O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 8 — A VOZ
O rádio permaneceu ligado sobre a mesa enquanto as portas das casas continuavam se fechando uma após outra.
O som das batidas ecoava pela rua vazia.
Uma porta.
Depois outra.
Depois outra.
Como se alguma coisa invisível estivesse percorrendo a cidade e fechando cada residência atrás dos sobreviventes que haviam desaparecido.
Rafael permaneceu parado diante da janela da igreja.
As três figuras estavam cada vez mais próximas.
Elas caminhavam lentamente pela avenida, sem demonstrar qualquer pressa. Seus corpos eram humanos, mas havia algo errado em seus movimentos. Os braços permaneciam rígidos junto ao corpo, e as cabeças se moviam de maneira sincronizada.
No peito de cada uma, três pequenas luzes vermelhas piscavam.
Davi segurou a mão de Rafael.
— Eles vão entrar?
— Se entrarem, vamos descobrir.
Lívia permaneceu próxima à porta lateral, com o rifle preparado.
Samuel continuava olhando para o rádio.
A voz voltou a falar.
Desta vez, estava mais clara.
— Atenção, qualquer sobrevivente que estiver recebendo esta transmissão.
Todos ficaram imóveis.
— Se você estiver em uma cidade, vila, estrada ou abrigo próximo à região montanhosa, abandone imediatamente a área.
Rafael aproximou-se do rádio.
— Quem está transmitindo?
A voz ignorou a pergunta.
— Não tente atravessar as montanhas. Não procure outros sobreviventes. Não siga as criaturas. Não responda aos sinais luminosos.
Samuel fechou os olhos.
Rafael percebeu.
Ele conhecia aquela voz.
— Você sabe quem é.
Samuel abriu os olhos.
— Sim.
— Quem?
O rádio continuou.
— As montanhas não são uma zona segura. A atividade aumentou nas últimas horas. O protocolo de expansão já começou.
Lívia olhou para Samuel.
— O que significa protocolo de expansão?
— Significa que a área de controle está aumentando.
— Controle de quê?
Samuel não respondeu.
A transmissão prosseguiu.
— Se você ouvir esta mensagem, permaneça longe das montanhas. Não importa o que veja. Não importa quem peça ajuda. Não importa o que encontrar nas estradas.
A voz fez uma pausa.
Então acrescentou:
— Principalmente se encontrar pessoas usando marcas vermelhas.
Rafael olhou imediatamente para a rua.
As três figuras continuavam avançando.
Uma delas levantou a mão.
Na palma havia um símbolo vermelho.
Rafael sentiu um arrepio.
— Samuel.
O homem observou a figura.
— Eu sei.
— Você disse que essas pessoas poderiam controlar monstros.
Samuel permaneceu em silêncio.
Rafael virou-se para ele.
— Agora.
— Rafael...
— Agora!
A voz no rádio voltou a falar.
— Se você já estiver dentro da zona montanhosa, procure abrigo subterrâneo. Não acenda fogueiras. Não use sinais luminosos. E, principalmente, não tente estabelecer contato com os controladores.
A transmissão começou a falhar.
— Eles conseguem ouvir vocês.
Estática.
— Eles conseguem ver vocês.
Mais estática.
— E alguns deles...
A voz desapareceu por alguns segundos.
Então retornou, quase como um sussurro:
— ...ainda são humanos.
O rádio desligou.
Ninguém falou.
Davi foi o primeiro.
— O que ela quis dizer?
Samuel respondeu:
— Exatamente o que disse.
Rafael aproximou-se dele.
— Você conhece essa voz.
Samuel olhou para o chão.
— Conheço.
— Quem é?
— Helena.
O nome permaneceu no ar.
Lívia franziu a testa.
— Quem é Helena?
Samuel sentou-se lentamente em um dos bancos da igreja.
Parecia exausto.
— Ela era pesquisadora.
Rafael cruzou os braços.
— Assim como você.
— Sim.
— Sua colega?
Samuel assentiu.
— Minha chefe.
— Onde ela está?
Samuel olhou para o rádio.
— Não sei.
Rafael bateu a mão sobre o banco.
— Você acabou de dizer que conhece a pessoa que está transmitindo!
— Eu conhecia Helena antes de tudo isso.
— E agora?
Samuel ficou em silêncio.
— Agora não sei o que ela é.
Lívia aproximou-se.
— Isso não faz sentido.
Samuel respirou fundo.
— Faz quando vocês conhecem o que aconteceu.
Rafael apontou para o rádio.
— Então conte.
Samuel levantou os olhos.
— Antes dos monstros aparecerem, nós encontramos uma instalação subterrânea.
— A instalação que você mencionou?
— Sim.
— E o que havia lá?
Samuel hesitou.
— Um sistema.
— Que sistema?
— Não sabemos quem construiu. Não sabemos quando foi construído. Não sabemos sequer se foi construído por humanos.
Rafael sentiu um arrepio.
— As máquinas?
— Algumas delas.
— E os monstros?
Samuel balançou a cabeça.
— Também estavam relacionados ao sistema.
Lívia apertou o rifle.
— Você está dizendo que os monstros foram criados lá?
— Não.
— Então de onde vieram?
— Alguns já existiam muito antes de nós encontrarmos a instalação.
Samuel levantou-se.
— O problema começou quando tentamos entender como eles eram controlados.
Davi ouviu atentamente.
— Vocês mexeram no sistema?
Samuel olhou para o menino.
— Sim.
— Por quê?
Samuel não respondeu imediatamente.
— Porque queríamos impedir os ataques.
Rafael soltou uma risada amarga.
— E conseguiram?
Samuel olhou para as ruas vazias.
— Não.
Do lado de fora, uma das figuras parou diante da igreja.
Levantou o rosto.
Rafael observou através da janela.
A figura parecia estar olhando diretamente para ele.
— Eles sabem que estamos aqui.
Samuel assentiu.
— Eu sei.
— E você ainda não contou tudo.
— Não.
Rafael ficou furioso.
— Então conte.
Samuel passou a mão pelos cabelos.
— Helena descobriu que algumas pessoas conseguiam estabelecer uma conexão com os monstros.
— Como?
— Não sabemos.
— Você acabou de dizer que não sabe.
— Não sabemos como isso começou. Mas sabemos que existe.
Lívia olhou para a rua.
— Controladores.
Samuel assentiu.
— Foi assim que começamos a chamá-los.
Rafael pensou nas figuras com luzes vermelhas.
— Eles são controladores?
— Alguns.
— Humanos?
— Alguns eram.
A resposta fez Rafael se calar.
— O que significa “eram”?
Samuel aproximou-se da janela.
— A conexão muda as pessoas.
— Como?
— Elas começam a pensar como as criaturas.
Davi recuou.
— Isso é possível?
— Eu vi acontecer.
Rafael encarou Samuel.
— Você conheceu alguém assim?
— Sim.
— Quantos?
— Dezenas.
Lívia ficou imóvel.
— E onde estão agora?
Samuel apontou para as montanhas.
— A maioria está lá.
O rugido distante voltou.
Dessa vez, muito mais forte.
As paredes da igreja vibraram.
Rafael olhou para as montanhas.
— Eles estão chamando as pessoas?
Samuel balançou a cabeça.
— Não.
— Então o que estão fazendo?
— Esperando.
— Esperando o quê?
Samuel não respondeu.
Uma das figuras na rua começou a caminhar em direção à igreja.
Depois outra.
Depois a terceira.
Lívia levantou o rifle.
— Acho que acabamos de perder a oportunidade de conversar tranquilamente.
Rafael ergueu a espingarda.
— Vamos sair pelos fundos.
Samuel pegou o rádio.
— Não.
— O quê?
— Se sairmos agora, eles vão nos seguir.
— Já estão nos seguindo.
— Não entendem.
Samuel aproximou-se da porta.
— Eles não vieram para nos atacar.
— Você já disse isso.
— E continua sendo verdade.
Rafael observou as figuras.
Elas pararam diante da igreja.
As três levantaram simultaneamente as mãos.
Os símbolos vermelhos nas palmas começaram a brilhar.
O dispositivo no bolso de Rafael respondeu.
Ele retirou o aparelho.
As luzes vermelhas piscaram.
Uma das figuras inclinou a cabeça.
Então todas se ajoelharam.
Davi deu um passo para trás.
— Por quê?
Samuel respondeu:
— Por causa do dispositivo.
Rafael fechou a mão.
— Ele está controlando eles?
— Não exatamente.
— Então o que está fazendo?
— Está dizendo que você pertence ao sistema.
Rafael sentiu um frio no estômago.
— Eu não pertenço a sistema nenhum.
Samuel olhou para ele.
— Talvez seja exatamente isso que eles estejam tentando descobrir.
Lívia aproximou-se.
— Temos que sair daqui.
— Concordo — disse Samuel.
Eles atravessaram a igreja até uma porta nos fundos.
O corredor dava para uma viela estreita.
Rafael abriu a porta.
A rua estava vazia.
— Vamos.
Os quatro correram.
Passaram por duas casas, atravessaram um jardim e chegaram a uma rua secundária.
Davi apontou para um veículo abandonado.
— Aquele carro!
Rafael correu até ele.
As portas estavam destrancadas.
A chave estava na ignição.
Ele entrou e tentou ligar o motor.
Nada.
Tentou novamente.
O motor tossiu.
Samuel entrou no banco traseiro.
Lívia sentou ao lado de Davi.
Na terceira tentativa, o carro funcionou.
Rafael acelerou.
O veículo atravessou a rua, passando por árvores e casas abandonadas.
No retrovisor, as três figuras continuavam paradas.
Não os perseguiam.
Apenas observavam.
Rafael continuou dirigindo até chegar à estrada que levava para fora da cidade.
Quando finalmente alcançaram o asfalto, reduziu a velocidade.
— Agora você vai falar.
Samuel olhou pela janela.
— Sobre o quê?
— Sobre os controladores.
— Já expliquei.
— Não explicou nada.
Lívia concordou.
— Rafael tem razão.
Samuel permaneceu em silêncio.
Rafael parou o carro próximo a uma área coberta por árvores.
— Chega.
Desligou o motor.
— Você sabia que existiam pessoas capazes de controlar monstros. Sabia que aquela cidade estava relacionada a elas. Sabia quem estava transmitindo pelo rádio. Sabia sobre a criatura da neblina. E sabia o que aquele dispositivo fazia.
Samuel respirou profundamente.
— Sim.
— Então comece pelo começo.
Samuel olhou para Davi.
— Talvez seja melhor ele não ouvir isso.
Davi respondeu antes que Rafael pudesse falar.
— Eu quero ouvir.
Samuel ficou surpreso.
O menino continuou:
— Já vi monstros. Já vi pessoas morrerem. Não adianta esconder as coisas de mim.
Rafael colocou a mão no ombro dele.
— Tudo bem.
Samuel assentiu.
— Então escutem.
Ele olhou para a estrada.
— A primeira pessoa que conseguimos identificar como controladora foi Helena.
Rafael franziu a testa.
— A pessoa da transmissão.
— Sim.
— Ela conseguia controlar monstros?
— No início, não.
— O que aconteceu?
Samuel fechou os olhos.
— Durante um experimento, ela foi exposta ao sinal.
Lívia perguntou:
— Que sinal?
— Uma frequência emitida pelas criaturas.
— E isso fez o quê?
— Mudou a atividade do cérebro dela.
Rafael olhou para Samuel.
— Ela ficou doente?
— Não.
— Então o quê?
Samuel respondeu:
— Ela passou a ouvir os monstros.
Davi ficou assustado.
— Ouvir?
— Não como nós ouvimos uma voz. Ela conseguia perceber impulsos, intenções, emoções.
— E depois?
— Depois começou a responder.
Rafael ficou em silêncio.
Samuel continuou:
— No começo, ela só conseguia afastar criaturas pequenas. Depois passou a influenciar grupos maiores. Finalmente...
Ele parou.
— Finalmente o quê?
— Ela conseguiu controlar uma criatura gigante.
Lívia apertou o rifle.
— Aquela do hospital?
— Não.
— Então qual?
Samuel olhou para as montanhas.
— Uma muito maior.
Rafael sentiu o coração acelerar.
— E o que ela fez com ela?
— Usou para proteger o laboratório.
— De quê?
Samuel respondeu:
— De nós.
Rafael franziu a testa.
— Não entendi.
— O laboratório queria desligar o sistema. Helena acreditava que isso mataria as criaturas ligadas a ele.
— E ela não queria?
— Não.
— Por quê?
Samuel olhou para o rádio.
— Porque acreditava que as criaturas não eram nossas inimigas.
Lívia balançou a cabeça.
— Depois de tudo o que fizeram?
— Ela dizia que os monstros estavam fugindo.
Rafael lembrou da invasão do Refúgio.
— Fugindo de quê?
Samuel não respondeu.
O silêncio dentro do carro ficou pesado.
— De alguma coisa pior — disse ele finalmente.
Rafael olhou para as montanhas.
— Você acredita nisso?
Samuel demorou.
— Depois do que vi, não sei mais no que acreditar.
— Mas você continuou trabalhando com ela.
— Por algum tempo.
— Até quando?
Samuel baixou os olhos.
— Até o dia em que ela ordenou que os moradores daquela cidade partissem.
Davi perguntou:
— Para as montanhas?
— Sim.
— Por quê?
Samuel olhou para o garoto.
— Porque ela dizia que era o único lugar seguro.
Rafael franziu a testa.
— Mas agora está transmitindo para que ninguém vá para lá.
— Exatamente.
Lívia percebeu a contradição.
— Então alguma coisa mudou.
Samuel assentiu.
— Mudou.
— O quê?
Samuel olhou para o dispositivo.
— A última vez que falei com Helena foi há três anos.
Rafael ficou imóvel.
— Três anos?
— Sim.
— Mas o mundo começou a cair há três anos.
Samuel assentiu.
— Foi quando perdemos contato com ela.
Rafael percebeu algo.
— Então a voz que ouvimos...
— É dela.
— E ela está viva.
Samuel não respondeu.
— Samuel.
— Provavelmente.
Rafael olhou para a estrada.
— Então por que ela está tentando nos afastar das montanhas?
Samuel respondeu:
— Porque finalmente percebeu que perdeu o controle.
O rádio no painel do carro ligou sozinho.
A estática tomou o interior do veículo.
Os quatro ficaram imóveis.
Então a voz de Helena surgiu.
— Samuel.
O homem empalideceu.
— Helena.
— Você não deveria ter levado o dispositivo.
Samuel apertou os punhos.
— Eu não sabia que ainda funcionava.
— Ele não está funcionando.
Rafael olhou para o aparelho.
As luzes vermelhas estavam apagadas.
— Então o que ele está fazendo? — perguntou.
A voz respondeu:
— Está chamando.
Samuel levantou a cabeça.
— Chamando quem?
A transmissão ficou silenciosa.
Depois Helena disse:
— Todos eles.
O rádio começou a emitir uma sequência de sons.
Ao longe, nas montanhas, vários rugidos responderam.
Um.
Dois.
Dez.
Dezenas.
Rafael ligou o motor imediatamente.
— Temos que sair daqui.
Samuel olhou para trás.
No horizonte, a neblina começava a descer das montanhas.
Mas havia algo diferente dessa vez.
Dentro dela, inúmeras luzes vermelhas se acendiam.
Helena voltou a falar pelo rádio.
— Rafael, se estiver me ouvindo, não confie em Samuel.
Rafael olhou para o banco traseiro.
Samuel ficou imóvel.
— Ela sabe meu nome — disse Rafael.
Helena continuou:
— Ele não contou por que foi escolhido.
Rafael virou-se lentamente para Samuel.
— Escolhido para quê?
Samuel não respondeu.
A voz de Helena desapareceu.
Então o rádio emitiu uma última frase:
— E não deixem que ele chegue às montanhas.
O silêncio voltou.
Rafael manteve as mãos no volante.
Lívia observava Samuel.
Davi parecia assustado.
Samuel apenas olhava para a estrada.
Depois de alguns segundos, ele falou:
— Agora vocês entendem por que eu não queria que viessem comigo.
Rafael ligou os faróis.
— Não.
Ele acelerou.
— Agora eu quero saber por que você foi escolhido.

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