As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 12 — A COISA NA PAREDE

 O helicóptero mergulhou violentamente para a esquerda.

 A parede gemeu novamente.

O som atravessou o abrigo como o lamento de uma estrutura prestes a desabar. Pequenas partículas de concreto caíram do teto, espalhando-se sobre os soldados que ainda tentavam se levantar. A fenda azulada continuava a crescer, e as duas luzes brancas do outro lado permaneciam fixas em Helena.

Ninguém conseguia se mover.

Daniel segurava a câmera, mas havia esquecido completamente que estava gravando. Seus olhos estavam presos à abertura. A escuridão parecia absorver a luz das lanternas, tornando impossível determinar a distância até aquelas duas luzes.

A voz voltou a falar.

— Você demorou.

Helena recuou um passo.

— Quem é você?

Uma vibração percorreu o concreto.

— Você sabe o que fez.

— Eu nunca estive aqui antes.

A resposta veio acompanhada de uma respiração profunda.

O ar pareceu ser sugado para dentro da fenda. Papéis, poeira e pequenos fragmentos de concreto deslizaram pelo chão em direção à abertura. Ricardo agarrou uma tubulação para não ser arrastado. Um soldado caiu de joelhos e tentou se prender à base de uma coluna.

Daniel sentiu o ar escapar de seus pulmões.

Não era uma simples corrente de vento.

Alguma coisa do outro lado estava inspirando.

E seus pulmões pareciam grandes o bastante para sugar o ar de todo o corredor.

A inspiração durou vários segundos.

Então veio a expiração.

Um sopro quente atravessou a abertura, carregando um cheiro de pedra úmida, ferrugem e matéria apodrecida. A onda de ar atingiu os rostos dos presentes, fazendo as lanternas oscilarem.

Uma das luzes brancas se aproximou.

Daniel finalmente conseguiu distinguir uma forma atrás da fenda.

Parecia uma superfície coberta por placas escuras, com sulcos que se moviam lentamente sob a pele. Não conseguia identificar uma cabeça, braços ou qualquer estrutura que reconhecesse como parte de um corpo. Tudo o que via era uma massa colossal comprimida atrás da parede.

A coisa estava tentando atravessar.

— Todo mundo para trás! — gritou o coronel Ferraz.

A ordem rompeu o transe.

Os soldados começaram a recuar, apontando os fuzis para a abertura. Mendes puxou Helena pelo braço, obrigando-a a abandonar os instrumentos que carregava.

— Precisamos sair daqui!

Ela resistiu.

— Espere! Essa estrutura está respondendo às frequências. Se entendermos o padrão, talvez possamos—

A parede tremeu violentamente.

Um bloco de concreto se desprendeu do teto e caiu entre eles, explodindo em fragmentos. Mendes puxou Helena para trás segundos antes de outra seção desabar.

— Não existe mais nada para entender se você morrer aqui! — gritou ele.

O coronel ergueu a arma.

— Todos os soldados, preparem-se para abrir fogo!

Os homens se posicionaram ao longo do corredor. Alguns estavam tão assustados que mal conseguiam manter os canos dos fuzis estáveis. Outros respiravam com dificuldade dentro das máscaras.

Ferraz apontou para o centro da fenda.

— Disparem quando eu ordenar!

Daniel recuou junto de Ricardo.

— Eles realmente acham que balas vão deter aquilo? — murmurou o técnico.

— Não sei — respondeu Daniel. — Mas espero que não descubram da pior maneira.

A coisa respirou novamente.

Dessa vez, a inspiração produziu um ruído semelhante ao de uma turbina gigantesca entrando em funcionamento. As luzes de emergência diminuíram, e os painéis elétricos próximos à parede apagaram-se um por um.

O equipamento de Helena começou a emitir alarmes.

Ela olhou para a tela.

— Não atirem!

Ferraz não desviou os olhos da abertura.

— Por quê?

— A frequência está aumentando. Se a parede for uma barreira de contenção, os disparos podem desestabilizá-la ainda mais!

— E qual é a sua alternativa, doutora? Pedir que a criatura espere educadamente?

— Precisamos desligar a alimentação dos mecanismos!

— Não sabemos sequer se existe um mecanismo!

A voz do outro lado interrompeu a discussão.

— Abram.

A palavra foi pronunciada com uma calma aterrorizante.

A fenda aumentou alguns centímetros.

Uma placa negra atravessou a abertura, raspando o concreto. A superfície era irregular, marcada por sulcos que brilhavam em azul. A placa pressionou a parede e permaneceu ali, como se estivesse procurando apoio para empurrar o restante do corpo.

Ferraz perdeu a paciência.

— Fogo!

Os soldados dispararam.

O corredor foi tomado por clarões, estampidos e ecos violentos. As balas atingiram a superfície escura, produzindo faíscas e pequenas nuvens de poeira. Algumas ricochetearam contra as paredes, obrigando os homens a se abaixarem.

A criatura recuou por um instante.

Um grito de alívio surgiu entre os soldados.

Então a placa negra se moveu novamente.

Os impactos haviam deixado marcas superficiais, mas nenhuma perfuração. As áreas atingidas começaram a se fechar diante dos olhos de Daniel. As rachaduras na superfície desapareceram, e os sulcos azulados voltaram a brilhar.

— Continuem! — ordenou Ferraz.

Os disparos recomeçaram.

A coisa respondeu com um rugido.

Não foi um som agudo como os rugidos das criaturas que haviam atacado as cidades. Era uma vibração grave, quase musical, que atravessou o corpo de Daniel e fez seus dentes baterem uns contra os outros.

As lâmpadas explodiram.

Um dos soldados foi arremessado contra a parede oposta, enquanto outro caiu de joelhos, pressionando as mãos contra os ouvidos. O concreto sob os pés de Daniel vibrou como uma membrana esticada.

Helena gritou alguma coisa, mas ele não conseguiu ouvi-la.

A placa negra recuou para dentro da abertura.

Por um segundo, Daniel pensou que os disparos haviam funcionado.

Então percebeu que a criatura não estava recuando.

Estava tomando impulso.

— CORRAM! — gritou Helena.

A parede explodiu.

Uma massa de concreto e metal foi lançada pelo corredor. Daniel foi atingido por alguma coisa no ombro e caiu de lado. A câmera escapou de suas mãos, bateu no chão e continuou gravando, apontada para o teto.

O impacto arrancou parte das tubulações. Água e vapor jorraram pela passagem, enquanto os alarmes disparavam em diferentes setores da instalação.

No meio da nuvem de poeira, uma estrutura gigantesca atravessou a parede.

Primeiro surgiu uma extremidade comprida, semelhante a um braço coberto de placas ósseas. Depois veio uma segunda estrutura, que se apoiou no chão e esmagou o concreto sob seu peso.

O restante da criatura começou a passar pela abertura.

Daniel tentou se levantar, mas o ombro latejava. Ricardo apareceu ao lado dele e o puxou para longe dos destroços.

— Você consegue andar?

— Consigo.

— Então ande!

A criatura se arrastou para dentro do corredor.

Era maior do que qualquer uma das que Daniel havia visto nas cidades. Seu corpo parecia ter sido feito de camadas de rocha negra, ossos e músculos densos. Placas sobrepostas cobriam o dorso, enquanto longas estruturas articuladas se estendiam de ambos os lados. Não possuía uma cabeça claramente definida; em vez disso, uma cavidade vertical atravessava a parte superior do corpo.

Dentro dela, duas luzes brancas se moviam independentemente.

A cada respiração, as placas do torso se abriam ligeiramente, revelando uma membrana escura que pulsava em sincronia com os sinais registrados por Helena.

A criatura não se parecia com um animal.

Parecia uma fortaleza viva.

Um soldado disparou a curta distância.

As balas atingiram uma das placas, sem produzir efeito aparente.

A criatura virou-se em direção ao atirador.

Um dos membros se estendeu com velocidade surpreendente e o atingiu no peito. O homem foi lançado contra uma porta metálica, que se deformou com o impacto.

Outro soldado começou a gritar.

Ferraz ordenou que todos recuassem, mas o corredor já estava parcialmente bloqueado pelos escombros. A criatura ocupava quase toda a passagem, e seus movimentos faziam as paredes tremerem.

Helena observava a membrana sob as placas.

— Ela está reagindo aos disparos — disse ela. — Mas não está apenas se defendendo.

Daniel olhou para ela, incrédulo.

— O que mais poderia estar fazendo?

— Está seguindo a frequência dos tiros. Cada disparo provoca uma resposta no corpo dela.

A criatura abriu a cavidade vertical.

O ar começou a vibrar.

— Afastem-se das paredes! — gritou Helena.

Uma onda de pressão atravessou o corredor. As placas de metal se retorceram, os sensores explodiram e uma fileira de lâmpadas foi arrancada dos suportes.

O coronel caiu, perdendo a arma.

Mendes o agarrou pelo uniforme e o arrastou para longe.

A criatura avançou mais um passo.

O concreto se partiu sob seu peso.

Daniel viu algo preso entre as placas do corpo. Um objeto metálico, parcialmente fundido à superfície escura, exibia marcas semelhantes às inscrições das barreiras.

Ele aproximou a câmera e tentou focalizar o detalhe.

As marcas formavam uma sequência.

Três círculos, uma linha vertical e um símbolo semelhante a um olho fechado.

Helena também percebeu.

— Daniel! Está vendo aquilo?

— Estou!

— Grave tudo!

A criatura virou o corpo em direção a eles.

As luzes brancas fixaram-se na câmera.

Daniel sentiu uma pressão na cabeça, como se alguém estivesse apertando seu crânio por dentro. Por um instante, imagens que não eram suas atravessaram sua mente: corredores intermináveis, paredes cobertas de símbolos, enormes portas enterradas sob camadas de pedra e uma superfície azul que se estendia até um horizonte sem estrelas.

Depois, uma imagem ainda mais assustadora.

Uma multidão de criaturas semelhantes àquela estava imóvel em uma vasta câmara subterrânea.

Todas olhavam para uma estrutura circular.

Do outro lado da estrutura, alguma coisa se movia.

Daniel cambaleou.

— O que foi? — perguntou Ricardo.

— Eu vi...

Ele não conseguiu terminar.

A pressão desapareceu tão abruptamente quanto surgira.

A criatura soltou um ruído profundo e virou-se para a abertura que havia criado. Seu corpo inteiro se contraiu, como se estivesse sentindo uma dor intensa.

Helena observou os instrumentos.

— O sinal está mudando!

— Que sinal? — gritou Ferraz.

— A frequência principal! Ela está ficando mais forte!

O coronel olhou para a criatura.

— Então o que isso significa?

Helena respondeu sem tirar os olhos da tela.

— Significa que ela não está tentando entrar aqui por acaso.

A criatura bateu um dos membros contra o chão.

O impacto abriu uma rachadura que avançou até os pés de Daniel.

— Está procurando alguma coisa — concluiu a cientista.

O monstro inclinou o corpo e pressionou uma das placas contra a parede destruída. Por um momento, parecia escutar alguma coisa do outro lado.

Então a voz voltou.

Não veio da cavidade vertical.

Veio de dentro das paredes, dos alto-falantes danificados e dos rádios dos soldados ao mesmo tempo.

— A contenção falhou.

Ferraz empalideceu.

— Quem está transmitindo?

A voz continuou:

— O primeiro atravessou. O segundo está despertando.

Helena ergueu a cabeça.

— Segundo?

Uma sequência de estalos percorreu o abrigo.

No equipamento da cientista, novos sinais surgiram sob a montanha. Um deles estava diretamente abaixo da instalação.

Outro vinha de uma distância muito maior.

Um terceiro apareceu próximo à região metropolitana.

E todos pulsavam no mesmo ritmo.

— Não pode ser — murmurou ela.

Daniel aproximou-se.

— O que você está vendo?

Ela virou a tela para ele.

— A criatura que está aqui não é a única. Existem outras estruturas respondendo à mesma frequência. E uma delas está muito mais próxima da superfície do que estava há dez minutos.

O coronel tentou recuperar o controle.

— Quanto tempo temos?

Helena não respondeu.

Porque naquele momento o chão se abriu.

Uma rachadura atravessou o corredor, dividindo as placas de concreto. O ruído que veio de baixo foi acompanhado por uma corrente de ar tão forte que apagou as últimas lanternas.

A criatura soltou um rugido e recuou.

Pela primeira vez, Daniel percebeu algo parecido com medo em seus movimentos.

Ela estava olhando para o chão.

Não para os humanos.

Para alguma coisa que se aproximava por baixo deles.

Então a voz desconhecida falou novamente:

— Abandonem a instalação.

Ferraz pegou o rádio.

— Identifique-se! Esta é uma ordem militar! Quem está falando?

A resposta veio imediatamente.

— Não há tempo.

Uma explosão sacudiu o nível inferior.

O painel de emergência acendeu, exibindo uma mensagem em letras vermelhas:

FALHA ESTRUTURAL — NÍVEIS INFERIORES COMPROMETIDOS.

Depois outra:

FALHA DE CONTENÇÃO — SETOR CENTRAL.

E, finalmente:

EVACUAÇÃO IMEDIATA.

O coronel olhou para os soldados.

— Todos para o setor de saída! Levem os feridos! Abandonem o equipamento que não puder ser transportado!

Mendes começou a organizar a retirada.

Dois soldados arrastaram o homem ferido contra a parede. Outro recolheu as armas caídas. Ricardo pegou a mochila de Helena, enquanto Daniel recuperava a câmera do chão.

A criatura continuava junto à parede destruída.

Não tentava persegui-los.

Seu corpo estava voltado para a rachadura no piso, e as placas negras se abriam e fechavam rapidamente, como se estivesse respirando com dificuldade.

Helena parou por um instante.

— Ela sabe.

Daniel segurou seu braço.

— Sabe o quê?

— O que está vindo.

Uma batida subterrânea fez o corredor inteiro estremecer.

A criatura recuou mais um passo, esmagando uma coluna de concreto. As luzes brancas se apagaram por alguns segundos.

Quando voltaram a brilhar, estavam voltadas diretamente para Helena.

A voz surgiu uma última vez.

— Não deixem que ele alcance a superfície.

Então o rádio morreu.

A retirada transformou-se em uma corrida desesperada.

Os corredores estavam cheios de fumaça e poeira. Alarmes tocavam em diferentes níveis, e portas automáticas fechavam-se sem obedecer aos comandos. Em um dos cruzamentos, os sobreviventes encontraram soldados tentando abrir uma passagem bloqueada por destroços.

Ferraz ordenou que usassem ferramentas para remover os fragmentos, mas outra sacudida fez o teto desabar parcialmente.

— Pela escada de serviço! — gritou Mendes.

O grupo mudou de direção.

Daniel ajudou Ricardo a levantar uma mulher que havia caído. Helena corria à frente, consultando o equipamento enquanto tentava localizar a saída. Os sinais subterrâneos continuavam aumentando, mas agora havia intervalos entre eles, como se algo estivesse batendo contra diversas estruturas em sequência.

Atrás do grupo, um estrondo fez o corredor desaparecer em uma nuvem de poeira.

A criatura havia se movido novamente.

Daniel olhou para trás.

Entre as rachaduras, viu uma das placas negras desaparecer sob o concreto. A coisa não estava simplesmente atravessando a instalação.

Estava sendo puxada para baixo.

Um rugido profundo reverberou pelos níveis inferiores.

Depois, silêncio.

— Não parem! — gritou Helena.

Eles chegaram à escadaria de serviço e começaram a subir. A cada lance, o ar ficava mais quente. Quando alcançaram o salão principal, encontraram os sobreviventes em pânico.

Uma parte do teto havia desabado sobre os bancos. Caixas de suprimentos estavam espalhadas pelo chão, e uma tubulação rompida inundava o setor com água escura.

Crianças choravam enquanto os soldados tentavam organizar a evacuação.

— Todos para a saída norte! — ordenou Ferraz. — Deixem as bagagens! Levem apenas água, medicamentos e feridos!

Uma mulher segurou o braço de um dos militares.

— Para onde vamos?

— Para longe da montanha.

— Mas não há nada lá fora!

O soldado não respondeu.

Daniel atravessou o salão procurando o piloto do helicóptero. Encontrou-o perto de uma coluna, ajudando um homem idoso a caminhar.

— O helicóptero ainda pode voar? — perguntou.

O piloto soltou uma risada nervosa.

— Se você conseguir convencer a aeronave a consertar sozinha o sistema hidráulico, talvez.

— Então precisamos de outra saída.

— Existe uma estrada no lado leste. O acesso principal está bloqueado, mas há um túnel de serviço que leva à encosta.

Helena ouviu a conversa.

— Um túnel?

O piloto assentiu.

— Usado para transportar suprimentos. Ele sai perto de uma estrada de manutenção.

A cientista olhou para o mapa.

— Não podemos usar esse túnel.

— Por quê? — perguntou Daniel.

Ela mostrou a tela.

Uma linha vermelha atravessava o traçado da passagem de serviço. No fim dela, um dos sinais subterrâneos pulsava com intensidade crescente.

— Porque ele passa diretamente sobre a região onde o sinal está se concentrando.

Ferraz aproximou-se.

— Não temos escolha. A saída principal está comprometida, e a encosta oeste está desabando. Se ficarmos aqui, seremos enterrados.

Helena observou o mapa por mais alguns segundos.

— Então precisamos atravessar antes que a frequência atinja o nível máximo.

— Quanto tempo? — perguntou o coronel.

Ela olhou para o gráfico.

— Não sei. Talvez dez minutos. Talvez menos.

Ferraz não hesitou.

— Vamos.

Os soldados organizaram os sobreviventes em grupos. Os feridos foram colocados em macas improvisadas, e as crianças receberam garrafas de água e cobertores. Os técnicos desligaram os equipamentos que ainda funcionavam, mas deixaram a maior parte do material para trás.

Daniel caminhou até uma janela estreita no corredor de saída.

Do lado de fora, a floresta estava coberta por uma névoa cinzenta. O helicóptero permanecia onde havia pousado, parcialmente inclinado. Ao longe, a montanha apresentava várias fissuras iluminadas por um brilho azul.

A superfície estava se abrindo.

E havia algo pior.

Perto da base da encosta, centenas de criaturas menores avançavam entre as árvores. Não pareciam perseguir os sobreviventes. Todas seguiam na mesma direção, movendo-se com urgência em direção à montanha.

Algumas paravam, erguiam a cabeça e emitiam sons curtos.

Outras respondiam de dentro das aberturas no terreno.

Daniel filmou a cena.

— Helena, elas estão voltando.

A cientista aproximou-se da janela.

— Não. Estão tentando chegar antes dele.

— Antes de quem?

Helena não respondeu.

Um estrondo vindo de baixo fez as janelas vibrarem.

No mapa, o sinal central desapareceu.

Durante um instante, todos os sensores ficaram silenciosos.

Então uma nova leitura surgiu, tão intensa que a tela apagou.

Helena ficou imóvel.

— Isso não pode estar certo.

Ferraz aproximou-se.

— O que aconteceu?

Ela olhou para ele, e o medo em seu rosto era mais eloquente do que qualquer explicação.

— A coisa que estava atrás da barreira não é a maior ameaça.

Um som profundo percorreu a montanha.

A névoa do lado de fora começou a se afastar, como se uma força invisível a estivesse empurrando para longe. As criaturas na floresta interromperam o movimento ao mesmo tempo.

Todas se voltaram para o chão.

Então se curvaram.

Não como animais se preparando para atacar.

Como seres que reconheciam a chegada de algo muito mais poderoso.

Daniel ergueu a câmera.

A terra se abriu junto à encosta.

Uma fenda gigantesca atravessou o terreno, revelando uma estrutura circular enterrada sob milhares de toneladas de rocha. Símbolos azuis iluminaram sua superfície, formando círculos concêntricos que começaram a girar lentamente.

No centro, alguma coisa se moveu.

Um impacto sacudiu o abrigo.

As portas metálicas se fecharam sozinhas, e as luzes de emergência ficaram vermelhas.

Ferraz gritou para que todos corressem.

O grupo alcançou o túnel de serviço segundos antes de uma parte do teto desabar atrás deles. Os soldados empurraram os sobreviventes para a passagem, enquanto Ricardo ajudava Helena a carregar o equipamento.

Daniel foi um dos últimos a entrar.

Antes de atravessar a porta, olhou uma última vez para o salão.

No fundo, atrás da nuvem de poeira, a parede destruída estava novamente visível.

A fenda havia se fechado.

Mas, no centro do concreto rachado, havia uma marca nova.

Uma impressão gigantesca, semelhante à de uma mão, pressionada de dentro para fora.

E os dedos ainda estavam se movendo.

Daniel recuou para o túnel.

A porta se fechou atrás dele.

Por alguns segundos, o grupo continuou avançando em silêncio, iluminado apenas pelas lanternas e pelas luzes vermelhas instaladas no teto. O ar cheirava a ferrugem. O chão estava coberto por uma fina camada de água, e o ruído dos passos ecoava pela passagem.

Então Helena parou.

— Esperem.

Todos olharam para ela.

A cientista havia colocado o equipamento sobre uma caixa metálica. A tela, que até então permanecera apagada, voltou a acender.

Não mostrava o mapa da montanha.

Mostrava uma sequência de símbolos.

Helena reconheceu o primeiro.

Era o mesmo símbolo circular encontrado na parede do abrigo.

O segundo também era familiar.

Mas o terceiro não aparecia em nenhum dos registros conhecidos.

Abaixo da sequência, surgiu uma linha de texto.

Não era português.

Não era qualquer idioma que Helena conhecesse.

Mesmo assim, enquanto observava as letras se formando, ela sentiu uma certeza terrível crescer dentro de si.

A mensagem não havia sido enviada para a instalação.

Nem para os militares.

Era destinada a ela.

Daniel aproximou-se.

— O que está escrito?

Helena abriu a boca para responder, mas as palavras não saíram.

A tela piscou.

O texto desapareceu.

Em seu lugar, surgiu uma nova leitura sísmica.

Um único ponto brilhava diretamente sob o túnel de serviço.

E estava se movendo na mesma direção que eles.

Muito lentamente.

Como se soubesse exatamente para onde estavam indo.

Atrás do grupo, uma respiração profunda atravessou a porta metálica.

Depois outra.

E, no escuro, alguma coisa começou a arrastar o corpo pelo corredor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

tetris