O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 9 — OS CONDUTORES
O carro avançava pela estrada estreita enquanto o céu desaparecia lentamente atrás de uma camada espessa de nuvens. A cidade abandonada ficava para trás, mas ninguém dentro do veículo parecia disposto a falar sobre o que havia acontecido.
Rafael mantinha as duas mãos firmes no volante.
Lívia estava no banco ao lado, com o rifle apoiado sobre as pernas e os olhos fixos na estrada. Davi ocupava o banco traseiro, quieto demais para alguém que normalmente fazia perguntas sobre tudo. Samuel permanecia ao lado dele, olhando pela janela.
As montanhas continuavam visíveis ao longe.
Pareciam maiores do que antes.
Talvez fosse apenas a neblina cobrindo suas bases. Talvez fosse o efeito da luz fraca do fim da tarde. Mas Rafael tinha a impressão de que aquelas montanhas estavam se aproximando deles.
Ele finalmente quebrou o silêncio.
— Você disse que existem pessoas capazes de controlar monstros.
Samuel não respondeu imediatamente.
— Helena também disse que você não contou tudo.
— Helena não é exatamente uma pessoa em quem devemos confiar.
— Isso não responde à minha pergunta.
Samuel soltou o ar lentamente.
— Essas pessoas têm um nome.
Rafael olhou rapidamente para ele pelo espelho.
— Qual?
— Condutores.
Davi se inclinou para frente.
— Condutores?
— É como nós as chamávamos.
Lívia franziu a testa.
— Nós quem?
Samuel permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
— Os pesquisadores.
— E o que exatamente um Condutor faz? — perguntou Rafael.
Samuel olhou pela janela.
— Ele estabelece uma ligação.
— Com os monstros?
— Sim.
Rafael soltou uma risada curta, sem humor.
— Isso é impossível.
— Eu também achava.
— Você está dizendo que uma pessoa consegue controlar uma criatura de dez metros usando a mente?
— Algumas conseguem.
— Não.
— Rafael...
— Não. Eu vi aquelas coisas. Vi o que fizeram com Refúgio. Vi uma delas atravessar uma parede como se fosse papel. Vi outra emitir aquela descarga vermelha. Você quer que eu acredite que alguém estava sentado em algum lugar pensando e fazendo aquilo acontecer?
Samuel virou-se para ele.
— Não é exatamente assim.
— Então explique.
— Não é controle absoluto.
— Parece controle.
— É influência.
Rafael apertou o volante.
— Qual é a diferença?
Samuel hesitou.
— Um Condutor não precisa dizer à criatura exatamente o que fazer. Ele transmite uma intenção. Uma emoção. Um impulso. Dependendo da força da conexão, a criatura interpreta esse impulso e reage.
Davi perguntou:
— Como se fosse uma ordem?
— Mais parecido com uma sensação.
— Que tipo de sensação?
— Medo. Raiva. Fome. Proteção. Perigo. Direção.
Lívia olhou para Samuel.
— Então eles podem fazer um monstro acreditar que existe alguma coisa perigosa em determinado lugar?
— Sim.
— E fazer outro monstro atacar?
— Sim.
— Ou não atacar?
Samuel assentiu.
— Também.
O carro ficou em silêncio outra vez.
Rafael não queria acreditar.
Não porque a explicação fosse absurda demais.
Mas porque começava a explicar coisas que antes pareciam impossíveis.
Os monstros que haviam cercado Refúgio.
O gigante parado sobre a montanha.
A criatura que ignorara determinadas pessoas durante o ataque.
O dispositivo encontrado por Lívia.
Os sinais vermelhos.
E agora a voz de Helena.
Tudo parecia fazer parte de alguma coisa muito maior.
— Como isso começou? — perguntou Rafael.
Samuel esfregou as mãos.
— Nós não sabemos.
— Você sabe mais do que está dizendo.
— Eu sei o suficiente para ter medo.
— Isso não serve.
— É a verdade.
Lívia interrompeu:
— Conte o que sabe.
Samuel olhou para ela.
— No início, pensávamos que os sinais eram apenas uma forma de comunicação entre as criaturas.
— E não eram?
— Eram. Mas não apenas isso.
Ele apontou para o pequeno aparelho vermelho que estava sobre o painel.
— Aquele dispositivo consegue reproduzir parte desses sinais.
Rafael olhou para o aparelho.
— E os monstros respondem.
— Alguns.
— Por quê?
— Porque reconhecem o padrão.
Davi observava o equipamento.
— Como reconhecer uma voz?
Samuel ficou alguns segundos em silêncio.
— Exatamente.
Um ruído surgiu no rádio.
Todos se calaram.
A estática aumentou.
Depois desapareceu.
Nenhuma voz apareceu.
Apenas um som grave, quase imperceptível, como uma vibração distante.
Samuel imediatamente ficou tenso.
— Pare o carro.
Rafael pisou no freio.
O veículo parou no meio da estrada.
— O que foi?
Samuel abriu a porta.
— Escutem.
Rafael saiu.
Lívia também.
Davi permaneceu dentro do carro até Samuel fazer um gesto para que saísse.
A estrada estava cercada por árvores secas e prédios abandonados. Não havia vento.
Então Rafael ouviu.
Um som distante.
Passos.
Pesados.
Muitos.
Lívia levantou o rifle.
— Quantos?
Samuel olhou para a estrada.
— Não sei.
O primeiro vulto surgiu entre as árvores.
Rafael segurou a arma.
Era uma criatura.
Depois apareceu outra.
E outra.
E mais uma.
Em poucos segundos, uma fileira inteira de monstros começou a atravessar a estrada.
Rafael ficou imóvel.
Eles eram diferentes entre si.
Alguns tinham corpos baixos e musculosos. Outros caminhavam sobre quatro membros. Havia criaturas enormes, com placas ósseas cobrindo os ombros. Uma delas parecia quase humana de longe, mas tinha braços compridos demais e uma cabeça deformada.
E havia um gigante.
Muito maior que os outros.
Rafael sentiu o estômago apertar.
— Preparem-se — murmurou Lívia.
Ela apontou o rifle.
Samuel segurou o cano da arma.
— Não.
— Tire a mão.
— Não atire.
— Eles estão vindo!
— Não estão vindo até nós.
Rafael observou.
Samuel tinha razão.
As criaturas estavam atravessando a estrada.
Mas não estavam atacando.
Nenhuma delas sequer olhava diretamente para os sobreviventes.
O primeiro monstro passou a poucos metros de Rafael.
Ele conseguia sentir o cheiro da criatura.
Um odor forte, úmido e metálico.
Rafael segurou a respiração.
O animal continuou andando.
Depois veio outro.
E outro.
Um grupo inteiro passou diante deles.
Davi tremia.
— Por que eles não estão atacando?
Samuel respondeu baixo:
— Porque não receberam essa ordem.
Rafael virou-se.
— Ordem?
Samuel olhou para as criaturas.
— Alguém está comandando.
— Você tem certeza?
— Tenho.
— Como?
Samuel apontou para uma das criaturas.
— Observe.
Rafael acompanhou o gesto.
O monstro caminhava lentamente.
No pescoço havia marcas vermelhas.
Linhas geométricas.
As mesmas que haviam aparecido nos cadáveres encontrados em Refúgio.
Rafael sentiu um arrepio.
— O símbolo.
— Sim.
A criatura parou.
Todas as outras pararam também.
Ao mesmo tempo.
Rafael olhou para Samuel.
— Isso não pode ser coincidência.
— Não é.
O gigante ergueu a cabeça.
Uma luz vermelha surgiu entre as placas do peito.
O aparelho sobre o painel do carro começou a piscar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Samuel ficou pálido.
— Desligue.
Rafael correu até o carro e pegou o dispositivo.
— Como?
— Retire a bateria.
Rafael abriu a tampa.
O aparelho continuava vibrando.
— Não sai!
— Use a faca!
Lívia correu para ajudá-lo.
Davi observava os monstros.
— Eles estão olhando para nós.
Rafael levantou a cabeça.
Era verdade.
Todas as criaturas haviam virado o rosto.
Centenas de olhos estavam voltados para eles.
Lívia ergueu o rifle.
— Agora?
Samuel gritou:
— Não!
O gigante deu um passo.
O chão tremeu.
Rafael apontou a arma.
O segundo passo fez algumas pedras rolarem pela estrada.
Davi segurou o braço de Lívia.
— Eles vão atacar?
Samuel não respondeu.
Ele estava olhando para o aparelho.
— Não.
— Como sabe?
— Porque o sinal mudou.
Rafael sentiu o coração acelerar.
— Mudou para quê?
Samuel levantou lentamente o dispositivo.
— Não é um sinal de ataque.
— Então o que é?
Samuel olhou para as criaturas.
— É um comando de espera.
Todos ficaram imóveis.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então, de repente, o gigante virou a cabeça para a montanha.
As outras criaturas fizeram o mesmo.
Uma após outra.
Como soldados recebendo uma ordem silenciosa.
Samuel sussurrou:
— Estão esperando.
— Esperando o quê? — perguntou Rafael.
— O próximo comando.
O aparelho começou a emitir uma sequência de pulsos.
Vermelho.
Escuro.
Vermelho.
Escuro.
O gigante respondeu com uma luz no peito.
Rafael deu um passo para trás.
— Isso está acontecendo através do aparelho?
Samuel balançou a cabeça.
— Não.
— Então como?
— O aparelho está apenas recebendo.
Rafael olhou para ele.
— Recebendo de quem?
Samuel encarou a montanha.
— De um Condutor.
A palavra ficou suspensa no ar.
Rafael pensou em Helena.
Pensou no aviso dela.
Não confie em Samuel.
Não deixem que ele chegue às montanhas.
E agora aquelas criaturas estavam paradas diante deles, aguardando uma ordem.
— Existe alguém lá em cima? — perguntou Rafael.
Samuel não respondeu.
— Samuel.
— Talvez.
— Você sabe.
— Eu suspeito.
Lívia apontou o rifle para ele.
— Você acabou de dizer que tem certeza.
Samuel olhou para a arma.
— Eu tenho certeza de que existe uma consciência transmitindo o sinal.
— Uma consciência humana?
Samuel demorou.
— Não sei.
Rafael sentiu um frio percorrer o corpo.
— Você está dizendo que talvez não seja uma pessoa?
— Estou dizendo que não sabemos mais o que existe nas montanhas.
O gigante deu outro passo.
Dessa vez, porém, não avançou contra eles.
A criatura apenas atravessou a estrada e entrou na mata do outro lado.
As demais começaram a segui-la.
Em poucos minutos, o grupo inteiro desapareceu entre as árvores.
Rafael continuou apontando a arma até que o último vulto desaparecesse.
Depois baixou lentamente o cano.
— Eles poderiam ter nos matado.
— Sim — respondeu Samuel.
— Mas não fizeram.
— Porque não era essa a ordem.
Rafael virou-se.
— Você percebe que isso muda tudo?
Samuel assentiu.
— Eu sei.
— Até agora nós achávamos que os monstros atacavam porque eram animais violentos.
— Alguns atacam por instinto.
— E outros?
Samuel respirou fundo.
— Outros obedecem.
Davi perguntou:
— Aquele gigante também?
— Provavelmente.
— Então existe alguém capaz de mandar naquele gigante?
Samuel olhou para ele.
— Talvez.
Davi pensou por alguns segundos.
— E se esse alguém mandar todos eles atacarem Refúgio?
Samuel não respondeu.
A pergunta permaneceu no ar.
Rafael olhou para a estrada vazia.
A resposta era óbvia.
— Então precisamos descobrir quem está dando as ordens.
Samuel guardou o dispositivo no bolso.
— E antes disso precisamos descobrir por que.
— Por quê?
— Por que alguém faria criaturas desse tamanho atravessarem cidades sem atacar sobreviventes? Por que algumas pessoas foram levadas para as montanhas? Por que Helena está tentando impedir que chegamos lá?
Rafael ficou olhando para a direção das montanhas.
— E por que você foi escolhido?
Samuel fechou os olhos por um instante.
— Essa é a pergunta que eu estava tentando evitar.
Lívia aproximou-se.
— Não vai mais evitar.
Samuel olhou para os dois.
— O primeiro Condutor não foi escolhido pelos monstros.
— Então por quem?
— Pelo sinal.
Rafael sentiu um peso no peito.
— Explique.
Samuel começou a caminhar de volta ao carro.
— Quando descobrimos que alguns humanos conseguiam perceber os sinais, pensamos que fosse uma mutação. Depois descobrimos que não era.
— O que era?
Samuel parou.
— Compatibilidade.
Rafael o encarou.
— Compatibilidade com o quê?
— Com a frequência.
— E você é compatível?
Samuel ficou em silêncio.
Lívia percebeu.
— É?
— Sim.
Davi deu um passo para trás.
— Você consegue ouvir os monstros?
Samuel olhou para ele.
— Às vezes.
Rafael sentiu um arrepio.
— E por que nunca contou?
— Porque na primeira vez que ouvi um deles, eu pensei que estivesse enlouquecendo.
— O que você ouviu?
Samuel olhou para a montanha.
— Uma voz.
— De um monstro?
— Não.
— Então de quem?
Samuel demorou tanto para responder que Rafael pensou que ele não responderia.
Finalmente, disse:
— De Helena.
Lívia ficou imóvel.
— Helena estava com você?
— Não.
— Então como ouviu a voz dela?
Samuel respondeu:
— Porque naquele momento ela estava controlando uma criatura a centenas de quilômetros de distância.
O silêncio tomou conta da estrada.
Rafael olhou para o dispositivo.
A luz vermelha estava apagada.
Mas, dentro da cabeça, ele ainda conseguia imaginar o pulso.
Vermelho.
Escuro.
Vermelho.
Escuro.
— Você disse que algumas pessoas conseguem controlar criaturas — falou Rafael.
— Sim.
— Quantas?
Samuel abaixou os olhos.
— Não sabemos.
— Dezenas?
— Talvez mais.
— E todas estão nas montanhas?
Samuel hesitou.
— Não.
Rafael percebeu imediatamente.
— Onde estão as outras?
Samuel levantou o rosto.
— Algumas estão mortas.
— E as que estão vivas?
— Estão procurando por nós.
Um ruído surgiu atrás deles.
Os quatro se viraram.
Não havia nada.
A mata parecia vazia.
Então o aparelho no bolso de Samuel começou a vibrar.
Samuel congelou.
— Não...
Rafael sacou a arma.
— O que foi?
Samuel retirou o dispositivo.
A tela estava completamente vermelha.
Uma nova sequência apareceu.
Três pulsos.
Uma pausa.
Três pulsos.
Uma pausa.
Davi olhou para o céu.
— Vocês estão ouvindo isso?
Rafael ficou imóvel.
— O quê?
Davi apontou para as árvores.
— O som.
Todos ficaram em silêncio.
Lá longe, dentro da floresta, alguma coisa respondeu.
Um ruído grave.
Depois outro.
E outro.
Samuel ficou cada vez mais pálido.
— Não são as criaturas que acabaram de passar.
Rafael apertou a arma.
— Quantas são?
Samuel observou a escuridão entre as árvores.
— Muitas.
Lívia preparou o rifle.
— E elas estão vindo para cá?
Samuel demorou alguns segundos.
Então olhou para Rafael.
— Não.
— Então o que estão fazendo?
Samuel respondeu quase num sussurro:
— Estão cercando a estrada.
O primeiro par de olhos vermelhos surgiu entre os galhos.
Depois outro.
E outro.
Dezenas de pontos luminosos começaram a aparecer na escuridão.
Mas nenhuma criatura avançou.
Todas permaneceram imóveis.
Esperando.
Samuel olhou para a montanha.
— O Condutor sabe que estamos aqui.
Rafael ergueu a arma.
— Então talvez seja hora de ele descobrir que nós também sabemos que ele existe.
Samuel balançou a cabeça.
— Você ainda não entende.
— O quê?
O dispositivo em sua mão começou a emitir um som diferente.
Não era mais um pulso.
Era uma sequência.
Como uma mensagem.
Samuel aproximou o ouvido do aparelho.
Seu rosto mudou.
— O que foi? — perguntou Lívia.
Samuel não respondeu.
Rafael segurou seu ombro.
— Samuel.
Ele finalmente levantou os olhos.
— Ele não está mandando os monstros atacarem.
— Então qual é a ordem?
Samuel olhou diretamente para Rafael.
— A ordem é seguir você.
Rafael sentiu o sangue gelar.
Atrás deles, centenas de olhos vermelhos permaneceram imóveis.
E, muito acima das árvores, na direção das montanhas, uma luz vermelha acendeu no topo de alguma coisa que nenhum deles conseguia enxergar.

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