O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 5 — O SOBREVIVENTE
O som das três luzes vermelhas acendendo no fundo da passagem fez Rafael sentir o sangue gelar. A máquina metálica avançava lentamente pelo corredor inferior do hospital, suas rodas esmagando os cacos de vidro espalhados pelo chão. Cada movimento era acompanhado por um ruído mecânico, como se engrenagens enferrujadas estivessem girando dentro de seu corpo.
— Não se mexam — sussurrou o homem de uniforme hospitalar.
Rafael manteve a espingarda apontada para o chão, mas seus dedos apertaram o cabo da arma.
— Você disse que o hospital não estava vazio. O que é aquela coisa?
O homem olhou para a escada.
— Uma das razões pelas quais continuo vivo.
Lívia ergueu o rifle.
— Isso não responde à pergunta.
— Não temos tempo para perguntas!
A máquina parou.
As três luzes vermelhas se fixaram nos quatro sobreviventes. Um zumbido eletrônico percorreu o corredor, aumentando de intensidade até fazer os vidros quebrados vibrarem sobre o chão.
Davi se aproximou de Rafael.
— É igual àquela coisa que apareceu no Refúgio.
Rafael assentiu lentamente. Não precisava que o menino explicasse. O formato era diferente, mas o sinal era o mesmo. As luzes, a vibração e aquele ruído agudo eram idênticos aos da máquina que surgira nos túneis da comunidade.
O homem de uniforme ficou pálido.
— Vocês já encontraram outra?
— Encontramos uma — respondeu Rafael. — E ela estava trabalhando junto com os monstros.
O desconhecido fechou os olhos por um instante.
— Então eles chegaram até vocês também.
Antes que Rafael pudesse perguntar o que aquilo significava, o homem agarrou uma alavanca enferrujada na parede e puxou com toda a força.
Uma porta de metal despencou do teto, bloqueando a passagem.
A máquina avançou contra a barreira.
O impacto sacudiu o corredor inteiro.
Davi deu um grito. Lívia segurou o garoto pelo ombro e o puxou para trás, enquanto Rafael levantava a espingarda.
Do outro lado da porta, as rodas continuaram girando. Um ruído estridente ecoou pela estrutura metálica, seguido por uma sequência de pancadas.
O homem respirava depressa.
— Temos que sair daqui.
— Quem é você? — perguntou Rafael, bloqueando sua passagem.
O desconhecido encarou a espingarda.
— Meu nome é Samuel.
— Você trabalha neste hospital?
— Trabalhava.
— E o que está fazendo aqui?
Samuel olhou para a porta de metal.
— Tentando sobreviver.
Uma pancada mais forte fez a estrutura se curvar.
Rafael percebeu que o homem não parecia surpreso com a presença da máquina. Pelo contrário, parecia saber exatamente o que ela era e o que pretendia fazer.
— Você disse que vive aqui sozinho?
Samuel hesitou.
— Há meses.
Lívia apontou o rifle para ele.
— Então vai nos explicar por que tem uma máquina dessas andando pelos corredores e por que ela está procurando pessoas.
Samuel desviou o olhar.
— Posso explicar algumas coisas. Mas precisamos sair deste andar primeiro.
A porta sofreu outro impacto.
Uma rachadura surgiu perto da dobradiça.
Rafael compreendeu que não conseguiriam permanecer ali por muito tempo. O hospital era um labirinto de corredores, salas destruídas e escadarias parcialmente bloqueadas. Se a máquina atravessasse aquela barreira, ficariam encurralados.
— Conhece uma saída? — perguntou.
Samuel assentiu.
— Pela ala de cirurgia. Existe uma escada de emergência que leva ao estacionamento dos fundos.
— Então nos mostre.
O homem caminhou até uma porta lateral e empurrou-a. O grupo entrou em uma sala estreita, onde armários enferrujados se encontravam espalhados pelo chão. Havia macas tombadas, embalagens de medicamentos e manchas escuras nas paredes.
Rafael foi o último a entrar.
Antes de fechar a porta, olhou para a barreira metálica.
As luzes vermelhas continuavam visíveis por uma pequena abertura.
Por um instante, teve a impressão de que a máquina não estava tentando simplesmente atravessar a porta.
Parecia estar esperando.
Como se soubesse que eles acabariam saindo.
Samuel conduziu o grupo por um corredor de serviço, passando por salas de armazenamento e antigas áreas de manutenção. O hospital estava mergulhado em uma penumbra esverdeada, iluminado apenas pela luz que entrava pelas janelas cobertas de plantas.
Raízes grossas atravessavam rachaduras no teto. Trepadeiras desciam pelas paredes e envolviam os equipamentos abandonados. Em alguns pontos, a vegetação havia crescido tanto que bloqueava completamente as portas.
Davi caminhava próximo de Lívia, olhando para todos os lados.
— Você realmente mora aqui sozinho? — perguntou o garoto.
Samuel não respondeu imediatamente.
— Já disse que sim.
— E não tem medo?
O homem soltou uma risada sem humor.
— O medo é a única coisa que me mantém vivo.
Rafael observou a mochila que Samuel carregava. Ela parecia pesada, mas não continha apenas medicamentos. Havia cabos, pequenas ferramentas, um aparelho eletrônico e algo embrulhado em tecido escuro.
O desconhecido percebeu o olhar.
— O que foi?
— Nada.
Rafael continuou observando-o.
Samuel conhecia os caminhos do hospital com uma precisão impressionante. Sabia quais corredores estavam bloqueados, quais portas poderiam ser abertas e onde o piso estava prestes a ceder. Não caminhava como alguém que apenas procurava abrigo.
Caminhava como alguém que estudara cada centímetro daquele lugar.
Quando chegaram a uma pequena sala de descanso, Samuel parou diante de uma estante caída.
— Precisamos pegar algumas coisas antes de continuar.
— Não temos tempo — disse Lívia.
— Sem elas, não conseguiremos passar pelo estacionamento.
Samuel afastou uma cadeira e revelou uma abertura estreita atrás da estante. O espaço era escuro, mas Rafael conseguiu enxergar uma escada descendo para um nível inferior.
— O que tem aí? — perguntou.
— Um depósito antigo.
— Você disse que a saída ficava pela ala de cirurgia.
— E fica. Mas a passagem principal está bloqueada.
Samuel desceu primeiro.
Rafael esperou até que Lívia e Davi estivessem na escada antes de segui-los.
O depósito era pequeno e surpreendentemente organizado. Caixas de alimentos enlatados estavam empilhadas em um canto. Havia garrafas de água, cobertores, pilhas, lanternas e uma cama improvisada sobre dois colchões.
Uma parede estava coberta por mapas do hospital e da cidade.
Rafael parou.
Aquilo não parecia o esconderijo de alguém que sobrevivera por acaso.
Era uma base.
Uma base preparada com cuidado.
— Você disse que estava sozinho — falou Rafael.
Samuel largou a mochila sobre uma mesa.
— Estou.
— Então por que tem comida suficiente para várias pessoas?
— Eu recolhi tudo antes que os monstros ocupassem a cidade.
Lívia se aproximou dos mapas. Havia linhas desenhadas em vermelho, marcando ruas, túneis e prédios. Algumas áreas estavam riscadas com símbolos que ela não reconheceu.
— O que significam essas marcações?
Samuel ficou tenso.
— Rotas perigosas.
— E esses círculos?
— Lugares onde os monstros aparecem.
Rafael aproximou-se da parede. No centro do mapa havia um desenho do hospital, cercado por várias marcações vermelhas. Uma delas estava exatamente sobre o estacionamento dos fundos.
Ao lado do desenho, alguém escrevera uma frase:
“ZONA DE ALIMENTAÇÃO — NÃO SE APROXIMAR APÓS O ANOITECER.”
Rafael sentiu um arrepio.
— O que é uma zona de alimentação?
Samuel arrancou o mapa da parede.
— Nada com que vocês precisem se preocupar agora.
Lívia segurou o braço dele.
— Você está escondendo alguma coisa.
Samuel tentou se soltar, mas a caçadora não o deixou.
— Escute, eu não conheço vocês. Não sei de onde vieram, nem quantas pessoas existem na comunidade de vocês. E não pretendo colocar ninguém em perigo.
— Nós já estamos em perigo — respondeu Rafael. — Viemos buscar medicamentos para pessoas doentes. Nossa comunidade foi atacada, nossas defesas foram destruídas e uma máquina como aquela está nos perseguindo. Se você sabe alguma coisa, vai nos contar.
Samuel olhou para Davi.
O menino estava parado perto da cama, observando uma fotografia apoiada sobre a mesa.
Era uma foto antiga de Samuel ao lado de uma mulher e uma menina pequena. Os três sorriam diante de uma árvore florida.
— Sua família? — perguntou Davi.
Samuel pegou a fotografia rapidamente.
— Sim.
— Onde eles estão?
O homem ficou em silêncio.
Por alguns segundos, o único som no depósito foi o gotejar de água de um cano quebrado.
— Morreram — respondeu ele.
Davi baixou os olhos.
— Sinto muito.
Samuel guardou a fotografia no bolso.
Rafael percebeu que o homem não parecia apenas triste. Havia raiva em seu rosto. Uma raiva profunda, antiga, que ele tentava esconder atrás da expressão cansada.
— Os monstros fizeram isso? — perguntou Rafael.
Samuel não respondeu.
Lívia soltou o braço dele.
— Precisamos continuar.
O homem assentiu e pegou uma lanterna.
Antes de subir a escada, porém, Rafael notou uma pequena tela ligada sobre a mesa.
O aparelho mostrava uma imagem granulada do estacionamento do hospital.
No centro da tela, havia uma criatura gigantesca, parcialmente escondida entre os carros abandonados.
Rafael aproximou-se.
— O que é isso?
Samuel virou-se imediatamente.
Por uma fração de segundo, os dois ficaram imóveis.
Então o homem desligou a tela.
— Nada.
Rafael segurou seu ombro.
— Eu vi a criatura.
— Não era para vocês terem visto isso.
— O que significa?
Samuel se afastou.
— Significa que precisamos sair daqui agora.
Eles subiram por uma escada estreita e chegaram à ala de cirurgia.
O corredor estava completamente tomado por plantas. As paredes haviam sido abertas por raízes, e o teto apresentava enormes rachaduras. Uma placa enferrujada indicava a direção do centro cirúrgico.
Samuel apontou para uma porta no final da passagem.
— A escada de emergência fica atrás daquela sala.
Lívia examinou o corredor.
— E o estacionamento?
— Do outro lado.
Rafael verificou a espingarda.
— Vamos.
Enquanto avançavam, Davi percebeu uma sequência de marcas nas paredes. Eram riscos profundos, como se alguma criatura tivesse arrastado as garras pelo concreto.
Ele parou.
— Rafael...
O homem se virou.
Davi apontou para o chão.
Havia pegadas.
Não eram como as dos monstros que tinham atacado o Refúgio. Eram maiores, mais profundas e espaçadas. Cada marca parecia ter sido produzida por uma pata com seis dedos.
Rafael se agachou.
O concreto estava quebrado ao redor das pegadas.
— Samuel — chamou.
O homem parou imediatamente.
Ao ver as marcas, ficou completamente imóvel.
— Não.
Lívia aproximou-se.
— O que foi?
Samuel recuou um passo.
— Isso não pode estar aqui.
Rafael ergueu os olhos.
— Você conhece essa criatura?
Samuel passou a mão pelo rosto.
— Eu pensei que ela tivesse ido embora.
Um ruído distante ecoou pelo hospital.
Era um som grave, semelhante ao rugido de um animal enorme, mas havia algo metálico por trás dele. Um som que parecia vir de dentro das paredes.
As plantas do corredor começaram a tremer.
Davi agarrou a manga de Rafael.
— Tem alguma coisa vindo.
Samuel apontou para a porta do centro cirúrgico.
— Entrem! Agora!
O grupo correu.
Rafael entrou primeiro, seguido por Davi e Lívia. Samuel fechou a porta e empurrou uma mesa contra ela.
O centro cirúrgico estava destruído. Equipamentos médicos estavam espalhados pelo chão, e as mesas de operação tinham sido viradas. No teto, uma abertura permitia a entrada de luz e chuva.
Rafael se aproximou de uma janela lateral.
Do lado de fora, o estacionamento estava coberto por vegetação. Carros abandonados desapareciam sob enormes raízes, e árvores haviam crescido entre as vagas.
Mas havia algo mais.
Uma criatura enorme estava parada entre os veículos.
Seu corpo era tão alto quanto um prédio de três andares. A pele escura parecia coberta por placas ósseas, e longas estruturas semelhantes a espinhos saíam de suas costas. Seis membros sustentavam o corpo, enquanto uma cabeça estreita se movia lentamente de um lado para o outro.
Sob a pele, linhas vermelhas brilhavam em padrões geométricos.
Rafael sentiu a garganta secar.
Nunca tinha visto um monstro daquele tamanho.
Nem mesmo a criatura que atacara o Refúgio parecia tão poderosa.
Lívia olhou pela janela e levou a mão à boca.
— Meu Deus...
Samuel fechou os olhos.
— Eu avisei.
Rafael se virou para ele.
— Você disse que existiam monstros maiores.
— Eu disse que existem criaturas muito maiores do que aquelas que vocês conhecem.
— Quantas?
Samuel abriu os olhos.
— Não sei.
— Como assim, não sabe?
— Porque ninguém que chegou perto o suficiente voltou para contar.
O rugido da criatura sacudiu as janelas.
Uma rachadura atravessou o vidro.
Davi se encolheu atrás de uma mesa.
Rafael apontou para a porta.
— Precisamos chegar à escada de emergência.
Samuel balançou a cabeça.
— A escada fica do outro lado do corredor. Se ela entrou no hospital, não conseguiremos atravessar.
— Então existe outra saída?
O homem hesitou.
— Existe uma passagem subterrânea.
Lívia levantou o rifle.
— Onde?
Samuel apontou para uma porta de metal no canto da sala.
— Atrás daquela parede. Ela leva ao antigo sistema de manutenção.
Rafael correu até a porta e tentou abri-la.
Estava trancada.
— A chave!
Samuel começou a procurar nos bolsos.
Um estrondo interrompeu seus movimentos.
A parede externa explodiu.
Concreto, vidro e raízes foram arremessados para dentro do centro cirúrgico. Rafael foi lançado contra uma mesa, sentindo uma dor aguda no ombro. Lívia caiu no chão, protegendo Davi com o próprio corpo.
A criatura havia atravessado a parede.
Uma de suas patas gigantescas esmagou os equipamentos médicos. O teto gemeu sob o peso do monstro.
Rafael ergueu a cabeça.
A criatura não parecia ter entrado por acaso.
Ela estava olhando diretamente para eles.
As linhas vermelhas sob sua pele começaram a brilhar.
E Samuel, em vez de fugir, deu um passo na direção do monstro.
— Não! — gritou Rafael.
O homem ignorou o aviso.
Ele retirou da mochila o objeto embrulhado em tecido escuro e o segurou diante do peito.
Era um aparelho pequeno, metálico, com três luzes vermelhas.
Exatamente igual ao dispositivo encontrado por Lívia.
Rafael apontou a espingarda para Samuel.
— O que você está fazendo?
Samuel apertou um botão.
O aparelho emitiu um pulso eletrônico.
A criatura parou de se mover.
Por um instante, o hospital inteiro ficou em silêncio.
Então o monstro inclinou a cabeça, como se estivesse escutando alguma coisa.
Samuel começou a falar em voz baixa, pronunciando palavras que Rafael não reconhecia.
As luzes do dispositivo piscaram.
A criatura recuou lentamente.
Davi observava a cena, aterrorizado.
— Rafael... ele está controlando o monstro?
Rafael não respondeu.
Samuel continuou falando, agora com a voz trêmula.
A criatura recuou mais um passo.
Mas, de repente, as linhas vermelhas em seu corpo mudaram de intensidade.
O aparelho começou a emitir um ruído agudo.
Samuel olhou para a tela.
— Não... Não, não, não...
A criatura abriu a boca.
Um rugido ensurdecedor sacudiu o centro cirúrgico.
Samuel foi arremessado contra a parede.
O dispositivo escapou de suas mãos e deslizou pelo chão até parar perto de Rafael.
O monstro avançou.
Lívia disparou.
O tiro atingiu uma das placas ósseas da criatura e ricocheteou, sem causar qualquer ferimento visível.
— Corram! — gritou ela.
Rafael agarrou Davi e puxou o menino para trás de uma mesa enquanto a criatura destruía o que restava do centro cirúrgico.
Samuel tentava se levantar, mas estava ferido. Sangue escorria de sua testa.
Rafael correu até ele.
— O que você fez?
Samuel segurou o braço de Rafael.
— Eu tentei impedir.
— Impedir o quê?
O homem olhou para a criatura.
— Que ela encontrasse vocês.
O monstro golpeou uma coluna.
O concreto se partiu.
Rafael puxou Samuel para longe.
— Você sabia que ela estava aqui!
— Eu sabia que estava perto!
— E o que é esse aparelho?
Samuel apertou o braço dele com força.
— É a única coisa que pode nos manter vivos.
Rafael olhou para o dispositivo no chão.
As três luzes vermelhas continuavam piscando.
Do lado de fora, um segundo rugido ecoou pela cidade.
Depois outro.
E mais outro.
Lívia empalideceu.
— Rafael...
Pela abertura na parede, ela viu sombras enormes se movendo entre os prédios cobertos de vegetação.
Não era apenas uma criatura.
Havia várias.
A primeira criatura golpeou novamente a coluna. O teto começou a desabar, espalhando pedaços de concreto sobre o chão.
Rafael agarrou o dispositivo e correu para a porta de metal.
— Samuel! Abra essa passagem!
O homem, ainda cambaleando, tirou uma chave do bolso e a entregou.
Rafael destrancou a porta.
Do outro lado havia uma escada que descia para a escuridão.
— Lívia, leve Davi!
A caçadora agarrou o menino e começou a descer.
Rafael empurrou Samuel para a passagem.
— Você vai nos contar tudo o que sabe.
Samuel não respondeu.
Olhou para o dispositivo na mão de Rafael e ficou ainda mais pálido.
— Não ligue isso novamente.
Rafael franziu a testa.
— Por quê?
Antes que Samuel pudesse responder, uma enorme garra atravessou a porta do centro cirúrgico.
O metal se retorceu.
A criatura estava tentando alcançá-los.
Rafael desceu os primeiros degraus, mas parou ao ouvir Samuel gritar:
— Espere! Você precisa entender! Aquela máquina que apareceu no Refúgio não está caçando vocês por conta própria!
A garra arrancou a porta das dobradiças.
Samuel olhou para Rafael, desesperado.
— Ela está seguindo ordens de alguma coisa muito maior!
Um rugido profundo fez a escada inteira estremecer.
Rafael desceu, puxando Samuel pelo braço.
A porta de metal começou a se fechar acima deles, mas, antes que desaparecesse completamente, Rafael viu algo que jamais esqueceria.
No corredor destruído, atrás da criatura gigantesca, uma figura humana estava parada entre as sombras.
Era alta, magra e vestia um uniforme semelhante ao de Samuel.
Seu rosto estava escondido por uma máscara.
E, no peito, três luzes vermelhas brilhavam.
A figura permaneceu imóvel por alguns segundos, observando Rafael e os outros desaparecerem pela escada.
Então ergueu lentamente uma das mãos.
As luzes vermelhas em seu peito piscaram três vezes.
O dispositivo que Rafael carregava respondeu imediatamente.
Um pulso atravessou o metal, fazendo seus dedos formigarem. O aparelho quase escapou de sua mão.
— Que diabos foi isso? — perguntou Rafael.
Samuel olhou para o objeto com horror.
— Ele sabe que estamos com você.
— Quem é aquele homem?
— Não é um homem.
Antes que Rafael pudesse exigir uma explicação, a porta de metal foi arrancada acima deles.
A criatura gigantesca rugiu.
— Corram! — gritou Lívia.
Os quatro dispararam escada abaixo, enquanto pedaços de concreto caíam atrás deles. A passagem subterrânea parecia não ter fim. Canos enferrujados atravessavam o teto, e a água acumulada no chão chegava aos tornozelos.
Davi tropeçou.
Rafael o segurou antes que caísse.
— Continue!
O menino respirava com dificuldade, mas não reclamou.
Atrás deles, ouviram um estrondo.
Depois, um som metálico.
A figura mascarada havia entrado na passagem.
E estava descendo a escada.
Samuel começou a correr mais depressa.
— Não olhem para trás!
Rafael olhou mesmo assim.
No alto da escadaria, duas luzes vermelhas brilhavam na escuridão.
A figura não corria.
Apenas caminhava.
E, mesmo assim, parecia estar se aproximando cada vez mais.
O dispositivo na mão de Rafael começou a vibrar novamente.
Uma voz eletrônica, quase inaudível, saiu do aparelho:
— Protocolo de recuperação iniciado.
Samuel soltou um grito.
— Jogue isso fora!
Rafael hesitou.
— Você disse que era a única coisa que poderia nos manter vivos!
— Eu estava errado!
O aparelho emitiu outro pulso.
Todas as luzes da passagem subterrânea se acenderam simultaneamente.
E, em algum lugar muito abaixo deles, algo enorme começou a despertar.

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