As Criaturas do abismo: CAPÍTULO 13 — O TÚNEL PROIBIDO

 O helicóptero mergulhou violentamente para a esquerda.

A respiração atrás deles tornou-se mais profunda.

Daniel iluminou o corredor com a lanterna, mas a luz alcançou apenas a porta metálica que haviam acabado de atravessar. A superfície estava deformada, marcada por arranhões que pareciam ter sido feitos de dentro para fora. A cada nova inspiração, o metal estremecia discretamente.

— Continuem andando — ordenou o coronel Ferraz. — Ninguém fica para trás.

Os sobreviventes retomaram o movimento. Alguns choravam em silêncio. Outros repetiam orações enquanto avançavam pelo túnel de serviço, apoiando-se nas paredes úmidas para não escorregar. Os soldados tentavam manter a formação, mas o medo havia substituído a disciplina nos rostos de muitos deles.

Helena caminhava perto de Daniel, segurando o equipamento contra o peito.

A pequena tela continuava mostrando o sinal que se movia atrás do grupo.

— Está se aproximando — disse ela.

Daniel olhou para o gráfico.

— A criatura que estava no abrigo?

— Não sei. O padrão é diferente daquele que registramos antes.

— Diferente como?

Helena ampliou os dados.

— A criatura que atravessou a parede produzia vibrações irregulares. Cada movimento provocava uma alteração na frequência. Este sinal é constante. Não importa se estamos andando, se o túnel muda de inclinação ou se o chão treme. Ele mantém o mesmo ritmo.

Ricardo, que seguia logo atrás, ouviu a explicação.

— Como se estivesse deslizando pelo subterrâneo sem tocar nas paredes?

— Ou como se não precisasse se mover da maneira que imaginamos.

Daniel não gostou daquela resposta.

O túnel fez uma curva acentuada. Adiante, uma lâmpada piscava sobre uma porta de manutenção. O coronel ordenou que os primeiros soldados verificassem a passagem.

Um deles tentou abrir a porta usando o painel de acesso.

Nada aconteceu.

Tentou novamente.

O painel emitiu um sinal sonoro e exibiu uma mensagem de erro.

— Sem energia neste setor, senhor.

Ferraz examinou a estrutura.

— Forcem a abertura.

Dois soldados encaixaram ferramentas entre a porta e a moldura. Fizeram força até o metal começar a ceder. Depois de alguns minutos, conseguiram abrir uma fresta suficiente para iluminar o espaço além dela.

Não havia uma sala de manutenção.

Havia uma parede de pedra.

Uma superfície escura, irregular, coberta por marcas profundamente gravadas.

Helena avançou imediatamente.

— Afastem-se.

A cientista passou a lanterna pela superfície. Os símbolos formavam linhas sinuosas que se cruzavam em intervalos regulares. Alguns pareciam espirais; outros lembravam figuras humanas com membros alongados. No centro, havia um círculo atravessado por três linhas.

Ela ficou imóvel.

— Não pode ser.

Daniel aproximou-se.

— Você reconhece esses símbolos?

— Reconheço o padrão.

Helena abriu um dos arquivos armazenados no equipamento. Uma fotografia antiga apareceu na tela. A imagem mostrava uma parede de pedra encontrada durante sua expedição, onze anos antes.

Os símbolos eram praticamente idênticos.

Mas havia uma diferença.

Na fotografia antiga, as linhas estavam apagadas e cobertas por depósitos minerais. Na parede diante deles, algumas marcas brilhavam fracamente com uma luz azulada.

— Esta estrutura não pertence à instalação militar — disse Helena. — Ela é muito mais antiga.

O coronel aproximou-se.

— Então por que está atrás de uma porta de manutenção?

Helena olhou para o concreto ao redor da passagem.

— Porque alguém construiu este corredor sobre uma estrutura preexistente. Talvez a instalação tenha sido erguida para esconder a entrada. Talvez tenham encontrado a passagem durante as obras e decidido selá-la.

— Está dizendo que o Exército construiu uma base sobre um túnel desconhecido?

— Estou dizendo que alguém sabia que ele existia.

Ferraz não respondeu.

Daniel percebeu que o coronel estava olhando para a parede com uma expressão diferente. Não parecia surpreso. Parecia reconhecer algo que esperava nunca mais encontrar.

— Coronel? — chamou Daniel.

Ferraz desviou os olhos.

— Temos de continuar. Não podemos permanecer aqui.

Helena não se moveu.

Ela retirou um pequeno instrumento da mochila e aproximou-o dos símbolos. A tela registrou uma sequência de vibrações.

Um som delicado percorreu a pedra.

As marcas azuis se iluminaram.

Todos recuaram.

A superfície inteira pareceu responder ao aparelho, como se alguma coisa dentro da rocha tivesse despertado ao reconhecer uma frequência específica.

Helena desligou o instrumento imediatamente.

A luz diminuiu, mas não desapareceu por completo.

— O que você fez? — perguntou Ferraz.

— Nada que pudesse danificar a estrutura.

— Você ativou alguma coisa.

— Apenas reproduzi uma frequência de baixa intensidade.

— Não sabemos o que essas marcas fazem!

— Exatamente por isso precisamos estudá-las.

Uma vibração percorreu o chão.

Atrás do grupo, a porta metálica gemeu.

Os soldados se viraram ao mesmo tempo.

O som de respiração havia desaparecido.

Em seu lugar, ouviu-se um arrastar pesado, seguido por três impactos lentos.

Tum.

Tum.

Tum.

A cada impacto, a parede de pedra diante deles vibrava.

Helena olhou para o equipamento.

O sinal que os perseguia havia parado.

Não estava mais se aproximando.

Estava parado exatamente do outro lado da porta metálica.

— Temos que sair daqui — disse Ricardo.

Helena examinou a parede de pedra uma última vez.

— Não podemos voltar pelo mesmo caminho.

— E por que não? — perguntou Daniel.

Ela apontou para a tela.

— Porque o sinal atrás de nós não está mais avançando.

Daniel olhou para a porta.

— Talvez tenha desistido.

— Ou talvez esteja esperando que façamos alguma coisa.

Um quarto impacto sacudiu o corredor.

A porta metálica se curvou para dentro.

Ferraz sacou a arma.

— Todos para a frente! Agora!

Helena iluminou a parede de pedra. À direita dos símbolos havia uma abertura estreita, quase escondida por uma camada de concreto quebrado. A passagem parecia ter sido bloqueada durante a construção da instalação.

Ela começou a remover os fragmentos com as mãos.

— Aqui! Existe um corredor atrás desta parede!

Mendes e dois soldados ajudaram a retirar os pedaços maiores. O concreto se desprendeu lentamente, revelando uma abertura escura, baixa demais para que um adulto passasse sem se abaixar.

O ar que veio de dentro era gelado.

E tinha um cheiro antigo, semelhante ao de uma cripta fechada por séculos.

Daniel iluminou o interior.

A passagem se estendia para além do alcance da lanterna. Suas paredes não eram feitas de concreto, mas de uma pedra negra e lisa, cortada em blocos enormes que se encaixavam sem argamassa.

No chão, havia uma fina camada de poeira.

Nenhuma marca de botas.

Nenhum vestígio aparente de passagem recente.

Helena aproximou a mão da parede.

— Esta é a construção original.

— Como pode ter certeza? — perguntou Daniel.

— O alinhamento dos blocos, a composição mineral, a ausência de juntas. Não é uma técnica moderna. Na verdade, não conheço nenhuma civilização humana que tenha construído algo assim.

O coronel apontou a lanterna para a passagem.

— Quanto tempo ela tem?

— Não sei.

— Mil anos?

— Talvez muito mais.

Um ruído metálico veio de trás deles.

A porta de manutenção começou a se deformar.

Mendes apontou a arma.

— Senhor, precisamos sair!

Ferraz tomou uma decisão.

— Todos para dentro. Avancem em grupos. Ninguém dispara sem minha ordem.

Os sobreviventes começaram a entrar na passagem antiga. Alguns tiveram dificuldade para atravessar a abertura estreita, e os soldados precisaram ajudá-los. Ricardo passou primeiro, seguido por Daniel e Helena.

Quando o último sobrevivente entrou, Mendes e outros dois homens empurraram uma placa de concreto contra a abertura, tentando ocultar a passagem.

A porta metálica do outro lado cedeu.

Um estrondo atravessou o corredor.

O grupo apagou as lanternas por ordem de Ferraz.

Durante alguns segundos, ninguém respirou direito.

Do outro lado da parede, ouviram um ruído de pedra raspando contra metal.

Depois, um silêncio completo.

Helena permaneceu imóvel, olhando para o equipamento.

O sinal que os perseguia não aparecia mais no gráfico.

Em seu lugar, havia uma sequência de pequenas oscilações, espalhadas por diferentes pontos da rede subterrânea.

— O que aconteceu? — sussurrou Daniel.

Ela respondeu quase sem mover os lábios.

— Entramos em uma região que os sensores da instalação não conseguem alcançar.

— Isso é bom?

Helena olhou para a escuridão.

— Ainda não sei.

Ferraz ordenou que todos acendessem as lanternas e retomassem a marcha.

O corredor antigo descia em uma inclinação suave. A pedra sob os pés era tão lisa que refletia a luz em pequenas manchas. De tempos em tempos, surgiam depressões circulares nas paredes, cada uma contendo um símbolo diferente.

Algumas estavam vazias.

Outras abrigavam pequenas estruturas de cristal escuro, incrustadas na rocha.

Quando as lanternas passavam sobre elas, os cristais produziam reflexos azulados.

Ricardo aproximou a mão de um deles.

— Não toque — advertiu Helena.

Ele recolheu os dedos.

— Eu só queria ver melhor.

— Não sabemos se esses objetos são minerais naturais. Podem ser parte de algum mecanismo.

Daniel filmou a parede enquanto caminhava.

— Se essa passagem existia antes da base, por que ninguém a encontrou?

Helena observou o teto.

— Talvez tenham encontrado.

— E esconderam?

— É uma possibilidade.

O coronel caminhava à frente, silencioso.

Daniel decidiu insistir.

— O senhor já sabia que havia uma passagem aqui, não sabia?

Ferraz não se virou.

— Concentre-se em continuar vivo, jornalista.

— Isso não é uma resposta.

— É a única que você vai receber agora.

O grupo prosseguiu.

Depois de aproximadamente vinte minutos, o corredor se alargou. A passagem desembocou em uma câmara baixa, sustentada por colunas de pedra. No centro, havia uma estrutura circular semelhante a um poço, cercada por símbolos gravados no chão.

A poeira cobria quase tudo.

Quase.

Helena iluminou a superfície perto de uma das colunas.

— Esperem.

Havia marcas no chão.

Pegadas.

Daniel se ajoelhou.

As primeiras eram pequenas, provavelmente deixadas por botas militares. Outras, mais largas, apresentavam desenhos de solas antigas. Todas seguiam em direção ao lado oposto da câmara.

— Alguém esteve aqui — disse ele.

Helena aproximou a lanterna.

— E não foi há séculos.

Ela tocou a borda de uma pegada.

A poeira estava deslocada de maneira irregular, revelando a superfície escura da pedra. Ao lado, uma pequena gota de material ressecado permanecia presa em uma rachadura.

— Estas marcas têm, no máximo, algumas semanas.

Ferraz aproximou-se.

— Isso é impossível.

Helena ergueu o olhar.

— Por quê?

— Esta passagem foi selada antes da construção da instalação.

— Então alguém abriu o acesso depois.

— Nenhuma equipe recebeu autorização para entrar aqui.

Daniel apontou para o outro lado da câmara.

— Seja quem for, deixou mais do que pegadas.

Perto de uma coluna havia um pedaço de tecido preso a uma saliência. Era verde-escuro, rasgado e coberto por uma camada fina de poeira.

Mendes retirou uma pinça de seu kit e puxou o fragmento.

O tecido trazia uma pequena etiqueta com números parcialmente apagados.

Helena aproximou a lanterna.

O rosto dela perdeu a cor.

— Conheço esse uniforme.

Ferraz virou-se bruscamente.

— De onde?

Ela segurou o fragmento entre os dedos.

— Era usado pela equipe de pesquisa que desapareceu comigo onze anos atrás.

Daniel olhou para ela.

— Você disse que os dezessete pesquisadores desapareceram na primeira expedição.

— Desapareceram. Encontramos a entrada da estrutura, atravessamos a primeira câmara e ouvimos um ruído vindo de dentro da montanha. Depois, as luzes apagaram. Quando voltaram, parte da equipe havia sumido.

— Quantos voltaram?

— Cinco, contando comigo.

— Mas você mencionou dezessete desaparecidos.

— Porque os outros nunca foram encontrados. Durante anos, acreditei que tivessem morrido na estrutura. Não havia pegadas que levassem a lugar algum. Não havia sinais de luta. Apenas desapareceram.

Ela olhou para o tecido.

— Este fragmento pertence a um deles.

Ricardo examinou a câmara.

— Está dizendo que alguém da sua equipe sobreviveu?

— Não sei.

Helena virou o pedaço de tecido.

No verso, havia uma marca feita com tinta preta.

Um círculo atravessado por três linhas.

O mesmo símbolo gravado na parede da instalação militar.

O coronel empalideceu.

Daniel percebeu.

— O senhor conhece essa marca.

Ferraz ficou em silêncio.

— Coronel — insistiu Daniel. — O que está acontecendo?

O militar guardou a arma no coldre e respirou profundamente.

— Há oito meses, recebemos uma transmissão de rádio proveniente desta região. A mensagem foi curta. Apenas coordenadas e uma sequência de números. Uma equipe de reconhecimento foi enviada para investigar.

Helena se aproximou.

— Quantos homens?

— Seis.

— E voltaram?

— Quatro.

— O que aconteceu com os outros dois?

Ferraz olhou para as pegadas.

— Os sobreviventes disseram que encontraram uma passagem sob a montanha. Um dos homens entrou primeiro. O segundo foi atrás dele. Depois, ouviram um som vindo das paredes. Quando as lanternas voltaram a funcionar, os dois haviam desaparecido.

Daniel sentiu o coração acelerar.

— E vocês esconderam isso?

— A equipe foi colocada sob sigilo. Não queríamos provocar pânico antes de compreender o que havia aqui.

Helena soltou uma risada amarga.

— Vocês tiveram oito meses para compreender. E agora a montanha está se abrindo.

Ferraz não tentou se defender.

— O relatório mencionava uma porta.

A cientista ficou imóvel.

— Que tipo de porta?

— Uma estrutura gigantesca no fim de um corredor. Os soldados não conseguiram se aproximar. Disseram que havia uma vibração tão forte que as luzes apagaram e o chão começou a tremer.

Daniel apontou para a passagem adiante.

— Este corredor termina em algum lugar?

Helena observou as pegadas.

Todas seguiam na mesma direção.

— Vamos descobrir.

O grupo atravessou a câmara.

Do outro lado, uma abertura conduzia a uma passagem mais estreita. As paredes estavam cobertas por símbolos diferentes dos anteriores. Não eram apenas círculos e linhas. Algumas marcas lembravam figuras humanas, outras pareciam representar montanhas, rios e enormes estruturas subterrâneas.

Helena examinou uma sequência gravada perto da entrada.

— Isto parece um registro.

— Um registro de quê? — perguntou Ricardo.

— Não sei. Mas os símbolos se repetem em grupos. Cada grupo apresenta pequenas variações, como se descrevesse acontecimentos diferentes.

Daniel iluminou uma figura.

Ela mostrava várias criaturas pequenas ao redor de uma forma muito maior, enterrada sob uma superfície de pedra.

Mais adiante, outra imagem parecia representar uma explosão.

E, depois dela, uma sequência de círculos vazios.

Helena aproximou-se da parede.

— Estas imagens podem ser mais antigas do que qualquer registro escrito que conhecemos.

— Você consegue interpretá-las? — perguntou Daniel.

— Parcialmente. Os símbolos circulares parecem representar barreiras. As linhas que os atravessam podem indicar movimento ou frequência. Mas as figuras...

Ela parou.

Havia uma imagem diferente das demais.

Uma figura humana estava desenhada diante de uma estrutura gigantesca. Em uma das mãos, segurava um objeto alongado. Na outra, havia uma pequena forma azul.

Ao redor da figura, dezenas de símbolos se repetiam.

Helena aproximou o equipamento.

A tela registrou uma oscilação.

— Isso é estranho.

— O quê? — perguntou Daniel.

— A frequência da parede corresponde exatamente à que registramos no abrigo.

O coronel sacou a arma.

— Afaste-se.

Helena ignorou a ordem e aproximou o aparelho da figura.

A pequena forma azul brilhou.

Uma sequência de linhas percorreu a parede, conectando a imagem a outras marcas espalhadas pelo corredor.

O chão tremeu.

No fundo da passagem, alguma coisa respondeu.

Um som grave atravessou a pedra.

Os sobreviventes começaram a recuar.

— Desligue isso! — ordenou Ferraz.

Helena retirou o aparelho.

A luz azul desapareceu, mas o som continuou.

Agora era possível ouvi-lo com clareza.

Não era um rugido.

Era uma sequência de batidas, lentas e regulares.

Como um coração.

Daniel olhou para o corredor.

— É o mesmo sinal que ouvimos na montanha.

Helena assentiu.

— Sim. Mas aqui está muito mais forte.

— Isso significa que estamos perto da origem?

— Ou perto de uma estrutura que amplifica o sinal.

O grupo avançou com cautela.

As paredes começaram a se curvar, formando um corredor circular. A pedra era coberta por marcas profundas, e algumas superfícies apresentavam sinais de desgaste recente.

No chão, as pegadas tornaram-se mais nítidas.

Havia marcas de botas militares, pegadas menores e rastros de alguma coisa pesada que parecia ter sido arrastada.

Em determinado ponto, Daniel encontrou uma lanterna quebrada.

A carcaça estava amassada, mas o dispositivo ainda exibia uma pequena etiqueta de identificação.

Ele a entregou a Helena.

Ela leu o nome gravado.

Seus dedos começaram a tremer.

— É impossível.

— Quem era? — perguntou Ricardo.

Helena levantou os olhos.

— Marcelo Nunes.

O coronel franziu a testa.

— Um dos pesquisadores da sua primeira expedição?

— Sim.

— Você disse que ele desapareceu há onze anos.

Helena apertou a lanterna contra o peito.

— Ele desapareceu diante dos meus olhos.

Daniel sentiu um frio percorrer a espinha.

— Talvez alguém tenha encontrado a lanterna depois.

— Talvez.

Mas Helena não parecia acreditar na própria resposta.

A lanterna estava coberta por poeira, porém uma pequena parte da carcaça havia sido limpa recentemente, como se alguém a tivesse segurado pouco antes de abandoná-la.

Ao lado, havia uma inscrição feita na pedra com algum objeto pontiagudo.

As letras eram irregulares.

Helena aproximou a luz.

A mensagem dizia:

NÃO ABRAM A PORTA. ELE APRENDEU A CHAMAR.

Ricardo recuou.

— Quem escreveu isso?

Helena passou os dedos sobre as letras.

— Alguém que sabia o que estava acontecendo.

Daniel filmou a inscrição.

— E quem é esse “ele”?

Ninguém respondeu.

A sequência de batidas tornou-se mais intensa.

Tum.

Tum.

Tum.

Cada impacto fazia os símbolos nas paredes brilharem por uma fração de segundo.

Helena consultou o equipamento.

— Estamos muito perto.

— Perto de quê? — perguntou Ferraz.

Ela apontou para o corredor.

— Da estrutura que está produzindo a frequência.

O caminho terminou abruptamente.

Diante deles havia uma porta gigantesca.

Ela ocupava toda a largura do túnel e se estendia até um teto que desaparecia na escuridão. Era composta por uma única superfície de pedra negra, sem dobradiças, fechaduras ou mecanismos aparentes. Símbolos cobriam cada centímetro, formando espirais que convergiam para um círculo central.

A porta parecia antiga demais para pertencer a qualquer civilização conhecida.

Mas havia marcas recentes na sua superfície.

Arranhões profundos.

Riscos paralelos.

E uma mancha escura, semelhante a sangue seco, espalhada perto da base.

Daniel ergueu a câmera.

— Meu Deus...

Helena avançou lentamente.

O equipamento começou a apitar.

Na tela, as leituras atingiram valores que ela nunca havia visto. A frequência era tão intensa que os números oscilavam sem parar.

— Esta é a porta — sussurrou ela.

O coronel olhou para a superfície.

— A mesma que a equipe de reconhecimento encontrou?

— Provavelmente.

Helena examinou as inscrições.

Em algumas áreas, os símbolos estavam gastos pelo tempo. Em outras, pareciam ter sido gravados recentemente, como se alguém tivesse tentado completar um padrão incompleto.

Ela percebeu então uma pequena diferença.

O círculo central não estava totalmente fechado.

Uma linha interrompia sua borda, formando uma abertura estreita.

— Alguém alterou os símbolos — disse ela.

Daniel aproximou a lanterna.

— Isso pode abrir a porta?

— Não sei. Mas a interrupção parece deliberada.

O coronel ordenou que ninguém tocasse na superfície.

Helena continuou examinando a estrutura. Em seguida, encontrou uma pequena placa metálica presa entre duas pedras. O objeto estava parcialmente corroído, mas uma inscrição ainda era legível.

Ela limpou a superfície com a manga.

Havia um nome.

Marcelo Nunes.

E uma data.

A data era de três semanas antes.

Helena deixou a placa cair.

Daniel a segurou antes que atingisse o chão.

— Isso é impossível — repetiu ela, quase sem voz.

— Você disse que ele desapareceu há onze anos.

— E desapareceu.

O coronel pegou a placa e examinou a inscrição.

— Pode ter sido colocada recentemente por outra pessoa.

— Então por que usar o nome dele?

A pergunta permaneceu sem resposta.

Um ruído veio do outro lado da porta.

Todos ficaram imóveis.

Parecia algo arrastando-se sobre pedra.

Depois, ouviram três batidas.

Tum.

Tum.

Tum.

Helena sentiu o sangue gelar.

Aquelas batidas eram idênticas às que haviam escutado na instalação.

Só que agora estavam muito mais próximas.

O equipamento começou a registrar uma segunda frequência, sobreposta à primeira.

Daniel olhou para a tela.

— O que está acontecendo?

Helena não respondeu.

Os símbolos ao redor do círculo central começaram a brilhar, um após o outro. A luz percorreu a porta em espirais, iluminando marcas que pareciam formar uma espécie de mapa.

No centro, o círculo incompleto começou a se fechar.

— Afaste-se! — gritou Ferraz.

Helena recuou.

A porta vibrou.

Uma nuvem de poeira caiu do teto, e pequenas pedras se desprenderam das paredes. Os soldados ergueram as armas, sem saber para onde apontar.

Então uma voz surgiu do outro lado.

Fraca.

Rouca.

Humana.

— Helena...

Ela parou de respirar.

Daniel olhou para ela.

— Você conhece essa voz?

A cientista aproximou-se da porta, incapaz de esconder o choque.

— Marcelo?

O silêncio durou alguns segundos.

Então a voz respondeu.

— Você voltou.

Helena começou a chorar.

— Marcelo, como você está vivo?

Do outro lado, ouviu-se uma respiração irregular.

— Não abra a porta.

Ferraz apontou a arma para o círculo central.

— Identifique-se!

A voz ignorou o coronel.

— Helena, escute. Não temos muito tempo.

Ela pressionou a mão contra a pedra.

— O que aconteceu com você?

Um ruído pesado interrompeu a resposta.

Parecia que alguma coisa havia se movido atrás do homem.

A voz voltou, agora tomada pelo pânico.

— Eles encontraram a passagem.

Helena afastou a mão.

— Quem?

O som de algo batendo contra a pedra fez a porta inteira tremer.

— Não são as criaturas da superfície — disse Marcelo. — São os outros.

Daniel ergueu a câmera, filmando a porta enquanto os símbolos brilhavam cada vez mais intensamente.

— Que outros? — gritou Helena.

A resposta veio acompanhada de um estrondo.

— Aqueles que construíram as barreiras.

O chão se abriu sob os pés de Daniel.

Uma rachadura atravessou o corredor, avançando até a base da porta. Os soldados recuaram, e Ricardo agarrou Helena pelo braço.

O círculo central começou a girar lentamente.

A porta não estava se abrindo.

Estava destravando.

E, do outro lado, algo enorme arrastou-se em direção à superfície.

Marcelo gritou uma última vez:

— NÃO DEIXE QUE ELE VEJA VOCÊ!

Então a voz desapareceu.

Uma sombra atravessou a pequena abertura no círculo central.

Por um instante, Daniel viu uma forma que parecia humana, muito alta e magra, com braços compridos demais e uma cabeça coberta por estruturas semelhantes a espinhos.

A sombra parou diante da porta.

E bateu três vezes.

Dessa vez, a resposta veio de trás do grupo.

Uma batida.

Depois outra.

Depois uma terceira.

Helena virou-se lentamente.

O corredor por onde haviam chegado estava mergulhado na escuridão.

Duas luzes brancas surgiram ao longe.

A criatura que atravessara a parede do abrigo os havia seguido.

E, entre ela e o grupo, alguma coisa menor começou a caminhar.

Uma figura humana.

Vestia o uniforme antigo da expedição de Helena.

Quando a luz da lanterna alcançou seu rosto, a cientista deixou escapar um grito.

Marcelo Nunes estava ali.

Mas seus olhos brilhavam em azul.

E, quando ele abriu a boca para falar, uma segunda voz saiu de dentro dele.

— Agora podemos abrir a porta.

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