O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 4 — A EXPEDIÇÃO
A máquina metálica avançou mais um metro pelo túnel.
Rafael ergueu a espingarda, apontando para as três luzes vermelhas que brilhavam no centro da estrutura. Ao seu lado, Lívia segurava uma barra de ferro, enquanto os sobreviventes que ainda estavam no corredor recuavam em direção à escadaria.
O ruído das rodas sobre os trilhos aumentava a cada segundo.
— Que diabo é isso? — perguntou um dos homens.
Ninguém respondeu.
A máquina tinha aproximadamente quatro metros de altura, um corpo retangular coberto por placas de metal e seis rodas articuladas. Cabos grossos pendiam de suas laterais, arrastando-se pelo chão. Na parte superior, um conjunto de tubos girava lentamente, procurando alguma coisa.
Rafael percebeu marcas semelhantes às encontradas nas criaturas mortas.
Símbolos geométricos estavam gravados na carcaça, formando linhas que se iluminavam em intervalos regulares.
— Todo mundo para trás! — gritou Lívia.
A máquina parou.
As três luzes vermelhas se voltaram para Rafael.
Um ruído eletrônico ecoou pelo túnel.
Então uma voz metálica saiu de um alto-falante enferrujado.
— Unidade de reconhecimento... contato estabelecido.
Rafael sentiu um arrepio.
A máquina continuou:
— Presença humana confirmada. Protocolo de contenção iniciado.
Uma abertura surgiu na parte dianteira da estrutura.
De dentro dela, um braço mecânico se estendeu, terminando em uma ferramenta semelhante a uma garra.
— Corram! — gritou Rafael.
Os sobreviventes dispararam pelo corredor.
A máquina emitiu um som agudo, e uma descarga elétrica atingiu a parede. O concreto explodiu em fragmentos, obrigando Rafael e Lívia a se jogarem no chão.
Eles se levantaram e continuaram correndo.
Atrás deles, o mecanismo avançava sobre os trilhos, esmagando os destroços.
Rafael alcançou a escadaria e ajudou Lívia a subir. Quando chegaram ao salão principal, encontraram Augusto organizando a retirada dos moradores.
— O que era aquilo? — perguntou o líder.
— Uma máquina — respondeu Rafael. — Estava no túnel.
— Uma máquina dos monstros?
— Não sei. Mas estava procurando humanos.
Augusto olhou para a entrada subterrânea.
Um ruído metálico começou a subir pelas escadas.
— Fechem a passagem!
Os moradores arrastaram uma pesada placa de aço e a colocaram sobre a abertura. Em seguida, empilharam móveis e caixas para reforçar a barreira.
O primeiro impacto veio poucos segundos depois.
A placa estremeceu.
O segundo impacto fez uma rachadura aparecer na parede.
Augusto ordenou que todos recuassem para o setor de manutenção, onde os últimos sobreviventes estavam reunidos.
O Refúgio havia sido destruído em grande parte. A muralha norte estava completamente derrubada, várias torres tinham sido reduzidas a escombros e os alojamentos mais próximos da entrada estavam inutilizados.
Mesmo assim, os moradores haviam conseguido conter o avanço das criaturas.
Por enquanto.
Rafael olhou para o corredor onde ficava a enfermaria.
— Mariana!
Ele correu até o alojamento.
Encontrou a irmã sentada sobre o colchão, apoiada na parede. O médico preparava uma pequena bolsa com medicamentos e instrumentos.
— Rafael! — chamou ela.
Ele se ajoelhou ao lado da jovem.
— Você está bem?
— Estou. O que aconteceu?
Rafael tentou sorrir.
— Tivemos alguns problemas.
Mariana olhou para o sangue em sua roupa.
— Você sempre diz isso.
Ele segurou a mão dela.
Durante alguns segundos, esqueceu os rugidos, os destroços e a máquina que tentava atravessar a estação.
Mas o médico interrompeu o momento.
— Rafael, preciso falar com você.
O homem se levantou.
O médico o conduziu até uma pequena sala, onde caixas vazias estavam empilhadas contra a parede.
— Os medicamentos estão acabando — explicou. — O que você trouxe do supermercado ajudou, mas não será suficiente.
Rafael sentiu o peito apertar.
— Quanto tempo temos?
— Para a Mariana? Talvez alguns dias. A infecção está diminuindo, mas ela ainda precisa completar o tratamento.
— E os outros pacientes?
O médico desviou o olhar.
— Também estamos sem antibióticos. Temos analgésicos, algumas ataduras e pouco mais.
Rafael passou as mãos pelo rosto.
A comunidade havia perdido quase todos os seus estoques durante o ataque. Parte dos alimentos fora destruída, os reservatórios estavam contaminados por escombros e o gerador principal havia parado de funcionar.
Sem medicamentos, os feridos poderiam morrer.
Sem comida, os sobreviventes não conseguiriam permanecer ali por muito tempo.
— Existe algum lugar onde possamos encontrar remédios? — perguntou ele.
O médico pensou por alguns instantes.
— O Hospital São Gabriel. Fica no centro da cidade, perto do antigo parque municipal.
Rafael conhecia o lugar.
Antes do colapso, o hospital era um dos maiores da região. Possuía um centro cirúrgico, uma farmácia central e depósitos subterrâneos.
Se ainda houvesse medicamentos preservados, aquele seria o lugar.
— Você acha que podemos encontrar alguma coisa?
— Não sei. O hospital foi abandonado durante a primeira evacuação. Mas, se os depósitos estiverem intactos, talvez haja antibióticos suficientes para todos.
Rafael respirou fundo.
A decisão já estava tomada.
Na manhã seguinte, Augusto reuniu os sobreviventes no salão principal.
A estação estava irreconhecível. As paredes apresentavam rachaduras, os corredores estavam cheios de entulho e uma fumaça fina ainda saía da região norte.
Os moradores haviam improvisado abrigos no setor subterrâneo, utilizando cobertores e pedaços de madeira para separar pequenos espaços onde as famílias pudessem descansar.
O líder subiu sobre uma plataforma e pediu silêncio.
— Precisamos tomar algumas decisões.
Um murmúrio percorreu o salão.
Augusto continuou:
— Perdemos a muralha norte, o gerador principal e grande parte dos alimentos. Não podemos continuar aqui sem buscar recursos.
Uma mulher ergueu a voz.
— E os monstros?
— Ainda estão nas proximidades. Por isso, ninguém sairá sem preparação.
Rafael deu um passo à frente.
— Eu conheço um lugar onde podemos encontrar medicamentos.
Augusto olhou para ele.
— Onde?
— No Hospital São Gabriel.
O salão ficou silencioso.
Alguns moradores trocaram olhares preocupados.
Um homem de barba curta balançou a cabeça.
— Aquele hospital fica no centro. A região está infestada.
— Eu sei — respondeu Rafael.
— Então você está sugerindo que atravessemos a cidade inteira?
— Estou sugerindo que busquemos os medicamentos de que precisamos para sobreviver.
O médico aproximou-se.
— Se não conseguirmos antibióticos, vários feridos morrerão. Não temos outra alternativa.
Augusto examinou o rosto dos moradores.
— Quantas pessoas seriam necessárias?
— Um grupo pequeno — respondeu Rafael. — Quatro ou cinco pessoas, no máximo. Quanto menos gente, menor a chance de sermos detectados.
Lívia surgiu perto da entrada.
— Eu vou.
Rafael virou-se.
— Você ainda está ferida.
— E continuo sendo a melhor caçadora daqui.
— Não é uma discussão.
— Então pare de discutir e aceite.
Alguns moradores riram nervosamente.
Augusto ergueu a mão.
— Lívia irá. Precisamos de alguém que conheça os arredores.
Uma voz infantil surgiu no fundo do salão.
— Eu também vou!
Rafael fechou os olhos.
Já sabia quem era.
Davi atravessou a multidão, segurando uma pequena mochila.
— Não! — respondeu Rafael imediatamente.
— Eu conheço os túneis perto do hospital!
— Você quase morreu ontem!
— Mas consegui voltar!
A avó do menino apareceu atrás dele.
— Davi, você não vai a lugar nenhum.
O garoto abaixou a cabeça.
Rafael aproximou-se e se ajoelhou diante dele.
— Escuta, garoto. Aquilo que aconteceu ontem não foi uma aventura. Você poderia ter morrido.
— Eu sei.
— Então por que quer ir?
Davi apertou as alças da mochila.
— Porque não quero ficar esperando todo mundo morrer.
Rafael ficou em silêncio.
O menino continuou:
— Minha avó precisa de remédios. A Mariana também. E tem outras crianças doentes. Eu posso ajudar.
Rafael olhou para Lívia.
A caçadora cruzou os braços.
— Ele conhece os túneis de manutenção melhor do que muitos adultos. Pode ser útil.
— Ele tem onze anos!
— E é inteligente. Mas não precisa decidir agora.
Augusto observou os três.
Depois de alguns instantes, tomou uma decisão.
— Davi ficará responsável por acompanhar o grupo até a entrada da cidade. Se a situação ficar perigosa, voltará imediatamente com um dos homens.
O garoto abriu um sorriso.
Rafael não gostou da ideia, mas sabia que não conseguiria convencer ninguém a desistir.
— Muito bem — disse ele. — Mas vai seguir todas as minhas ordens. Sem exceções.
— Prometo!
— E se eu mandar você correr, vai correr.
Davi assentiu.
Rafael suspirou.
A expedição partiria ao amanhecer.
Antes da partida, Rafael passou as últimas horas preparando o equipamento.
Escolheu uma mochila resistente, duas garrafas de água, uma faca de caça e a espingarda que havia recuperado depois do ataque. Levou também um mapa antigo da cidade, uma bússola e um rádio portátil que funcionava com baterias reaproveitadas.
Lívia preparou um arco, algumas flechas e um rifle com pouca munição. Além disso, separou cordas, uma pequena lanterna e um estojo de primeiros socorros.
Davi apareceu carregando uma mochila grande demais para seu corpo.
— O que tem aí? — perguntou Rafael.
— Comida.
— Quanto?
— Quatro latas de feijão, duas garrafas de água e umas bolachas.
Rafael examinou a mochila.
— Você trouxe comida para uma semana.
— Vai que a gente demora.
Lívia soltou uma risada.
— Pelo menos alguém está pensando no futuro.
Rafael devolveu a mochila ao garoto.
— Está bem. Mas não vai carregar nada que atrapalhe sua corrida.
Davi concordou.
Antes de partir, Rafael visitou Mariana.
A irmã estava mais desperta e conseguia sentar-se sem ajuda. Quando soube da expedição, tentou se levantar.
— Você não pode ir de novo.
— Preciso buscar os remédios.
— Já quase morreu ontem.
Rafael sentou-se ao lado dela.
— Eu sei.
Mariana segurou sua mão.
— Então promete que vai voltar.
Ele olhou para a jovem e sentiu a garganta apertar.
— Prometo.
Não sabia se conseguiria cumprir aquela promessa.
Mesmo assim, beijou a testa da irmã e saiu.
Ao amanhecer, Rafael, Lívia e Davi atravessaram os portões danificados do Refúgio. Dois moradores os acompanhariam até o primeiro cruzamento, mas retornariam antes de chegar ao centro.
Augusto esperava perto da entrada.
— Se encontrarem alguma coisa estranha, não tentem investigar. Quero todos de volta antes do anoitecer.
Rafael assentiu.
O líder entregou-lhe um rádio.
— Se precisarem de ajuda, usem o canal três.
Lívia verificou o rifle.
— Vamos precisar de mais do que um rádio se encontrarmos aquele gigante.
Augusto não respondeu.
Os três partiram.
A cidade parecia ter sido engolida pela natureza.
Árvores enormes cresciam através do asfalto, levantando placas de concreto com suas raízes. Trepadeiras cobriam fachadas inteiras, enquanto cipós pendiam dos postes e atravessavam as ruas como cordas.
Em alguns pontos, a vegetação era tão densa que Rafael mal conseguia enxergar os edifícios.
A natureza havia começado a recuperar o território perdido.
Mas aquela floresta urbana escondia perigos.
Lívia caminhava à frente, observando o chão em busca de pegadas. Rafael seguia logo atrás, mantendo a espingarda preparada. Davi caminhava entre os dois, tentando acompanhar o ritmo.
Depois de quase uma hora, chegaram a uma avenida parcialmente bloqueada por árvores.
Um ônibus estava preso entre duas raízes gigantescas. A carroceria havia sido coberta por musgo, e pequenos arbustos cresciam pelas janelas quebradas.
Davi aproximou-se.
— Parece uma floresta de verdade.
— Não toque em nada — advertiu Rafael.
O garoto afastou a mão de uma planta que crescia sobre a lataria.
Lívia se ajoelhou perto de uma marca no solo.
— Temos companhia.
Rafael aproximou-se.
Havia pegadas recentes na terra úmida.
Eram pequenas, com quatro dedos compridos e marcas profundas das garras.
— Quantas? — perguntou ele.
Lívia examinou o terreno.
— Pelo menos três.
Rafael olhou ao redor.
— Para onde foram?
A caçadora apontou para uma rua coberta por vegetação.
— Na direção do hospital.
Os três permaneceram em silêncio.
Davi apertou a alça da mochila.
— Será que estão lá dentro?
— Talvez — respondeu Rafael. — Por isso, vamos ficar juntos.
Continuaram avançando.
À medida que se aproximavam do centro, a vegetação tornava-se mais densa. As árvores ultrapassavam os telhados, e raízes grossas haviam rompido as paredes de vários edifícios.
Uma antiga praça estava completamente coberta por plantas. No centro, uma fonte seca havia sido transformada em uma pequena lagoa, onde a água escura refletia o céu.
Rafael parou perto de uma estátua caída.
Havia marcas de sangue nas pedras.
O sangue ainda estava úmido.
Lívia levantou o arco.
— Alguém passou por aqui recentemente.
— Um sobrevivente?
— Ou alguma coisa que não queremos encontrar.
Um ruído veio da vegetação.
Davi se aproximou de Rafael.
Uma sombra atravessou a praça.
Rápida demais para ser identificada.
Lívia disparou uma flecha.
O projétil desapareceu entre as folhas.
Um guincho agudo respondeu do outro lado da praça.
— Corram! — gritou a caçadora.
Os três atravessaram a rua, entrando em um edifício parcialmente destruído. Rafael fechou a porta atrás deles e empurrou um armário contra a entrada.
Alguma coisa atingiu a parede externa.
O edifício estremeceu.
Davi levou as mãos à boca.
Rafael apontou a espingarda para a porta.
Pelo espaço entre as tábuas, conseguiu enxergar uma criatura pequena, semelhante às que haviam atacado o Refúgio. Ela farejava o chão, movimentando a cabeça de um lado para o outro.
Mas havia algo diferente nela.
Uma sequência de marcas vermelhas brilhava sob a pele do pescoço.
Rafael sentiu um arrepio.
A criatura ergueu a cabeça.
Por um instante, pareceu olhar diretamente para a fresta.
Depois se afastou.
Os três esperaram até que os ruídos desaparecessem.
Lívia foi a primeira a falar.
— Precisamos continuar. O hospital está perto.
Rafael concordou.
Mas, enquanto saíam do edifício, não conseguiu esquecer aquelas marcas luminosas.
Era o mesmo padrão encontrado nas criaturas mortas do Refúgio.
E agora estava aparecendo em monstros que viviam naquela região.
O Hospital São Gabriel surgiu no fim da avenida pouco depois do meio-dia.
Rafael parou diante dos portões enferrujados e observou a construção.
O edifício tinha oito andares, uma fachada branca quase inteiramente coberta por trepadeiras e várias janelas destruídas. Uma árvore gigantesca crescia junto à entrada principal, atravessando o telhado da recepção.
Carros abandonados estavam espalhados pelo estacionamento. Alguns haviam sido esmagados por raízes, enquanto outros estavam cobertos por uma camada espessa de musgo.
Uma ambulância permanecia tombada perto da entrada de emergência.
— É aqui — disse Rafael.
Davi olhou para o edifício.
— Parece que ninguém vem aqui há anos.
Lívia examinou a entrada.
— Alguém veio.
Rafael seguiu o olhar dela.
Havia marcas recentes na lama, perto dos degraus. Pegadas humanas.
Não estavam cobertas por folhas nem pela vegetação.
Alguém havia passado por ali naquela manhã.
Rafael se ajoelhou e examinou as marcas.
— Três pessoas, talvez quatro.
— Como sabe? — perguntou Davi.
— Pelas diferenças entre as pegadas.
Lívia apontou para uma marca mais profunda.
— Uma delas estava carregando alguma coisa pesada.
Rafael se levantou.
— Vamos entrar. Mas ninguém toca em nada sem me avisar.
Os três atravessaram a entrada de emergência.
O interior do hospital estava mergulhado na escuridão. O chão da recepção estava coberto por folhas secas, pedaços de vidro e móveis destruídos. Um balcão de atendimento havia sido partido ao meio por uma raiz enorme.
Na parede, um relógio permanecia parado.
Rafael iluminou o corredor com a lanterna.
Vários cartazes de emergência ainda estavam presos às paredes. Um deles mostrava uma mensagem de evacuação, parcialmente rasgada pelo tempo.
Davi aproximou-se de uma cadeira de rodas tombada.
— Será que as pessoas conseguiram fugir?
Lívia examinou uma porta entreaberta.
— Algumas, provavelmente.
Rafael não respondeu.
Sabia que, durante a primeira evacuação, milhares de pessoas haviam tentado alcançar os abrigos. Poucas conseguiram.
Ele ainda se lembrava das estradas congestionadas, dos gritos e das criaturas atravessando os carros.
Afastou aquelas lembranças e apontou para o corredor.
— A farmácia central fica no segundo andar. O depósito principal deve estar no subsolo.
Os três começaram a subir as escadas.
No primeiro andar, encontraram quartos revirados e macas cobertas por poeira. Em alguns leitos, havia manchas escuras que Rafael preferiu não examinar.
No segundo andar, a situação era ainda pior.
As paredes estavam cobertas por raízes. Uma parte do teto havia desabado, bloqueando o acesso a dois corredores.
Lívia encontrou uma porta com uma placa de identificação.
— Farmácia.
Rafael tentou abrir.
Estava trancada.
Ele examinou a fechadura e retirou uma pequena ferramenta da mochila.
Depois de alguns minutos, conseguiu destravá-la.
A porta se abriu com um rangido.
O interior estava quase intacto.
Prateleiras metálicas ocupavam as paredes, e vários armários permaneciam fechados. Algumas caixas haviam caído no chão, mas grande parte dos medicamentos parecia protegida.
Rafael soltou o ar que estava prendendo.
— Conseguimos.
Davi correu até uma prateleira.
— Tem muita coisa!
— Devagar — advertiu Lívia. — Primeiro vamos verificar as embalagens.
Rafael começou a examinar os medicamentos, procurando antibióticos, analgésicos e materiais para curativos.
Encontrou várias caixas de amoxicilina, cefalexina e outros medicamentos que o médico do Refúgio havia mencionado. Algumas embalagens estavam danificadas pela umidade, mas outras pareciam preservadas.
Lívia verificava os armários, enquanto Davi organizava os itens em pequenos montes.
Por quase meia hora, trabalharam em silêncio.
Até que o garoto encontrou uma porta nos fundos da farmácia.
— Rafael, olha isso!
A porta levava a uma pequena sala de armazenamento.
No interior, havia caixas de medicamentos empilhadas até o teto.
Mas o que chamou a atenção de Rafael foi outra coisa.
Uma mesa estava posicionada no centro da sala.
Sobre ela havia uma lanterna ligada, uma garrafa de água aberta e um prato com restos de comida.
A comida ainda não estava completamente seca.
Rafael aproximou-se lentamente.
— Alguém esteve aqui.
Lívia pegou o rifle.
— E não faz muito tempo.
Davi apontou para o chão.
Havia uma sequência de pegadas que saía da sala e desaparecia atrás de uma estante.
Rafael afastou o móvel.
Uma passagem estreita apareceu na parede.
Do outro lado, uma escada descia para os níveis inferiores do hospital.
O silêncio pareceu ficar ainda mais profundo.
Então, do fundo da passagem, veio uma voz humana.
— Não se mexam!
Rafael ergueu as mãos.
Lívia apontou o rifle para a escuridão.
Davi se escondeu atrás de Rafael.
Uma luz surgiu no fim da escada.
Uma figura apareceu, segurando uma arma.
Era um homem magro, de cabelos compridos e barba grisalha. Vestia um uniforme hospitalar rasgado e carregava uma mochila cheia de equipamentos.
Ele apontou a arma diretamente para Rafael.
— Quem são vocês?
Rafael manteve as mãos erguidas.
— Somos sobreviventes. Viemos buscar medicamentos.
O homem examinou os três por alguns segundos.
Depois olhou para as caixas espalhadas pela sala.
— Vocês não deveriam estar aqui.
Lívia apertou o rifle.
— Por quê?
O homem baixou lentamente a arma.
— Porque o hospital não está vazio.
Um ruído metálico ecoou no andar inferior.
Rafael olhou para a escada.
O homem empalideceu.
— Eles sabem que vocês chegaram.
E, no fundo da passagem, três luzes vermelhas começaram a se acender.

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