O Reino dos Monstros: CAPÍTULO 17 — A ORIGEM
A voz de Mariana continuou ecoando pelo túnel, suave e desesperada, chamando Rafael como se estivesse perdida a poucos metros dele. Por um instante, ele esqueceu os monstros, as paredes antigas e a escuridão que os cercava. Só conseguiu pensar na irmã, que permanecera no Refúgio enquanto ele descia às profundezas em busca de uma saída.
Então Lívia segurou seu braço.
— Não se mexa.
Rafael tentou se soltar.
— É a minha irmã!
— Sua irmã está lá em cima.
— E se alguma coisa aconteceu com ela?
— Então precisamos descobrir. Mas não vamos correr para dentro de um túnel porque uma voz está chamando por você.
A lanterna de Elias iluminou a curva. Não havia ninguém ali. Apenas uma parede coberta de inscrições e uma passagem estreita que desaparecia atrás de blocos de pedra.
A voz chamou novamente.
Dessa vez, porém, pronunciou uma frase que Mariana jamais diria:
— Rafael, o sinal está dentro de você. Traga-o para casa.
Samuel empalideceu. O dispositivo vermelho em suas mãos começou a vibrar, e os símbolos na tela se reorganizaram numa sequência que ele parecia reconhecer.
— Temos que sair daqui — murmurou.
— Você sabe o que está acontecendo — acusou Rafael.
Samuel demorou a responder. Quando finalmente ergueu os olhos, havia algo diferente em sua expressão. Não era apenas medo. Era a expressão de alguém que passara anos tentando evitar uma verdade e acabara de encontrá-la no lugar mais improvável.
— Acho que sei de onde vieram os primeiros Condutores — disse ele. — E acho que o que está chamando você não é uma imitação comum.
Um ruído profundo percorreu o túnel. A voz de Mariana desapareceu, substituída por um som grave que fez as pedras vibrarem.
Samuel apontou para uma escadaria lateral.
— Precisamos chegar a um lugar seguro. Vou contar tudo o que sei. Mas você precisa entender uma coisa antes de ouvir: ninguém conhece a origem dos Condutores. Existem teorias, registros incompletos e pessoas que juram ter visto o impossível. Nada disso prova como o fenômeno começou.
Rafael apertou a arma.
— Então comece pelas teorias.
E os quatro avançaram para a escuridão, levando consigo perguntas que talvez fossem mais perigosas do que as criaturas que os perseguiam.
A escadaria lateral terminava numa galeria estreita, sustentada por vigas de metal corroídas. Samuel foi o primeiro a entrar, usando o aparelho vermelho como única fonte de iluminação. As paredes estavam cobertas de inscrições, algumas tão antigas que pareciam ter sido gravadas antes da construção da estação ferroviária.
Lívia seguia logo atrás, mantendo o rifle apontado para o corredor. Elias fechava a marcha, olhando constantemente para trás. Rafael caminhava entre eles, mas seus pensamentos permaneciam presos à voz que imitara Mariana.
Não era apenas a semelhança que o assustava. A mensagem também parecia importante. O sinal está dentro de você.
Ele se lembrava da criatura de três luzes, da pressão que sentira na mente e das imagens fragmentadas que surgiram durante o contato. Uma sala branca. Cabos. Uma criança chorando. Uma voz feminina pedindo que escondessem o sinal.
Talvez fossem lembranças reais.
Talvez fossem imagens implantadas por alguma inteligência desconhecida.
O pior era não saber se havia alguma diferença entre as duas possibilidades.
— Samuel — chamou ele. — Você disse que sabe de onde vieram os primeiros Condutores. O que isso tem a ver comigo?
O pesquisador continuou andando por alguns passos antes de responder.
— Ainda não sei se tem alguma coisa a ver com você. Mas, se a entidade consegue reconhecer sua presença, se consegue acessar suas memórias e se os sistemas subterrâneos o identificam como hospedeiro, então precisamos considerar que sua ligação com os sinais começou muito antes de você encontrar aquele aparelho.
— Está dizendo que eu sempre fui um Condutor?
— Não. Estou dizendo que talvez o fenômeno tenha começado antes de você perceber.
Rafael sentiu a raiva crescer.
— Você sempre faz isso. Fala como se soubesse alguma coisa, mas nunca chega à resposta.
Samuel parou.
A luz vermelha iluminou as olheiras profundas e as marcas de cansaço em seu rosto.
— Porque não tenho todas as respostas! Passei anos estudando os efeitos dos sinais e nunca consegui descobrir sua origem. Vi pessoas perderem a razão, outras desenvolverem capacidades que não deveriam existir e criaturas obedecerem a seres humanos sem qualquer mecanismo físico de controle. Vi cidades inteiras abandonadas porque os moradores começaram a ouvir vozes que ninguém mais conseguia escutar.
Ele respirou fundo.
— E também vi pessoas que conseguiam acalmar os monstros. Pessoas que arriscaram a própria vida para impedir que as criaturas atacassem os sobreviventes. Se eu fingisse entender tudo isso, seria tão perigoso quanto Victor.
Rafael sustentou o olhar dele.
— Então conte o que realmente sabe.
Samuel voltou a andar.
— Vou contar.
A galeria terminava numa pequena câmara de manutenção. Havia uma escada de ferro presa à parede, levando a uma abertura circular no teto. Lívia examinou o espaço antes de permitir que os outros entrassem.
Não encontraram criaturas nem sinais de movimento. Apenas ferramentas antigas, caixas vazias e uma mesa coberta de papéis deteriorados.
Samuel colocou o dispositivo sobre a mesa.
— Os primeiros relatos que consegui reunir vieram de diferentes partes do mundo. No início, ninguém sabia que existiam Condutores. Os registros falavam de pessoas capazes de prever ataques, de atravessar territórios ocupados por monstros sem serem atacadas e de fazer criaturas abandonarem suas presas.
— Talvez fossem apenas coincidências — disse Elias.
— Foi o que muitos pesquisadores pensaram. Até que surgiram testemunhas demais.
Samuel retirou o caderno do bolso e abriu numa página marcada por vários símbolos.
— Os primeiros monstros apareceram em regiões muito distantes umas das outras. Em algumas cidades, surgiram depois de tremores subterrâneos. Em outras, foram vistos saindo de florestas, cavernas e estruturas abandonadas. Não havia um padrão claro. Durante semanas, as autoridades acreditaram que enfrentavam uma epidemia, uma invasão biológica ou algum tipo de experimento militar que havia escapado do controle.
— E os Condutores? — perguntou Rafael.
— Os relatos começaram pouco depois. Pessoas que estavam próximas das primeiras criaturas passaram a apresentar sintomas estranhos. Algumas sofriam enxaquecas violentas. Outras tinham sonhos repetidos, ouviam ruídos eletrônicos mesmo em lugares sem aparelhos e sentiam emoções que não pareciam pertencer a elas.
Lívia se encostou à parede.
— Medo, raiva, fome?
Samuel assentiu.
— Principalmente emoções intensas. Depois, alguns desses indivíduos começaram a perceber os monstros de uma maneira diferente. Conseguiram antecipar movimentos, identificar criaturas escondidas e reconhecer quando um ataque estava prestes a acontecer.
— Como se pudessem sentir o que os monstros sentiam — murmurou Rafael.
— Exatamente. Mas, com o tempo, algumas pessoas descobriram que podiam fazer mais do que sentir. Podiam transmitir intenções.
Elias franziu a testa.
— Como dar ordens?
— Em alguns casos. Um homem numa região montanhosa conseguiu impedir que uma criatura atacasse um grupo de crianças. Ele não tinha armas nem qualquer equipamento. Apenas se aproximou do monstro e permaneceu diante dele. A criatura parou, baixou a cabeça e se afastou.
— Talvez o animal tenha se assustado — sugeriu Elias.
— A criatura tinha destruído três veículos blindados naquela mesma manhã — respondeu Samuel. — Não havia motivo para temer um homem desarmado.
O guarda ficou em silêncio.
Samuel virou a página.
— Outros casos foram mais violentos. Um grupo de pessoas conseguiu conduzir dezenas de monstros até uma cidade abandonada. As criaturas obedeciam às mudanças de direção, protegiam os humanos e atacavam qualquer pessoa que se aproximasse. Foi assim que surgiu o termo Condutor. Os pesquisadores acreditavam que aqueles indivíduos estavam conduzindo os monstros como se fossem animais treinados.
— Mas não eram animais — disse Rafael.
— Não sabemos o que eram. Alguns se comportam como predadores. Outros demonstram inteligência, memória e capacidade de reconhecer pessoas específicas. Há criaturas que parecem proteger indivíduos mesmo quando recebem ordens para abandoná-los. E existem aquelas que conseguem imitar sons humanos.
Rafael se lembrou da voz de Mariana.
— Imitar não é a mesma coisa que compreender.
— Talvez não. Mas a entidade que falou com você sabia seu nome e utilizou uma lembrança pessoal para atraí-lo. Isso sugere que ela tinha acesso a informações que não deveria possuir.
Lívia olhou para o corredor.
— E os Condutores? Todos conseguem fazer isso?
— Não. As capacidades variam muito. Alguns apenas percebem os sinais. Outros conseguem influenciar criaturas pequenas. Há quem consiga controlar monstros enormes, como Victor. E existem pessoas que parecem capazes de estabelecer conexões com sistemas tecnológicos ligados aos sinais.
Samuel tocou o aparelho vermelho.
— Como eu.
Rafael se aproximou.
— Você nunca explicou por que consegue usar isso.
— Porque não compreendo completamente o que acontece comigo. Quando fui exposto à frequência pela primeira vez, senti como se uma porta tivesse sido aberta na minha mente. Passei a perceber padrões que antes pareciam ruídos aleatórios. Às vezes, consigo identificar a presença de criaturas a quilômetros de distância. Em outras ocasiões, consigo influenciar seus movimentos por alguns segundos.
— E por que não me contou?
Samuel baixou os olhos.
— Porque eu não sabia se a conexão estava me dando essas capacidades ou se estava mudando alguma coisa dentro de mim. Eu tinha medo de me tornar uma dessas criaturas.
A sinceridade da resposta surpreendeu Rafael. Pela primeira vez, Samuel não parecia esconder uma informação para controlar a situação. Parecia um homem que nunca conseguira enfrentar a própria incerteza.
— Você acredita que os monstros escolheram os Condutores? — perguntou Lívia.
Samuel ficou pensativo.
— Essa é uma das teorias mais antigas.
Ele abriu o caderno numa página coberta de desenhos de criaturas e pessoas ligadas por linhas vermelhas.
— Alguns Condutores acreditam que as criaturas reconhecem certos seres humanos como compatíveis. Não seriam escolhidos por mérito, coragem ou inteligência. Seria uma espécie de seleção natural, como se apenas algumas mentes conseguissem suportar a conexão.
— E quem não suporta? — perguntou Elias.
Samuel demorou a responder.
— Alguns enlouquecem. Outros entram em coma. Existem relatos de pessoas que perderam completamente a identidade depois de permanecerem conectadas por tempo demais. Não sei quantos desses casos são verdadeiros, mas vi o suficiente para não descartá-los.
Rafael pensou na mensagem que aparecera no dispositivo.
HOSPEDEIRO CONFIRMADO.
A palavra parecia ter adquirido um significado muito mais sombrio.
— Se os monstros escolhem as pessoas, por que precisam de um hospedeiro? — perguntou.
Samuel olhou para ele.
— Talvez a palavra não signifique o que pensamos. Pode ser uma tradução imperfeita. Talvez se refira a alguém capaz de manter uma conexão estável. Ou talvez signifique exatamente o que parece significar.
— Que alguma coisa pretende entrar em mim?
— Não posso afirmar isso.
— Mas também não pode negar.
Samuel não respondeu.
A segunda teoria era ainda mais perturbadora.
Segundo alguns pesquisadores, os Condutores não haviam sido escolhidos pelas criaturas. O fenômeno teria surgido de uma ligação preexistente entre os seres humanos e os monstros, uma conexão que permanecera adormecida até o aparecimento das primeiras criaturas.
— Essa hipótese foi considerada absurda durante muito tempo — explicou Samuel. — Os defensores dela afirmavam que as primeiras reações não surgiram apenas em pessoas atacadas pelos monstros. Algumas aconteceram em indivíduos que estavam a quilômetros de distância. Em certos casos, pessoas começaram a apresentar sintomas antes mesmo de as criaturas serem avistadas.
— Como se soubessem que elas estavam chegando — disse Rafael.
— Sim. E há relatos ainda mais estranhos. Crianças que desenhavam monstros antes de qualquer notícia sobre eles. Pessoas que sonhavam com lugares onde nunca haviam estado. Indivíduos que reconheciam símbolos encontrados em instalações subterrâneas sem terem qualquer conhecimento prévio deles.
Rafael olhou para as inscrições na parede.
O símbolo vermelho parecia acompanhar a equipe desde o início da exploração. Estava na porta oculta, nas criaturas mortas, nos aparelhos e agora nas pinturas antigas.
— Talvez os seres humanos tenham criado os monstros — sugeriu Elias.
Samuel balançou a cabeça.
— Não temos provas disso. A teoria não diz necessariamente que os humanos criaram as criaturas. Diz que pode existir alguma relação entre elas e a espécie humana, talvez uma ligação biológica, neurológica ou até algo que nossa ciência ainda não consegue descrever.
— Isso não faz sentido — protestou o guarda.
— O mundo deixou de fazer sentido quando criaturas desconhecidas começaram a derrubar cidades e algumas pessoas descobriram que conseguiam influenciá-las com a própria mente.
Lívia se aproximou da mesa.
— E a terceira teoria?
Samuel fechou o caderno por um instante.
— A terceira é a mais perigosa.
— Conte.
— Alguns Condutores acreditam que tanto os humanos quanto os monstros estão conectados a uma inteligência maior. Essa inteligência não teria criado necessariamente as criaturas, mas seria capaz de coordenar os sinais e utilizar seres vivos como partes de uma rede.
Rafael lembrou-se da figura sem rosto que aparecera na câmara. Das linhas vermelhas nas paredes. Dos pontos no mapa que se moviam em direção à equipe.
— A entidade que está sob o Refúgio.
— Pode ser uma manifestação dessa inteligência. Ou apenas um instrumento dela.
— E Victor sabe disso?
— Não sei. Ele acredita que pode controlar os monstros, mas talvez esteja apenas utilizando uma pequena parte de um sistema que não compreende. Se houver uma inteligência acima dos Condutores, Victor pode ser tão descartável para ela quanto qualquer um de nós.
Um som metálico ecoou no teto.
Todos levantaram as armas.
O ruído se repetiu, desta vez acompanhado por uma vibração nas paredes. Pequenos fragmentos de concreto caíram sobre a mesa. Samuel pegou o aparelho e observou a tela.
— A conexão está aumentando.
— Com o quê? — perguntou Rafael.
— Com o núcleo.
O pesquisador apontou para uma sequência de símbolos que se movia rapidamente no visor.
— A estrutura subterrânea está tentando estabelecer contato com alguma coisa distante. O sinal atravessa as montanhas e continua além delas.
— Então o túnel não termina ali — disse Lívia. — É uma rede inteira.
Samuel assentiu.
— E talvez existam outras instalações semelhantes espalhadas pela região. Se conseguirmos encontrar uma delas, poderemos descobrir quando foram construídas e quem as utilizava.
Rafael pensou na rota indicada no mapa. A passagem que seguia para as montanhas talvez fosse a única maneira de escapar do cerco. Mas também podia conduzi-los até a origem dos sinais, onde o perigo seria ainda maior.
— Você disse que ninguém sabe como os poderes começaram — falou ele. — Então onde podemos encontrar provas?
Samuel abriu o caderno novamente e retirou uma folha dobrada, protegida entre duas páginas.
Era um mapa antigo, desenhado à mão. Mostrava a região montanhosa ao norte do Refúgio e várias estradas que haviam desaparecido sob a vegetação. Um círculo vermelho marcava uma instalação distante, construída perto de um antigo observatório.
Ao lado do círculo, alguém escrevera uma palavra:
ORIGEM.
— Onde conseguiu isso? — perguntou Rafael.
— Nos arquivos do hospital. Era parte de um conjunto de documentos que consegui recuperar antes de encontrar vocês. A instalação foi construída antes do aparecimento dos monstros. Oficialmente, era um centro de pesquisa geológica. Mas os registros mencionavam estudos sobre sinais eletromagnéticos, atividade cerebral e estruturas subterrâneas.
— Você sabia desse lugar e nunca nos contou? — perguntou Lívia.
Samuel apertou o mapa entre os dedos.
— Eu não sabia se ainda existia. E não tinha certeza de que os documentos eram autênticos.
— Mas agora tem certeza?
— Não. Agora tenho motivos suficientes para investigar.
Rafael observou o círculo vermelho.
Pela primeira vez desde que o cerco começara, havia uma direção concreta a seguir. Não uma promessa de segurança, nem uma teoria baseada em rumores. Um lugar onde talvez existissem respostas.
— Quanto tempo levaríamos para chegar lá? — perguntou.
— Se conseguirmos sair do Refúgio e atravessar a região sem encontrar grandes concentrações de monstros, dois dias. Talvez três.
— Estamos cercados — lembrou Elias. — E há uma criatura enorme entre nós e a saída do túnel.
— Então precisamos encontrar outro caminho — respondeu Rafael.
Lívia examinou o mapa.
— Há uma estrada de serviço a leste do observatório. Se ainda estiver transitável, poderemos evitar as áreas mais abertas.
— E se Victor já conhece esse lugar? — perguntou Elias.
Samuel não respondeu imediatamente.
— Existe essa possibilidade.
Rafael dobrou o mapa e guardou-o no bolso.
— Então precisamos chegar antes dele.
A equipe encontrou uma escada de manutenção que subia até uma passagem parcialmente bloqueada por raízes. Depois de remover algumas pedras, Lívia conseguiu abrir espaço suficiente para que todos passassem.
Do outro lado, descobriram uma galeria diferente das anteriores. As paredes eram de concreto recente, e cabos elétricos percorriam o teto. Em alguns pontos, pequenas luzes ainda funcionavam, iluminando portas numeradas.
Samuel examinou as inscrições.
— Esta parte foi construída muito depois do túnel principal.
— Quanto depois? — perguntou Rafael.
— Talvez algumas décadas. Talvez menos.
Encontraram uma sala de controle com telas quebradas e armários vazios. No centro, havia uma cadeira metálica ligada a uma estrutura de cabos. Um capacete com sensores estava preso ao encosto, e pequenos eletrodos cobriam a superfície interna.
Rafael se aproximou.
— Isso servia para estudar os Condutores?
Samuel examinou o equipamento sem tocá-lo.
— Talvez para provocar o fenômeno. Ou medir seus efeitos.
Sobre uma mesa havia um gravador portátil, protegido dentro de uma caixa de metal. Samuel tentou ligá-lo, mas a bateria parecia descarregada. Elias encontrou um pequeno gerador auxiliar, e, após alguns minutos de trabalho, o aparelho começou a funcionar.
Uma voz feminina surgiu entre chiados.
— Registro de pesquisa, sessão quarenta e dois. O indivíduo continua respondendo aos estímulos, mas os resultados não correspondem às previsões. A conexão não parece partir da criatura. Os sinais se originam simultaneamente no indivíduo e na estrutura externa.
O áudio falhou por alguns segundos.
Depois continuou.
— Repetimos o teste com sujeitos que nunca tiveram contato com os espécimes. Dois apresentaram respostas neurológicas semelhantes. Um deles identificou o padrão antes de a transmissão começar. Não sabemos se estamos observando uma capacidade latente ou uma reação induzida pelo ambiente.
Rafael sentiu um arrepio.
A gravação parecia confirmar a segunda teoria: os seres humanos talvez tivessem alguma ligação com os sinais antes mesmo de encontrar os monstros.
A voz feminina prosseguiu:
— O diretor ordenou a suspensão dos testes. A equipe de segurança acredita que a instalação foi localizada por indivíduos externos. Se os dados estiverem corretos, não estamos diante de uma invasão comum. As criaturas não estão apenas chegando ao nosso mundo. Elas estão respondendo a algo que já estava aqui.
O áudio foi interrompido por um ruído violento.
Depois, veio um grito.
Uma voz masculina ordenou que todos abandonassem a sala. Houve disparos, passos e um estrondo tão forte que o gravador pareceu ter caído no chão.
A última frase foi quase inaudível.
— Não deixem que encontrem o primeiro hospedeiro.
O aparelho desligou.
Ninguém falou durante vários segundos.
Rafael sentiu o coração bater com força.
— O primeiro hospedeiro — repetiu.
Samuel olhou para ele, mas não respondeu.
Lívia percebeu a troca de olhares.
— Vocês estão pensando na mesma coisa?
— Estamos pensando em possibilidades — disse Samuel.
— Não tente esconder isso de novo.
O pesquisador respirou fundo.
— A gravação não prova que Rafael seja o primeiro hospedeiro. Pode se referir a outra pessoa, a um experimento ou a uma classificação que não compreendemos. Mas, considerando o que aconteceu no Refúgio e a maneira como a entidade reagiu à presença dele, precisamos investigar.
Rafael encarou a cadeira metálica.
Imaginou alguém sentado ali, preso aos cabos, ouvindo vozes que ninguém mais conseguia escutar. Talvez aquela pessoa tivesse sido a primeira a desenvolver uma conexão. Talvez tivesse sido usada para criar algo que escapou do controle.
Ou talvez o experimento tivesse apenas despertado uma capacidade que já existia.
— Vamos ao observatório — decidiu.
Lívia assentiu.
— Quando?
— Assim que encontrarmos um caminho de volta ao Refúgio. Precisamos avisar Augusto, preparar uma equipe e garantir que Mariana e os outros tenham condições de sobreviver sem nós.
— Você pretende sair enquanto estamos cercados? — perguntou Elias.
— Pretendo encontrar uma maneira de acabar com esse cerco. Se Victor sabe mais do que está contando, não podemos continuar esperando que ele decida nosso futuro.
Samuel guardou o gravador e o mapa.
— Se a instalação ainda tiver registros, talvez possamos descobrir a origem dos Condutores. Mas existe outra possibilidade.
— Qual?
— Que as pessoas responsáveis pelo projeto ainda estejam vivas.
Rafael olhou para a porta da sala de controle.
— E, se estiverem?
Samuel demorou a responder.
— Então talvez saibam por que as criaturas estão procurando você.
Quando finalmente encontraram uma passagem que subia em direção à superfície, já haviam perdido a noção do tempo. O ar tornou-se menos frio, e um cheiro de folhas úmidas começou a substituir o odor de ferrugem.
Lívia foi a primeira a alcançar a saída.
Ela afastou os galhos que cobriam a abertura e examinou a floresta. A passagem ficava numa encosta rochosa, escondida entre raízes e arbustos. Dali, era possível avistar parte da região montanhosa e, ao longe, as torres do Refúgio.
Mas havia algo errado.
As luzes vermelhas que cercavam a comunidade continuavam visíveis. Algumas se moviam entre as árvores. Outras permaneciam imóveis nas colinas.
O cerco ainda estava fechado.
E, no centro do pátio, uma coluna de luz vermelha subia da cisterna em direção ao céu.
Rafael observou o fenômeno, sentindo o dispositivo preso ao cinto vibrar.
— O que está acontecendo lá embaixo?
Samuel olhou para a tela.
O sinal havia mudado. Em vez de pulsar lentamente, agora emitia uma sequência contínua, acompanhada por um símbolo que nenhum deles vira antes.
O pesquisador empalideceu.
— A estrutura está enviando uma mensagem.
— Para onde?
Samuel ergueu os olhos na direção das montanhas.
— Para a instalação do observatório.
Rafael sentiu o coração acelerar.
O lugar marcado no mapa não era apenas uma possível fonte de respostas. A estrutura sob o Refúgio estava tentando se comunicar com ele naquele exato momento.
Como se soubesse que eles haviam descoberto sua existência.
Como se quisesse atraí-los até lá.
Rafael guardou a arma e observou a distância que os separava do observatório. A decisão estava tomada. Precisava sair do Refúgio, encontrar a origem dos sinais e descobrir por que aquela inteligência o identificara como hospedeiro.
Mas não poderia abandonar os outros sem preparar uma rota de evacuação.
— Voltaremos para a comunidade — disse ele. — Vamos contar a Augusto o que encontramos e organizar a expedição.
Lívia olhou para as montanhas.
— E se Victor tentar nos impedir?
Rafael apertou o mapa dentro do bolso.
— Então teremos que passar por ele.
Um rugido atravessou a floresta.
As criaturas do cerco começaram a se mover simultaneamente, como se tivessem recebido uma ordem. Na encosta abaixo deles, dezenas de silhuetas surgiram entre as árvores.
Nenhuma avançou.
Todas se viraram na direção de Rafael.
O dispositivo vermelho emitiu um sinal agudo.
Na tela apareceu uma mensagem:
O PRIMEIRO VÍNCULO FOI LOCALIZADO.
Logo abaixo, surgiu uma segunda linha.
A ORIGEM ESTÁ AGUARDANDO.
Rafael sentiu a presença tocar sua mente mais uma vez.
Dessa vez, não ouviu a voz de Mariana.
Ouviu a própria voz, muito mais jovem, pronunciando palavras que não conseguia recordar.
Eu prometo que vou voltar.
A lembrança desapareceu antes que pudesse compreender seu significado.
Lívia o chamou, mas Rafael permaneceu imóvel, olhando para a floresta. Em algum lugar além das montanhas, uma instalação esquecida guardava respostas sobre os primeiros Condutores, sobre a relação entre humanos e monstros e sobre a origem do sinal que parecia acompanhar sua existência.
E, pela primeira vez, Rafael teve medo de descobrir que a história de sua vida havia começado muito antes do dia em que o mundo acabou.
Atrás deles, no interior do túnel, uma luz vermelha acendeu-se na escuridão.
Depois outra.
E uma terceira.
Alguém — ou alguma coisa — havia encontrado a saída que eles acabaram de usar.
E estava vindo atrás deles.

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