilizar lanternas sem necessidade.

Rafael voltou ao alojamento e encontrou Mariana dormindo.

O médico informou que a febre começava a diminuir.

Ele sentou-se ao lado da irmã e permaneceu ali por algum tempo, observando sua respiração.

Por alguns minutos, permitiu-se acreditar que tudo ficaria bem.

Então ouviu um som vindo do exterior.

Um ruído baixo, quase imperceptível.

Como uma pedra gigantesca sendo arrastada sobre o chão.

Rafael levantou-se.

Aproximou-se da entrada do alojamento e encontrou dois vigias caminhando apressadamente pelo corredor.

— O que aconteceu? — perguntou.

Um deles apontou para a escada que levava à superfície.

— Augusto chamou todo mundo para as torres.

Rafael pegou a espingarda e subiu.

O vento noturno soprava sobre as muralhas, trazendo o cheiro de terra molhada. A lua estava escondida atrás de nuvens espessas, e as montanhas ao norte formavam uma linha escura contra o horizonte.

Augusto observava aquela região com um binóculo.

Lívia estava ao seu lado.

— O que vocês estão vendo? — perguntou Rafael.

Augusto entregou-lhe o instrumento.

— Olhe para o alto da montanha.

Rafael ajustou o foco.

No início, viu apenas rochas e árvores mortas.

Então percebeu uma forma escura, imóvel, no topo da elevação.

Era enorme.

Muito maior do que qualquer criatura que tivesse visto até então.

A silhueta parecia estar ajoelhada sobre a montanha, com os braços apoiados nas pedras. Sua cabeça era alongada, e duas estruturas curvas erguiam-se acima do crânio.

Rafael sentiu a garganta secar.

A criatura não estava caminhando.

Não estava procurando comida.

Estava observando.

Diretamente para o Refúgio.

Ele abaixou o binóculo e olhou para Augusto.

— Há quanto tempo está ali?

O líder não respondeu imediatamente.

Lívia apertou a espingarda contra o peito.

— Desde antes do anoitecer.

Rafael voltou a olhar para a montanha.

Um pequeno brilho surgiu no centro da cabeça da criatura.

Depois outro.

E mais outro.

Três pontos vermelhos acenderam-se na escuridão.

No mesmo instante, o dispositivo metálico guardado por Augusto começou a emitir um sinal agudo dentro da torre.

Os vigias recuaram.

Rafael sentiu o sangue gelar.

A criatura inclinou lentamente a cabeça, como se tivesse acabado de receber uma resposta.

Então abriu a boca.

Nenhum rugido saiu.

Em vez disso, uma sequência de sons graves percorreu o vale, fazendo as muralhas vibrarem.

Lá embaixo, os geradores pararam.

As luzes do Refúgio se apagaram de uma só vez.

E, no escuro absoluto, Rafael ouviu alguma coisa responder ao chamado vindo da montanha.

Não era uma criatura.

Eram dezenas.

Os ruídos surgiam de todos os lados, vindos das florestas, das ruínas e dos túneis abandonados.

Augusto levantou a voz:

— Todos para as posições de defesa!

Os sinos de emergência começaram a tocar.

Rafael carregou a espingarda e correu para a escada, enquanto os vigias gritavam ordens e os moradores acordavam assustados.

Antes de desaparecer atrás da torre, olhou uma última vez para o topo da montanha.

A criatura gigantesca havia se levantado.

E agora estava descendo em direção ao Refúgio.

Ao longe, por trás dela, outras silhuetas começavam a surgir entre as árvores.

A primeira muralha estremeceu.

E Rafael compreendeu que a noite estava apenas começando.

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