O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 7 — A CIDADE MORTA

 A voz metálica desapareceu tão rapidamente quanto havia surgido.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

O estacionamento subterrâneo permanecia iluminado pela claridade fraca que atravessava as aberturas no teto. A névoa continuava avançando pela entrada, cobrindo lentamente o chão e envolvendo os carros abandonados.

Rafael olhou para o dispositivo em sua mão.

As dezenas de luzes vermelhas continuavam piscando.

— O que significa isso? — perguntou.

Samuel não respondeu.

— Samuel.

O homem parecia incapaz de tirar os olhos da névoa.

— Significa que o sistema está acordado.

Lívia segurou o rifle com força.

— Que sistema?

— O mesmo que controla aquelas criaturas.

Rafael aproximou-se dele.

— E por que está expandindo o protocolo?

Samuel finalmente olhou para ele.

— Porque alguma coisa mudou.

— O quê?

— Não sei.

Rafael apertou os dentes.

— Você sempre diz isso.

— Porque desta vez é verdade.

Um rugido distante atravessou a cidade.

A estrutura do estacionamento vibrou.

Davi correu até Rafael.

— Precisamos ir embora.

Rafael olhou para o menino.

— Tem razão.

Ele guardou o dispositivo no bolso.

— Vamos procurar um veículo.

Samuel balançou a cabeça.

— Os veículos não vão funcionar.

— Então vamos a pé.

— Para onde?

Rafael apontou para o mapa dobrado que havia tirado da mochila de Samuel.

— Para aquela cidade.

Samuel ficou imóvel.

— Não.

— Por quê?

— Porque não existe mais ninguém lá.

Lívia estreitou os olhos.

— Isso não significa que seja perigoso.

Samuel soltou uma risada curta.

— É exatamente isso que significa.

Rafael abriu o mapa.

A cidade ficava a aproximadamente quinze quilômetros dali, do outro lado de uma região de plantações abandonadas. Era pequena, cercada por estradas secundárias e montanhas.

— Precisamos de comida, água e medicamentos — disse Rafael. — E precisamos sair desta área antes que a névoa alcance a estrada.

Samuel olhou para o céu.

— Se chegarmos lá antes do anoitecer, talvez consigamos atravessar.

— Então vamos.

Lívia concordou.

Davi colocou a mochila nas costas.

Os quatro deixaram o estacionamento por uma saída lateral.

A cidade estava diferente do que Rafael esperava.

Depois de atravessarem uma estrada tomada por árvores e mato alto, encontraram as primeiras casas.

Não havia sinais de destruição.

Nenhuma parede derrubada.

Nenhum carro queimado.

Nenhuma marca de batalha.

Era como se as pessoas simplesmente tivessem desaparecido.

Rafael parou diante de uma casa branca.

A porta estava aberta.

— Estranho — disse Lívia.

Samuel ficou alguns metros atrás.

— Não entre.

Rafael olhou para ele.

— Por quê?

— Porque todas as casas daquela cidade estavam abertas quando cheguei aqui pela primeira vez.

— Você já esteve aqui?

Samuel não respondeu.

Rafael percebeu.

Mais uma vez, havia escondido alguma coisa.

— Você conhece esta cidade.

— Conheço.

— Quando esteve aqui?

— Alguns meses atrás.

— E encontrou alguém?

Samuel olhou para as casas vazias.

— Não.

Rafael caminhou até a primeira residência.

Entrou.

A sala estava intacta.

Havia um sofá coberto por poeira, uma televisão antiga e fotografias familiares sobre uma estante.

Na cozinha, pratos permaneciam sobre a mesa.

Uma panela estava no fogão.

Tudo parecia abandonado às pressas.

Mas não havia sinais de violência.

Nenhuma gota de sangue.

Nenhum móvel quebrado.

Nenhuma janela arrombada.

Davi entrou lentamente.

— Eles simplesmente foram embora?

Rafael não respondeu.

Abriu uma porta.

Um quarto infantil.

Brinquedos estavam espalhados pelo chão.

Uma cama permanecia arrumada.

Sobre uma mesa havia desenhos feitos com lápis de cor.

Davi aproximou-se.

— Rafael...

O garoto pegou uma folha.

Era um desenho infantil.

Havia uma casa, uma árvore e quatro pessoas.

Mas havia também uma criatura enorme ao lado delas.

Outra folha mostrava a mesma coisa.

Pessoas caminhando ao lado de monstros.

Em um dos desenhos, uma criança segurava a mão de uma criatura de quatro braços.

Davi franziu a testa.

— Por que as crianças desenhariam isso?

Rafael pegou outra folha.

No canto havia um símbolo.

Três linhas vermelhas formando uma figura geométrica.

O mesmo símbolo encontrado sob a pele dos monstros.

O mesmo padrão visto nos dispositivos.

— Samuel...

O homem entrou no quarto.

Ao ver o desenho, perdeu a cor.

— Onde encontrou isso?

— Aqui.

Samuel pegou a folha.

Seus dedos tremiam.

— Não pode ser.

Lívia aproximou-se.

— O que significa?

Samuel dobrou o papel.

— Nada.

Rafael arrancou a folha da mão dele.

— Pare de mentir.

Samuel ficou em silêncio.

Rafael apontou para o símbolo.

— Esse desenho aparece nas criaturas. Aparece nas máquinas. Aparece no dispositivo que você carregava. E agora está desenhado por uma criança que morava nesta cidade.

Samuel olhou para a porta aberta.

— Eu disse que essa cidade estava vazia.

— Você também disse que nunca tinha estado aqui.

Samuel respirou fundo.

— Eu não queria que vocês viessem.

— Isso já ficou claro.

Davi apontou para outra folha.

— Tem mais.

Todos olharam.

A segunda folha mostrava várias pessoas diante de uma montanha.

Acima delas havia uma criatura gigantesca.

No céu, uma série de círculos vermelhos.

E no chão, pequenas figuras humanas caminhando em direção ao monstro.

Rafael sentiu um desconforto crescente.

— Isso não parece uma criança desenhando monstros.

Lívia pegou a folha.

— Parece que estão seguindo eles.

Samuel fechou os olhos.

— Porque estavam.

Rafael encarou-o.

— Quem?

Samuel demorou alguns segundos.

— As pessoas.

Um silêncio pesado caiu sobre o quarto.

— Você está dizendo que os moradores desta cidade seguiam os monstros?

— Alguns.

— Por quê?

Samuel olhou para o desenho.

— Porque acreditavam que os monstros poderiam protegê-los.

Lívia soltou uma risada incrédula.

— Proteger de quê?

Samuel não respondeu.

Davi olhou para a janela.

— Tem alguém lá fora.

Todos se viraram.

Uma sombra havia atravessado a rua.

Rafael correu até a janela.

Nada.

A rua estava vazia.

As casas permaneciam abertas.

O vento movimentava as cortinas.

— Você viu alguma coisa? — perguntou Rafael.

Davi assentiu.

— Parecia uma pessoa.

Samuel fechou a cortina.

— Não devemos ficar aqui.

— Por quê?

— Porque esta cidade não está vazia.

Rafael olhou para ele.

— Então onde estão as pessoas?

Samuel respondeu em voz baixa:

— É isso que precisamos descobrir.

Eles deixaram a casa.

A rua principal estava coberta por folhas e ervas daninhas. Carros permaneciam estacionados diante das residências, alguns com portas abertas.

Rafael examinou um deles.

As chaves ainda estavam na ignição.

— Ninguém pegou os carros.

Lívia olhou para dentro de outro veículo.

— Tem comida aqui.

Havia uma garrafa de água e uma mochila no banco traseiro.

Davi apontou para uma bicicleta caída na calçada.

— Eles deixaram tudo.

Rafael começou a perceber um padrão.

As pessoas não haviam fugido correndo.

Não haviam sido atacadas.

Elas simplesmente haviam saído de suas casas.

Todas ao mesmo tempo.

E deixado tudo para trás.

A cidade inteira parecia ter obedecido à mesma ordem.

Eles seguiram pela rua até uma pequena praça.

No centro havia uma igreja.

A porta estava aberta.

Acima dela, alguém havia pintado o símbolo vermelho.

Rafael parou.

— Esse símbolo está em toda parte.

Lívia olhou para uma parede próxima.

Havia outro.

E outro.

E outro.

Em algumas casas, os símbolos estavam pintados sobre portas.

Em outras, sobre janelas.

Em um muro, dezenas deles apareciam repetidos.

Davi se aproximou de uma parede.

— Esse aqui é diferente.

Rafael examinou.

O desenho possuía três linhas vermelhas, mas uma delas estava incompleta.

— Talvez seja uma marca antiga — disse Samuel.

Rafael olhou para ele.

— Você sabe o que significa.

Samuel permaneceu calado.

— Samuel.

— Significa que uma pessoa esteve ligada ao sistema.

— Que sistema?

— O sistema de controle.

Lívia levantou o rifle.

— Está dizendo que os moradores foram controlados?

Samuel olhou para a igreja.

— Alguns foram.

Davi apontou para a porta.

— Tem alguém lá dentro.

Todos ouviram.

Um som baixo vinha do interior da igreja.

Parecia uma respiração.

Rafael ergueu a espingarda.

— Fiquem atrás de mim.

Eles entraram.

O interior estava escuro.

Bancos cobertos por poeira permaneciam alinhados.

Nenhuma pessoa.

Rafael caminhou até o altar.

Havia uma pequena caixa de madeira.

Dentro dela, encontraram fotografias.

As imagens mostravam moradores da cidade.

Algumas pareciam ter sido tiradas durante reuniões.

Outras mostravam grupos diante das montanhas.

Em quase todas, as pessoas estavam acompanhadas por criaturas.

Mas havia algo ainda mais estranho.

As criaturas não atacavam ninguém.

Permaneciam próximas dos moradores.

Como animais domesticados.

Davi pegou uma fotografia.

— Elas não parecem querer machucar as pessoas.

Samuel tirou a fotografia das mãos dele.

— Não confie no que parece.

— Mas estão paradas.

— Porque estavam esperando.

Rafael olhou para Samuel.

— Esperando o quê?

O homem não respondeu.

De repente, um rádio antigo chiou sobre uma mesa no fundo da igreja.

Todos se viraram.

O aparelho estava coberto por poeira.

Não deveria estar funcionando.

Mesmo assim, uma luz verde acendeu.

Um ruído de estática tomou o ambiente.

Rafael aproximou-se lentamente.

— Não toque nisso — disse Samuel.

Rafael continuou.

A estática aumentou.

Então uma voz surgiu.

— Há alguém ouvindo?

Os quatro ficaram imóveis.

Era uma voz humana.

Uma voz masculina.

Rafael pegou o rádio.

— Quem está falando?

A resposta demorou alguns segundos.

— Quem está falando com você não importa.

Lívia aproximou-se.

— Existem sobreviventes?

A voz ficou em silêncio.

Então respondeu:

— Não aqui.

Rafael olhou para Samuel.

O homem parecia aterrorizado.

— Onde vocês estão? — perguntou Rafael.

— Onde sempre estivemos.

— Quem é você?

— Alguém que observou vocês chegarem.

Rafael sentiu um arrepio.

— Está nos observando agora?

— Sim.

Lívia ergueu o rifle.

— De onde?

O rádio chiou.

— Da cidade.

Todos olharam para as janelas.

Rafael tentou localizar alguma sombra.

Nada.

— Onde estão os moradores? — perguntou.

A voz respondeu:

— Eles escolheram partir.

— Para onde?

— Para o lugar onde não precisam mais ter medo.

Samuel aproximou-se do rádio.

— Pare.

A voz ficou silenciosa.

Depois disse:

— Samuel.

O homem recuou.

Rafael virou-se imediatamente para ele.

— Você conhece essa voz.

Samuel balançou a cabeça.

— Não.

— Ela conhece você.

O rádio voltou a chiar.

— Você prometeu que não voltaria.

Samuel empalideceu.

— Isso foi há muito tempo.

Rafael aproximou-se dele.

— O que aconteceu aqui?

Samuel não respondeu.

A voz continuou:

— Você levou o dispositivo.

Samuel fechou os punhos.

— Eu não sabia que ainda estava ativo.

— Você sempre soube.

— Não.

— Você viu o que aconteceu com sua equipe.

Samuel baixou os olhos.

Rafael percebeu que algo estava errado.

Muito errado.

— Sua equipe? — perguntou.

Samuel permaneceu calado.

A voz voltou:

— Ele ainda não contou a vocês.

Rafael segurou o rádio.

— Contou o quê?

A transmissão foi interrompida.

O aparelho ficou mudo.

Lívia olhou para as janelas.

— Acho que perdemos o sinal.

Samuel continuava imóvel.

Davi apontou para o chão.

— Rafael.

Perto do altar havia marcas.

Pegadas.

Humanas.

Recentes.

Rafael se agachou.

A poeira havia sido removida em alguns pontos.

Alguém estivera ali pouco antes deles.

— Não estamos sozinhos — disse.

Samuel pegou a arma.

— Eu sei.

Um barulho surgiu atrás da igreja.

Uma porta se fechou.

Todos se viraram.

Rafael apontou a espingarda.

— Quem está aí?

Nenhuma resposta.

Lívia avançou lentamente.

Davi permaneceu atrás de Rafael.

Samuel aproximou-se de uma porta lateral.

— Essa passagem leva aos fundos.

— Não entre sozinho — disse Rafael.

Samuel ignorou.

Abriu a porta.

Do outro lado havia um corredor estreito.

Vazio.

Mas uma janela estava aberta.

As cortinas balançavam com o vento.

Samuel entrou.

Rafael o seguiu.

No chão havia vários desenhos infantis.

Todos mostravam a mesma coisa.

Uma cidade.

Pessoas saindo de suas casas.

E uma criatura gigantesca conduzindo-as em direção às montanhas.

No último desenho, porém, havia algo diferente.

Uma pequena figura humana estava desenhada separada das demais.

Ao lado dela havia um homem.

Davi pegou a folha.

— Rafael...

Rafael observou o desenho.

O homem tinha barba.

Era magro.

E usava algo parecido com um uniforme hospitalar.

Davi levantou os olhos.

— É o Samuel?

Rafael olhou para o homem.

Samuel não respondeu.

Seu rosto estava completamente pálido.

— Essa criança me viu — disse ele finalmente.

— Quando?

Samuel respirou fundo.

— Antes de todos desaparecerem.

— E você estava fazendo o quê aqui?

Ele não respondeu.

Lívia aproximou-se.

— Samuel.

O homem finalmente falou:

— Eu tentei impedir que eles partissem.

Rafael franziu a testa.

— Partissem para onde?

Samuel olhou para as montanhas.

— Para lá.

Um som grave ecoou do lado de fora.

Os vidros das janelas vibraram.

Davi correu até a janela.

— Tem alguma coisa na rua.

Rafael chegou ao lado dele.

Uma figura estava parada no meio da avenida.

Era humana.

Alta.

Imóvel.

Vestia um uniforme escuro.

No peito havia três luzes vermelhas.

Rafael levantou a espingarda.

A figura não se moveu.

Então uma segunda apareceu na esquina.

Depois uma terceira.

Samuel deu um passo para trás.

— Eles encontraram a gente.

Lívia apontou o rifle.

— Quem são eles?

Samuel respondeu quase num sussurro:

— Os que ficaram para trás.

As três figuras levantaram simultaneamente a cabeça.

As luzes vermelhas de seus peitos acenderam.

O rádio abandonado dentro da igreja voltou a funcionar.

A voz misteriosa surgiu novamente.

Desta vez, porém, não falou com Rafael.

Falou diretamente com Samuel.

— Você trouxe o dispositivo de volta.

Samuel fechou os olhos.

— Não.

— Trouxe sim.

— Eu não vou entregar.

— Não precisa.

Rafael apertou a espingarda.

— O que isso significa?

A voz respondeu:

— Porque o dispositivo já encontrou o caminho até nós.

Rafael sentiu o aparelho vibrar dentro do bolso.

As luzes vermelhas começaram a piscar.

Uma.

Duas.

Três.

Depois dezenas.

Na rua, as figuras começaram a caminhar em direção à igreja.

Samuel olhou para Rafael.

— Precisamos sair da cidade.

— Por quê?

Ele apontou para as montanhas.

— Porque eles não estão vindo para nos matar.

Rafael sentiu um peso no estômago.

— Então estão vindo fazer o quê?

Samuel respondeu:

— Nos levar até os outros.

Um rugido colossal ecoou atrás das montanhas.

Os pássaros abandonaram as árvores de uma só vez.

A cidade inteira pareceu estremecer.

E, pela primeira vez desde que haviam chegado, as portas abertas das casas começaram lentamente a se fechar.

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